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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
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Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
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segunda-feira, 21 de abril de 2014

Sobre «… expressão», no Público

Na edição de hoje (Nº 8774) do jornal Público, e na página 47, está o meu artigo «Penalidade de expressão». Um excerto: «Ainda existem muitas pessoas em Portugal que pensam que a emissão de determinadas informações ou opiniões, pela sua forma e/ou o seu conteúdo, deve ser passível de penalização criminal, corporativa ou administrativa… apesar de aquelas não conterem, à partida e aparentemente, elementos falsos e/ou difamatórios. (…) Não faltam neste «”jardim à beira-mar plantado“ as pessoas que estão disponíveis para fazer queixas e cumprir ordens, por mais absurdas que sejam.»

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A Águia (revista 1910-1932) como fonte de inspiração da Nova Águia (revista 2008-2013) – nº 11, 1º semestre de 2013

A revista A Águia foi uma importante revista cultural do início do século XX, em Portugal, que congregou muitas figuras de destaque das Humanidades, das Artes e das Ciências com distintas mundividências que veicularam visões plurais. Sobressaíram na História Cultural Portuguesa, no conjunto dos seus inúmeros colaboradores, intelectuais como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Hernâni Cidade, Afonso Lopes Vieira, Fernando Pessoa, António Sérgio, etc. A revista nos seus 22 anos de vida comportou temas literários, artísticos, filosóficos e de crítica cívica, que tanto inspirou os fundadores da Nova Águia.

A Águia alicerçou-se numa matriz nacionalista e neorromântica, no combate sem tréguas contra a tese da decadência nacional<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]--> que pairava na mentalidade da sociedade portuguesa desde o fim do século XIX. Com efeito, aos mentores da revista, em pleno contexto de instauração do novo regime Republicano, moveu-os o espírito de promoção da autoestima nacional que os mobilizou contra a tese de declínio da nação portuguesa deixada pairar pelo poeta Antero de Quental desde as Conferências do Casino de 1871 e contra a mentalidade positivista de Auguste Comte que contaminava a intelectualidade europeia<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]-->.

A revista Nova Águia, tendo por base esta magistral fonte espiritual de inspiração, pretende ser uma homenagem às várias gerações de personalidades que souberam dar corpo à revista A Águia. Os pontos de partida dos diversos números têm sido núcleos temáticos e no número 11 um dos seus elementos aglutinadores é “O Mar e a Lusofonia” partindo da emblemática frase do escritor Virgílio Ferreira “Da minha língua vê-se o mar”. Esta revista privilegia artigos ensaísticos literários, filosóficos, históricos e científicos de uma pluralidade de colaboradores, de onde se destacam pessoas como Adriano Moreira, Miguel Real, Pinharanda Gomes, Manuel Gandra, António Cândido Franco, António Braz Teixeira, José Eduardo Franco, João Bigotte Chorão, etc.

Os diversos números da revista, de que este é já o número 11, repartem-se por várias secções, designadamente pela temática central, por evocações de obras ou de vidas de homens de espírito, ensaios variados, críticas literárias e poemas, muitos deles, de jovens autores de grande valia estética. Cumpre-se, assim, um projeto ideológico Humanista que pretende revalorizar as tradições culturais portuguesas, para revigorar o espírito do país numa conjuntura de desânimo coletivo, com um sentido eclético que se desenha nas novas pontes que se pretendem construir para um futuro coletivo mais auspicioso que contemple o sentimento Lusófono que pulsa na nossa Alma. Deste modo, surgiu como um imperativo Ético combater o dogmatismo da cultura tecnocrática que tem aniquilado a liberdade de opinião, de expressão e de ação que constituem elementos fundamentais de um ambiente democrático.

Já foram temas centrais dos diversos números da Nova Águia desde 2008<!--[if !supportFootnotes]-->[3]<!--[endif]-->: António Veira e o futuro da Lusofonia; O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte; Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim; Os 100 anos da A Águia e a situação cultural de hoje; A república, 100 anos depois; Fernando Pessoa: “Minha pátria é a Língua Portuguesa” (nos 15 anos da CPLP); O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro; Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?; Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade; e “Da minha língua vê-se o mar”: o Mar e a Lusofonia.

Em suma, o objetivo supremo da Nova Águia é alimentar o ego nacional de uma forma realista baseada numa rica tradição Humanista, escorados os colaboradores na inspiração criadora da revista mãe que lhe deu ânimo para que pudesse voar, mas plenamente convictos da importância para o nosso futuro comum do projeto e do sentimento de identidade Lusófona no seio de uma Humanidade a necessitar urgentemente de se transfigurar Eticamente.

Nuno Sotto Mayor Ferrão
Publicado originalmente, com documentos complementares, no blogue Crónicas do Professor Ferrão
<!--[if !supportFootnotes]-->

<!--[endif]-->
<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]--> Hoje, em plena segunda década do século XXI, esta tese da decadência nacional está tão em voga devido a critérios de pura econometria financeira como estava no início da 1ª República.  
<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]--> Vide Nuno Sotto Mayor Ferrão, “Leonardo Coimbra, a Revista A Águia e o panorama cultural contemorâneo”, Sintra, Edições Zéfiro, 1º semestre de 2010, pp. 34-36.
<!--[if !supportFootnotes]-->[3]<!--[endif]--> Uma vez que a Nova Águia é uma revista cultural com uma periodicidade semestral.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Um Comentário à Prova Escrita de Português (12º ano de escolaridade – Julho 2011)

