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Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

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"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

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Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
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segunda-feira, 8 de abril de 2019

Uma década com «Espíritos»


Hoje cumprem-se dez anos desde a primeira apresentação, feita na FNAC Chiado, em Lisboa, do meu livro – e primeiro romance - «Espíritos das Luzes». Uma fotografia que a minha esposa me tirou, nesse já algo distante dia 8 de Abril de 2009, junto ao cartaz relativo ao evento colocado naquele espaço, ainda é a imagem que me identifica no Google (Blogger e Gmail) – só isto é indicativo do quanto esta obra foi, é, e será sempre importante para mim.
Naquela ocasião acompanharam-me, na mesa, Pedro Reisinho – então editor da Gailivro/1001 Mundos, a quem devo primeira e principalmente a publicação de «Espíritos das Luzes» - e Miguel Real, cuja intervenção seria pouco depois (a 22 de Abril) transcrita e desenvolvida no Jornal de Letras, Artes e Ideias. Tal foi a primeira análise, ou crítica, publicada sobre o meu livro; a mais recente, e bem menos extensa, embora também positiva, foi inserida na página do Wook referente àquele a 17 de Agosto de 2018, escrita pelo leitor Ricardo Gomes: «Romance criativo e inovador acerca de várias personagens importantes da história portuguesa. Uma mistura de ficção científica com romance histórico sendo um texto bastante criativo.» Pelo meio houve, obviamente, mais, nem sempre favoráveis; neste âmbito, é inevitável mencionar as feitas por Jorge Candeias e por Artur Coelho, ambas a suscitarem-me uma e outra respostas que diria serem conclusivas e até definitivas; e ainda a feita (no GoodReads, tal como as daqueles dois extremo-esquerdistas e acordistas) por uma leitora que não compreendeu o contexto e os pressupostos da obra. Pelo contrário, quem os percebeu perfeitamente foi Malcolm Jack, então presidente da Beckford Society, que me concedeu o privilégio de uma recensão no boletim daquela instituição inglesa.
O que distingue igualmente «Espíritos das Luzes» na minha bibliografia, e até, quase de certeza, em comparação com as de muitos outros escritores, é que constituiu, bem como o processo criativo que esteve na sua origem, uma base para outras actividades, projectos e iniciativas. Um pouco de história: comecei a prepará-lo e a escrevê-lo em 2003, a seguir à edição de «Visões», e terminei-o, tal como pretendia, em 2005, a tempo dos 250 anos do terramoto de 1755, mas então nenhuma das editoras a quem o propus o aceitou; entretanto, nos quatro anos que ainda demoraria a sua publicação, consegui concluir e fazer editar «Os Novos Descobrimentos» (com Luís Ferreira Lopes, em 2006) e «A República Nunca Existiu!» (com 13 outros autores, em 2008); antes, em 2004, iniciei os contactos para a formação de uma equipa que procederia à recriação virtual da Ópera do Tejo (edifício destruído, como muitos outros, aquando do cataclismo), cujo primeiro «protótipo» foi mostrado a 3 de Novembro de 2005 num colóquio realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; o projecto seria posteriormente reformulado e ampliado para abranger a Lisboa Pré-Terramoto de 1755, e, já neste formato, foi tema de comunicações levadas a vários encontros de âmbito académico, principalmente no nosso país - são de destacar um em Braga e outro na capital - mas também no estrangeiro.  O meu trabalho em «Espíritos das Luzes» possibilitou-me igualmente o início de uma relação próxima e profícua com a Biblioteca Nacional de Portugal que se mantém ainda hoje: em 2004 tornei-me um dos mecenas da BNP ao financiar a restauração de um exemplar de «O Uruguai», de José Basílio da Gama, obra de 1769 que seria mencionada, tal como o seu autor, em «Espíritos…»; em 2006 decorreram na Biblioteca os dois primeiros eventos por mim propostos e co-organizados nela, ambos alusivos a celebrações de 250 anos – um sobre a Arcádia Lusitana e outro sobre cinco obras fulcrais datadas de 1756; vieram a seguir outros colóquios e congressos, dos quais apenas um de temática, pode dizer-se, claramente setecentista – o dedicado a Luís António Verney, em 2013 nos 300 anos do nascimento do autor de «Verdadeiro Método de Estudar», do qual resultaria também um livro, efeméride da qual me apercebi, obviamente, na preparação do meu romance. Nunca é de mais referir, aliás, que Verney é uma das personagens fundamentais de «Espíritos…»
… E outras duas personagens fundamentais do meu livro possibilitaram que o levasse e o divulgasse para fora de Lisboa, em encontros que, decorridos já vários anos, ainda recordo com afeição e gratidão para com aqueles que os tornaram possíveis: António Ribeiro Sanches, em 2009, na Câmara Municipal de Penamacor, aquando da comemoração dos 800 anos do foral daquela vila; e, como não podia deixar de ser, Manuel Maria du Bocage, em 2010, no Club Setubalense, na véspera do dia (feriado) daquela cidade, o do aniversário do nascimento do grande poeta. Enfim, uma década depois, é indubitável que «Espíritos das Luzes» me proporcionou bastantes momentos e motivos de alegria e de orgulho. E, quem sabe, talvez me venha a proporcionar mais alguns no futuro.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Agora também os ímpares

Há quase dois anos, a 8 de Maio de 2017, escrevi e publiquei aqui no MILhafre um texto em que informava e comentava sobre um pormenor interessante… num mau sentido, porque na verdade insólito, de um galardão literário – o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa. Mais concretamente, o facto de, apesar de ser atribuído de dois em dois anos, aquele prémio apenas aceitar a concurso livros editados no ano anterior a cada edição, o que afastava da avaliação todas as obras lançadas em anos ímpares – como, por exemplo, «Q - Poemas de uma Quimera», que assim se viu impossibilitado de concorrer. Então relatei que havia contactado, questionando e protestando, os organizadores e os patrocinadores da iniciativa sobre aquela evidente mas inexplicável discriminação. 
Entretanto, e aparentemente, a Câmara Municipal de Faro terá atendido às minhas queixas (e às de outros?) e feito o que me disseram que iam fazer: «rever as normas». Efectivamente, a mais recente edição do prémio, cujo prazo de entrega termina a 30 de Abril próximo, abrange todas as obras que foram publicadas em primeira edição nos dois anos anteriores, ou seja, 2017 e 2018. Finalmente, os volumes de versos editados em anos ímpares deixaram de ser considerados inferiores ou até inexistentes por aquela autarquia algarvia. Porém, infelizmente, e pelo menos nesta ocasião, eu não retiro qualquer benefício da decisão pois não tenho um novo, ou recente, livro de poesia editado com que possa concorrer. No entanto, e sendo hoje o dia mundial daquela, justifica-se ainda mais a celebração do mesmo graças à correcção de um erro que a deslustrava.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Sobre a República (ir)real, em Lisboa


