BLOGUE DO MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO
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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.
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Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)
A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)
Agostinho da Silva
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terça-feira, 9 de abril de 2019
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
NOVA ÁGUIA e MIL em destaque no Jornal de Angola...
A Casa de Angola, em Lisboa, acolheu, no fim-de-semana, o lançamento da vigésima segunda edição da revista portuguesa “Nova Águia”, apresentada pelo Movimento Internacional Lusófono (MIL).

A revista, que vai para as bancas semestralmente, aborda questões culturais dos países lusófonos e tem assumido o propósito de sem qualquer complexo histórico dar voz às várias culturas.
Em declarações à Angop, o director da revista “Nova Águia”, Renato Epifânio, disse que na presente edição estão em destaque vários temas, dentre os quais trabalhos da artista plástica angolana Márcia Dias, que tem dado um contributo à divulgação e reconhecimento da cultura de Angola.
Renato Epifânio acrescentou ainda na abertura da revista que está publicada uma selecção de textos apresentados no V Congresso da Cidadania Lusófona, promovido pelo MIL, em 2017.
Renato Epifânio acrescentou que a “Nova Águia” pretende obter o contributo das mais relevantes figuras da cultura lusófona.
sábado, 19 de janeiro de 2019
Próximas sessões de apresentação da NOVA ÁGUIA...
16.01.19 – 18h30: Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva
(Braga)
18.01.19 – 18h30: Escola Superior de Medicina Tradicional
Chinesa (Lisboa)
25.01.19 – 18h30: Casa de Angola (Lisboa)
08.02.19 – 18h30: Associação Caboverdeana de Lisboa
domingo, 25 de novembro de 2018
Os primeiros em Holanda
Recebeu uma especial atenção – e mereceu um considerável apoio académico e institucional (note-se, neste aspecto, a existência de três comissões, de honra, científica e executiva) – a realização do congresso internacional «Francisco de Holanda (1517/18-1584) – Arte e Teoria no Renascimento Europeu», realizado em Lisboa no final desta semana que passou, a 22 e 23 de Novembro n(a sala polivalente do Centro de Arte Moderna d)a Fundação Calouste Gulbenkian, e a 24 n(o anfiteatro d)a Biblioteca Nacional de Portugal…
… Embora tenham sido os membros e os convidados do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e do Movimento Internacional Lusófono, após proposta minha, os que primeiro celebraram, no ano passado, a vida e a obra daquele grande artista português do século XVI, e, em especial e mais concretamente, o 500º aniversário do seu nascimento, através do colóquio «Francisco de Holanda (1517-2017) – Pintura e Pensamento», decorrido a 4 de Dezembro também na BNP. O «atraso» da outra iniciativa deve-se, aparentemente, à convicção da sua principal responsável de que o autor de «Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa» nasceu em 1518 e não no ano anterior – uma convicção que, pelo menos até ao momento, não encontra qualquer confirmação nas fontes documentais disponíveis.
É de salientar que a(maioria da)s comunicações apresentadas no nosso colóquio já estão publicadas - no Nº 22 da revista Nova Águia, correspondente ao segundo semestre de 2018.
Publicado por
OCTÁVIO DOS SANTOS
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* Octávio dos Santos,
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Francisco de Holanda,
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MIL-Iniciativas,
Nova Águia
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domingo, 28 de outubro de 2018
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
quarta-feira, 24 de outubro de 2018
24 de Outubro, no Palácio da Independência (Lisboa): Lançamento da NOVA ÁGUIA nº 22...
Com António Braz Teixeira, Renato Epifânio e Delmar Domingos de Carvalho.
Fotos de Luís de Barreiros Tavares.
sexta-feira, 6 de julho de 2018
Autores e Temas em destaque para a NOVA ÁGUIA 23...
Caso queira, deixe-nos as suas sugestões na caixa de comentários ou envie-nos por e-mail: novaaguia@gmail.com
sábado, 21 de abril de 2018
terça-feira, 27 de março de 2018
segunda-feira, 26 de março de 2018
Lançamento da NOVA ÁGUIA nº 21...
Iniciamos este número por dar
mais um Abraço a José Rodrigues, publicando mais uma série de textos (mais de
uma dúzia) que nos chegaram, conjuntamente com algumas ilustrações e poemas,
nomeadamente de Fernando Guimarães.
A secção seguinte é dedicada a
Fidelino de Figueiredo. Em 2017 assinalaram-se os 50 anos de seu falecimento e
o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira promoveu um Colóquio sobre a sua Obra.
Alguns dos textos então apresentados são aqui publicados, associando-se assim a
NOVA ÁGUIA a esta Homenagem a uma grande figura da cultura lusófona, tais as
pontes que criou: entre Portugal e o Brasil, entre Filosofia, História e
Literatura.
De seguida, na esteira do
número anterior, em que assinalámos os 150 anos do nascimento de Raul Brandão,
publicamos mais alguns textos sobre o autor de Húmus, bem como sobre António Nobre, nascido no mesmo ano de 1867.
Em “Outras Evo(o)cações”, estendemos o nosso olhar a uma extensa série de
outras figuras relevantes da cultura lusófona: de Afonso Botelho e Agostinho da
Silva a Vergílio Ferreira e Vicente Ferreira da Silva.
