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MIL: Movimento Internacional Lusófono | Nova Águia


Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de uma centena de milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por mais de meia centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia. Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.
SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
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NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

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Desde 2008"a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

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"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Estados Unidos da América - Comunidade portuguesa na Florida está a rejuvenescer

 A comunidade de origem portuguesa na Florida, um dos estados que está a crescer mais na atração de luso-americanos, “tem agora muita juventude”, disse o emigrante português e diretor da Rádio Portugal Florida, numa sessão sobre a diáspora nos Estados Unidos

“Essa teoria de serem só reformados aqui mudou drasticamente”, afirmou Augusto Costa, que chegou ao estado em 2002. Estima-se que haja cerca de 80 mil pessoas de origem portuguesa neste estado.

“Desde que estou aqui foram construídas cinco escolas, três delas primárias”, explicou, referindo que a média de idades dos luso-americanos é de trinta anos. “Aqui, a comunidade já não é só reformados”, reiterou.

Augusto Costa referia-se especificamente à comunidade em Palm Coast, uma das cidades que mais tem crescido como polo para a diáspora portuguesa. O clube luso-americano local foi criado em 1987, sendo agora um centro cultural importante que inclui uma escola portuguesa.

“Nós no clube fazíamos uma festa com 60 pessoas e se tivéssemos 30 portugueses eram muitos. A comunidade era pequena”, lembrou. “Mas atrás de uns vêm outros e hoje em dia a comunidade aqui em Palm Coast é grande”, sublinhou.

O luso-americano falava na primeira sessão da terceira temporada da iniciativa “As Nossas Vozes”, uma série de programas em língua portuguesa sobre a diáspora nos Estados Unidos.

Um dos pontos em discussão foi o futuro do movimento associativo e o papel da juventude luso-americana, que está agora a mudar a face destas comunidades. Augusto Costa alertou para uma potencial falta de continuidade.

“Esta juventude fica na escola portuguesa porque os pais querem, mas mais tarde desligam-se totalmente e envolvem-se mais na comunidade americana”, referiu. “Muitos destes jovens já nem português sabem falar”, continuou. “Não vejo a juventude muito envolvida com a comunidade portuguesa nem a ouvir rádio”, afirmou.

Com emissões contínuas de música portuguesa, a Rádio Portugal Florida tem um programa principal ao sábado, “Contacto com o Ouvinte”, apresentado por Augusto Costa, António Costa e Tekas Azevedo, em língua portuguesa. 

Outro programa relevante é emitido à sexta-feira com discussões sobre futebol. A audiência é sobretudo composta por pessoas dos 50 anos para cima e os anúncios nos intervalos da emissão também são falados em português.

Uma das hipóteses levantadas por Augusto Costa é fazer emissões em inglês, de forma a chegar a mais ouvintes – incluindo a juventude luso-americana que pode ter dificuldades com a língua portuguesa. “A maioria dos portugueses na Florida vieram de outros estados, não vieram de Portugal. E a maioria entende inglês”, referiu o radialista.

Costa sublinhou, por outro lado, que é importante fomentar o uso da língua, mesmo com erros.

“As pessoas quando não falam bom português, o próprio português critica”, apontou. “Uma criança que nasceu aqui e dá dois pontapés na gramática portuguesa é melhor que não falar nada”, defendeu.

A série “As Nossas Vozes” é organizada pelo Conselho de Liderança Luso-Americano (PALCUS) em parceria com o Instituto Português Além-Fronteiras (PBBI, na sigla inglesa). In “Bom dia Europa” - Luxemburgo

Entre Paulo Freire e Manuel Ferreira Patrício

 

Paulo Freire (1921-1997), figura de referência da Filosofia da Educação no Brasil, não tem tido em Portugal um muito significativo eco. Exemplo disso é a sua muito reduzida presença na obra de Manuel Ferreira Patrício (1938-2021), provavelmente, para não dizer certamente, a figura mais relevante da Filosofia da Educação em Portugal na segunda metade do século XX. Com efeito, ao lermos os seis grossos volumes das suas Obras Escolhidas, recentemente editadas (coord. de Renato Epifânio e Samuel Dimas, Ed. MIL, 2021), verificamos que as referências de Manuel Ferreira Patrício a Paulo Freire são muito escassas – e não por Manuel Ferreira Patrício não conhecer a obra de Paulo Freire.