No próximo dia 5 de Outubro, a partir das 16 horas, estarei presente, a convite da associação Épica (a mesma que organiza anualmente o Fórum Fantástico), no colóquio «República Irreal & Fantástica», que terá lugar no Pólo de Telheiras da Junta de Freguesia do Lumiar, situado na Rua Prof. Francisco Gentil, 33, em Lisboa.
Rogério Ribeiro dará início ao evento com «Uma introdução à história alternativa lusófona». Seguir-se-á o painel «A dinastia da imaginação», em que, além de mim, que falarei principalmente, obviamente, da antologia colectiva de contos «A República Nunca Existiu!», que concebi, organizei, em que participei e que foi editada em 2008, aquando do centenário do Regicídio, intervirão também José Navarro de Andrade, autor de «Derradeiro Suspiro Real», e Ana Silveira, uma das dinamizadoras do projecto «Wine Punk». Depois, será a vez do painel «Entre utopias e distopias, estamos tramados?», com as colaborações de António Ladeira (este por vídeo-conferência), Joana Bértholo, Jorge Martins Rosa e Luís Filipe Silva. A iniciativa terminará com «Que a música comece!», em que João Morales apresentará uma «selecção de temas adequados à discussão em torno de repúblicas e monarquias».
Os organizadores apresentam o «RI&F» como um «pré-evento» do Fórum Fantástico «dedicado a história alternativa, aconselhável a republicanos e monárquicos, utopistas e distopistas». E a outros, evidentemente.
(Adenda - Nas páginas de Facebook do Fórum Fantástico e de João Morales foram colocados registos - com fotografias - da realização deste encontro.)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

10 anos «sem» República


Pode custar a acreditar, mas é verdade: «A República Nunca Existiu!» foi editada há uma década. A antologia colectiva de contos de história alternativa, que eu concebi, organizei e em que participei, surgiu em Janeiro de 2008 também como uma forma de assinalar o centenário do Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908. Um facto… real, verdadeiro, mas infeliz, trágico, para o país, serviu de pretexto, de mote, para a escrita de narrativas curtas que imaginaram um Portugal diferente em que a Monarquia não só não foi derrubada como até se viu reforçada. 
Em termos de impacto mediático, «A República Nunca Existiu!» constituiu indubitavelmente, até agora, o meu projecto literário de maior sucesso. Sobre ele foram feitas referências, notícias, menções, alusões, na Bang!, Blitz, Diário de Notícias, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Jornal do Modelo (!), (a entretanto extinta revista) Os Meus Livros, Público, RTP (tanto rádio, pelo programa «À Volta dos Livros», em que fui entrevistado, como televisão, pelo (entretanto extinto) programa Câmara Clara), Sol, Tempo Livre e Visão. Fora da comunicação social tradicional, o livro foi também objecto de uma considerável cobertura blogosferérica, tendo sido citado no Almanaque Republicano, Bad Books Don’t Exist, Companhia dos Animais, Correio do Fantástico, Estante de Livros, Fórum Defesa, Innerspace, Muito Para Ler, Segredo dos Livros, Somos Portugueses, Tecnofantasia… e, obviamente, no Simetria. Posteriormente, viria a ter página própria no GoodReads. Mais importante e significativo, a antologia foi incluída no Uchronia, sítio agregador de obras de história alternativa em todo o Mundo, um feito que se ficou a dever a Gerson Lodi-Ribeiro, um dos 14 autores que participaram no livro e, na verdade, um dos seus inspiradores…
… E o conceituado escritor brasileiro de Ficção Científica e Fantasia voltou recentemente a abordar a experiência de que, há dez anos, fez parte. Tal aconteceu no seu novo blog, Cenários Históricos Alternativos: «Nunca cogitara escrever uma narrativa de Império Alternativo, até receber o convite para participar da antologia “A República Nunca Existiu!” (2008).  Desafio aceito, cumpria arbitrar um ponto de divergência capaz de estabelecer um cenário histórico minimamente plausível.  Daí, a divergência do conto “Primos de Além-Mar” é a sobrevivência de Pedro Afonso, filho de Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina, que pereceu em 1850 aos dezoito meses de idade em nossa linha histórica. Mal saído da adolescência, esse príncipe imperial se torna o grande herói da última fase da Guerra do Paraguai, ao capturar Solano Lopez e trazê-lo vivo para cumprir pena no Rio de Janeiro. Em 1908, a presença de Dom Pedro Henrique, filho de Dom Pedro III do Brasil, em Lisboa frustra o atentado regicida contra a vida de Dom Carlos, garantindo assim a permanência da Casa Bragança em tronos nas duas margens do Atlântico. A (acção) desse conto se desenrola na década de 1930, época em que o rei de Portugal fugiu para o exílio no Império do Brasil, quando seu país foi invadido pelas forças de Franco, apoiadas pela Alemanha Nazista. A maior parte da narrativa se dá ao longo de uma caçada de onça na região serrana nas cercanias da cidade de Petrópolis. Um análogo português dos cenários de Impérios do Brasil Alternativos é a sobrevivência da monarquia em Portugal até os dias de hoje. Organizada por Octávio dos Santos, a recém-citada antologia temática “A República Nunca Existiu!” (2008) reuniu algumas narrativas interessantes de Reinos de Portugal Alternativos. O ponto de divergência é praticamente o mesmo nos nove trabalhos considerados como Reinos de Portugal Alternativos: o regicídio de 1908 malogra e a monarquia sobrevive no país.»
Era meu objectivo publicar um segundo volume d’«A República Nunca Existiu!» em 2010, aquando do centenário da implantação da República em Portugal. Porém, a Saída de Emergência, através do seu fundador e editor principal, não cumpriu a palavra dada, não honrou a promessa feita, não respeitou um contrato assinado. A «Parte 2» viria a sair, enquanto um dos seus capítulos, em outra antologia colectiva de contos de FC & F por mim concebida e organizada, «Mensageiros das Estrelas», lançada em 2012 pela Fronteira do Caos aquando da (e na) segunda edição do colóquio com o mesmo nome, realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Entre os autores que participaram na «sequela» destacou-se António de Macedo, a quem, aliás, o livro de 2008 havia sido dedicado.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Sem «faro» para a correcção