Em “Outros Voos”, como
igualmente é já um clássico, abordamos as mais diversas temáticas, a começar,
guiados por Adriano Moreira, pela questão do “sagrado”, tema do II Festival
Literário TABULA RASA, que decorreu em Novembro de 2017, co-organizado pelo
MIL: Movimento Internacional Lusófono e pela NOVA ÁGUIA. Em “Extravoo”,
publicamos, uma vez mais, alguns inéditos: nomeadamente, de Agostinho da Silva
e José Enes. Nesta secção, publicamos ainda um inédito de Dalila Pereira da
Costa, uma das figuras em destaque no próximo número, por ocasião dos 100 anos
do seu nascimento.
Fazendo ainda referência a
essas três outras secções já clássicas – “Bibliáguio”, Poemáguio” e
“Memoriáguio” –, salientamos enfim os autores em destaque no próximo número:
para além de Dalila Pereira da Costa, iremos igualmente evocar Francisco de
Holanda, publicando uma série de textos apresentados num Colóquio que decorreu
em Dezembro de 2017, por ocasião dos 500 anos do seu nascimento, uma vez mais
por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-brasileira.
De igual modo, publicaremos no
próximo número da NOVA ÁGUIA os textos apresentados no V Congresso da Cidadania
Lusófona, coordenado pelo MIL, que decorreu em Novembro de 2017 e que, uma vez
mais, juntou representantes de Associações da Sociedade Civil de todos os
países e regiões do amplo e plural espaço de língua portuguesa. Número após
número, a NOVA ÁGUIA vai, pois, cimentando pontes: entre a cultura portuguesa e
as demais culturas lusófonas (antecipamos, a esse respeito, a publicação, no
próximo número, de mais um fundamental ensaio de António Braz Teixeira, sobre a
“expressão e sentido da saudade na poesia angolana e moçambicana”).
Post Sciptum: Dedicamos este número a Pinharanda Gomes, que,
depois de ter recebido o “Prémio Vida e Obra” do II Festival Literário TABULA
RASA, foi homenageado pela Universidade Portuguesa, que, curvando-se igualmente
(e finalmente) perante a sua monumental Vida e Obra, lhe atribuiu, em Março
deste ano, o mais do que justo “Doutoramento Honoris Causa”.
Lançamento: Sociedade de Geografia de Lisboa, 28 de Março, 16h30.
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
15-18 de Novembro: Programa final do 2º Festival TABULA RASA
O Programa foi publicamente apresentado no dia 24 de Fevereiro de 2017, data em que lançámos igualmente o volume que resultou da primeira edição deste Festival.
Conforme o publicitado no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Fátima, entidade promotora do evento, no dia 24 de Fevereiro, e, mais recentemente, no dia 9 de Março, no Palácio da Independência, sede do MIL: Movimento Internacional Lusófono e da NOVA ÁGUIA: Revista de Cultura para o Século XXI, entidades organizadoras, está já acessível o Programa do II Festival TABULA RASA, que irá decorrer entre os dias 15 e 18 de Novembro. Assim, no primeiro dia, teremos, da parte da tarde, o Anúncio dos Prémios “Obras TABULA RASA 2016-2017”, a serem entregues no última dia, bem como as Conferências de Abertura, a serem proferidas por Adriano Moreira e Guilherme d’Oliveira Martins. Depois do jantar, teremos a apresentação da Revista NOVA ÁGUIA Nº 20 e de outras obras.
No dia seguinte, inicia-se uma série de quatro painéis, que se estendem pelo terceiro dia, sobre “A Literatura e o Sagrado” (tema geral deste II Festival – recordamos que o tema geral do I Festival, que decorreu em 2015, foi “A Literatura e a Filosofia”) nos diversos países e regiões do espaço de língua portuguesa: em Portugal, por Annabela Rita; em Angola, por Carlos Mariano Manuel; no Brasil, por Mariene Hildebrando; em Cabo Verde, por Elter Manuel Carlos; na Galiza, por Maria Dovigo; em Goa, por Henrique Machado Jorge; na Guiné-Bissau, por Pequi Mpuló; em Malaca, por Luísa Timóteo; em Macau, por Jorge Rangel; em Moçambique, por Delmar Maia Gonçalves; em São Tomé e Príncipe, por Orlando Piedade; e, finalmente, em Timor-Leste, por Luís Cardoso.
Para além desta dimensão lusófona, este Festival terá ainda uma dimensão ecuménica, com um painel, no dia 16, sobre “O sagrado nas várias tradições religiosas”: na tradição católica, por Samuel Dimas e Joaquim Domingues; na tradição islâmica, por Fabrizio Boscaglia; na tradição judaica, por Pedro Martins; na tradição druídica, por Joaquim Pinto; na tradição oriental, por Rui Lopo. No dia seguinte, teremos um outro painel sobre “O sagrado no pensamento, na poesia, na música e nas artes plásticas”; no pensamento, por Manuel Cândido Pimentel; na poesia, por Luísa Malato e Celeste Natário; na música, por Edward Luiz Ayres d'Abreu; nas artes plásticas, por José Carlos Pereira. Nas noites de 16 e 17, teremos ainda dois painéis-tertúlia onde alguns escritores falarão sobre a sua experiência de escrita: Fernando Pinto do Amaral, Maria João Cantinho e Isabel Alves de Sousa (16); João de Melo, Alexandre Honrado e Risoleta Pinto Pedro (17).