Pediram-me a minha opinião sobre a “Prova Escrita de Português”, a que os alunos do 12º ano de escolaridade foram recentemente submetidos. Hesitei em pronunciar-me publicamente mas a minha antiga costela de militante (sem Partido), obrigou-me a aceitar fazê-lo, perante a constatação de que os resultados obtidos foram catastróficos: alunos que tinham tido altas classificações durante o ano lectivo saíram do exame com negativa. O pior é que isso, para muitos deles, representa a impossibilidade de se habilitarem a entrar nos cursos para que se sentem vocacionados por ficarem, com essa nota a Português, com uma classificação inferior à requerida para o seu acesso. E isso é grave, porque está em jogo o futuro desses jovens. Por isso, arregacei as mangas e pus-me a analisar (como aliás sempre gostei de fazer com os meus alunos e espero que os professores o façam com os seus) o poema de Álvaro de Campos que lhes coube em sorte: um do penúltimo ano de vida, de 16.6.1934, que começa “Na casa defronte de mim e dos meus sonhos”.
A escolha do poema foi infeliz: o seu bom entendimento implicaria um conhecimento aprofundado da poesia de Campos que não pode ser exigido a alunos deste nível. Além do mais, as perguntas não estão bem formuladas nem são as que conduziriam ao entendimento do poema que se quer averiguar se o aluno teve (e que duvido os próprios examinadores tenham tido, perante tais perguntas e os “cenários de resposta” que apresentaram).
A primeira pergunta, sobre “as duas sensações representadas nas quatro primeiras estrofes”, distrai da verdadeira compreensão do poema, que é, do princípio ao fim, a taquigrafia de um monólogo a que Campos se entrega, como em muitos dos seus outros poemas. Através dele, vamos assistindo à marcha do pensamento do Poeta e ao desfilar dos sentimentos que desencadeia. Porque é de sentir sentimentos e não “sensações” que o poema essencialmente trata. Quer o examinador, nesta primeira pergunta, que o aluno fale “das sensações visuais e auditivas” presentes nas quatro primeiras estrofes do poema. É ter em pouca conta a sua inteligência querer apenas fazê-lo provar que o Poeta não é cego nem surdo, porque diz “que viu mas não viu” e que ouve vozes no interior da casa (como se explicita no “cenário da resposta”). Nada nos diz que o Poeta não está à sua secretária, a evocar apenas o que habitualmente vê e ouve: não assistimos a uma verdadeira reacção a um estímulo sensorial. Das pessoas que moram em frente diz, com um verbo no passado (portanto, evocando uma visão, não vendo): “vi mas não vi”. Também as ouve, aparentemente da mesma forma: das “vozes que sobem do interior doméstico” diz que “cantam sempre, sem dúvida”, o que mostra que não as está a ouvir mas a imaginar (logo, é imaginação, não sensação). O verso seguinte “Sim, devem cantar”, reforça a suposição. Seria preciso, ao formular as perguntas, respeitar o facto indesmentível do poema ser um monólogo que o Poeta murmura por escrito enquanto contempla, talvez só com a imaginação, “os outros”– esses vizinhos que vê sem ver porque lhe são inteiramente estranhos.
O que seria preciso entender – e sobre isso sim, questionar o aluno – é que o Poeta olha (ou se imagina olhando) para a casa fronteira à sua como um menino pobre para uma montra de brinquedos: tudo o que aí vê e ouve é uma manifestação dessa “felicidade” que ele não sabe o que é mas cobiça: crianças, flores, cantos, festas. “Que felicidade não ser eu!” Falando várias vezes o Poeta de “felicidade”, seria pertinente questionar o examinando sobre o sentido desse sentimento (bem mais importante do que as sensações ver e ouvir que querem que ele referencie).
Pedir para caracterizar o tempo da infância tal como é apresentado na terceira estrofe do poema, e esperar, como se vê no “cenário da resposta”, que o aluno apenas fale “do ambiente de despreocupação feliz, sugerido pelo acto de brincar”é de uma profunda superficialidade …
Quanto à pergunta seguinte sobre “a relação que o sujeito poético estabelece com os outros” percebe-se, pelo “cenário da resposta”, que o examinador quer que o aluno fale apenas da “diferença”que o Poeta sente que o separa dos “outros”, porque «os “outros” são felizes». O facto do Poeta exclamar “São felizes porque não são eu” mostra que essa “felicidade” é, não um verdadeiro sentimento que os outros experimentem mas o sentimento que o Poeta tem de que é uma sorte ser outra pessoa qualquer, que o verso seguinte “Que grande felicidade não ser eu!” exprime plenamente.
Seria interessante, isso sim, interrogar os alunos sobre o papel e o significado das interrogações súbitas, nomeadamente “Quais outros?” porque são elas que traduzem e nos fazem assistir ao evoluir do pensamento do Poeta, que se põe em causa a si próprio, isto é, ao que está pensando no decurso do seu monólogo interior. Assistimos, assim, à transição, desencadeada por essas perguntas, de um “eu” para um “nós”: do sentimento inicial de solidão total, de ser apenas um “eu”, uma ilha de solidão, ao de pertencer a um “nós” – a humanidade: “Quem sente somos nós, /Sim, todos nós” - isto é , cada um a sós consigo. Cada um sente e sofre sozinho mas isso não o impede de fazer parte de um “nós”. Seria demais esperar que o aluno soubesse dizer que é esta uma característica da atitude de Campos: o sentimento de que é uma ilha de solidão, quando diz “eu”, mas de que pertence a um arquipélago, quando pronuncia “nós”. Mas não seria excessivo esperá-lo do examinador.
A última questão presta-se a muitas respostas, não apenas à que é indicada no “cenário de resposta”, que espera referências à “dor” e ao “vazio” “expressos na última estrofe, particularmente no verso «Um nada que dói…»”. Os examinadores não perceberam a sua subtilíssima ironia: depois de afirmar que “já” não está sentindo nada, o Poeta corrige-se, com um sorriso de vaga ironia triste: “um nada que dói”. Se o aluno conhecesse razoavelmente Campos – o que seria demais exigir-lhe mas não ao examinador– referiria que esse incómodo, essa vaga dor é o que, noutro poema, o Poeta chama “o espinho de ser consciente”.