Não constitui novidade para alguém que acompanhe o assunto com alguma atenção que os prémios literários em Portugal constituem frequentemente motivos de interrogações, polémicas, suspeitas… Habitualmente, tal resulta da componente «atribuição», mais concretamente quando o vencedor não constitui propriamente uma surpresa, e era até algo previsível. Exemplos nesta «categoria» não faltam, e no ano passado mencionei um, relativo a um galardão a que eu também concorri e que, não surpreendentemente, não ganhei.
Porém, e embora menos frequente, a controvérsia também se verifica na (prévia) componente «organização». Neste caso, um dos exemplos mais recentes foi dado pelo Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa, cujo prazo de inscrição para a sexta edição terminou no passado dia 30 de Abril. O que há, houve, de insólito nesta iniciativa da Câmara Municipal de Faro promovida «com o alto patrocínio da Fundação Millennium BCP e o apoio da Direção Regional de Cultura, Universidade do Algarve, FNAC e Tertúlia Algarvia»? «Apenas» o seguinte: apesar de ser um prémio bienal, isto é, que se realiza de dois em dois anos, só aceita livros publicados (em primeira edição) no ano anterior à sua atribuição! Ou seja, o galardão da sexta edição, que será entregue neste ano de 2017, incide unicamente sobre obras lançadas em 2016. O que significa que, por exemplo, e entre outros, o meu «Q – Poemas de uma Quimera», publicado em 2015 pelo Movimento Internacional Lusófono, não foi admitido a concurso. Tal como não o seria, e não foi, em 2015, aquando da quinta edição, que restringiu os concorrentes aos livros editados em 2014.
Dito de outra forma: as obras lançadas em anos ímpares não existem, na prática, para o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa. Trata-se de uma óbvia, inegável e injustificável, e injusta, discriminação, da qual me queixei, em sucessivos contactos por telefone e correio electrónico, para a Câmara Municipal de Faro e para a Fundação Millennium BCP, tendo igualmente solicitado a alteração, a correcção, das regras no sentido de alargar o galardão a livros editados nos dois anos anteriores. As respostas foram negativas… no que respeita a 2017. No entanto, ficou a promessa de que, «lamentando esta situação, tentaremos rever as normas para a próxima edição, que serão colocadas à consideração superior do executivo (do município algarvio), de forma a poder melhorar este que pretende ser um evento para homenagear o nosso patrono António Ramos Rosa.» Espero que sim, pois, até agora, essa «homenagem» está a ser feita a 50%.

domingo, 16 de abril de 2017

«Nautas» em Maio

O meu novo livro «Nautas – O início da Sociedade da Informação em Portugal» será publicado no próximo mês de Maio. Não por acaso: é quando se celebra o 20º aniversário da edição do «Livro Verde para a Sociedade da Informação», trabalho liderado por José Mariano Gago enquanto ministro da Ciência e Tecnologia, que constituiu o programa para a «revolução digital do nosso país»… e, a um nível mais pessoal, representou o impulso decisivo para eu me tornar um jornalista especializado em novas tecnologias da informação e da comunicação – e, nessa qualidade, ter ganho quatro prémios de jornalismo.
Como afirmo na introdução, «Nautas»,  livro que reúne «os melhores e/ou os mais importantes textos sobre este assunto que escrevi durante quase dez anos», é «uma obra que procura identificar as principais questões, dúvidas, soluções e polémicas que a modernização tecnológica do país levantava nesse período fulcral, de transição de século e de milénio. Porém, mais do que as características e as capacidades das máquinas (seja hardware ou software), o que sempre me interessou mais são as ideias e as iniciativas das pessoas. (…) Quer (…) assumir-se como uma referência relevante, como um contributo, necessariamente modesto, para o registo, análise e compreensão de um processo indispensável e indissociavelmente ligado ao desenvolvimento – técnico, económico, social, cultural» de Portugal.
A publicação é do Movimento Internacional Lusófono com a DG Edições – uma parceria também responsável pelos meus dois anteriores livros publicados, «Luís António Verney e a Cultura Luso-Brasileira do seu Tempo» (este um trabalho colectivo sobre o grande pensador português e o século XVIII em que viveu, que eu concebi, co-organizei e em que participei) e «Q – Poemas de uma Quimera». A data e o local da primeira apresentação de «Nautas» serão por mim divulgadas aqui (e não só) oportunamente.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

«Segundo Ultimatum...» é hoje!