Na manhã de dia 18, finalmente, no Hotel de Sta. Maria, onde decorrerão muitas das sessões (a par das instituições de ensino locais), entregar-se-ão os Prémios “Obras TABULA RASA 2016-2017”, nas diversas categorias: literatura infanto-juvenil (justificação: Pedro Teixeira Neves); poesia (justificação: António José Borges); ficção (justificação: António Ganhão); filosofia (justificação: Luís Lóia). Depois, conforme o já anunciado, Miguel Real irá justificar a entrega do Grande Prémio “TABULA RASA Vida e Obra” a Pinharanda Gomes, que fará depois também uma intervenção. Por fim, ainda antes do almoço, far-se-á o encerramento formal do II Festival, sendo certo que, pela tarde fora, bem como nos três dias anteriores, teremos alguns momentos culturais surpresa. Não é, de facto, por acaso que os Festivais TABULA RASA assumiram o lema: “Muito mais do que um Festival Literário…”.
Co-organização MIL/ NOVA ÁGUIA - para mais informações:
sexta-feira, 13 de outubro de 2017
terça-feira, 26 de setembro de 2017
Entrevista sobre a NOVA ÁGUIA e o MIL (I-IV)
1: Na tua opinião,
a Nova Águia, passados 9 anos desde a
sua criação (2008), conseguiu de facto ser uma digna herdeira do espírito da
revista A Águia cujos princípios
editoriais no início do século XX eram o debate de ideias e a reflexão sobre o
pensamento português?
A Revista Nova Águia procura honrar o espírito da Revista A Águia (1910-1932), órgão do movimento
da "Renascença Portuguesa", que reuniu a elite cultural da sua época
(falo de nomes como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão,
Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da
Silva). À semelhança da revista A
Águia, que procurou dar uma orientação maior à República (lembramos que ela
foi lançada a 1 de Dezembro de 1910), a Nova
Águia, procura, com o mesmo espírito, repensar a nossa situação no começo
do século XXI. Ela foi lançada em 2008 para, sobretudo,
promover o conhecimento da nossa tradição filosófica e cultural numa
perspectiva futurante - na premissa de que nenhum povo que despreze a sua
tradição poderá ter real futuro. Não havia nenhuma revista que, a nosso ver,
cumprisse essa missão. Continua a não haver, sendo que a Nova Águia tem conseguido ter um horizonte
ainda mais amplo do que teve a revista A
Águia, ao estabelecer, em todos números, pontes com todos os restantes
países e regiões do espaço de língua portuguesa.
2: Tens sido o
porta-voz deste projecto, uma vez que és uma presença activa nas apresentações
que fazes da revista pelo país. Como tem sido a receptividade do público?
Não temos tido razões de queixa. A Nova Águia é verdadeiramente um
"case study" - e como tal tem sido vista (inclusive em
Universidades): uma revista sem relevantes apoios, completamente independente,
que se debruça sobre temas "difíceis", sem qualquer concessão à
"facilidade" (como acontece com a maior das revistas), que, de número
para número, cresce em número de leitores. Para mais, chamo a atenção de que a Nova Águia, para além do nome de uma
revista semestral, é também o título de uma Colecção de Livros, que já vai em
mais de cinco dezenas de volumes, para além de outros títulos que o MIL tem
editado. Temos, porém, a consciência que esta é uma corrida (ou um
“voo”) de fundo. Costumamos até dizer, nas múltiplas sessões que promovemos por
todo o país, que este é um caminho para maratonistas, não para velocistas…
3: Temos leitores
em Portugal para acompanhar, intervir e discutir os temas específicos que a
revista Nova Águia propõe nas suas
edições?
Até ao momento, sim, sendo que os sinais que vamos tendo
vão no bom sentido. Há um grupo de leitores cada vez maior e mais interessado
nas temáticas da cultura lusófona. E, quanto a colaborações, elas têm sido
sempre mais do que suficientes para compor cada novo número. De tal modo que,
em geral, nem sequer fazemos convites. Os textos vão sempre aparecendo,
naturalmente, inclusive das figuras maiores do nosso universo cultural – falo,
entre outros, de Adriano Moreira, António Braz Teixeira, Eduardo Lourenço,
Manuel Ferreira Patrício e Pinharanda Gomes, não esquecendo aqueles que já
faleceram mas que ainda acompanharam os primeiros passos da Nova Águia, como António Telmo, António
José de Brito e Dalila Pereira da Costa.
4: De que modo a
Nova Águia chega ao espaço lusófono?
Essa tem sido a nossa maior dificuldade. Como a Nova Águia não quer estar dependente de
apoios externos (para não ficar condicionada por eles), não tem tido ainda a
pujança financeira para chegar, de forma mais constante, a todo o espaço
lusófono. Mas, ainda assim, temo-lo conseguido, desde logo através de Congressos
Internacionais para onde temos sido convidados e onde aproveitamos sempre a
oportunidade para publicitarmos este projecto – em Março deste ano, estivemos
em Macau; recentemente, estivemos ainda no Brasil e em Cabo Verde. E, à Galiza,
vamos sempre todos os semestres para apresentar cada novo número da Nova Águia…
5: Qual é a
relação entre o MIL – Movimento Internacional Lusófono e a revista Nova Águia?
A Revista Nova
Águia é o órgão do MIL, tal como A
Águia foi o órgão do Movimento da Renascença Portuguesa. Mas não
propriamente um órgão de propaganda, até porque o MIL não é um partido
político, ou algo que se pareça. É, simplesmente, uma revista que reflecte os
nossos valores e o nosso objectivo: promover uma cada maior convergência entre
os países e regiões do espaço de língua portuguesa.