Só uma nota: não estou a querer pôr ninguém em causa: não sei nem quero saber quem elaborou esta “prova”. Estou apenas a obedecer ao meu velho tropismo de querer ser útil. (Que, diga-se de passagem, muitos dissabores me tem trazido ao longo da minha já longa vida.)

Teresa Rita Lopes
www.jornadasiemo2011.blogspot.com

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Clara Ferreira Alves: "A faceta religiosa de Pessoa era detestável"

Clara Ferreira Alves (http://www.truca.pt)
Clara Ferreira Alves (www.truca.pt)

"Em época menos recuada, concedeu Clara Ferreira Alves, na qualidade de diretora da Casa Fernando Pessoa, uma entrevista a um jornal diário, na qual declarava que não lhe interessava nada o "lado religioso" de Fernando Pessoa, faceta que a senhora, de resto, considerava "detestável".
Pedro Martins
Nova Águia 7

Ignorar ou - pior - desprezar o lado religioso ou para-religioso do pensamento pessoano é escolher ignorar a parcela mais importante do pensamento político e filosófico de Fernando Pessoa.

A latitude religiosa e mental do pensamento e da ação humana é essencial para a realização do indivíduo e desprezá-la (como fez Clara Ferreira Alves) é procurar tornar a Pessoa numa máquina biológica, destituída de mais propósitos além dos reprodutivos e alimentares. E o Homem é imensamente mais do que isso... o aspeto religioso do Homem é determinante nas decisões pessoais e comunitárias desde sempre e condicionou e condicionará sempre as grandes decisões. Na Expansão portuguesa, essa pulsão foi determinante (por muito que António Sérgio não acreditasse nela) e ainda que o mundo contemporâneo possa parecer a-religioso ou mesmo anti-religioso não o é de facto, sob a superfície... os valores fundamentais da sociedade seguem sendo de base judaico-cristã, assim como as motivações finais, pessoais e coletivas e o Lucro não é o "deus" último e acabado que se pensou ser, havendo sinais claros que o paradigma económico está a começar a dar sinais de mudança: empresas cooperativas, índices de felicidade, aquecimento global, preocupações ecológicas e de sustentação ambiental começam a penetrar grande parte das atividades humanas e poderão ser dominantes no mundo económico e social que se seguirá a esta grave crise atual...

terça-feira, 31 de maio de 2011

"O Património Lusófono enriquece o espólio cultural da Humanidade"

http://www.teiaportuguesa.com
http://www.teiaportuguesa.com

"A minha Pátria é a língua Portuguesa" tem uma grande atualidade cultural e cívica, porque o Património Lusófono enriquece o espólio cultural da Humanidade e permite o estreitamento de laços afetivos e institucionais entre os povos de língua portuguesa visando a cooperação humanitária e a ajuda mútua com vista ao desenvolvimento sustentável e ao bem comum."

Nuno Sotto Mayor Ferrão
Nova Águia 7

A língua portuguesa é assim um vetor crucial de aproximação entre os povos e provavelmente o património mais rico de que Portugal dispõe hoje. Estima-se que perto de 10% do PIB português atual seja proveniente de produtos e serviços culturais e muito mais espaço de crescimento existe hoje se tivermos em conta a virtualização crescente das sociedades e as enormes potencialidades de incremento de comunicação de povos separados pela geografia mas próximos pela Cultura e pela Língua que caraterizam hoje a Lusofonia. Só pela via do cibermundo (Internet) se poderá cumprir a missão de aproximar por todas as vias e formas os povos de fala lusófona. Neste respeito existe uma ligação umbilical entre Lusofonia e Cibermundo e ambos terão que caminhar lado a lado nesta nossa senda comum de aproximação mútua.

domingo, 29 de maio de 2011

"Para Pessoa, o Quinto Império, que surgiria após as quatro idades - Grécia, Roma, Cristandade, Europa - é um império de fraternidade e de paz

"Para Pessoa, o Quinto Império, que surgiria após as quatro idades - Grécia, Roma, Cristandade, Europa - é um império de fraternidade e de paz universais, de acordo com o ideal de paz universal adotado pelos rosacrucianos, depois de percorridas as etapas de um percurso iniciático em que o seu humano redescobriria a sua essência perdida, o que significa o reconhecimento do seu elemento divino. Finda a iniciação que conduz à redenção, o ser humano estaria preparado para viver num espaço que se situa fora das fronteiras portuguesas, um espaço universal."

> Pessoa via assim o Quinto Império como um fenómeno interior e pessoal. A revolução ou o estabelecimento do Quinto Império seriam acontecimentos interiores, a decorrer no interior do indivíduo quando as devidas condições se encontrassem em cruzamento no seu interior e não no mundo exterior pela aparição miraculosa de um qualquer "rei encoberto" ou da expansão militar ou política de um império continental, marítimo ou global. O Quinto Império brotaria na mente dos portugueses, o Encoberto seria materializado dentro de cada lusófono, alavancando assim a transição para um novo estádio de consciência na forma portuguesa de "estar no mundo" e que teria sido levada até ao seu apogeu pelo Brasil e pela "vida conversável" das sociedades africanas de fala portuguesa.

"A Super-Nação, imagem especular do Éden Primordial, situa-se para além das fronteiras definidas pelos homens e é alcançada através da pulsão humana que encaminha o homem em direção à sua natureza essencial. A criação de uma visão mítica da nossa História transforma o presente num agente criador do futuro da História transforma o presente num agente criador do futuro da História da Humanidade, pois o Quinto Império, que seria vivido na terra, significa a união fraterna entre todos os povos, após o renascimento humano numa outra era".

