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Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

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"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Nunca me arrependi

falecimento, no passado dia 7 de Janeiro, de Mário Soares, em Lisboa, no Hospital da Cruz Vermelha, onde estava internado desde 13 de Dezembro, motivou, como seria de esperar, uma avalanche avassaladora de declarações, elogios e elegias, homenagens, memórias, recordações, reminiscências e retrospectivas. Apesar de nunca ter tido a oportunidade de o conhecer pessoalmente, ao contrário, por exemplo, do meu amigo Rui Paulo Almas, em 1991, enquanto membro da Direcção da Associação Académica de Lisboa, o ex-secretário geral do PS e ex-primeiro-ministro não deixou de ter impacto também na minha vida…
… E isso aconteceu na qualidade de presidente da república. A eleição de 1986 representou para mim, e provavelmente para muitas outras pessoas, um importante ponto de viragem… porque começou aí o meu afastamento em relação ao Partido Comunista Português, a que estava ligado através da militância na Juventude Comunista Portuguesa: não compreendi e não concordei com o apoio dado a Francisco Salgado Zenha, e dei o meu voto, na primeira volta, a Maria de Lurdes Pintassilgo, ao contrário de vários «camaradas» meus de então que, apesar de terem simpatia pela ex-primeira-ministra, não deixaram de obedecer ao Comité Central… Pelo que, na segunda volta, me custou muito menos votar no tão vilipendiado «Bochechas», contra Diogo Freitas do Amaral. Um acto tão simples que, porém, foi como que um respirar de alívio, um «fazer as pazes»: o triunfo do marido de Maria Barroso – e é sempre de lembrar esta mulher notável, que faleceu em 2015 – constituiu como que um momento de distensão num país que, nos 12 anos anteriores, desde 25 de Abril de 1974, vinha acumulando antipatias e confrontos, uns mais graves do que outros. A campanha eleitoral foi empolgante, até excitante, como não acontecera antes e não voltou a acontecer depois.
A seguir a tomar posse, Mário Soares comportou-se no entanto de forma exemplar, diria que quase irrepreensível – é verdade que do Palácio de Belém foram lançadas regularmente algumas «farpas» a Aníbal Cavaco Silva, o que a mim não causava desagrado, pois ontem não tinha e hoje não tenho qualquer respeito pelo boliqueimense, que nunca recebeu o meu voto, nem como candidato a primeiro-ministro, nem como candidato a presidente da república: a actuação de «Gigi» (a alcunha de infância revelada por Mário Moniz Pereira) foi caracterizada por uma considerável abrangência, política, social e cultural; as suas viagens por Portugal, várias vezes sob a forma de – inovadoras - «presidências abertas», eram invariavelmente ocasiões de confraternização e mesmo de alegria popular; as viagens ao estrangeiro contribuíram decisivamente para começar a desvanecer a imagem do nosso país como um local atrasado, empoeirado, saudosista e soturno, e a integração europeia não impediu a (re)descoberta de outras conexões geográficas e geoestratégicas, delas se destacando a que resultou de uma memorável visita à Índia – surgiu mesmo a anedota sobre qual era a diferença entre Deus e Soares… um estava em todo o lado e o outro já lá tinha estado!
Na (re)eleição seguinte, ele voltou a vencer, desta vez facilmente, contra Basílio Horta. Não precisava do meu voto, mas eu entendi que ele o merecia – foi a minha forma de lhe dizer «obrigado», de agradecer (antecipadamente) a um republicano, socialista e laico me ter ajudado a tornar-me (ou a assumir-me como) um monárquico, conservador e cristão. Nunca me arrependi das duas vezes que desenhei um «x» à frente da sua fotografia – ao contrário do que aconteceu (por uma vez) com o seu sucessor. E é por isso que hoje, em que foi sepultado após um funeral de Estado, câmara ardente no Mosteiro dos Jerónimos – onde em 1985 assinou a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia – e três dias de luto oficial, prefiro, não tanto esquecer, mas não evocar os aspectos menos agradáveis do seu percurso, desde a sua participação na (desastrada) descolonização à sua terceira (e fracassada) candidatura presidencial em 2006, passando pelas revelações de Rui Mateus, a defesa que fez de José Sócrates e os cada vez mais infelizes (para não usar uma expressão mais desagradável) artigos de opinião no Diário de Notícias. Prefiro homenagear o opositor de António de Oliveira Salazar, o apoiante de Humberto Delgado, o discípulo de Agostinho da Silva. 

sábado, 16 de abril de 2016

Sobre «extremos», no Público

Na edição de hoje (Nº 9496) do jornal Público, e na página 52, está o meu artigo «Em extremos opostos da Europa». Um excerto: «Felizmente para a Europa, a situação nacional é, neste âmbito, um caso praticamente único. Vítima inevitável e inescapável da sua intrínseca falácia intelectual e da sua inerente falência moral (e material, muitas vezes também), a esquerda está em recuo, em retirada, em retracção, em retrocesso por todo o Velho Continente… E esse processo é mais visível e está mais completo para lá da linha Oder-Neisse, onde há um país que, politicamente, é como que um reflexo do nosso, um contraste total connosco.»
O conceito principal deste artigo já havia sido de certo modo abordado em comentários recentes que fiz a textos no blog Delito de Opinião. Um de Luís Menezes Leitão a 30 de Março último: «O feriado de 5 de Outubro foi bem abolido: comemora(va) um golpe de Estado perpetrado por uma minoria de fanáticos e de terroristas (regicidas, assassinos) que derrubou um regime democrático (pelos padrões da época, e em consonância com o que existia em outros países). Neste assunto Pedro Passos Coelho não mostrou “fanatismo” mas sim incompetência e inépcia. Além de que PSD e CDS poderão ser partidos ”estúpidos” - a manutenção do AO90, e não só, demonstra-o - mas não são de direita»..
… E outro de Pedro Correia a 8 de Abril último: «(…) Não me incluo naqueles que hoje consideram “quase exemplares” e que “entoam hossanas” as/às gerações de políticos/galeria de “estadistas” que se sucederam após o 25 de Abril, praticamente todos de esquerda. Elaboraram e aprovaram uma constituição que não precisou de esperar pelo seu 40º aniversário (que se “celebra” este ano) para se tornar obsoleta, quase “digna” do ex-COMECON, ofensiva e anti-democrática com o seu “abrir caminho para uma sociedade socialista” e a (obrigação de manter a) “forma republicana de governo”, de tal modo ideológica, programática e restritiva que tem condicionado, impedido, o verdadeiro desenvolvimento. Levaram o país à falência mais do que uma vez. Implementaram o “(des)acordo ortográfico”... É por isto e muito mais que eu sou monárquico e a favor de uma mudança de regime; do actual, da III República, muito pouco(s) se aproveita(ria)(m).»
Hoje, Dia Mundial da Voz, constitui uma ocasião ainda mais simbólica e significativa para se fazer ouvir aquela, mesmo que na forma escrita… mas correcta, evidentemente. 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Sobre (não) «endireitar», no Público