6: Na revista
também dão voz aos poetas (secção “Poemáguio”). A poesia como reflexão e
consciência de um Portugal Novo é um desafio para esta geração de poetas?
Sim, a Nova Águia
é essencialmente uma revista de ensaio, de pensamento livre, mas tem também
sido, em todos os números, uma revista de poesia, até em reconhecimento da
importância da poesia não apenas na cultura portuguesa, mas em toda a cultura
lusófona, em geral.
7: A par do MIL –
Movimento Internacional Lusófono e da Nova Águia – Revista de Cultura para o
Século XXI, está a CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Em
conjunto, encenam acções culturais que visam uma certa realização espiritual e
filosófica do mundo lusófono, num campo congregador de ideias e atitudes
enquanto valores próprios de sociedades mais conscientes, livres e justas, nas
suas dimensões cultural, social, cívica e política e numa perspectiva
pedagógica. Que conceitos filosóficos de Agostinho da Silva estão na base deste
grande objectivo?
Quando lançámos o MIL, em 2008, ainda na esteira das
Comemorações do Centenário do Nascimento de Agostinho da Silva, que decorreram
em 2006 e por boa parte do ano de 2007, houve um amigo brasileiro que disse que
o MIL era a “criação da CPLP por baixo” – ou seja, ao nível da sociedade civil.
Cada vez mais, parece-nos ser esse o caminho: quando a sociedade civil tiver
peso suficiente para influenciar os diversos Partidos e Governos no bom
sentido, ou seja, no sentido da Convergência Lusófona, tudo o mais virá por
arrasto. A própria CPLP terá outra dinâmica, conforme o MIL tem igualmente
reclamado. Entretanto, reconhecemos que a CPLP está muito aquém do sonho de
Agostinho da Silva, que, ainda nos anos 50, prefigurava uma “Confederação dos
povos de língua portuguesa”, tendo mesmo chegado a falar de um mesmo “Povo não
realizado que actualmente habita Portugal, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé e
Príncipe, o Brasil, Angola, Moçambique, Macau, Timor, e vive, como emigrante ou
exilado, da Rússia ao Chile, do Canadá à Austrália” (“Proposição”, 1974).
8. Que sentido e
destino para a Comunidade Lusófona na contemporaneidade, tendo em conta a crise
política e económica que se vive em Portugal e que parece esgotar o nosso país
num espaço de mera sobrevivência no dia-a-dia?
É preciso ter uma perspectiva de médio-longo prazo. Por
isso, temos procurado defender e difundir o conceito da cidadania lusófona, nos
Congressos da Cidadania Lusófona (já se realizaram quatro, até ao momento), no
âmbito dos quais temos sedimentado uma Plataforma de Associações da Sociedade
Civil. Quanto mais a sociedade civil se afirmar à escala lusófona, mas próximo
estará esse Horizonte. Mas não temos pressa. Acreditamos que temos a dinâmica
da própria história do nosso lado…
9. Há ainda lugar
para uma utopia criadora no espaço lusófono, apesar da pobreza e das fracas
perspectivas de futuro para os jovens?
Temos consciência de que por vezes o quotidiano, por ser
tão adverso, não permite a consideração dessas visões mais de médio-longo
prazo. Mas os sinais que vamos recebendo, em particular por parte dos jovens,
são positivos. Até porque, em geral, estes já não carregam em si alguns
ressentimentos históricos que, no passado, dificultaram esse caminho de
convergência entre os países e regiões do espaço de língua portuguesa.
10. Numa
perspectiva geográfica, o mapa do mundo lusófono apresenta regiões muito
distantes umas das outras. Também a nível dos valores culturais, sociais,
cívicos e políticos consolidados nas diferentes comunidades se verifica o mesmo
distanciamento?
Essa dispersão geográfica é, em si mesma, uma dificuldade
e uma mais-valia, até em termos comparativos (com o espaço de língua
castelhana, por exemplo, com muito menor projecção global). Com as novas
tecnologias de comunicação, essa dificuldade é cada vez menor, porém. Falamos
pela nossa experiência no MIL. Temos, por exemplo, um Conselho Consultivo,
constituído por uma centena de pessoas, de todos os países e regiões de língua
portuguesa. Recorrendo a essas novas tecnologias de comunicação, tem sido
possível recolher, em tempo útil, os contributos de todas essas pessoas do
nosso Conselho Consultivo.
11. Portugal é um
pequeno país que integra uma comunidade europeia desde 1986, com ideais,
dependências e políticas europeias. Tendo em atenção tudo o que essa adesão
acarreta, e do ponto de vista cultural, o Portugal contemporâneo já é um país
europeu ou ainda é um país lusófono?
Esse é, a nosso ver, um falso dilema. Na visão do MIL,
a plataforma lusófona não tem que se afirmar contra ninguém, nem por exclusão.
Pelo contrário, se Portugal não tivesse desprezado tanto a plataforma lusófona
estaria hoje numa posição bem mais fortalecida na plataforma europeia. E o
inverso também sucede: uma das mais-valias de Portugal na plataforma lusófona é
a sua integração na plataforma europeia. Elas não são pois excludentes entre si
– ao invés, reforçam-se mutuamente. E o mesmo diremos do Brasil – na sua
integração na plataforma sul-americana (Mercosul) –, de Timor-Leste – na sua
integração na plataforma extremo-asiática (ASEAN) – e dos vários países
africanos, que estão também, muito naturalmente, integrados em diversas
plataformas político-económicas desse continente.