> Não pode assim haver Quinto Império pelas armas, nem pela pura e simples via da constituição de alianças militares ou políticas, nem sequer pela direta transmutação da CPLP numa União Lusófona, à imagem e semelhança da União Europeia (e que estaria fadada ao mesmo estéril destino desta, a prazo).
> Antes de reformar as instituições, os Estados e a forma como eles se organizam e distribuem, importa trabalhar no interior do indivíduo: procurando os mecanismos de satisfação e realização pessoal, capacitando os cidadãos para o pleno e empenhado exercício dos seus direitos e deveres de cidadania e induzindo uma revolução interior que depois - pela virtude inexcedível do Exemplo - possa depois propagar-se a toda a comunidade onde este está inserido e depois, a toda a comunidade lusófona que por temperamento, laços culturais e língua lhe estão umbilicarmente ligados.

Gabriela Lança
Revista Nova Águia, número 7

sábado, 28 de maio de 2011

"Nasce pela mão de Fernando Pessoa o novo providencialismo

Fernando Pessoa (http://files.myopera.com)
Fernando Pessoa (http://files.myopera.com)

"Nasce pela mão de Fernando Pessoa o novo providencialismo português do século XX, centrado no Quinto Império. (...) Explicava-se e justificava-se assim o atraso económico, político e cultural português face à Europa: a necessidade de sofrimento peregrinante e penintencial da nação (...) a necessidade do autentico suicídio militar de Dom Sebastião, bloqueando o tempo, cristalizando Portugal no seu momento maior, expiando na história o início da decadência de Portugal."

Miguel Real
Revista Nova Águia
Número 7

Esta visão era conforme à visão do Estado Novo e será a razão pela qual a Mensagem terá recebido o prémio do ministério da propaganda... Mas reflete uma leitura interessante. Segundo ela a passada e miséria (crónica) de Portugal será uma imposição da providência para que Portugal e os portugueses endureçam, fortaleçam nestas constantes adversidades e misérias diversas por forma a não se amolecerem na abastança e na doentia obesidade mental que carateriza hoje os povos do norte da Europa e da América do Norte.

Um povo engordado pela abastança, pela fartura dos recursos naturais e financeiros (resultantes de capital acumulado ao longo de décadas de saques e pilhagens) não tem força anímica para realizar uma revolução interior ou exterior. Embalado pela abastança, tal povo será imóvel, passivo e aceitante de todos os tipos de abusos e alienações. Tal povo não é o povo português, que sempre soube vencer com sabedoria, engenho e sorte (em doses iguais) todos os momentos de grandes dificuldades que teve que enfrentar ao longo da sua História milenar. Não será diferente com esta grave crise. Como de todas as outras vezes, saberemos vencer as dificuldades e sacudir o jugo daqueles que nos julgam poder submeter a um novo tipo de protetorado. E esse sacudir será feito desta vez pela adoção da Via Lusófona como novo (ou renovado) grande desígnio nacional que se substituirá assim à esgotada "opção europeia".

sexta-feira, 27 de maio de 2011

"Para Fernando Pessoa, o Quinto Império é um império de fraternidade e de paz universais"

Fernando Pessoa (http://www.somosportugueses.com)
Fernando Pessoa (http://www.somosportugueses.com)

"Para Fernando Pessoa, o Quinto Império, que surgiria após as quatro idades - Grécia, Roma, Cristandade, Europa - é um império de fraternidade e de paz universais, de acordo com o ideal de paz universal adoptado pelos rosacrucianos, depois de percorridas as etapas de um percurso iniciático em que o ser humano redescobriria a sua essência perdida, o que significa o reconhecimento do seu elemento divino. Finda a iniciação que conduz à redenção, o ser humano estaria preparado para viver num espaço que se situa fora das fronteiras portuguesas, um espaço universal. A Super-Nação, imagem especular do Éden Primordial, situa-se para além das fronteiras definidas pelos homens e é alcançada através da pulsão humana que encaminha o homem em direcção à sua natureza essencial."(...)

Gabriela Lança
Revista Nova Águia
Número 7

O Quinto Império cumprir-se-á apenas quando tiver lugar no interior de um número suficiente de indivíduos dentro de uma determinada comunidade. Os povos de fala lusófona estão particularmente preparados para realizarem no seio das suas mentes essa transição para esta nova forma de Estar perante o mundo, para realizarem no seu interior a revolução interior que por meio de uma alquimia mental transformará radicalmente as nossas sociedades, transferindo para o seu (devido) aspecto secundário a Economia e a Finança e colocando de novo o Homem, a Cultura e a Língua nos lugares principais da ação e intervenção humana. As sociedades (e dentro delas, as economias) devem ser capazes de suprir todas as necessidades básicas dos seus cidadãos (Saúde, nutrição e habitação), mas devem focar-se na plena satisfação das potencialidades criativas do indivíduo, única forma pela qual a genialidade latente em cada cidadão se pode manifestar, havendo o devido (e exigido) contexto e sendo este devidamente capacitado pela Educação e por uma sociedade e economia adaptadas por forma a aproveitar em regime ótimo esse contributo individual, enquadrando-o num desígnio comunitário mais global e rentabilizando ao máximo o seu empenhamento na solução dos grandes problemas da atualidade: aquecimento global, ambiente, pobreza, aproximação dos povos lusófonos, descobertas de alternativas à afundante união europeia, energias alternativas, novas formas de cidadania e expressão democrática, etc.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Quinto Império português, não será político ou religioso, mas um império do espírito e da cultura

"Nitidamente se definem pela frase "a minha pátria é a língua portuguesa" os limites do quinto império da cultura proposto por Pessoa para Portugal - país que há-de surgir da letargia em que se encontram os valores nacionais."
(...)
"O Quinto Império português, já não político ou religioso como aquele proposto por Bandarra ou o Padre António Vieira, mas um império do espírito e da cultura, em que o eleito é o povo português. (...) Em vez do Rei Encoberto, alimentador de uma esperança coletiva, anuncia Fernando Pessoa um Supra-Camões."