Na edição de hoje (Nº 9416) do jornal Público, e na página 44, está o meu artigo «Não se endireita». Um excerto: «O próprio António Costa admitiu que, politicamente, é como um autêntico refém quando afirmou no hemiciclo de São Bento, a 2 de Dezembro, durante o debate do programa do seu governo, que “o que o PCP não está disponível para apoiar é o que nós não estamos disponíveis para propor.” É de supor que a disponibilidade se estenda igualmente ao BE… É uma posição periclitante e mesmo patética? Sim, é, mas trata-se do inevitável preço a pagar pela arrogância de querer e conseguir substituir o anterior secretário-geral do PS por este ter obtido não uma, não duas mas sim três vitórias eleitorais (regionais nos Açores, europeias e autárquicas) consideradas insuficientes e, depois, o novo secretário-geral ter obtido não uma mas sim duas derrotas eleitorais (regionais na Madeira e legislativas)… indubitavelmente insuficientes.»

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Todos menos Marcelo

Não é só quando se realizam em Portugal eleições para a presidência da mesma que se deve recordar e reforçar a verdade, os factos: no nosso país a República é um regime ilegítimo, imposto em Portugal por uma minoria através de um golpe de Estado em 1910 e de um duplo crime (o assassinato do então Chefe de Estado e do seu filho e sucessor no cargo) em 1908, nunca legitimado por um referendo específico e que, na sua actual (e terceira) «versão», persiste em não ser plenamente democrático por, na corrente Constituição, não só preconizar (ainda) no preâmbulo «abrir caminho para uma sociedade socialista» mas também limitar (ainda), no artigo 288º, as leis de revisão à «forma republicana de governo». Tudo isto sob o estandarte verde e vermelho, símbolo de iberistas e de terroristas, «ignóbil trapo» para Fernando Pessoa e que até Guerra Junqueiro rejeitou.
Porém, e porque Portugal tem sempre prioridade, enquanto não se faz a restauração há que ser pragmático e, perante a realidade, as situações, deve-se adaptar e actuar, se não pelo ideal e pelo preferível, então pelo mal menor, neste caso na escolha do próximo Chefe de Estado. E, a 24 de Janeiro, a opção, ou opções, não oferece(m) dúvidas: todos menos Marcelo Rebelo de Sousa. Para um cargo uninominal como o de Presidente da República, o carácter importa e interessa, pelo menos, tanto quanto a ideologia. E Marcelo não o tem; ele é, ou pode, ser, dizer e fazer tudo e o seu contrário; ninguém duvida de que o crónico comentador é capaz de mentir, de se contradizer, constantemente, consoante as circunstâncias e os contextos; a hipocrisia é a sua segunda natureza. Para o demonstrar, nem é preciso recuar muito no passado e ir buscar o episódio de uma certa sopa que se serve fria. Já na presente campanha eleitoral, ele: desmentiu ter considerado inconstitucional a rejeição, pelo Tribunal respectivo, do Orçamento de Estado para 2012, apesar de existir uma gravação que demonstra o oposto; manifestou-se favorável à adopção por «casais» do mesmo sexo, apesar de continuar a declarar-se cristão, católico, que reza «o terço todos os dias»; e assumiu-se como estando na (ou vindo da) «esquerda da direita», apesar de, uma semana antes, ter garantido que «não sou o candidato da direita».
No entanto, nenhum aspecto da personalidade e do posicionamento de Marcelo Rebelo de Sousa é mais preocupante do que a sua atitude, de total e acrítica aceitação e sujeição, perante o dito «Acordo Ortográfico de 1990» - aliás, é o único dos principais candidatos a tê-la. Preocupante não só por aquele que é supostamente um dos mais competentes e eminentes juristas portugueses nunca ter detectado nem denunciado as flagrantes ilegalidades, tanto ao nível nacional como ao nível internacional, inerentes à imposição do AO90; também por acreditar que «para Portugal conseguir lutar pela lusofonia no mundo tem de lutar por dar a supremacia ao Brasil» - disse-o em 2008 e não consta que entretanto tivesse mudado de opinião. Por outras palavras, a pessoa que poderá ser o principal líder deste país entende que é seu dever contribuir para que aquele se submeta, se inferiorize, em relação a outro. Só isto seria suficiente para o desqualificar da corrida ao Palácio de Belém. Ele é indigno de presidir aos destinos nacionais… tal como Aníbal Cavaco Silva foi e (ainda) é, por ter iniciado o processo do AO90 enquanto primeiro-ministro e o ter finalizado (?) enquanto «residente da república».

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A nacionalidade afundada

Em Portugal, e depois de demitido – isto é, de ter visto recusado o seu programa – no Palácio de São Bento o XX Governo Constitucional a 10 de Novembro de 2015, tomou posse o XXI a 26 de Novembro no Palácio da Ajuda; este, pelas pessoas que inclui e pelas políticas que indica, bem que poderia ser designado informalmente de «terceiro governo de José Sócrates».
Exagero? Atente-se: nas várias e interessantes «ligações», familiares e outras, que se encontram no elenco do novo executivo; no facto de o novo secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros ser advogado, precisamente, do ex-preso Nº 44 de Évora; no perfil e no percurso, algo… problemáticos, do novo secretário de Estado do Ambiente, talvez emuladores, evocativos, de um anterior detentor do cargo; nas (superadas?) dificuldades com a ortografia da nova secretária de Estado da Cidadania e da Igualdade – dificuldades essas, aliás, que uma ex-ministra da «Cultura» também tem…
… E o novo primeiro-ministro não se distingue igualmente, o que é preocupante, pelo conhecimento, tanto a um nível adequado à posição que agora ocupa como a um nível mais básico exigível a um português letrado. Eis dois exemplos de erros graves e grosseiros que ele cometeu este ano: primeiro, e ainda não tinha concluído a primeira semana no desempenho das suas novas funções, afirmou – em Bruxelas! – que a NATO foi fundada em 1959 (na verdade, foi em 1949) e que a Turquia foi uma das nações fundadores daquela (na verdade, foi admitida em 1952); segundo (e muito pior), em Junho durante a pré-campanha para as eleições legislativas, afirmou que procuraria repor o dia 1 de Dezembro enquanto feriado porque «Portugal é o único país que não comemora a sua data fundadora»! Incrivelmente, ao mesmo tempo que mostrava não saber o significado do dia de hoje, também salientava, acertadamente, que o nosso país não festeja oficialmente a sua própria criação…
… E esse é apenas um de entre vários aspectos insólitos que continuam a caracterizar a História, a política e a sociedade nacionais. Em comentários que fiz recentemente a textos de outros blogs destaquei alguns desses aspectos: a surpresa que vários ainda sentem perante a evidência de que um, qualquer, presidente da república habitualmente é «faccioso», o que não acontece normalmente com um Rei; o equívoco que muitos ainda têm sobre o Partido Social Democrata ser de direita, quando nunca o foi; a ilusão que bastantes ainda partilham de que o Partido Socialista continua a ser uma força de centro-esquerda, quando já não é. E a «crise de egocentrismo, narcisista e sebastianista» de que o novo ministro da Cultura acusava o novo primeiro-ministro em 2014 também ajuda a explicar a deriva do PS para a extrema-esquerda. O filho do fundador… do PS queixava-se igualmente então de que «as pessoas não têm memória na nossa terra.» É verdade, e por isso é que, em vez de a nacionalidade ter a sua fundação (correctamente) celebrada, há o perigo de a ver afundada.  