Hoje, 14 de Abril de 2017, é a data em que, em 2012, situei a «acção» do meu conto «Segundo Ultimatum Futurista», com que participei na antologia colectiva «Mensageiros das Estrelas», também concebida e co-organizada por mim, e apresentada na edição do colóquio internacional com a mesma designação, realizada naquele ano. Consistindo numa variação do famoso texto «Ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX», escrito por José de Almada Negreiros e por este lido a 14 de Abril de 1917 – sim, passa hoje um século! – no Teatro S. Luiz, em Lisboa, a minha narrativa representou igualmente, para além de uma (entre muitas) óbvia e mais do que merecida homenagem ao extraordinário, multifacetado, talentoso artista, também um exercício de uma espécie de «ficção científica de curto prazo», em que imaginei um Portugal diferente a apenas cinco anos de distância…
… E que se tornar(i)a numa assustadora distopia. Recupero e recordo um excerto: «Não foram só outros cidadãos europeus, pacíficos, em viagens de trabalho ou de turismo, que passaram a entrar sem qualquer burocracia, controlo e dificuldade no nosso território: também muitos criminosos, entre eles os mais audaciosos e violentos, invadiram o nosso espaço. E, a pouco e pouco, quase sem darmos por isso, as nossas cidades, vilas e aldeias, empresas, lojas e residências, foram ficando sob a ameaça ou até caindo no domínio de perigosos bandidos internacionais. Beneficiando da existência e da ineficiência de corporações policiais desmotivadas e subequipadas e de tribunais complacentes e lenientes, hordas motorizadas e blindadas vieram semear o terror por todo o país, do Algarve ao Minho, tentando roubar, sob a mira de pistolas, espingardas e metralhadoras, as cada vez menores riquezas de uma população continuamente assustada e cercada. Que, para se defender, organizou as suas próprias milícias, cuja principal preocupação é a protecção dos autocarros de transporte de crianças e de jovens estudantes, tesouros raros e alvos preferenciais dos facínoras, que se os capturarem podem pedir elevados resgates. Longe vão os bons velhos tempos em que eles se limitavam a assaltar caixas Multibanco e ourivesarias… A generalizada e permanente insegurança fez com que Portugal como que reentrasse numa nova Idade Média. Não porque se tenha verificado um retrocesso científico e tecnológico, muito pelo contrário, apesar dos constantes cortes nos abastecimentos de água, alimentos, electricidade e outros combustíveis, equipamentos e outros produtos; mas sim porque a ocupação do território se assemelha crescentemente ao da época feudal, com burgos fortificados que se constituem como autênticos oásis em extensas terras-de-ninguém… E a maior dessas terras-de-ninguém continua a ser o belo, injustiçado, maravilhoso Alentejo. Que ainda não retirou várias e visíveis vantagens do facto de o aeroporto de Beja, antes uma anedota… alentejana por causa da sua sub-utilização, ter sido transformado no astro-porto, ou cosmódromo, de Beja graças a Richard Branson e à sua Virgin Galactic, atraindo assim muitos milionários para viagens de turismo espacial. Milionários esses que têm também dinheiro suficiente para pagar a sua segurança, e as suas estadias nos hotéis e apartamentos de luxo das ilhas artificiais e a hélice do Lago Alqueva. Entretanto, e tendo também como pretexto o aumento da violência, em Portugal já não são só os arguidos, suspeitos, detidos, culpados, que têm de usar pulseiras electrónicas: todos os cidadãos a partir dos 18 anos, portadores de número de identificação fiscal, têm de o fazer! É um substituto do CU, do dito “cartão único”, o “cartão de cidadão”, que aliás já tinha um chip incorporado. ”É para o nosso bem, para a nossa segurança”, dizem os nossos governantes, “para estarmos permanentemente localizáveis e contactáveis”. E constituiu uma consequência lógica, o passo seguinte inevitável num processo de muitos anos de maior “transparência” dos cidadãos perante o Estado… mas não o inverso: afinal, se aquele tem um acesso permanente às nossas contas bancárias e declarações de rendimentos para IRS, IRC e IVA de modo a verificar se há ou não fuga ao fisco, e como forma de obtermos descontos em serviços públicos na educação, na saúde e nos transportes, no caso de aqueles rendimentos serem baixos, por que motivo não se transitaria para uma situação de monitorização e vigilância permanentes?»
Reconheço que, afinal (e felizmente!), estas previsões, embora feitas em contexto de criação literária, não se concretizaram… ainda. O meu texto pretendeu (e creio que conseguiu) ser chocante, controverso, polémico, provocatório; porém, só assim chegaria perto de honrar o antecessor criado por Almada Negreiros, que há cem anos «aterrorizou» muitas (in)consciências. Previsivelmente, a efeméride foi pretexto para um programa comemorativo, que, logicamente, tem hoje o seu momento culminante. O pintor e escritor, ilustre elemento do grupo Orpheu, continua(rá) sendo uma referência de cidadania, coragem, imaginação, iniciativa. Nunca deixará de ter interesse, nunca deixará de estar presente. E a exposição que a Fundação Calouste Gulbenkian lhe dedicou, com o título «Uma maneira de ser moderno», inaugurada a 3 de Fevereiro último e aberta até 5 de Junho próximo, é mais uma demonstração disso mesmo.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

«... Verney...» no «Delito...»

blog Delito de Opinião, através de Pedro Correia, apresentou como a sua «Sugestão: Um livro por dia» de hoje «Luís António Verney e a Cultura Luso-Brasileira do seu Tempo», obra coordenada por mim, António Braz Teixeira e Renato Epifânio, e que contém os textos das comunicações apresentadas no congresso com a mesma designação realizado em 2013 na Biblioteca Nacional de Portugal e no colóquio realizado em 2014 na Universidade de Évora, a propósito e a pretexto dos 300 anos do nascimento do autor de «Verdadeiro Método de Estudar».  

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Sobre «Q», na Nova Águia


A mais recente edição da revista Nova Águia (Nº 18, correspondente ao segundo semestre de 2016), que teve a sua primeira apresentação no passado dia 21 de Outubro n(o auditório d)a Biblioteca Nacional de Portugal, inclui, na página 268, uma recensão ao meu livro «Q – Poemas de uma Quimera» - editado no ano passado pelo Movimento Internacional Lusófono – escrita por Mendo Castro Henriques
… Da qual transcrevo alguns excertos: «Um livro intrigado com um título intrigante, foi o que escreveu Octávio dos Santos. Intrigado, porque nele se descobre uma admiração sem fim pela pátria portuguesa, a par de uma crescente perplexidade e angústia perante a sua conjuntural situação. (…) Vai repartindo o seu amor e as suas dúvidas sobre um certo Portugal que se perfila entre tipos humanos, paisagens, situações e expectativas. (…) Retrata ou espreita avidamente a vida a acontecer, túrgida de emoções, mas sem imediato sentido, a que só a breve composição poética restitui significado num envelope literário que exprime um pensamento principal. (…) Octávio dos Santos ama o passado português. E quanto mais nele se revê, mais intrigado está com o futuro que surge ora cinzento, ora ameaçador, ora medíocre, ora negro.»
Relembro e realço que «Q – Poemas de uma Quimera» não se encontra à venda nas livrarias, podendo ser adquirido apenas através do MIL, quer por correio quer nos eventos que o Movimento regularmente realiza um pouco por todo o país.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Estou interessado e disponível…

… E não é de agora, para participar em festivais literários, em Portugal e no estrangeiro. Preferiria, obviamente, que as organizações desses festivais que eventualmente me convidassem custeassem as minhas despesas de transporte, alojamento e alimentação inerentes a essas participações, mas tal não seria indispensável para que eu considerasse e mesmo aceitasse, se não todas, pelo menos algumas delas.
Faço esta – séria, mas com um sorriso nos lábios - «declaração de interesses» na sequência da publicação do artigo «Para que(m) servem um Festival Literário?», de Joana Emídio Marques, publicado no jornal Observador no passado dia 20 de Março. Apesar de estar escrito em «acordês», justifica-se desta vez conter a repugnância pela forma devido à qualidade e à relevância do conteúdo: a jornalista decidiu compilar, listar, comparar, enfim, (tentar) sistematizar quais são os escritores nacionais mais solicitados para colaborar nos – já bastantes – festivais literários que são realizados regularmente (anualmente) em vários pontos do país. A conclusão principal? Existe um pequeno grupo de «habitués», de privilegiados, invariavelmente presentes nas sucessivas edições desses festivais, que retiram daí benefícios – se não financeiros, pelo menos (o que não é pouco) mediáticos, promocionais, de prestígio – do seu «estatuto» (oficioso) de «convidados permanentes».
Surpreendentemente (ou talvez não…), e tanto quanto pude apurar, não existiram até ao momento muitas e/ou significativas reacções públicas ao artigo… com excepção de (apenas) cinco comentários na sua respectiva página digital. Um deles, porém, especialmente significativo, é do escritor Pedro Garcia Rosado, que considera que o trabalho de investigação de Joana Emídio Marques «está bem feito e é um retrato bem sugestivo de uma actividade que parece não escapar à lógica portuguesa das “capelinhas” e dos bem nutridos egos dos seus membros.» Mais: «entre 2004 e 2014 tive 10 livros publicados, não em edição de autor mas sim por editoras reais (Temas e Debates/Círculo de Leitores, Asa e 20|20/TopSeller). Nunca fui convidado para ir a uma das iniciativas citadas no texto. Talvez por não pertencer a “famílias” como as que parecem habitar as várias iniciativas mas também, muito provavelmente, por escrever “thrillers”, ou “policiais”, literatura que em Portugal parece mal.» Na verdade, um muito maior grupo de escritores não tem tido acesso a estas iniciativas… a não ser como espectadores. E, precisamente, há (sub)géneros literários que pura e simplesmente não (e)s(t)ão representados nesses eventos. Não só o policial mas também, e principalmente, a ficção científica e fantástico, que, no meu artigo «A nostalgia da quimera», demonstrei ser o mais importante da história da literatura portuguesa.
Assim, e por tudo isto, eu «apelo», «desafio», (a)os promotores dos encontros de Belmonte, Bragança, Castelo Branco, Lourinhã, Matosinhos, Óbidos, Póvoa de Varzim, Santo Tirso, entre outros: não hesitem em contactar-me! E, se quiserem, terei todo o gosto em sugerir outros nomes! ;-)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Testemunhos… reais