Maria Luísa de Castro Soares
Revista Nova Águia
Número 7

Sejamos claros: o Quinto Império não será um império terrestre, económico ou militar. Há uma natural inclinação para o confundir com a União Lusófona, mas de facto, são dois conceitos completamente diferentes: o Quinto Império é um fenómeno interior e individual, é - fundamentalmente - um estado de alma, um pilar crucial para que se possa partir para a fase seguinte, exterior, pública e operativa que é a União Lusófona. Sem o primeiro, não haverá o segundo.

O patente fracasso da dita "construção europeia" demonstra as fragilidades da tentativa de construção de uma aliança ou união entre diferentes Estados sem que se tenha almejado forjar simultaneamente uma "alma nacional" ou um sentimento comum de pertença a uma coisa partilhada. Se essa "alma" o edifício ergueu-se sem alicerces e ameaça tombar à primeira crise seria (sendo esta, agora a da Dívida Soberana). Ora, esse Quinto Império mental e individual existe já em potencia e em forma irrealizada dentro de cada um de nós, segue em vetor o caminho determinado pela língua, associa-se às patentes similitudes culturais e de temperamento entre os povos lusófonos e se devidamente incentivada (e essa é a grande missão do MIL: Movimento Internacional Lusófono) poderá dar força à eclosão da União Lusófona que é o grande objetivo último do MIL.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Fernando Nobre, Presidente Honorário do MIL

A Direcção do MIL convidou hoje o Doutor Fernando Nobre para Presidente Honorário do MIL: Movimento Internacional Lusófono.
O convite foi aceite.
Escusado será dizer que a Honra é toda nossa.

Comunicamos também que o Doutor António Gentil Martins aceitou ser nosso Sócio Honorário, o que igualmente muito nos honra.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

MAR PORTUGUÊS

Mar salgado, quanto do teu sal
Mar salgadu, kai kuantu di bos se sal

São lágrimas de Portugal!
Se largri di Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Treversah kum bos, kuantu mai ja chura

Quantos filhos em vão rezaram!
Kuantu fila filu ja reza seng per nada

Quantas noivas ficaram por casar
Kuantu noiba fikah nungka kazah

Para que fosses nosso, ó mar!
O mar fika nus se mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Teng se balor? Tudu teng balor

Se a alma não é pequena.
Si alma ngka keninu

Quem quer passar além do Bojador
Keng kerey passa rentu ne Bojador

Tem que passar além da dor.
Mesti tokar passa kum tantu sufra.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Dios ja dah mar eli se perigu kum se fundezu.

Mas nele é que espelhou o céu
Mas ne eli te speladu ungwa seo.


Poema enviado pela professora Madalena Canas que lecciona em Portugal, na Escola do Paião. O poema de Fernando Pessoa foi traduzido para Papia Português de Malaca.

Publicado em:
http://malaca-portugal.blogspot.com/2010_10_31_archive.html

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Fernando Pessoa e Afonso Costa

.
Fernando Pessoa não morria de amores por Afonso Costa. Pela mão de Álvaro de Campos, enviou ao jornal "A Capital", a 6 de Julho de 1915, uma carta em que negava a conotação de futurismo, aplicada ao drama que o grupo da Orpheu tencionava apresentar. Rematava do seguinte modo:

Passo em branco sobre a atribuição de futurismo que nos pretendem lançar. De resto seria de mau gosto repudiar ligações com o futurismo numa hora tão deliciosamente mecânica em que a própria Providência Divina se serve dos carros eléctricos para os seus altos ensinamentos.

O jornal publicou apenas a última frase.


Dois dias antes, Afonso Costa, acompanhado por alguns amigos, resolvera dar um passeio até Algés, para gozar a brisa fresca do mar. Quando o veículo chegou à Avenida 24 de Julho, viu-se um clarão e ouviu-se o que parecia ser um disparo. Costa julgou que o tentavam matar e atirou-se pela janela do eléctrico em movimento. Fracturou o crânio e ia morrendo. Correu em Lisboa uma adivinha malévola:

Qual é a coisa, qual é ela, que entra pela porta e sai pela janela?

Dias depois, Álvaro de Campos voltou a atacar Afonso Costa, noutra carta endereçada ao mesmo jornal. A redacção achou melhor guardá-la na gaveta. Rezava assim:

O chefe do Partido Democrático não merece a consideração devida a qualquer membro da humanidade. Ele colocou-se fora das condições em que se pode ter piedade ou compaixão pelos homens. A sua acção através da sociedade portuguesa tem sido a dum ciclone, devastando, estragando, perturbando tudo, com a diferença, a favor do ciclone, que o ciclone, ao contrário de Costa, não emporcalha e enlameia. Para o responsável máximo do estado de anarquia, de desolação e de tristeza em que jazem as almas portuguesas, para o sinistro chefe de regimentos de assassinos e de ladrões, não pode haver a compaixão que os combatentes leais merecem, que aos homens vulgares é devida. Costa nem sequer tem o relevo intelectual que doure a sua torpeza. A sua figura é a dum sapo que misteriosamente se tornasse fera...
... Por isso eu quero frisar - e sei que ao frisá-lo estão comigo os votos de grande número de portugueses, dos católicos oprimidos, das classes médias atacadas, dos cidadãos pacíficos assaltados nas ruas, de todos aqueles que o general Pimenta de Castro representava - que só não me regozija, no desastre acontecido a Costa, a circunstância, que infelizmente se parece confirmar, do seu restabelecimento.

Referências:
Obra essencial de Fernando Pessoa, Prosa publicada em vida, Edição de Richard Zenith, Assírio e Alvim, Lisboa, 2006.
República - A luz e a sombra, A. Trabulo. A publicar em breve.
Foto e caricatura: Net.

sábado, 15 de maio de 2010

Mensagem

Conde D. Henrique, Silva L., ca. 1855

PRIMEIRA PARTE, BRASÃO
II. OS CASTELOS
TERCEIRO, O CONDE D. HENRIOUE

«Sou, de facto, um nacionalista místico,
um sebastianista racional»
F. P. *

Todo começo é involuntário.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.