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Sobre mudança de regime, no Público

Na edição de hoje (Nº 8096) do jornal Público, e na página 53, está o meu artigo «Um Presidente por um Rei». É como que um pessoal exercício de geral especulação e também um pequeno guia de uma grande revolução. Um excerto: «A mudança de regime teria de ficar consagrada, logicamente, numa nova Constituição. A “da República”, que não vale o papel em que é impressa, é a prova – com o seu “abrir o caminho a uma sociedade socialista” no preâmbulo - de que as consequências da queda do Muro de Berlim em 1989 não se fizeram sentir em toda a Europa e de que uma parte da “Cortina de Ferro” continuou “erguida”… num certo país ocidental.»

quinta-feira, 22 de março de 2012

Perder «fregueses»

Para minha grande vergonha, resido numa freguesia, e num concelho, em que o Partido Socialista, ainda liderado por José Sócrates, teve – tanto naquela como naquele – mais votos do que os outros concorrentes nas eleições legislativas de 2011… e há que recordar que não foram assim tantos como isso os municípios em que o PS venceu no ano passado. O mesmo é dizer que um número considerável dos meus conterrâneos deu o seu apoio ao «engenheiro domingueiro» apesar de então já não subsistirem quaisquer dúvidas sobre o que ele era (e é) e o que (de mal) tinha feito. É o que costuma acontecer em zonas onde a esquerda tem uma grande «tradição» e implantação: desde que se cante «A Internacional», se grite de punho erguido e se use um cravo na lapela pode-se ser um estúpido estupor à vontade, porque haverá sempre quem ponha à frente dele (em vez de… em cima) uma cruz.
Logicamente, e como é fácil de deduzir, também na freguesia e no concelho em que resido o PS é a principal força autárquica, detendo ambas as presidências. Pelo que não fiquei surpreendido quando, recentemente, encontrei na minha caixa de correio um pequeno panfleto anunciando (para 17 de Março último, às 15 horas) a realização de uma «Sessão Extraordinária da Assembleia de Freguesia, seguida de uma sessão de esclarecimento» para discutir a «Proposta de Lei 44/XII (do actual governo) sobre a Reorganização Administrativa Territorial Autárquica cujo objetivo é extinguir um terço das Freguesias do país.» Alegadamente, «a freguesia do (…) corre o risco de ser extinta por decreto, algo que nunca poderemos aceitar. (…) A nossa história, os nossos valores, os nossos direitos e acima de tudo a nossa identidade estão em causa, pelo que apelamos à participação de toda a população. Contra a extinção da nossa Freguesia e pela manutenção do poder local democrático.»
Faltei à «chamada» porque estava ocupado a fazer a digestão… ou a dar banho ao cão (já não me lembro). Agora a sério: é evidente que a eventual extinção da minha freguesia, apesar de desagradável, não significaria necessariamente que ficassem em causa a sua «história», «valores», «direitos» e «identidade»; significaria, quando muito, que uma mesma entidade autárquica passaria a gerir mais do que uma localidade; a minha não «desapareceria do mapa» nem deixaria de ser uma vila. O que está verdadeiramente em causa é que certas pessoas perderiam os seus cargos, os seus «tachos» - por outras palavras, elas sim é que deixariam de receber «valores» e de ter determinados «direitos», e passariam à «história» porque a sua «identidade» quase sempre não vai além da filiação político-partidária. Perder «fregueses» é um «problema» que, deve-se concordar, não é muito importante em comparação com uma dívida, acumulada pelas câmaras municipais deste país, de cerca de 12 mil milhões de euros!
Enfim, é igualmente interessante constatar como há diferentes prioridades quando se trata de promover protestos: contesta-se a (hipotética) «extinção de uma freguesia por decreto» mas não se contesta a (não hipotética) «extinção de uma ortografia por resolução». Obviamente, numa freguesia e num concelho em que o PS manda, a trampa do AO90 já foi «adotada». E foi com um divertido espanto que, ainda mais recentemente, li outro pequeno panfleto anunciando a realização, na minha freguesia supostamente à beira da «extinção», de um «espetáculo» que serviria para lançar «um alerta para as diferenças e importância da Língua Gestual Portuguesa»! Sim, quando sinto que estão a gozar comigo, a minha vontade é fazer… um gesto bem português.         

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Passos perdido(s)?