Hoje assinala-se mais um – triste, trágico, terrível – aniversário do Regicídio de 1908, o que representa também, novamente, mais uma oportunidade de voltar a abordar «A República Nunca Existiu!», antologia de contos de história alternativa que eu concebi, organizei e em que participei, editada há oito anos. Desta vez, por causa de dois dos livros que li no terceiro quadrimestre do ano passado, e nos quais existem excertos que de algum modo se podem relacionar com a efeméride e com aquele meu projecto literário.
Um dos livros é «As Máscaras do Destino», colectânea de contos de Florbela Espanca, contos esses susceptíveis de serem inseridos – todos! – no género fantástico, o que faz da poetisa alentejana, cujo 85º aniversário da morte se assinalou em 2015, mais um nome a juntar ao «cânone» que eu tentei construir no meu artigo «A nostalgia da quimera». Porém, a ligação desta obra com «A República Nunca Existiu!» faz-se não por palavras da sua autora mas sim por palavras de outra escritora, que elaborou o prefácio (da edição que eu li – a 7ª, Bertrand, 1998): Agustina Bessa Luís. Recordo que, na «República…», escrevi o seguinte, no último parágrafo da introdução: «No Verão de 2007, durante as férias com a minha família, estive em Vila Viçosa, bela terra à qual não regressava há 20 anos. Revisitei o Paço Ducal e quase consegui sentir a “presença” de D. Carlos e da sua família. Visitei a antiga estação ferroviária, agora um Museu do Mármore, e quase consegui “ver” a Família Real entrar num comboio para a sua última viagem juntos. Aclamados por uma pequena multidão onde, quem sabe, estaria uma ainda muito jovem Florbela Espanca…» Pois bem, o que escreveu – e revelou – a autora de «A Sibila»? Isto: «Temos de ler “As Máscaras do Destino” com a confiança amigável que nos merece o diário duma adolescente, em que certa mediocridade talentosa anuncia os desejos que se evitam. É a jovem de Vila Viçosa a quem a rainha falou um dia, despertando nela uma noção de valor próprio que a marca de tristeza para sempre.» 
O outro livro que li no final do ano transacto e que tem a ver, directamente, com o crime de 1908, e, indirectamente, com a primeira antologia colectiva que concebi e organizei, é «Folhas Soltas (1865-1915)», colectânea de crónicas (editada pela Livraria Clássica Editora em 1956) de Ramalho Ortigão, cujo centenário da morte se assinalou em 2015. Um dos textos incluídos intitula-se «A tarde de 1 de Fevereiro de 1908», e foi publicado no jornal O Portugal a 1 de Fevereiro de 1909. Nenhuma criação da imaginação é mais poderosa do que o relato factual – comovido e indignado – de um contemporâneo: «Parece que foi ontem, e faz hoje um ano! Era num dos mais lindos dias do doce Inverno lisboeta. (…) O sol no ocaso estendia a sua grandiosa púrpura por todo o estuário do Tejo. No profundo e inefável azul do espaço, sobre a calma baía, enxames adejantes de gaivotas, como lírios alados, envolviam as velas das faluas que bolinavam no rio. A vidraçaria dos prédios nas colinas do Castelo e da Graça chamejavam em reflexos de ouro num fulgor de colossal apoteose. (…) Minutos depois, à esquina do Terreiro do Paço, uma descarga de vinte tiros atingia a carruagem aberta, sorridente e florida, do Rei e da sua família. O resultado do tiroteio à queima-roupa foi morrerem fulminantemente o Rei e o Príncipe Real, ser ferido o Infante, e unicamente ficar ilesa a Rainha, se por ironia se pode dizer ilesa a mãe dolorosa que sobrevive, cingindo nos braços, espingardeado, o corpo do seu filho. Sucedeu isto há um ano, e sobre a investigação judicial desse monstruoso atentado pesa ainda hoje o mutismo da nossa História. (…) Para contrapor à indiferença dos homens, eu recorro para a impassibilidade da Natureza. Creio não me desmandar muito na invocação de prerrogativas régias desejando para a cândida memória de um Rei e de um Príncipe a diluição apetecida para a memória sangrenta de um facínora. (…)» 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Um Bocage de outra dimensão