À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
«Que farei eu com esta espada?»

Ergueste-a, e fez-se.

Fernando Pessoa
* Epígrafe colocada por Agostinho da Silva, Mensagem Um, in Um Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, Guimarães Editores, 3ª ed., Lisboa, 1996, pp. 97 e 100.

domingo, 28 de março de 2010

Fernando Pessoa e a Geração de Orpheu

O primeiro número da revista Orpheu foi publicado no começo de 1915. Resultou da iniciativa de um grupo de jovens intelectuais que ambicionavam introduzir o modernismo em Portugal e no Brasil. A equipa não era homogénea. Cada um se esforçava por entender e aceitar a própria individualidade. Nas páginas da revista, coexistem simbolismo e decadentismo.

De um modo geral, as culturas desenvolvem-se em zonas de encruzilhadas, onde as influências se misturam e facilitam o germinar de ideias novas. Num País plantado no extremo ocidental da Europa, a inovação cultural era geralmente importada. Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor e Amadeo de Souza-Cardoso passaram temporadas em Paris. Ronald de Carvalho era brasileiro e Luís de Montalvor vivera no Brasil. Quanto a Pessoa, tinha crescido na África do Sul e estudado em Durban, onde o padrasto fora cônsul de Portugal. A cereja no bolo era figurada por Ângelo de Lima, poeta internado no Hospital Psiquiátrico de Rilhafoles desde 1900. Era outra forma de ser estrangeiro.

Curiosamente, António Ferro que, anos mais tarde, criaria laboriosamente a imagem do Estado Novo, aparece como editor da revista. Diz-se que ganhou o cargo por ser menor de idade. Se o projecto conhecesse a insolvência, ele seria inimputável.

Os dois números da Orpheu garantiram-lhe um lugar na história da literatura portuguesa do séc. XX mas, na altura, o sucesso mediu-se sobretudo pelo escândalo que a ousadia dos textos provocou.

No primeiro número, a contribuição de Pessoa consistiu no "drama estático" O Marinheiro, assinado por ele mesmo e no Opiário e na Ode Triunfal, rubricados por Álvaro de Campos. No número 2 aparecem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa, e a Ode Marítima, de Álvaro de Campos.

O terceiro número não chegou a sair. O pai de Mário de Sá-Carneiro, sem o pretender e talvez sem o saber, era o principal financiador da Orpheu. Ao recusar enviar mais dinheiro ao filho, deu um golpe violento na cultura portuguesa.

A geração de Orpheu foi dizimada cedo. Mário de Sá-Carneiro suicidou-se em 1916. Amadeo e Santa-Rita morreram em 1918. Antes de falecer, Santa-Rita Pintor pediu à família que destruísse as suas obras. Infelizmente, foi atendido. Restam poucos quadros dele.

Deixo aqui fragmentos de poemas publicados por Pessoa no segundo número da Orpheu.

CHUVA OBLÍQUA (Excerto)

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei com quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem, renque de árvores, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
Echega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

ODE MARÍTIMA (Excerto)

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?

A meu ver, resulta destes versos uma estranha unidade que Pessoa talvez não desejasse, ao dar-lhes assinaturas diferentes. Pode-se repartir o "eu" em duas, em quatro e até em setenta partes, mas o Homem lá está! Máscaras e espelhos poderão ajudar o poeta a tentar ver-se de fora e a conhecer-se melhor.

Referências: Simões, João Gaspar. Em: Fernando Pessoa, ensaio interpretativo de uma vida e de uma obra, Obra Poética de Fernando Pessoa, Círculo de Leitores, 1986.
Dicionário de Literatura Portuguesa. direcção de Jacinto do Prado Coelho, Figueirinhas, Porto, 1992.
Wikipedia.

Quadros: Amadeo Souza-Cardoso e Santa-Rita Pintor, Internet.

Também publicado em decaedela.

sábado, 27 de março de 2010

Ode Marítima

É excelente e de grande elegância gráfica a edição francesa da "Ode Marítima", de Fernando Pessoa, apresentada pelas Editions La Différence, que agora nos chegou.

Falámos aqui, há dias, da "Vie et Oeuvre d'Eça de Queiroz", de A. Campos Matos, também das Editions La Différence. Devemos a esta editora, sob a atenta direção de Joaquim Vital, o surgimento em França de algumas obras essenciais da literatura portuguesa.

E, já agora, vale a pena notar o fantástico sucesso que teve, este mês, em Paris, a apresentação da "Ode Marítima", no Theâtre de la Ville, uma casa sob a direção do franco-português Emmanuel Demarcy-Mota.

Francisco Seixas da Costa in Blog “Duas ou três coisas – Notas pouco diárias do Embaixador Português em França”:
http://www.duas-ou-tres.blogspot.com/

Imagem: Fernando Pessoa, Almada Negreiros, 1954

sábado, 6 de março de 2010

Fernando Pessoa e a toponímia republicana


Na Imagem: Afonso Costa e outros republicanos na cerimónia oficial da substituição da placa toponimíca pela nova do Largo do Directório


Um dos poucos indiscutíveis atributos dos republicanos de 1910 foi o revisonismo de grande parte da toponímia nacional: por exemplo em Lisboa, entre muitas outras renomeações, a avenida Rainha D. Amélia passou a chamar-se avenida Almirante Reis, o comandante da revolta que se suicidou dois dias antes da revolução, a avenida Ressano Garcia, foi rebaptizada avenida da República, e a Av. António Maria Avelar é hoje conhecida por avenida 5 de Outubro.
Também o sitio onde nasceu Fernando Pessoa, refinado antipatizante do regime e da sua casta emergente, o Largo de S. Carlos, onde se situou a sede(directório) do Partido Republicano Português foi vítima da sua voracidade recriadora e passou a chamar-se Largo do Directório. Sobre o assunto, na célebre carta a João Gaspar Simões, Fernando Pessoa diz, a dado passo: «O sino da minha aldeia, Gaspar Simões, é o da Igreja dos Mártires, ali no Chiado. A aldeia em que nasci foi o Largo de S. Carlos». Esta é a parte mais conhecida, mil vezes citada, mas o texto vulgarmente omitido continua assim: “ (…) foi o Largo de S. Carlos, hoje do Directório, e a casa em que nasci foi aquela onde mais tarde (no segundo andar; nasci no quarto) haveria de instalar-se o Directório Republicano. (Nota: a casa estava condenada a ser notável, mas oxalá o 4.º andar dê melhor resultado que o 2.º)».