O actual primeiro-ministro de Portugal e o governo que lidera têm uma oportunidade única para deixar uma memorável e duradoura marca positiva na História contemporânea de Portugal. À partida, tal tarefa seria (e será?) fácil: os seis anos de (des)governos do Partido Socialista, liderado por essa figura desprezível chamada José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, foram tão maus, tão maus, tão maus… que muito dificilmente se faria pior.
Porém, nunca se esperaria que o percurso do executivo de coligação comandado por Pedro Passos Coelho fosse isento de contradições, de deficiências, de erros, que efectivamente têm acontecido. Por exemplo, não foram propriamente brilhantes os apelos (mais ou menos directos) à emigração, a constatação (a queixa?) de que os políticos não são bem pagos, e a denúncia dos potenciais «piegas». Sim, tais afirmações podem ter sido descontextualizadas, e sem dúvida que no passado recente houve «súcia-listas» que fizeram afirmações semelhantes. Mas as pessoas do PPD/ PSD e do CDS/PP já deveriam saber como a memória – e a comunicação social – podem ser selectivas em Portugal… pelo que deveriam ter mais cuidado com o que (e como o) dizem. No entanto, e obviamente, mais do que dizer, é necessário fazer… e bem. Antes de mais, gerir melhor os dinheiros públicos e privados, não gastar mais do que se recebe, pagar a quem se deve, diminuir os impostos; mas também proceder a alterações concretas… para melhor, na forma como se trabalha em Portugal. Incentivar, introduzir realmente e definitivamente a qualidade, o rigor e a transparência. Promover a responsabilização. Acabar com maus hábitos.  
Neste âmbito, a questão dos feriados assume um especial significado, e não apenas simbólico. Contudo, a não concessão neste ano de 2012 da tolerância de ponto no Carnaval – repetindo uma decisão errada tomada, há cerca de 20 anos, por Aníbal Cavaco Silva – foi excessiva e contraproducente: previsivelmente, as «desobediências municipais» sucederam-se. Quanto ao 5 de Outubro e ao 1 de Dezembro, acertou-se em metade: é de louvar, e de apoiar, a «desoficialização» de uma data que celebra a tomada do poder por criminosos, assassinos e terroristas que instauraram uma ditadura; mas é de lamentar, e de repudiar, a «desoficialização» de uma data que celebra a restauração da independência de Portugal. Não é de surpreender que Mário Soares, António Costa e António José Seguro tenham protestado mais sonoramente (ou exclusivamente) contra o fim do primeiro do que o segundo – para muitos «rosinhas» é mais importante ser republicano do que ser independente. E não existirá qualquer «compensação» num eventual «reforço» do 10 de Junho porque o 1 de Dezembro representa(va) o fim de algo iniciado… a 10 de Junho: a morte de Luís de Camões coincidiu com a perda da independência, pelo que aquele que é o «Dia de Portugal» constitui, de facto, o «Dia da União com Espanha».
Todavia, tão ou mais grave, por parte do actual governo, do que eliminar o 1 de Dezembro da lista de feriados oficiais, é a continuação da (tentativa de) imposição dessa aberração cultural que é o «acordo ortográfico». Tão empenhado, e acertadamente, em extinguir várias «sócretinices» que infesta(va)m a sociedade portuguesa, porque motivo o corrente executivo mantém esta, que, além de ilegítima e ilegal, é inútil e insultuosa? As explicações, as «teorias», abundam, mas para se aferir melhor a seriedade do assunto nada como verificar a mudança de opinião (?) de Pedro Passos Coelho sobre aquele. Recentemente, na AR, e em resposta ao «queixinhas», patético, secretário-geral do PS (que exigia a «desautorização» de Vasco Graça Moura que, coerente, corajosa e correctamente, desactivou o AO90 no CCB), Pedro Passos Coelho afirmou que o AO «entrou em vigor a 1 de Janeiro deste ano, assim o confirmam os manuais escolares, assim como todos os actos oficiais, e ele será cumprido». Contudo, em 2008, o então candidato à presidência do PPD/PSD considerava que o AO «não representa (qualquer) benefício para a língua e cultura portuguesa, pelo que não traria qualquer prejuízo que não entrasse em vigor. De resto, não vejo qualquer problema em que o português escrito possa ter grafias um pouco diferentes conforme seja de origem portuguesa ou brasileira. Antes pelo contrário, ajuda a mostrar a diversidade das expressões e acentua os factores de diferenciação que nos distinguem realmente e que reforçam a nossa identidade.»
Recorrendo a outras palavras do actual primeiro-ministro, e também recentemente proferidas, pode-se dizer que «uma nação com amor-próprio não anda de mão estendida»... a deitar fora a sua ortografia, parte da sua língua, da sua cultura, da sua identidade e dignidade. Que Pedro Passos Coelho não tenha dúvidas: o «aborto ortográfico» nunca entrará plenamente em vigor; a maioria dos portugueses nunca o aceitará, pelo que é uma «causa» perdida que nem a força do Estado será suficiente para tornar justa… e triunfante. Fica pois o aviso, e o conselho, ao PM: ouça as vozes que vêm de Portugal (e até do seu partido!) e também do Brasil e de Angola, e desista desta afronta. Ganhará em popularidade e em prestígio… se tomar a decisão certa. Preferíamos não o dar por perdido. Não queira cair no mesmo «clube» de um certo e desavergonhado energúmeno que agora se passeia em Paris. 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Lira Insubmissa, Carta

O Filósofo em Meditação, Rembrandt, 1632


Vigésimo Quarto Fragmento

188 - Os nossos comentadores políticos e os nossos políticos agem como se nunca houvessem passado da infância. Discursam como se os seus intelectos não fossem capazes de compreender dois pontos de vista separados e opostos, em simultâneo. No que toca o reino da alma não tivemos Reforma ou Renascença; não houve Colombo a descobrir cada quadrante dos oceanos da alma que em nós se esconde.

189 - Somos possuidores de um território interior em que os nossos sonhos vagueiam de noite.

190 - No mundo real as nações e os reinos marcam-se em mapas por via de barreiras naturais, como montanhas, rios, e oceanos. Também a história desenha as regiões nacionais. Existem batalhas vencidas e perdidas, negociações, terras compradas ou vendidas, casamentos que decidem em que destino as bandeiras voam.

191 - O mesmo se passa com as nossas almas. Determinados medos e horrores são declarados estrangeiros. O católico não se transforma no corvo ou no veado enquanto sonha, também não se movimenta no bosque nocturno em exaltação e ausência de receio.

192 - De vez em quando, despertamos no interior do sonho e seguimos ainda a sequência rotineira, excepto que estranhamos um interruptor não fazer reagir a lâmpada, ou a sombra da estranheza no movimento das coisas. Sentimos que não pertencemos. Para o filósofo, pessoalmente, a vida ocorre neste estado.

193 - Por vezes, um homem tropeça numa terra de ninguém entre o sono, o sonho e o estado de vigília. A mente desperta mas o corpo dorme ainda. O indivíduo sente-se desesperado. O cérebro comete o pânico e imagina toda uma gama de monstros e horrores a atraiçoa-lo numa armadilha. Todavia, nem monstros nem armadilhas, apenas a nossa imaginação procura desesperadamente uma imagem para explicar o nosso medo irracional. Este é, no geral, o estado dos nossos políticos.


André Consciência

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Contra os feriados…

… De 10 de Junho e de 5 de Outubro votei hoje no inquérito que o jornal Público está a efectuar electronicamente, sob a pergunta «De que feriados abdicaria?» Para aqueles que ainda desconhecem as minhas opiniões sobre o (actual) «Dia de Portugal» e a República, aproveito para recordar artigos que escrevi e que publiquei – no Público! – sobre aqueles temas, especificamente este e este.   