12. Como investigador na área da “Filosofia em Portugal” tens dezenas
de estudos publicados. Na tua opinião, e a partir de uma visão crítica muito
pessoal, qual foi a obra mais exigente em termos de pesquisa e validação científica?
Decerto, a obra mais exigente
em termos de pesquisa e validação científica foi a minha dissertação de Doutoramento em Filosofia, Fundamentos e Firmamentos do pensamento português contemporâneo: uma
perspectiva a partir da visão de José Marinho, defendida em 2004 na
Universidade de Lisboa. Isto sem desprimor para qualquer das outras obras que
entretanto lançámos: Visões de Agostinho da Silva (2006), Repertório da Bibliografia Filosófica
Portuguesa (2007), Perspectivas sobre
Agostinho da Silva (2008), Via
aberta: de Marinho a Pessoa, da Finisterra ao Oriente (2009), A Via Lusófona: um novo horizonte para
Portugal (2010), Convergência
Lusófona (2012/ 2014/ 2016), A Via
Lusófona II (2015) e A Via Lusófona
III (2017).
13. Na obra Tabula Rasa
(2017) reflectiste sobre o 1º Festival Literário de Fátima – A Literatura e a
Filosofia. Se os festivais literários tendem a impressionar pela “espuma”
evanescente do desfile de personalidades mais ou menos importantes ou
mediáticas, este 1º FLF foi, tendencialmente, um Festival de Ideias, ao
privilegiar a “espessura” e a “profundidade” na reflexão dos participantes.
Quais os aspectos positivos que realças desse evento literário e filosófico?
De facto, mais do que um Festival Literário, esta iniciativa
co-organizada pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono e pela Revista NOVA
ÁGUIA foi sobretudo um Festival de Ideias – por isso, não por acaso, o tema foi
a “Relação entre a Literatura e a Filosofia”. Para tanto, convidámos um amplo leque
de personalidades que fizeram essa ponte – não apenas entre Literatura e
Filosofia, como entre as diversas culturas de língua portuguesa. Daí a estrutura
do Festival: que alternou nove painéis “Entre Literatura e Filosofia” com quatro
mesas-redondas que se debruçaram sobre o panorama cultural de cada um dos
países e regiões do amplo e plural espaço lusófono, série iniciada logo no
primeiro dia, em que destacamos a participação de Carlos Ximenes Belo e a
extensa assistência que se foi alargando ainda mais ao longo do Festival,
nomeadamente com a presença de muitos jovens. No segundo dia, tivemos mais alguns
convidados internacionais – nomeadamente, Maria Amélia Barros Dalomba, da Liga
Africana (Angola), Elter Manuel Carlos, um dos mais promissores investigadores
de Cabo Verde, e Constança Marcondes César, uma das mais consagradas filósofas
brasileiras. Estes dois autores, de resto, apresentaram no terceiro dia as suas
mais recentes obras: “Filosofia, Arte e Literatura” e “Olhares Luso-Brasileiros”
(edições MIL). No quarto dia, destacamos a apresentação de mais um número da
Revista “Nova Águia”. No último dia, finalmente, realizou-se a entrega dos prémios
“Obras Tabula Rasa” – nas seguintes quatro categorias: Literatura
infanto-juvenil (Maria da Conceição Vicente e Catarina Pinto), Poesia (Nuno
Júdice), Ficção (Gonçalo M. Tavares) e Filosofia (Joaquim Cerqueira Gonçalves)
–, tendo-se encerrando o Festival com a entrega do Grande Prémio “Tabula Rasa -
Vida e Obra” a Eduardo Lourenço. Uma vez mais, perante uma muito extensa
assistência.
Entrevista de Adília César e Fernando Esteves Pinto a Renato Epifânio
sexta-feira, 25 de agosto de 2017
O contributo de António Braz Teixeira na Revista NOVA ÁGUIA
Fazemo-lo por
duas razões fundamentais – em primeiro lugar, porque a Revista NOVA ÁGUIA é
inequivocamente, no panorama nacional, a publicação que mais tem defendido e
difundido esse conceito de uma Filosofia Lusófona, no universo mais vasto de
uma Cultura Lusófona, ou, se preferirem, de uma Cultura de Língua Portuguesa;
em segundo lugar, porque o contributo ensaístico de António Braz Teixeira para
a Revista NOVA ÁGUIA tem sido uma amostra maior da amplitude e profundidade dos
seus interesses filosóficos e culturais, que denotam uma curiosidade que
assumimos invejar. Tendo o privilégio de conversar frequentemente com António
Braz Teixeira, ficamos, com efeito, muitas vezes impressionados com a
curiosidade dir-se-ia “juvenil” de António Braz Teixeira. Nas mais diversas
áreas da cultura – da filosofia à poesia, do romance ao cinema, do teatro à música,
da pintura à arquitectura –, António Braz Teixeira parece andar sempre à
procura de “coisas novas”.