João Távora com Vasco Rosa
Fonte: www.centenariodarepublica.org

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Todas as cartas de amor são ridículas, mas no entanto...

«Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)»


Álvaro de Campos, 21/10/1935
Leia um excerto em: http://www.zefiro.pt/

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O que pensava Fernando Pessoa da República...

... Não é algo que, compreensivelmente, costume ser reproduzido pelas instituições políticas e culturais (incluindo a «casa» que tem o seu nome) de um regime que, no último século, também o consagrou – justamente – como o mais importante, o mais influente escritor da modernidade portuguesa. Porém, um dia depois do começo da «celebração» (sem vergonha) dos cem anos em que a Monarquia – maioritariamente democrática – foi derrubada pela República – fundamentalmente ditatorial – sob apelos (sim, fascizantes) de «união nacional», e no dia em que passa mais um ano sobre o duplo homicídio que outro tipo de celerados insiste em festejar, convém recordar as certeiras palavras do poeta.

«O observador imparcial chega a uma conclusão inevitável: o país estaria preparado para a anarquia; para a República é que não estava. Grandes são as virtudes (de) coesão nacional e de brandura particular do povo português para que essa anarquia que está nas almas não tenha nunca verdadeiramente transbordado para as coisas!
Bandidos da pior espécie (muitas vezes, pessoalmente, bons rapazes e bons amigos – porque estas contradições, que aliás o não são, existem na vida), gatunos com seu quanto de ideal verdadeiro, anarquistas-natos com grandes patriotismos íntimos, de tudo isto vimos na açorda falsa que se seguiu à implantação do regime a que, por contraste com a Monarquia que o precedera, se decidiu chamar República.
A Monarquia havia abusado das ditaduras; os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes, e nunca as submetendo a cortes constituintes, ou a qualquer espécie de cortes. A lei do divórcio, as leis de família, a lei de separação da Igreja do Estado — todas foram decretos ditatoriais, todas permanecem hoje, e ainda, decretos ditatoriais.
A Monarquia havia desperdiçado, estúpida e imoralmente, os dinheiros públicos. O país, disse Dias Ferreira, era governado por quadrilhas de ladrões. E a República que veio multiplicou por qualquer coisa — concedamos generosamente que foi só por dois (e basta) — os escândalos financeiros da Monarquia.
A Monarquia, desagradando à Nação, e não saindo espontaneamente, criara um estado revolucionário. A República veio e criou dois ou três estados revolucionários. No tempo da Monarquia, estava ela, a Monarquia, de um lado; do outro estavam, juntos, de simples republicanos a anarquistas, os revolucionários todos. Sobrevinda a República, passaram a ser os republicanos revolucionários entre si, e os monárquicos depostos passaram a ser revolucionários também. A Monarquia não conseguira resolver o problema da ordem; a República instituiu a desordem múltipla.
É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em administração financeira, não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na Monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na República não era possível, porque era perigoso insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa.
O sociólogo pode reconhecer que a vinda da República teve a vantagem de anarquizar o país, de o encher de intranquilidade permanente, e estas coisas podem designar-se como vantagens porque, quebrando a estagnação, podem preparar qualquer reacção que produza uma causa mais alta e melhor. Mas nem os republicanos pretendiam este resultado nem ele pode surgir senão como reacção contra eles.
E o regime está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional – trapo contrário à heráldica e à estética porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português – o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que por direito mental devem alimentar-se.
Este regime é uma conspurcação espiritual. A Monarquia, ainda que má, tem ao menos de seu o ser decorativa. Será pouco socialmente, será nada nacionalmente. Mas é alguma coisa em comparação com o nada absoluto que a República veio (a) ser.»

domingo, 31 de janeiro de 2010

Dois séculos de falsa educação fradesca e jesuítica...


Maternidade, Almada Negreiros, 1935


Produto de dois séculos de falsa educação fradesca e jesuítica, seguidos de um século de pseudo-educação confusa, somos as vítimas individuais de uma prolongada servidão colectiva. Fomos esmagados [...] por liberais para quem a liberdade era a simples palavra de passe de uma seita reaccionária, por livres-pensadores para quem o cúmulo do livre-pensamento era impedir uma procissão de sair, de maçãos para quem a Maçonaria (longe de a considerarem a depositária da herança sagrada da Gnose) nunca foi mais do que uma Carbonária ritual. Produto assim de educações dadas por criaturas cuja vida era uma perpétua traição àquilo que diziam que eram, e às crenças ou ideias que diziam servir, tínhamos que ser sempre dos arredores...


Fernando Pessoa, in Sobre Portugal – Introdução ao Problema Nacional, recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão, introdução organizada por Joel Serrão, Lisboa, Ática, 1979, p. 7.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Econometria e cultura - Breves considerações sobre a obsessão mundial com econometria

Está, deveras, na moda o uso das estatísticas nas sociedades deste mundo global. Afigura-se-nos, claro, que a actual economia de “capitalismo de casino”, como é catalogada por alguns autores, tem abusado da utilização dos métodos da econometria para comparar actividades produtivas de países, designadamente através de agências de rating, sistemas de ensino, mediante os conhecidos relatórios PISA da OCDE, audiências televisivas de programas e de canais, como aliás o Dr. Mário Soares lucidamente denunciou ainda recentemente ao escrever sobre os fracassos das previsões económicas como muito bem realçou o Professor José Medeiros Ferreira (texto “A credibilidade dos organismos técnicos II” in http://www.cortex-frontal.blogspot.com/). Pelo contrário, alguns autores fazem-nos crer que a ciência económica, mesmo escorada na mais exigente econometria, não é uma ciência exacta e uma visão global pede sempre pressupostos ideológicos. Aliás, alguns autores interessantes do blogue ladrões de bicicletas (in http://www.ladroesdebicicletas.blogspot.com/) têm demonstrado à saciedade a veracidade deste princípio básico da ciência económica.