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Ministério… não é fundamental

No passado dia 2 de Maio foi aberta uma petição contra a eventual extinção do Ministério da Cultura no governo de Portugal que resultar das eleições legislativas de 5 de Junho próximo. Que já foi subscrita, no momento em que escrevo, por mais de 1200 pessoas, algumas das quais eu conheço pessoalmente, estimo e admiro. E que, ao fazê-lo, me desiludiram bastante.
Eu não assinei nem vou assinar esta petição. Porque, objectivamente, na práctica, esta iniciativa é (mais) um instrumento de apoio a José Pinto de Sousa. Porque não é o PS mas sim o PSD que pondera a hipótese – admitida no seu programa eleitoral – de colocar a pasta da Cultura a cargo não de um ministro(a) mas sim de um(a) secretário(a) de Estado. Aliás, esta é uma situação com semelhanças à da RTP, cuja comissão de trabalhadores se insurgiu contra a proposta, também prevista pelo partido liderado por Pedro Passos Coelho, de privatização da estação pública – uma posição «laboral» que ilustra bem o conceito de «interesses instalados». E, que se saiba, a CT da RTP não protestou contra a imposição do AO na empresa…
A petição em causa foi lançada pela Sociedade Portuguesa de Autores, presidida por José Jorge Letria que é, desde há muito tempo, um fiel compagnon de route do Partido Socialista. E quem colocar nela a sua assinatura está a dar implicitamente – e inconscientemente? – a sua autorização para ser utilizado como mais um peão na luta do actual, mentiroso, irresponsável, incompetente, desavergonhado, autoritário, abusador primeiro ministro para se manter no poder. Para este «peditório» eu não dou. E apelo veementemente a que mais ninguém dê. Já agora, porque é que os proponentes e os signatários desta petição não lançam outra contra a utilização de serviços públicos – sim, do MC! – em propaganda partidária, não uma mas sim duas vezes? Ou porque não protestam contra o lamentável colaboracionismo de Gabriela Canavilhas no Acordo Ortográfico? Uma ministra que diz que a sua «despromoção» a secretária seria um «retrocesso civilizacional»... mas não a promoção da tauromaquia!
Não é, obviamente, e como se tem comprovado nos últimos anos, a existência de um ministério que resolve todos os problemas que afectam a área da cultura no nosso país. Tal só pode ser feito com a definição e a concretização efectivas de uma política cultural articulada, ambiciosa e abrangente sem deixar de ser realista. E que pode perfeitamente ser dirigida através de uma secretaria de Estado. Assim, não se atribua mais importância aos meios do que aos fins.
(Adenda de 2011/6/28 – Já completamente formado o novo governo, resultante de uma coligação entre o PSD e o CDS, confirma-se que a Cultura passa, de facto, a ser uma Secretaria de Estado – a cargo de Francisco José Viegas – e fica na dependência de… Pedro Passos Coelho. Exactamente: o ministro da Cultura é… o próprio primeiro-ministro! Será que os promotores e subscritores desta petição ainda pensam que houve uma «despromoção»?)  

terça-feira, 3 de maio de 2011

Para Reflexão


ÉTICA DO PASSADO

O Assessor da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, ex-comunista, meu contemporâneo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, nos anos 60, membro da cúpula da Federação de Estudantes do Rio Grande do Sul e, eu, secretário de Relações Sindicais, pensávamos, naqueles anos passados, um país justo e honesto.
Nós queríamos, ingenuamente, chegar ao poder pelas armas, na trilha da gloriosa revolução cubana, uma vez que pelas eleições parecia impossível. Garcia, porém, adaptando-se à camaleonice dos novos tempos do crescimento econômico, à sombra da bandeira da pobreza, chegou ao governo na companhia de velhas raposas que, antes, jurara de morte. A última vez que nos encontramos, casualmente, foi numa esquina de Paris, há mais de 12 anos. O tempo passou.
Nos nove anos de Casa Presidencial, Marco Aurélio Garcia tem dado entrevistas e expressado opiniões no limite da lucidez esquerdista que, por várias vezes, atingiu frontalmente o bom senso. O tempo passou. Passado é passado. Novos conceitos da história, fundamentados na fantasia do Brasil potência, embalados pela insensatez do crescimento econômico, tomaram todo o espaço do raciocínio da esquerda desvairada e esquizofrênica.
Ontem, 30 de abril de 2011, trinta anos depois do temerário incidente do Rio Centro, na reunião do conselho de ética petista se concretizou a reabilitação política de Delúbio Soares, amigo pessoal do ex-presidente Lula. Delúbio Soares é réu em processo que corre no Supremo Tribunal Federal. Marco Aurélio Garcia defendeu a acolhida de Delúbio pelo PT e sem constrangimento ou vergonha justificou os argumentos que recolheram o desafortunado companheiro da rua da amargura e da “execração pública”, segundo palavras de compaixão cristã da senadora Martha Suplicy. Para Marco Aurélio Garcia, o veredito da assembleia petista se ajusta à ética do futuro. “Não vejo – diz Garcia – que Delúbio seja uma pessoa corrupta. Não fez nada em benefício próprio. Houve gestão temerária que trouxe enormes prejuízos. Mas o tempo passou”.
As temerárias fogueiras da Inquisição, em nome de dogmas religiosos, trouxeram poucos benefícios próprios a Alexandre VI, Júlio II ou Leão X. Os temerários campos de concentração e os crematórios nazistas, em nome da pureza da raça, pouco ou nenhum benefício próprio trouxeram a Hitler. O temerário Gulag da ex-União Soviética, em nome da ideologia, poucos benefícios próprios trouxeram ao ex-seminarista Stalin. As temerárias torturas e os mortos nas masmorras do DOI/CODI, em nome do anticomunismo, poucos benefícios próprios trouxeram aos marechais e generais de nossos 25 anos de ditadura militar. O caso Delúbio não se relaciona aos mencionados pelo número de mortos, mas pela semelhança dos métodos de perversão mental, baseada na mentira e na negação dos fatos publicamente registrados, que achincalham gerações presentes e futuras. Mas o tempo passou.
Então, na sequência dos fatos inegáveis, há que se perguntar a Marco Aurélio Garcia e a todo o cabido da ética futura da política, por que manter presos os Batisti, os Cacciola, os Fernandinho Beira-Mar e os 450 mil presos em cárceres desumanos deste país. Em pouco tempo, estarão todos condenados ao passado.
O tempo passou. Os princípios passaram. A era do pensar passou com o tempo. A nova ética do tempo que ainda não passou produz ideólogos e vestais políticos escamoteadores, malabaristas, prestidigitadores, falsificadores da realidade, negociadores de estranhos valores capazes de extinguir o passado pela maquiagem do presente como nunca antes neste país. A que ponto de execração pública foi rebaixada a inteligência política de áulicos do governo, iludidos de exercerem o poder!
1.5.2011