Hoje, 15 de Setembro de 2015, assinala-se o 250º aniversário do nascimento de Manuel Maria Barbosa du Bocage. Figura – real e imaginária (literária) – eternamente fascinante, pelo seu percurso pessoal e pela sua produção poética, constituiu uma das (duas) personagens principais de «Espíritos das Luzes», editado em 2009 mas concluído quatro anos antes – em 2005, a tempo dos dois séculos e meio do Terramoto de Lisboa, pelo que este ano celebro igualmente o décimo aniversário «oficioso» do meu primeiro «romance»…
… Cuja acção, recordo, se desenrola numa dimensão alternativa, em que o espaço e o tempo são outros, em que Portugal é um planeta, tal como os outros países que de facto existem, em que Lisboa é uma cidade… muito maior e diferente da que conhecemos. Neste cenário, o «meu» Bocage só poderia ser, obviamente… de outra dimensão, mais sonoro, mais ousado, mais expansivo, desenvolvendo e explorando plenamente – quiçá exponencialmente – as potencialidades que a sua verdadeira obra apenas deixou adivinhar. Tal é evidente neste excerto do sexto capítulo, «Férvidos prazeres»:      
«Àquela hora e naquele lugar, praticamente todos os indivíduos eram incomuns... fossem eles humanos, ciborgues ou autómatos. Independentemente da quantidade e da qualidade de metal e de plástico que se tivesse no corpo, a baixa da cidade constituía a arena principal e privilegiada para o desfile de excêntricos e de desalinhados em demanda de prazeres... por vezes proibidos. Demanda essa que terminava, quase invariavelmente, no espaço de convívio que Manuel Maria du Bocage, e não só, elegera como o seu favorito. Era o seu esconderijo, o seu refúgio. O seu quartel, onde reunia os seus regimentos da rebeldia. A sua igreja, de onde pregava, em altar de sacrilégios, sermões à insubordinação. Espaço de convívio sim, mas, como outros diziam, a começar por Diogo Pina Manique, também espaço com... vício. Situado no Rossio, outra grande praça da capital de Portugal, o Clube Nicola era o mais famoso centro epicurista do planeta. Tudo nele fora concebido, colocado e construído para excitar e satisfazer os sentidos... todos os cinco... mas, sim, sem dúvida, o do gosto e o do tacto com muito maior acuidade. Era como uma ilha de liberdade e de libertinagem num mar de probidade e de proteccionismo, um santuário de devassos, uma zona franca para prováveis pervertidos. Assim que Bocage entrou, seguido de amigos de sempre e de companheiros de ocasião, as suas hostes saudaram-no entusiástica e ruidosamente. O poeta retribuiu a instantânea homenagem com versos que anunciavam e prometiam sensações insensatas e inesquecíveis... era a sua invocação à noite.»
Esta minha «versão» de Elmano Sadino, recordo, esteve em evidência na sua própria cidade-natal, Setúbal, na noite de 14 para 15 de Setembro de 2010, na habitual tertúlia que se realiza na véspera do Dia da(quela) Cidade… que é também o do aniversário do poeta. Em 2015 e 2016, e devido à especial efeméride, as comemorações vão ser alargadas, variadas… e durarão (pelo menos os próximos) 365 dias. Conduzidas principal e previsivelmente pela câmara municipal, incluirão igualmente, no âmbito escolar, a integração do poeta no âmbito do «Ano Internacional da Luz» que presentemente também se celebra. Porque, afinal, Manuel Maria foi um dos mais espectaculares «espíritos (da época) das luzes».   

quinta-feira, 19 de março de 2015

Ficção Científica… Real

Foi editado em Janeiro deste ano de 2015, pela editora (empresa) D. Quixote (do grupo LeYa) o livro «O Último Europeu - 2284», de Miguel Real. A sua editora (pessoa) Maria do Rosário Pedreira, sem dúvida bem-intencionada, talvez pensando que assim protegia, justificava, «defendia» o autor e amigo, definiu a obra mais recente daquele como «uma aventura que só aparentemente é ficção científica», o que, além de ser um entendimento errado, demonstra um preconceito cristalizado que é, infelizmente, dominante num meio editorial nacional que valoriza as narrativas realistas conformistas e que despreza as narrativas… «hiper-realistas», superiores àquelas, que procuram ir além da banalidade e da mediocridade do quotidiano.     
Leia-se a sinopse e verifique-se, ou não, se este livro só «aparentemente» é ficção científica: «Em 2284, a Europa é maioritariamente composta por Baldios governados por clãs guerreiros que escravizam as populações esfomeadas; subsiste, porém, um território isolado por um cordão de segurança com uma sociedade que, por via da ciência e da tecnologia, atingiu um nível altíssimo de felicidade individual, pois todos os desejos podem ser consumados, ainda que apenas mentalmente. Nesta Nova Europa, as relações sexuais são livres e não se destinam à procriação: as crianças, desconhecendo os pais, nascem nos Criatórios em placentas sintéticas e seguem para Colégios onde, sem a ajuda de livros, andróides especializados incrementam as suas competências como futuros Cidadãos Dourados. As famílias reúnem-se por afinidades, ninguém trabalha e nem sequer existem nomes, para que ninguém se distinga, já que todas as conquistas se fazem em nome da comunidade. Mas este mundo aparentemente perfeito sofre uma inesperada ameaça: a Grande Ásia, lutando com graves problemas de demografia, acaba de invadir a Europa... Um velho Reitor, estudioso do passado, é chamado a liderar uma equipa que possa refundar algures a Nova Europa e a deixar testemunho da sua História.»,
Obviamente, trata-se, sem qualquer dúvida, de uma obra de ficção científica, não só na aparência como também no âmago. E é mais do que isso: constitui mais um «elemento de prova» da minha «tese» que explanei no meu artigo «A nostalgia da quimera», publicado no jornal Público em 2011 (e republicado em 2012, sem o meu conhecimento e sem o meu consentimento, e, pior, adulterado pelo abjecto «acordo ortográfico de 1990», na revista Letras Com Vida): a de que o fantástico é – foi, tem sido, continua a ser – o género dominante na literatura portuguesa. O título daquele meu artigo é, recorde-se, uma expressão retirada do prefácio que Eça de Queiroz escreveu para a edição francesa d’«O Mandarim». Onde o «vencido da vida» justificou a decisão de redigir uma história fantástica que representou uma excepção na «regra» do seu labor literário que se pretendia naturalista e até mesmo científico: «já alguns jovens espíritos entre nós haviam compreendido que a literatura de um país não poderia manter-se para sempre estrangeira ao mundo real, que trabalhava e sofria à volta dela. (…) Então impusemo-nos bravamente o dever de não mais olhar o céu… mas a rua. (…) Fazemos esta nobre tarefa não por uma inclinação natural da inteligência mas por um sentimento de dever literário… ia quase dizer de dever público. (…) (Mas se o artista português) não puder por vezes fazer uma escapadela para o azul morrerá bem depressa da nostalgia da quimera. Eis porque, mesmo depois do naturalismo, escrevemos ainda contos fantásticos, dos verdadeiros, daqueles onde há fantasmas e onde se reencontra ao canto das páginas o Diabo, o amigo Diabo, esse delicioso terror da nossa infância católica. Assim, ao menos durante todo um pequeno volume, não sentimos mais a incómoda submissão à verdade, a tortura da análise, a impertinente tirania da realidade. Estamos em plena licença estética. (…)»
«O Último Europeu – 2284» é a «escapadela para o azul» de Miguel Real – na capa, com um pico montanhoso escarpado subindo para um céu limpo daquela cor, tal é literal – depois de muitos anos de «dever público», de «submissão à (para ele) verdade», de «análise torturada», com romances e ensaios, sobre épocas, factos e figuras fundamentais da História de Portugal, distante ou próxima, nomeadamente António Vieira, Matias Aires, Sebastião José de Carvalho e Melo, o próprio Eça de Queiroz, Amélia de Bragança, Eduardo Lourenço, em percursos que, partindo do nosso país, passaram pelo Brasil, por África, pela Índia, pela China… É também um livro que significa a sua «licença estética», e que, por isso, proporciona(-me) mais um facto para o meu argumento, para (a demonstração d)a minha teoria. Que, mais de três anos após a sua publicação, ainda não foi, tanto quanto sei, objecto de qualquer contestação consistente, pelo que a considero aceite e validada. (Também no Simetria.)