Isso não o faz,
porém, escamotear o cultivo da nossa memória filosófico-cultural – bem pelo
contrário. Quando não é próprio a fazê-lo, nos seus ensaios, tem sido António
Braz Teixeira, mais do que qualquer outra pessoa, a propor-nos, para a Revista
NOVA ÁGUIA, o tratamento de algumas figuras (não apenas da cultura portuguesa,
mas lusófona em geral), algumas delas, confessamo-lo, para nós à partida quase
que inteiramente desconhecidas. Quase sempre, o pretexto é o assinalar de uma
efeméride (seja do nascimento, seja da morte). Temos até em nossa posse uma
lista, elaborada por António Braz Teixeira, que se estende até 2030, com as
figuras que, em cada ano, mais importará recordar. Como pretendemos continuar
muito para além de 2030, ficaremos pois à espera que, até lá, António Braz
Teixeira estenda essa listagem por, pelo menos, mais três décadas…
Mas
centremo-nos então no nosso definido universo textual, verificando em que
medida António Braz Teixeira tem estabelecido pontes: entre Portugal e o
Brasil, desde logo, mas também com outros lugares do amplo e plural espaço
lusófono; entre a Filosofia e outras áreas da ampla e plural cultura de língua
portuguesa. O primeiro desses ensaios intitula-se “Breve nota sobre Agostinho
da Silva e a ‘Escola de São Paulo’” e foi publicado a abrir o número dedicado a
Agostinho da Silva, por ocasião dos 15 anos da sua morte (NOVA ÁGUIA nº 3, 1º
semestre de 2009). O ensaio não é muito extenso mas é muito mais do que uma
“Breve nota”, sobretudo porque, sem escamotear as suas origens, que passaram
também pela inicial Faculdade de Letras do Porto – verdadeiro berço de ouro de
toda a posterior Filosofia Portuguesa –, integra Agostinho da Silva na
realidade filosófica brasileira da sua época, em particular, na “Escola de São
Paulo”, conceito que, como é sabido, foi por António Braz Teixeira consagrado,
a ponto de ter sido o título de um dos seus mais recentes livros (MIL/ DG
Edições, 2016).Esse interesse particular pela ponte luso-brasileira é igualmente evidente noutros ensaios – a título de exemplo: “Miguel Reale, Historiador das Ideias” (NOVA ÁGUIA nº 6, 2º semestre de 2010); “Nos duzentos anos de Domingos Gonçalves de Magalhães” (NOVA ÁGUIA nº 8, 2º semestre de 2011); “Na morte de Milton Vargas” (NOVA ÁGUIA nº 10, 2º semestre de 2012); “A filosofia do ‘senso comum’ de Heraldo Barbuy (1913-1979)” (NOVA ÁGUIA nº 12, 2º semestre de 2013); “A ética neo-tomista na filosofia luso-brasileira contemporânea” (NOVA ÁGUIA nº 17, 1º semestre de 2016); “O teatro de Ariano Suassuna” (NOVA ÁGUIA nº 18, 2º semestre de 2016). Noutros ensaios, tem ampliado ainda mais a extensão dessas pontes filosófico-culturais – falamos, em particular, dos ensaios “A saudade na poesia da ‘Claridade’” (NOVA ÁGUIA nº 19, 1º semestre de 2012); “Breve nota sobre a poesia de Rui de Noronha” (NOVA ÁGUIA nº 14, 2º semestre de 2014); “A saudade na poesia de Rui Knopfli” (NOVA ÁGUIA nº 16, 2º semestre de 2015).
Tudo isto sem nunca perder de vista a sua matriz – António Braz Teixeira é, como se sabe, alguém que se insere na linhagem mais nobre da Filosofia Portuguesa –, que ressurge, de forma mais ou menos directa, nos seguintes ensaios: “Breve nota sobre a saudade no Livro do Desassossego” (NOVA ÁGUIA nº 7, 1º semestre de 2011); “Álvaro Ribeiro: Filósofo Criacionista” (NOVA ÁGUIA nº 8, 2º semestre de 2011); “O diálogo crítico de Leonardo Coimbra com Bruno, Junqueiro e Pascoaes” (NOVA ÁGUIA nº 11, 1º semestre de 2013); “O liberalismo de Orlando Vitorino: nos 10 anos da sua morte” (NOVA ÁGUIA nº 12, 2º semestre de 2013); “A Ética dialéctica de António José de Brito” (NOVA ÁGUIA nº 13, 1º semestre de 2014); “’O Penitente’, uma biografia metafísica de Camilo” (NOVA ÁGUIA nº 15, 1º semestre de 2015); “A reflexão estética de Vergílio Ferreira” (NOVA ÁGUIA nº 19, 1º semestre de 2017); “Em torno do teatro de Raul Brandão” e “Francisco Manuel de Melo, Moralista” (NOVA ÁGUIA nº 20, 2º semestre de 2017). Sem esquecer ainda o seu lucidíssimo ensaio, este mais político, “O estado da República” (NOVA ÁGUIA nº 6, 2º semestre de 2010), resta-nos concluir, dizendo apenas: “Por tudo isto, Gratos, Professor Braz Teixeira!”.
terça-feira, 18 de julho de 2017
Texto de Guilherme d’Oliveira Martins para a NOVA ÁGUIA 20...
A última vez que fui à
Cooperativa Árvore senti a falta do meu amigo José Rodrigues – mas felizmente
encontrei outro querido amigo, Albano Martins, e lembrei-me da extraordinária
versão de «O Cântico dos Cânticos de Salomão», a partir do grego, com dez
litografias originais do inesquecível escultor, gravadas em pedra de Baviera. É
uma obra única, editada pela Cooperativa Árvore por ocasião dos seus 25 anos
(Porto, 1988), integrada na coleção «Moinho de Vento», dirigida com a qualidade
inconfundível do nosso primeiro editor, José da Cruz Santos. E se é certo que,
como habitualmente, este se limitou a enviar um belo texto, a verdade é que
todos recordámos, como memória viva, o querido José Rodrigues. A obra é
raríssima e está há muito esgotada, sendo disputada nos alfarrabistas. Hoje
merece uma referência muito especial, ao homenagearmos o escultor e o amigo, e
ao invocarmos também a Cooperativa Árvore e o talento e a sensibilidade do
editor fantástico da Oiro do Dia ou da Modo de Ler.