COINCIDÊNCIAS DO PAC

Todo mundo sabe que a senhora Dilma, antes de ser eleita presidente, teve dois filhos, o PAC I e o PAC II. A testemunha ocular dos partos foi seu antecessor que declarou publicamente: ela é a mãe. Não há informações de que, sendo presidente, Dilma poderá gerar outros, aumentando a família até 2014.
Esta sigla, milhares de vezes repetida nos últimos anos, está por PROGRAMA DE ACELERAÇÃO DO CRESCIMENTO. Não entrarei no mérito da execução do Programa, pois essa é uma tarefa do Tribunal de Contas da União, órgão capaz de irritar presidentes por não aprovar as contas superfaturadas dos gastos em pontes, viadutos, represas, trem bala, aeroportos e portos.
A CNBB, com seu olhar crítico, apesar de aliada do governo, em suas reuniões de cúpula, recheadas de lições e opiniões de especialistas em economia e política, trata ironicamente o PAC como Programa de Aceleração do Capitalismo.
Mas a mais contundente coincidência das siglas encontrei ao examinar mais de perto o imbróglio do escritor Cesare Battisti, refugiado no Brasil sob a pecha de criminoso, assassino, comunista e antigo membro do PAC italiano – PROLETÁRIOS ARMADOS PELO COMUNISMO – grupo de extrema esquerda atuante nos anos 70, também chamados anos de chumbo.
Cesare Battisti é simplesmente um escritor com 17 livros publicados, quase todos na França por editoras de renome como Gallimard e Flammarion. Entre outros, está traduzido para o português Minha fuga sem fim, (Martins editora), circulando nas livrarias do nosso país. Segundo informações extra-oficiais, o asilo político lhe foi dado pelo ex-presidente por ser escritor e não terrorista. Embora nos conselhos de segurança nacional se diga que um escritor é um terrorista em potencial e, por isso, seria perseguido na Itália.
O dilema que se põe ao STF é se o Brasil, com a união do PAC da Dilma com o PAC do Battisti e a ironia da CNBB, vai acelerar o crescimento, o capitalismo ou o comunismo.

Humanamente,
Eugênio Giovenardi

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Escrever em «socretinês»

Publicado no jornal O Sul Nº 15, 2011/4

Não foram PS e o PS (Pinto de Sousa e o Partido Socialista) quem criaram o «Acordo Ortográfico». Mas, porque só eles é que decidiram decisivamente (tentar) aplicá-lo e impô-lo, a «coisa» passou a ser inteiramente deles. Assim, não é incorrecto dizer que escrever «atual», «batismo», «carater», «direto» e «espetador»... é escrever não em português mas sim em «socretinês».
Desde o início deste ano de 2011 que o AO está, cada vez mais, a tirar letras às palavras tal como o Governo está, cada vez mais, a tirar euros às pessoas – nas remunerações e pelos impostos. É pois a ideal «banda», não «sonora» mas «gráfica», destes tempos de falência, crise e recessão causados pela incompetência e pela irresponsabilidade dos que estão no poder há seis anos. O AO representa um empobrecimento na ortografia e na língua que reflecte o empobrecimento na economia e na sociedade.
O «socretinês», no que tem de aberrante, anormal, desviante, está em consonância com as circunstâncias: de a sua «figura tutelar» falar regularmente em «portunhol» e numa espécie estranha de «inglês técnico» em que «Médio Oriente» se torna «Midwest»; e de estar envolvida ou implicada em «casos» como o da «licenciatura ao domingo», o dos lixos da Cova da Beira, as moradias na Guarda, o apartamento em Lisboa, o Freeport, o «Face Oculta», o «PT-Taguspark-TVI» e todas as respectivas escutas.
Mais ainda. O «socretinês», no que tem de aberrante, anormal, desviante, está em consonância com a circunstância de a sua «figura tutelar» ter promovido ou permitido: a «transformação» do Algarve em «ALLgarve»; a prioridade «Espanha, Espanha, Espanha» através da (tentativa de) construção do TGV para Madrid, da desertificação do interior com o aumento do IVA e o fecho de equipamentos sociais (escolas, centros de saúde, maternidades), e da candidatura «ibérica» à organização do Campeonato do Mundo de Futebol de 2016 que elogiava o «homo ibericus» e em que a única língua oficial era o castelhano; a adesão ao «Acordo de Londres» no âmbito da Convenção (de Munique) da Patente Europeia, e que implica a substituição quase integral do português pelo inglês na validação, em Portugal, do registo de patentes – uma decisão que vai contra a promoção internacional da língua portuguesa que o AO alegadamente possibilita.
Não deixa de ser irónico, e significativo, que o actual (des)governo de Portugal peça ajuda preferencial a países onde a democracia não está consolidada ou nem sequer existe, e não ao Fundo Monetário Internacional ou ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira, em que predominam as nações onde os direitos humanos são respeitados... e onde não se tiraram, por caprichos contra-natura de excêntricos pervertidos, os «c» e os «p» a muitas das suas palavras, porque nessas nações impera a certeza de que a língua, por ser o factor principal da identidade nacional, é também um dos suportes fundamentais da independência nacional. E onde nem uma nem outra são levianamente postas em causa por quem verdadeiramente preza a dignidade da sua pátria.
Mais tarde ou mais cedo, a bem ou a mal, de uma maneira ou de outra, o «socretinismo» será inevitavelmente derrubado. E, depois de isso acontecer, não haverá qualquer motivo para que subsista, como mais uma das suas «heranças» hediondas, o escrevinhar esquisito que tão bem o simboliza.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Das eleições de hoje se conclui...

.... Definitivamente que Portugal, cuja maioria dos eleitores continua a dar vitórias claras a Pinto de Sousa e a Cavaco Silva mesmo quando já há um conhecimento completo das suas execráveis personalidades e comportamentos, merece todo o mal que lhe acontece.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Marcar território(s)

Artigo da minha autoria publicado na edição de 27 de Dezembro de 2010 (Nº 7570) do jornal Público.