domingo, 10 de novembro de 2013

Prémio de Literatura da Fundação António Quadros 2013 a atribuir a Teolinda Gersão (16/11/2013) - recensão do romance "A Cidade de Ulisses"

“(…) Situada no Extremo Ocidente, entalada entre o mar e a Espanha, tão amiga quanto inimiga, Lisboa procurou no mar uma saída. E partiu. O verbo partir fazia parte de nós, era o lado do desejo, da insatisfação, da ânsia do que não se tinha. (…)”.
Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses, Lisboa, Sextante Editora, 2011, p. 47.


A escritora Teolinda Gersão tem marcado o panorama literário português nos últimos 30 anos (1981-2013), deixando a sua marca indelével com uma escrita leve e imaginativa. Foi professora universitária, em Lisboa, na Faculdade de Letras e depois na Universidade Nova, tendo leccionado, nos últimos anos do século XX como professora catedrática a cadeira de Literatura Alemã e Literatura Comparada, até 1995.

Estudou alguns anos na Alemanha e viveu, também, no Brasil. Recebeu vários Prémios Literários (Prémio de Ficção do Pen Club -1981 e 1989, Grande Prémio de Romance e Novela – 1995, Prémio da Crítica da Association Internacionale des Critiques Litteráires - 1996, Prémio Fernando Namora – 1999, Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco – 2002), que a catapultaram para uma escrita cada vez mais exigente, mas longe do estrelato mediático. A sua obra está consagrada em Portugal e no estrangeiro, contando já com obras traduzidas para onze línguas e constando em inúmeros dicionários e enciclopédias internacionais.

A escrita de Teolinda Gersão evidencia alguma similitude literária com a escrita de José Saramago ao nível do tom coloquial, que transparece em frases populares e provérbios que utiliza nas suas narrativas, aproximando o escritor do leitor. O romance “A Cidade de Ulisses”[1]é uma história de amor, entre dois artistas plásticos, Paulo Vaz e Cecília, que se entrecruza com uma visão de alguns episódios da História, de Portugal e de Lisboa, e com a valorização das artes plásticas.

Esta narrativa ficcionada é, antes de mais, uma homenagem à cidade antigamente titulada de “Olissipo”, como os romanos lhe chamavam. Este livro é devedor de uma vasta pesquisa histórica e literária, centrada em Lisboa, e recebeu como inspiração algumas obras do artista José Barrias. A escritora aborda algumas das problemáticas de que se compõem as relações humanas (o amor, a liberdade, a identidade, a opressão, a criatividade, etc) no contexto das ligações deste casal.

Na história que nos conta, da cidade de Lisboa, começa pela lenda de Ulisses, continua numa caminhada cronológica até aos nossos dias exaltando, no fim, o valor do fado como um elemento cultural identitário da afirmação da nação portuguesa. Apesar destas infindas riquezas, imanentes a este romance, sobressai a sua crítica da presente situação do país. Assim, evoca a tese clássica do historiador e grande humanista Jaime Cortesão de que Portugal sempre praticou uma “política de transportes” e revelou uma contumaz incapacidade de praticar uma verdadeira “política de investimentos”. Por esta razão, o narrador diz-nos que os erros cometidos têm sido recorrentes, porque, mesmo, nos períodos prósperos dos Descobrimentos marítimos e da época áurea do Brasil, dos séculos XVII-XVIII, as elites dirigentes portuguesas se revelaram de vistas curtas e se tornaram perdulárias[2].

Traça, também, o paralelismo entre a intervenção do FMI dos anos 80 com a actual intervenção da “troika”, mas critica o facto destas entidades externas não actuarem para resolver problemas estruturais, mas tão-só acudir a urgências financeiras conjunturais[3]. É, pois, um livro de múltiplas leituras (literária, histórica, artística, política, etc) que se conjugam como pano de fundo da história de amor entre os dois protagonistas.

É uma história de amor bem edificante, porque tem um final feliz (a Exposição póstuma em homenagem a Cecília e o novo amor entre Paulo Vaz e Sara) e apresenta-nos o fado como a feliz simbiose entre a vida popular e a poesia de uma nação consumada em diversas mestiçagens socioculturais[4]. Esperamos que este optimismo de Teolinda Gersão se traduza na justa consagração do fado como Património Imaterial da Humanidade, a anunciar em breve pela UNESCO.

É, com efeito, um livro de uma pertinente intervenção social que examina os vícios cometidos pelas elites históricas portuguesas e pelas actuais elites financeiras internacionais da Globalização, revisitando uma maravilhosa Lisboa antiga e moderna. As ideias de corrupção e de incompetência fluem, no curso do livro, como a encarnação da irresponsabilidade dos governantes incapazes de sanar as dificuldades estruturais da sociedade portuguesa.

Contudo, apesar deste teor de soturnidade, que paira no romance de Teolinda Gersão, há uma mensagem subjacente à narrativa que é a de imensa confiança nas criatividades, artística, humana e técnica, para resolver os problemas actuais da sociedade portuguesa, da Europa e das pessoas como seres humanos, não obstante as intrincadas malhas das crises que perpassam o mundo e Portugal, neste início do século XXI. Fica, pois, uma mensagem de esperança nesta tempestuosa Era de incertezas que atravessamos, em que necessitamos de um porto de abrigo rumo à descoberta de um Novo Mundo, que sempre se assumiu como a nossa missão existencial como povo. É um excelente livro que vos recomendo, vivamente, como leitura de férias.

Nuno Sotto Mayor Ferrão


[1] Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses, Lisboa, Sextante Editora, 2011.
[2] Ibidem, p. 49.
[3] Aliás, o fiscalista Henrique Medina Carreira também nos salienta o mesmo no seu mais recente livro, a propósito da crise da dívida soberana portuguesa, ao afirmar que a União Europeia não esboçou ainda uma estratégia de comum para enfrentar as dificuldades de dinamismo económico que afecta todos os Estados-Membros no início do século XXI: Henrique de Medina Carreira, O fim da ilusão, Carnaxide, Editora Objectiva, 2011, p. 38.
[4] Teolinda Gersão, op. cit., pp. 198-200.