«A cidade assemelha-se a um bloco de granito onde
corre sempre um raio de luz». Não conheço melhor definição desta querida cidade
do Porto do que a de José Rodrigues, o escultor, o artista, o intérprete
extraordinário deste lugar único. E hoje como símbolo do Porto temos o cubo da
Ribeira, que se tornou uma referência adotada como sua pela gente da cidade.
«Pensei numa coisa diferente dos temas a que sempre recorria – estátuas de
mulheres nuas, bombeiros ou cavalos. E por que não um cubo com um jacto de água
de forma a dar a ideia de que esse pequeno movimento pudesse pôr em suspenso
aquelas duas toneladas de bronze». E aqui está o símbolo da vontade, da
inteireza, da determinação de uma cidade invicta.
José Rodrigues é um amigo que muito continuo a admirar.
Mais do que o escultor, o desenhador e o gravador talentoso, que conheci
longamente, foi sobretudo um educador. Encontrei-o sempre nessa atitude sábia e
aberta do artista que aprende. De facto, é essa inesgotável qualidade que
sempre lhe admirei. O autêntico educador é aquele que faz da relação humana um
permanente ato de troca. Um dia, estávamos juntos, e a Luísa Dacosta lembrou-o,
na cooperativa Árvore, o melhor sítio possível. E que é a aprendizagem senão
isso mesmo? Sendo muito generoso, encontrei-o muitas vezes na dramática
situação de ter sido traído na sua capacidade de dar tudo. Em tantas
circunstâncias, percebi bem o significado do dito popular «por bem fazer mal
haver».
Apesar de todas as dificuldades e vicissitudes,
vi sempre José Rodrigues continuar no seu caminho de coerência e de genuína
entrega à arte e aos outros. Para ele não fazia sentido o conhecimento e a
compreensão se não fossem partilhados, se não houvesse dom e troca. Por isso,
admirei nele, para além do talento, a capacidade sábia de fazer do ato de
aprender um movimento biunívoco, em que a humanidade e a dignidade se entregam
e se realizam.
Era vê-lo a dialogar com os jovens, a transmitir
os seus saberes, sempre com a qualidade de ouvir e de verificar as dificuldades
e as virtudes. O seu olhar vivo, atento, perscrutador, como o de uma águia das
montanhas que apreende a beleza natural, mas que entende, a um tempo, o
conjunto e os pormenores, demonstrava essa capacidade única de perceber e de
transmitir, de apreender e de responder, de olhar e de ver. Um escultor de exceção,
como José Rodrigues, aprendia em tudo as formas, os espaços, as relações, as
proporções, os movimentos, a tensão da vida, a agonia, o êxtase, a coerência e
a contradição. Nele, de facto, sentia-se a vida como combate e como ligação
íntima à terra – com um especial culto do feminino e da Mátria. E que é a
escultura, desde o barro ao bronze, senão a capacidade sagrada de criar e de
construir, como Deus faz no livro do Génesis? O escultor reedita esse movimento
fundador de pegar no barro e de lhe dar vida. O olhar vivo e desperto liga-se
ao dom divino de moldar a terra e de lhe dar um sopro de alma.
José Rodrigues nasceu em Luanda, vem de África,
do lugar das origens da humanidade, e é nortenho com os pés assentes na terra,
no húmus, e com a imaginação nas nuvens (no melhor sentido da imagem).
Tornou-se um dos símbolos da cidade do Porto, a que me ligam raízes familiares
antigas, e nunca esquecerei nas Águas Férreas, em casa que foi da minha família
e hoje é do meu Amigo Conselheiro Santos Serra, a homenagem nacional a Oliveira
Martins, em 1994, cuja memória ficou perpetuada por uma obra sua, baseada na
ideia democrática por excelência da justiça para todos. E, de facto, é esse
amor ao futuro, construído pela vontade autónoma e solidária das pessoas, que
constitui o ideário de José Rodrigues, em cuja obra se sente amiúde a
influência de Antero de Quental. Ele costumava dizer-me: «A vida tem de ser uma
forma de poesia, senão tornámo-nos uma espécie de matraquilhos».
José Rodrigues tem uma
obra vastíssima e inconfundível. Insisto
em que admiro sempre, e antes de tudo, o educador e que é ele que hoje desejo
homenagear. Como um dos fundadores da Cooperativa Árvore e como um dos
promotores da Bienal de Vila Nova de Cerveira demonstrou, com vontade firme e
solidária, que o artista não pode viver fora da relação com os outros. É a
entrega, o exemplo e a aprendizagem que têm de estar sempre presentes – e isso
é especialmente importante para o escultor.
E como poderemos entender a cultura portuguesa
contemporânea, numa encruzilhada ente herança e inovação, se não lembrarmos o
diálogo do escultor com os seus colegas artistas, como «Os Quatro Vintes», em
que, com ele, Armando Alves, Ângelo de Sousa e Jorge Pinheiro representam o
impulso no sentido de um renascimento cultural, em que ciclicamente a cidade do
Porto é tão pródiga?