Há um ano um nome aparecia em destaque nos noticiários de todo o Mundo: Aminatu Haidar. Esta activista política saarauí terminava, em Dezembro de 2009, um mês em greve de fome como protesto contra a sua detenção e posterior expulsão (para as ilhas Canárias, em Espanha) efectuadas, um mês antes, pelas autoridades de Marrocos por alegadamente ela (continuar a) recusar reconhecer a soberania daquele país sobre o território do Saara Ocidental, de onde ela é natural e cuja auto-determinação e independência ela apoia – uma causa pela qual se manifesta há mais de duas décadas e que já lhe valeu, de certeza, vários anos de prisão e, quase de certeza, maus-tratos e torturas.
Este ano, Aminatu Haidar voltou a estar em destaque nos noticiários… de Portugal: em Novembro último visitou o nosso país, tendo recebido no dia 9 daquele mês a Medalha da Universidade de Coimbra «em reconhecimento pela sua postura e actuação cívicas em defesa dos direitos humanos no Saara Ocidental.» Na véspera aquele território voltara a estar momentaneamente sob a atenção da comunicação social internacional devido a uma acção armada marroquina que interveio e desmantelou (n)um acampamento saarauí em Gdeim Izik, perto de El Aaiun, a capital do Saara Ocidental, de que resultaram mortos, feridos e detidos. Neste contexto, Haidar, homenageada também em Lisboa pela Ordem dos Advogados a 10 de Novembro, criticou o comportamento do Governo português por não responder aos seus pedidos de realização de reuniões, e lembrou – sem dúvida para suscitar comparações (inevitavelmente) desfavoráveis entre atitudes do passado e do presente – o papel desempenhado pelo nosso país no processo de auto-determinação e independência de Timor-Leste.
Essas comparações são inteiramente justificadas. Quem se indignou com o que aconteceu em Dili em 1991 não pode deixar de se indignar com o que aconteceu este ano em El Aaiun. Do mesmo modo, quem condenou a violência perpetrada em Llasa em 2008 não pode deixar de condenar a violência perpetrada este ano na capital do Saara Ocidental. Ou seja, quem defende(u) as independências de Timor e do Tibete tem, em consciência, de defender também a independência daquele território do Oeste de África.
Porém, seria injusto colocar, enquanto regime repressor, o Marrocos de Maomé VI ao mesmo (baixíssimo) nível da Indonésia de Haji Suharto e da China de(sde) Mao-Tse-Tung. E há possivelmente um facto(r) muito importante, mas ignorado, que pode explicar (mas não desculpar) em parte, ou na totalidade, o comportamento das autoridades de Rabat na antiga colónia espanhola: o de duas cidades marroquinas, Ceuta e Melilha, continuarem, há quase cinco séculos, sob ocupação colonial de Madrid. No entanto, talvez os nossos vizinhos estivessem disponíveis e dispostos a devolver a soberania sobre aqueles dois enclaves… se soubessem que iriam reaver Gibraltar ao Reino Unido. Este tem Portugal como seu mais antigo aliado na Europa, e que por sua vez tem também um território seu ocupado ilegalmente pela Espanha, e há 200 anos: Olivença.
Há, pois, países e povos que insistem em marcar território(s) como seu(s), embora (já) não tenham legitimidade para tal. E a ocupação efectiva, mesmo que por muito tempo, não é – nunca é – um sinónimo de irreversibilidade: afinal, não foram Hong-Kong e Macau devolvidas à China no final do século passado? Pelo que não seria igualmente desajustado que a Grécia reivindicasse os territórios correspondentes à ex-república jugoslava da Macedónia e à parte leste (do «lado de cá» do Bósforo) da actual Istambul, antiga Constantinopla e Bizâncio.
Tudo isto para concluir que a geopolítica internacional… e intemporal pode fazer-se de ligações e de implicações insuspeitadas. E que uma mulher pode carregar consigo, na sua luta por uma causa que considera justa, e talvez sem o saber, o peso de disputas perenes entre nações.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Braga de Macedo: "Os dois países mais avançados recearam sempre que uma dimensão económica da CPLP"

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"Os dois países mais avançados recearam sempre que uma dimensão económica da CPLP arrastasse expectativas de ajuda pública ao desenvolvimento impossíveis de satisfazer. Uma consequência indesejáveis desse receio foi o atraso da cooperação económica e empresarial, aventada na Cimeira de Maputo em 2000 e decidida na Cimeira de Fortaleza em 2003."
Jorge Braga de Macedo


Eis explicado, de forma sumária mas bem clara, porque é que a cooperação económica entre os países da CPLP continua a frustar todos aqueles que - como nós - que defendemos o desenvolvimento da Comunidade e a sua transmutação gradual numa União Lusófona, não avança: Porque esse não é o desejo sincero dos dois países mais "ricos" da Comunidade... Em termos de riqueza nacional (medida em PIB) transferida para a CPLP, que depois poderia ser repartida entre os países da Comunidade, tal esforço é patéticamente baixo. Os recursos até existem, mas estão dispersos em múltiplos programas bilaterais de ajudas ao desenvolvimento... tem é faltado vontade política e - porque não dizê-lo - atrevimento aos nossos políticos.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sistema de Saúde e Crime: Os dois grandes problemas do Brasil

"O Sistema Único de Saúde é uma reforma incompleta e o próximo governo precisa de dobrar os 3,6 por cento do investimento do PIB. (...) Profundo problema no controlo do crime, sobretudo o organizado, tráfico de drogas e controlo de fronteiras".
Diário de Notícias
29 de setembro de 2010

A campanha presidencial brasileira teve - em Portugal - um grande mérito: multiplicou o número de artigos de divulgação sobre a realidade brasileira. O português médio conhece hoje muito melhor a realidade do país-irmão (e até sabe quem é Tiririca...) do que há apenas uns meses...

Esta curta citação encontra-se num dos múltiplos artigos sobre o Brasil que surgiram esta semana e permite listar dois dos maiores problemas urgentes do Brasil atual: um sistema de Saúde público ineficiente e incompleto e uma Criminalidade muito acima da média dos países desenvolvidos. Estes não são certamente os únicos problemas da sociedade brasileira, mas são - de longe - os mais urgentes. Sem um sistema de Saúde pública disponível a todos os cidadãos não será nunca possível distribuir de forma justa e equitativa a riqueza que o Brasil está agora a ser capaz de gerar. Sem um bom Sistema de Saúde a sua população não pode libertar-se do temor pela doença e da morte prematura com a consequente perda de elementos úteis e produtores de riqueza que isso implica. Sem um bom sistema de saúde infantil, o Brasil não pode construir uma população jovem saudável e criativa nem sequer alinhar-se junto dos países mais desenvolvimentos e dos seus baixos índices de mortalidade infantil.