Atentemos num desses exemplos: um conjunto de textos redigidos nos finais dos anos 80, coligidos sobre o título “A Libertação do Homem” (in vol. I, pp. 141-179). Na primeira da obra, intitulada “A Libertação do Homem e a Filosofia”, começa Manuel Ferreira Patrício por escrever: “O tema da libertação do homem é bem antigo. Encontramo-lo, por exemplo, no Antigo Testamento. É o tema nuclear do Novo Testamento. O mito de Prometeu é o mito da libertação do homem, trazida por um deus do Olimpo através da doação do fogo. A alegoria platónica da caverna é mais uma versão do anseio do homem pela sua libertação. Toda a filosofia sapiencial, de Pitágoras a Plotino, de Agostinho a Malebranche ou Espinosa, de Avicena a Ibn Arabi, de Fichte ou Schelling a Heidegger, é uma filosofia da libertação do homem.”.

De igual modo, como logo de seguida acrescenta, “toda a filosofia materialista, de Demócrito a Feuerbach e de Feuerbach a Marx, é uma filosofia da libertação do homem”. Mas não, claro está, acrescentamos agora nós, da mesma maneira. No caso da corrente em que Manuel Ferreira Patrício insere Paulo Freire – a da “pedagogia da libertação” –, podemos questionar se essa libertação aí em causa não será demasiado curta. Eis, precisamente, a questão a que Manuel Ferreira Patrício procura responder, analisando sucessivamente o “paradigma platónico da libertação do homem”, “a libertação do homem em Espinosa: da escravidão imposta pelas paixões ao amor intelectual de Deus”, “o problema da libertação do homem em Kant”, o “sentido e conteúdo da ‘libertação do homem’ no quadro da filosofia utilitarista de Jeremias Bentham”, o “sentido e conteúdo da ‘libertação do homem’ no quadro da filosofia utilitarista de Stuart Mill”, “a libertação pela filosofia no pensamento de Edmundo Husserl” e, finalmente, a “defesa da utilidade da filosofia por Epicuro”.

Tudo isto para concluir: “Na época contemporânea W. Dilthey compreendeu, talvez melhor do que qualquer outro filósofo, a pureza da concepção platónica da filosofia: a filosofia encontra a sua culminância na plena formação do homem, ou seja, na plenitude da entrega do homem a si próprio. A filosofia culmina, portanto, na antropagogia. Pela antropologia, o homem conhece-se a si mesmo; pela antropagogia, aperfeiçoa-se e cumpre-se no seu ser, à luz do conhecimento que tem de si mesmo./ Esta é uma ideia platónica. Platão continua a ser o lugar filosófico de todos os ‘regressos’. O ‘regresso’ que hoje se impõe é um regresso aberto e não totalitário ao grande filósofo de Atenas. Nos dois últimos milénios e meio numerosos têm sido, no fim de contas, os seus discípulos, mesmo quando explicitamente o renegam. Por outro lado, talvez seja preciso negá-lo em parte da letra, para o afirmar na plenitude do espírito. É que não poderá haver libertação sem liberdade, nem racionalidade universal assente no esmagamento das nacionali­dades particulares e singulares” (ibid., pp. 155-156).

Ou seja, em suma: para Manuel Ferreira Patrício, a “pedagogia da libertação” prefigurada por Paulo Freire é demasiado curta, sobretudo por partir de uma grelha marxista em que os factores materiais e sociais se sobrepõem a todos os demais – em particular, aos de ordem cultural. Ora, na dialéctica freiriana do opressor e do oprimido, ignora-se que a cultura do opressor pode servir para nos elevarmos, sendo assim, em última instância, libertadora. Apenas um exemplo: quando o Império Romano se estendeu à Península Ibérica, ele foi decerto “opressor”, como todos os Impérios. Culturalmente, porém, o Império Romano promoveu um salto qualitativo, de que ainda hoje somos tributários. Estulto seria hoje, por uma póstuma consciência de opressão, renegar todo esse legado. Manuel Ferreira Patrício, decerto, não o procurou fazer, bem pelo contrário, dada a primazia concedida à Cultura, como já tivemos a oportunidade de salientar: “Há pois uma absoluta coerência em Manuel Ferreira Patrício, na sua vida e no seu pensamento – a primazia dada à Cultura determina as suas posições quanto à Escola e à Educação, as suas posições filosóficas e, inclusivamente, as suas posições políticas: caso do seu assumido não-marxismo.” (in vol. V, p. 7).

Em 2023: último livro da Colecção Mestres da Língua Portuguesa, de Jorge Chichorro Rodrigues

 

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Agostinho da Silva, primeiro inspirador da CPLP...