A famigerada sentença, e bem apreciada na opinião pública nacional, do Dr. Jorge Sampaio, então Presidente da República, proferida, embora noutra conjuntura internacional e nacional, com tom de sabedoria e de bom senso é bem pertinente nos dias que correm: “Há vida para além do défice!”. Esta frase significou que os tecnocratas, da Europa e do país, se preocupavam excessivamente com o limite de 3% do défice imposto pelas instituições europeias e Portugal estava a transgredir, claramente, esse tecto percentual. Com efeito, pretendeu chamar à atenção para a necessidade da política não se restringir a viver duma estratégia que superlativava a importância da economia, visto que na sua perspectiva humanista a economia deve estar ao serviço do Homem, e não ao invés.

O surrealismo da econometria vai ao ponto de, por exemplo, quantificar monetariamente o valor de um quadro dum génio da pintura. Esta tradução do valor espiritual, de um bem cultural num preço, só pode ser obra de gestores com mentalidades econometristas, pois uma obra de arte, em particular uma obra-prima, tem um valor inestimável em termos de critério monetarista, porque uma obra de arte moldada por uma alma criadora inspirada jamais poderá ser mensurável de uma forma pretensamente objectiva. Posso compreender unicamente a vontade de atribuir um valor monetário, pretensamente objectivo, a uma obra de arte pela razão de haver necessidade de salvaguardar esse património cultural junto de uma entidade Seguradora. Vejo esta menosprezável tendência como um vício dos homens materialistas que não conseguindo vislumbrar o âmago da alma dos bens espirituais procuram a sua descodificação numa linguagem acessível aos homens mais terrenos ou pragmáticos.

Por outro lado, não nos devemos esquecer da influência decisiva que os factores psicológicos têm no curso da vida económica. Deste modo, a economia de uma região, de um país ou do mundo não pode ser reduzida à análise estatística, tal como a vida educativa, sob pena de despojarmos o Homem da sua própria humanidade. Basta pensarmos que emoções como a confiança, a motivação, o desânimo ou o pânico podem ser absolutamente decisivos nas oscilações das actividades produtivas ou financeiras. Lembremo-nos do emblemático “Grande Crash da Bolsa de Nova Yorque”, de 24 de Outubro de 1929, que precipitou o mundo num pessimismo tão fundo que conduziu algumas Nações europeias a agarrarem-se à ilusão salvífica de Estados Autoritários.

Esta linguagem econométrica visa a criação de um pensamento único que facilite a gestão desta sociedade global, no entanto este processo acarreta a modelação de novos preconceitos. É o caso dos países do Sul da Europa que já receberam a alcunha de “PIGS” por parte da imprensa nórdica. Assim, os povos nórdicos encaram como tendencialmente laxistas os povos latinos (Itália, Grécia, Portugal e Espanha), com excepção da Irlanda recentemente agregada ao grupo, o que denota algum menosprezo pela mentalidade e cultura dos países europeus Mediterrânicos. Contudo, estes povos têm-se revelado, salutarmente, zelosos de uma vivência mais livre, criativa e espontânea que não se compagina com uma vida monitorizável, como o desejam os tecnocratas, pelos cegos critérios da estatística. Senão, um dia, pensaremos em pesar a alma, tal como os antigos egípcios acreditavam que, na esfera do divino, sob a presidência de Osíris num tribunal o coração dos mortos era pesado, caso se provasse a sua leveza por rectidão em vida a alma alojada no corpo ganharia direito à eternidade.

A confirmar esta minha percepção estão as distintas, e aparentemente antinómicas, lições axiológicas do Papa Bento XVI e do Dr. Mário Soares que concordando no diagnóstico discordam nas soluções. Na verdade, depreende-se da leitura da Encíclica do Sumo Pontífice “Caridade na Verdade” ( Prior Velho, Edições Paulinas, 2009 ) bem como da obra do Dr. Mário Soares “Um mundo em mudança” ( Lisboa, Editora Temas e Debates, 2009 ) uma critica semelhante às visões econométricas absolutistas, dissociadas de senso humanista. Na realidade, partindo de percepções axiológicas diferentes, ambos entendem o Homem como um Ser Multidimensional e as sociedades como realidades complexas não compagináveis com as “fatiotas” econométricas que os tecnocratas nos querem fazer vestir.

Era bastante sábia a lição do aforismo de Fernando Pessoa que dizia: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena!”. Se no tempo do poeta pairava a ideia de Max Weber de reduzir o Homem à burocracia, que tanto assustava o nosso criador, na actualidade o Homem corre o risco de se ver reduzido pela tecnocracia econométrica da sua fonte criadora e libertadora…Na verdade, Pessoa percebeu que a sua vida profissional era demasiado insignificante como manga-de-alpaca e, por isso, deixou-se levar e metamorfosear em vários heterónimos. É bastante interessante saber que, devido ao inestimável valor da sua alma criativa, Roland Barthes julgou, segundo nos conta com bastante humor o Embaixador Francisco Seixas da Costa (texto “Pessoa(s)” no seu Blogue Duas ou três coisas – Notas pouco diárias do Embaixador Português em França in http://www.duas-ou-tres.blogspot.com/), que Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis eram quatro poetas portugueses! Que a máxima Pessoana nos possa servir sempre de alavanca inspiradora…

Nuno Sotto Mayor Ferrão