De facto, para José Rodrigues a arte não tem
sentido sem uma intensa relação humana. Em cada diálogo que se estabelece entre
pessoas comuns há um fluxo criador, que no caso dos artistas torna-se mais intenso
e transformador. O projeto da Fábrica Social em Santo Ildefonso é a procura do
sentido humaníssimo, que na cidade do Porto tem ainda mais significado, se nos
lembrarmos do que Jaime Cortesão disse que é a única cidade-Estado da nossa
cultura, o lugar de onde houve nome Portugal. E, sob o olhar do escultor-sábio,
a cidade assemelha-se, cada vez mais, a um bloco de granito animado por um raio
de luz.
segunda-feira, 10 de julho de 2017
Texto de Ramalho Eanes para a NOVA ÁGUIA 20...
O ser humano é o único ser na
natureza dotado de uma dupla historicidade: a herdada (cultural e política) e a
pessoal (a educação que é, a um só tempo, reflexo e projecto de cultura). Todo
o ser humano é, naquela perspectiva, um permanente produtor-consumidor de
cultura.
Obviamente, neste ciclo de inevitável
produção comum de cultura, há sempre alguns que mais se distinguem pela
qualidade, pela inovação criativa – enfim, pela excelência da produção
cultural. A estes chamamos «artistas», aqueles que se dedicam ao fabrico
consciente de beleza.
Natural seria, pois, que a vida e a
natureza – enfim, o múltiplo e permanente inter-relacionamento do homem com o Outro
–, quer seja o seu semelhante, quer seja o mundo, se tornassem fontes
privilegiadas de inspiração e de luminoso despertar artístico. E fonte, assim,
porque apaixonadamente sedutora ela é e se manifesta, pela diversidade de seres,
pela multiplicidade de formas e cores que oferece, pela beleza plural que
exibe, pela sensibilização que gera.
Natural, pois, que José Rodrigues, na
sua Angola natal, sentisse o apelo sensorial que a natureza lhe lançava,
manifestando, desde criança, um gosto pelas artes, nomeadamente pelo barro,
originado pela natureza e que esta permite recriar. Natural, pois, que a sua
ânsia por mais saber e mais aprender o tivesse impulsionado para Portugal, e o
levasse a frequentar o curso de Belas Artes no Porto, que, aliás, terminou com
a nota máxima, e onde viria a ser professor.
Do seu valor e qualidade artística
falam, com indubitável comprovação, o reconhecimento, nacional e internacional,
que granjeou. Expôs, individualmente, em múltiplas geografias, onde o público
se rendeu às suas poderosas esculturas, nomeadamente, de Anjos e Cristos, de um
misticismo impressionante. Participou, também, em diversas exposições
colectivas, tanto em Portugal como em países tão diversos como Áustria, Estados
Unidos, Brasil, Índia, China e Japão, entre outros. Muita é, ainda, a arte
pública, esculpida por José Rodrigues, que podemos apreciar em diversos pontos
do País, como Porto, Viana do Castelo, Monção, Arcos de Valdevez, Vila Nova de
Cerveira, Vila Real e Lisboa, entre outros.
Para além do seu brilhante trabalho
como escultor, José Rodrigues produziu, ainda, cerâmica, medalhística e
ilustrou livros de poetas e escritores de renome e seus amigos, como Eugénio de
Andrade, Jorge de Sena e Vasco Graça Moura. Foi, igualmente, cenógrafo, de
diversas produções no Porto, em Cascais e Lisboa. Lembro, particularmente, as
suas belíssimas produções para a produção de Yerma, de Federico Garcia Lorca, em 1992, que considerou muito
estimulante e provocante, por implicar encenar uma peça onde o ateísmo e a fé
são tão irmãos, a alienação e a libertação tão radicais.
Não posso, nem devo, ainda, esquecer
que foi um dos artistas fundadores da Árvore-Cooperativa de Actividades
Artísticas, em 1963, cooperativa que fez parte da grande renovação cultural da
cidade do Porto, da batalha contra a desertificação, o imobilismo e o
envelhecimento das estruturas existentes. Trata-se, pois, no seu campo de
actuação específico, de um projecto de mediação entre o artista plástico e o
público, entre a cultura e a cidade do Porto, tendo a sua dinâmica divulgado
uma nova linguagem, e criado uma nova forma de relacionamento com a cidade, tornando-a
no que é hoje: uma das mais distintas e distintivas organizações da sociedade
civil portuense no campo da arte e do acolhimento e mobilização de artistas
plásticos.
Mas correcto não seria falar apenas do
José Rodrigues Artista, cuja qualidade tantos apreciam, neles se contando nós –
eu e minha mulher – e, já, também, os nossos filhos. É que José Rodrigues era,
para além de artista, ou talvez por ser também artista, um homem de apurada
sensibilidade, acutilante olhar para a beleza, transcendente olhar para o Homem
e para Deus, e elevada lealdade como amigo.
A sua obra é, pois, uma dádiva, em
primeiro lugar, à arte e à escultura e, por isso, à cultura do País e, depois,
também, à família (a quem nos liga um especial carinho e admiração; à Lindinha,
filhas e netos), aos seus amigos, aos seus muitos admiradores, entre os quais
me incluo, naturalmente, e incluo a minha mulher.
Não posso, pois, deixar de,
reconhecidamente, prestar homenagem, pública, a José Rodrigues, por toda a criatividade
com que, inspiradamente, observava o mundo e recriava a sua beleza, a que o
redemoinho do quotidiano da vida, tantas vezes, nos alheia.
António
Ramalho Eanes
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quinta-feira, 6 de abril de 2017
segunda-feira, 27 de março de 2017
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