Publicado originalmente no blogue Crónicas do Professor Nuno Sotto Mayor Ferrão

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Não comprar livros com AO90

Hoje, Dia Mundial do Livro, e véspera da abertura da Feira do Livro de Lisboa 2012, é o momento adequado para, mais uma vez, apelar a que não se compre livros escritos e/ou impressos segundo o abominável «acordo ortográfico de 1990». O boicote a obras deformadas e deturpadas é uma das principais formas, e talvez a melhor, de combater aquele «aborto»; quanto mais forem os leitores que o fizerem maior será a probabilidade de os escritores e/ou as editoras que renunciaram à dignidade e à sensatez retrocederem na sua conduta reprovável e ridícula… porque ver-se-ão afectados onde «dói mais», isto é, na carteira, no cofre e na conta bancária.
Neste âmbito, destaque pela positiva vai, entre outros, para Guilherme Valente: o fundador da Gradiva – que faz jus ao seu apelido! – não só subscreveu a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico como disponibilizou os espaços da sua editora na Feira do Livro para a recolha de assinaturas a favor daquela iniciativa; é mais um motivo para uma visita aos pavilhões B19, B56, B58 e B60. Entretanto, também a Relógio d’Água se juntou à iniciativa, pelo que se deve igualmente visitar os pavilhões A775, A3, A77, A79, A81, A83, A85 e A87. E ainda a Zéfiro (D50), que edita a revista Nova Águia e a colecção de livros com o mesmo nome.
Enfim, e para além daqueles que já mencionei aquando de anteriores feiras e Natais, eis alguns novos livros, de amigos, cuja aquisição eu recomendo: «Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes» e «O Homem Corvo», David Soares; «Nova Teoria do Mal», Miguel Real; «A Última Sessão – A Edição dos Textos Malditos de Luiz Pacheco», Pedro Piedade Marques; «Convergência Lusófona – As Posições do MIL/Movimento Internacional Lusófono (2008-2012)», (coordenação de) Renato Epifânio; «A Cidade dos Sonhos», Sérgio Franclim (e Sandra Hormiga).

segunda-feira, 5 de março de 2012

O Quinto Cavaleiro


Le Blanc-Seine - Rene Magritte


Vem cavalgando em terra albina
O defensor da cavalaria do Sul
Ele traz sete espadas, escudo no braço:
O Anjo que o guia, e se faz seu regaço.

No horizonte escureceu
A luz que se despedia
Vi chegar não sei quem
Acender um livro
Para os cegos;

Para salvar os campos de batalha,
As sereias do mar;
E quem o chama é São Miguel,
Que manda na terra,
Quem está de ronda é Gabriel,
As ninfas do luar.

Por entre os bosques, as dunas
E as serras, passaram as nuvens,
A espuma das ondas,
E ele pôs-se a beber, e ele
Pôs-se a fumar.

Há-de chegar o dia em que as vagas
Pararão de lhe cantar.


André Consciência

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Salto de Sebastião


O Salto do Coelho, Amadeo de Souza-Cardoso, 1911


Está na natureza, em que se avista,
Uma liberdade sempre presa,
O que apelido da lembrança mais pura
Que algum anjo sonhou ser Deus,
E com saudade, tomou a sua forma e eternidade,
Caído entre os seus. E não me interessa
Tanto Deus, como esta saudade.
Assim é todo o esforço humano, mesmo o mais cobarde,
Um esforço, para arrancar o coração
E iluminar com ele a sombra daquilo
Que foi nosso e que assombra:
E não me interessa tanto Deus, como a chama.
Gosto, por isso, de paisagens, todas naturais
Onde se soltem os nossos saudosismos
E dancem pardais, borboletas, animais,
Como estando eles presentes, sem miragens.
No jardim, senta-se uma miríade de homens altos
Como o Sol, e mordem-me as pontas do corpo
Que se torna em ambientes enquanto morro.
Hei-de ser, também eu, inteira,
Como uma saudade de mim inteira.


Joana Rodrigues

sábado, 31 de dezembro de 2011

Santa Joana Princesa

... Nascemos no alto mar, Carla Salgueiro, 2006


Celebram os homens, e bebem
No salão sem vista para o largo das marés
Onde Portugal, Não-País
Corre. Por isso, os santos da nossa história
São manchas de gnose na memória.

Joana Princesa senta-se, e a sua beleza
Derramada no altar chama os sopros quentes
Do Luar.

O mundo passa sem escorrer
Joana não o vê
Na sua pele lugar que o faz ser.

No mar sem coroas a voz
De almas soltas, levavam-lhe a riqueza
Uma flor alta por cada corsário
Na barca da morte, ébrio, o seu emissário.


André Consciência

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Livros para o Natal…

… E não só, porque podem e devem ser adquiridos e oferecidos durante todo o ano, são os que agora recomendo, da autoria recente de amigos e de conhecidos: «Cristianismo Iniciático» e «O Sangue e o Fogo», António de Macedo; «Batalha», «É de Noite que Faço as Perguntas» (com André Coelho, Daniel Silva, João Maio Pinto, Jorge Coelho e Richard Câmara) e «O Pequeno Deus Cego» (com Pedro Serpa), David Soares; «O Espião Alemão em Goa» e «Levante-se o Véu! – Reflexões sobre o Exercício da Justiça em Portugal» (com Álvaro Laborinho Lúcio e José Braz), José António Barreiros; «Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa – Os Melhores Contos do Século XX», (organização de) Luís Filipe Silva; «Vencer ou Morrer», Mendo Castro Henriques; «A Guerra dos Mascates», «Introdução à Cultura Portuguesa» e «O Pensamento Português Contemporâneo 1890-2010», Miguel Real; «A Via Lusófona» e «Fernando Nobre – Diário de uma Campanha», Renato Epifânio.  

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Entrevista ao «E:2»

Está já disponível a entrevista que concedi ao programa televisivo «E:2», da RTP2, no seu canal próprio do YouTube. Transmitida originalmente no passado dia 25 de Outubro, teve como pretexto e tema principal o meu livro «Espíritos das Luzes», mas serviu também para uma reflexão sobre a História de Portugal; está dividida em quatro partes, pelo que se deve ver a emissão até ao fim. Agradeço, mais uma vez, à equipa de estudantes da Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa, o convite e a oportunidade que me concederam.