Mas o problema número Um do Brasil é a criminalidade e, sobretudo, a criminalidade organizada. Alimentada pelo tráfico de droga e por uma extensíssima fronteira terrestre e marítima, o Crime - pela via da corrupção - tornou-se endémico nos meios urbanos e representa hoje o maior travão ao desenvolvimento da sociedade brasileira. O Crime desvia uma parcela considerável da riqueza produzida e deixa refém a classe média, usando os políticos corruptos e uma polícia incapaz de o vencer. Sem uma vitória decisiva contra o Crime, o Brasil nas conseguirá atrair para as suas grandes cidades o Turismo e o Investimento estrangeiro. Sem essa vitória, dificilmente limpará a imagem internacional de subdesenvolvimento e pobreza que ainda o (injustamente) contamina. Mas poderá essa batalha ser vencida sem enfrentar frontalmente o problema que alimenta o Crime que é o da legalização das Drogas? Poderá esta batalha ser vencida sem recuperar para a economia formal os milhões de brasileiros que encontram no submundo do crime a única forma de subsistência? Acreditamos que sim... a via da legalização foi ensaiada - com sucesso - na Holanda e na Suíça e os vários programas sociais da Administração Lula conseguiram tirar 30 milhões de brasileiros. A riqueza começa fluir para toda a sociedade brasileira e o país tornou-se oficial num "país de classe média", algo que era impensável há apenas dez anos atrás. O país tem recursos naturais que ainda nem começaram a ser explorados (o famoso "pré-sal" e muitos solos agrícolas que ainda não estão a ser utilizados. Num país onde a escassez de petróleo é tão certa como a escassez futura de alimentos, esta fórmula representa a garantia de prosperidade para os tempos vindouros. Assim saibam os brasileiros vencer o desafio da Saúde Pública e do Crime Organizado. E saberão, estamos certos.

domingo, 17 de outubro de 2010

Sobre a elevada interdependência das colónias portuguesas

“Talvez o rasgo mais original da colonização portuguesa seja a interdependência que cedo se estabeleceu entre as várias colónias, criando “laços especiais” entre elas, tão ou mais fortes que com a metrópole, sempre carente de recursos financeiros e humanos para acudir às necessidades dos colonos.”
Miguel Jasmins Rodrigues

A História da presença portuguesa no Além-mar é paradoxal: é uma História que revela uma extraordinária força anímica e uma gigantesca capacidade de concretização, cabalmente demonstradas pela fundação do primeiro “império” global da História, com raízes ainda bem firmes quase meio milénio depois, mas é – paradoxalmente – uma história de fraqueza e de engenho, flexibilidade e improvisação em a ultrapassar.

Como bem escrevia Fernando Pessoa: “Portugal era um anão, com braços de gigante,, procurando abraçar o mundo”. Nem mesmo no zénite do processo da Expansão, Portugal teve, com efeito, os meios demográficos e financeiros para sustentar tal empresa. Desde cedo, devido a essas fragilidades, houve necessidade de conceder às parcelas mais remotas do império um grau de autonomia muito elevado, fundando o Vice-Reinado e concedendo grande liberdade aos capitães das praças mais longínquas, como Malaca ou Timor. A distância explica essa grande autonomia da presença no oriente, sendo do próprio oriente que partiam as expedições de socorro quando uma determinada praça ou fortaleza se encontravam em apuros: Lisboa estava a dois anos de distância e frequentemente não tinha uma ideia realista da situação local… foi assim que Malaca e Ceilão foram socorridas várias vezes diretamente por Goa e que, mais tarde, Luanda seria libertada dos holandeses por uma esquadra armada, guarnecida e diretamente comandada por colonos brasileiros…

A razão maior do sucesso e perenidade extraordinária da presença portuguesa no Oriente, de facto bem maior do que a de outras potencias bem mais nutridas, como a França e a Holanda, é a descentralização da administração local. Não somente no aspecto da administração política e militar, vertentes já apontadas no parágrafo anterior, mas até na constituição dos escalões intermédios e altos da administração, amplamente municiados por indígenas (caboverdianos em África e goeses no Oriente) e no exército. No campo militar, a formação de famílias mistas, incentivada por Albuquerque revelou-se fundamental para formar um estrato demográfico conhecido no Oriente como os “casados” que serviriam de comandantes militares e administrativos em todo o Oriente, chefiando forças de origem indígena que constituíam geralmente o grosso dos contingentes militares, sempre raros de tropas metropolitanas (afetadas pelas altas taxas de doença e deserção). Sem esta transferência da Defesa e da Administração para os povos locais, nunca teria sido possível manter uma presença em Goa até 1961 ou em Timor e África até 1975, tamanha era a desproporção de forças para com potentados e impérios locais e para com outras potencias europeias.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sobre a saída da pobreza de 30 milhões de brasileiros e da transformação do Brasil num país de "classe média"

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"Na primeira década do terceiro milénio, cerca de 30 milhões de brasileiros subiram da base para o meio da pirâmide social, graças à melhoria da educação e às possibilidades de "arrumar" um emprego no mercado formal.
O Brasil é hoje um país de classe media, isto é, onde mais de metade da população possui rendimentos considerados para mínimos para aceder às exigências próprias de uma classe média, incluindo neste rol o acesso à habitação própria.
Estes milhões de brasileiros, que deixaram de ser pobres e começaram a poder beneficiar dos confortos tidos como típicos de classe média, são a melhor prova do progresso do Brasil. Todos os países desenvolvidos economicamente e socialmente têm uma população maioritariamente constituída por classe média."
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Diário de Notícias
29 de setembro de 2010


Se o Brasil conhece hoje um crescimento sólido e sustentado tal deve-se ao facto deste assentar não no crescimento continuado das exportações - às custa de dumpings de vários - mas na entrada na economia real destes consumidores. Com efeito, se a China encontrou no aumento explosivo das exportações (à custa de criar desemprego crónico pelo mundo fora e de condições de trabalho sub-humanas), o Brasil encontrou numa fórmula de três variáveis o "segredo" do seu desenvolvimento:
1. Crescimento do Consumo Interno, o que o tornou resistente às quebras da Procura internacional de 2008
2. Desenvolvimento da exportações de produtos agrícolas, num mundo onde estes são cada vez mais procurados
3. Defesa da indústria local e um setor público forte e dinâmico

A combinação destes três fatores explicam a solidez do crescimento económico brasileiro e o extraordinário sucesso de hoje o Brasil ser um país de classe média, em que mais de metade da população já pertence a esse estrato social. Foi esta nova classe média que manteve níveis de consumo interno elevados, que compensaram a queda internacional.

O Brasil é hoje uma potencia económica internacional porque conseguiu quebrar esse bloqueio antigo que era o de ser um país sem classe média, onde um abismo de rendimentos separava os magnates dos brasileiros das favelas. E esse é um feito dos governos Lula... sem esquecer os importantes passos percursores de Fernando Henriques Cardoso, que Lula teve a sabedoria de não destruir.