Cármen Maciel, "A construção da Comunidade Lusófona a partir do antigo centro", Tese de Doutoramento em Sociologia, Fac. Ciências Sociais e Humanas, Univ. Nova de Lisboa, 2010 (Tese vencedora da 4ª edição do "Prémio Fernão Mendes Pinto"), Lisboa, Instituto Camões, 2015, p. 50.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

6 de Fevereiro: 4ª sessão do Ciclo PASC/ NOVA ÁGUIA: Vultos da Cultura Lusófona

Link zoom: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/97845344415

Um Adolfo Casais Monteiro, por Agostinho da Silva

 


Na vasta bibliografia de Agostinho da Silva, ainda não inteiramente publicada, uma das obras mais relevantes tem por título Um Fernando Pessoa. Como se infere do título desta obra, publicada em 1959, no Brasil – onde Agostinho da Silva se radicou cerca de um quarto de século, entre meados dos anos 40 e finais dos anos 60 –, trata-se uma leitura pessoal de Fernando Pessoa, em particular da sua “Mensagem”, em que Agostinho da Silva desenvolve a sua própria visão: não apenas de Portugal e da cultura portuguesa, mas, sobretudo, da cultura de língua portuguesa – da cultura lusófona, diríamos nós hoje –, conforme, de resto, já salientámos numa obra da nossa própria autoria, lançada no âmbito das comemorações do centenário do seu nascimento (Visões de Agostinho da Silva, 2006).

Ao contrário de Fernando Pessoa, que mereceu de Agostinho da Silva muitas e alongadas referências, o mesmo não aconteceu com Adolfo Casais Monteiro. Ainda assim, há um texto que sobressai – falamos do texto intitulado “Alguma nota sobre Casais”, publicado nos Cadernos de Teoria e Crítica Literária (Araraquara, SP: Setor de Teoria da Literatura da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, nº 4, Julho de 1974, pp. 15-26). Pelo seu interesse, quer por aquilo que Agostinho da Silva nos diz sobre Adolfo Casais Monteiro, que, de forma reflexa, por aquilo que Agostinho da Silva nos diz sobre si próprio, eis o texto que iremos aqui apresentar.

Assim, neste texto, começa Agostinho da Silva por evocar a criação da primeira Faculdade de Letras do Porto, falando mesmo de um “milagre” – nas suas palavras: “De vez em quando sucedem milagres, se Deus os consente e neles se empenham os homens [saliente-se aqui a ressalva: os milagres sucedem “se Deus os consente e neles se empenham os homens”]. Num país de ensino rotineiro, com mais interesse pela nota e pela autoridade do catedrático do que respeito pela ciência e liberdade de discernimento pessoal, surgiu a Faculdade de Letras do Porto, que era toda ao contrário, inimiga da burocracia e fosse do que fosse que pudesse lembrar Coimbra e seus malefícios de séculos e incitadora de descoberta própria mais do que de aprendizagem servil, bem longe de ser a escola técnica de profissionais de ensino em que se transformaram as outras.”.

Essa Faculdade, como logo de seguida acrescenta, “em dois grandes grupos se dividia” – “liderado um por Teixeira Rego, que podia ter sido bom matemático e físico – ouvi-o propor a teoria da luz de Broglie an­tes de Broglie — e ensinava filologia, pois ainda se não tornara ciência ou moda ser pedante em linguísti­ca…”; “o outro por Leonardo Coimbra, que podia também ter sido matemático e campeão remador, como Rego de ténis, e ensinava filosofia, ou antes, que isso era o certo, vivia filosofia, com muita agudeza e saber, como mestre, e muita angústia e caminhos torcidos, como homem, dando nota boa a quem se interessava e a quem se não interessa­va pela matéria — tive distinção na turma destes, pois que era o indo-europeu de Teixeira Rego meu pasto fa­vorito —; tudo no Café Majestic, como o filólogo na [Livraria] Lelo.”.

Eis, aqui, um testemunho confirmado por muitos outros: Agostinho da Silva sempre se sentiu mais próximo de Teixeira Rego, mas, apesar de nunca ter sido “leonardesco”, como chegou a dizer, bastas vezes evocou o magistério de Leonardo Coimbra – daí, nomeadamente, estas suas palavras: “Era a largueza de espírito do Leonardo que tinha formado aquela Faculdade. Ali se percebia por que razão uma instituição universitária não é tão importante como, muitas vezes, se julga. Ele confiava nalguma outra coisa que não eram os regulamentos, as notas, as pautas e essa trapalhada toda” (in Jornal de Letras, 12 de Janeiro de 1987). Ao longo da vida, irá, com efeito, reiterar que essa “era uma Faculdade sem uma organização rígida e em que se dava muito mais atenção a quem elaborava perguntas do que a quem fornecia as respostas que vinham nos manuais” –, nunca esquecendo não só Leonardo Coimbra – “um boémio do pensamento (...), um homem capaz de atitudes que os catedráticos não tomam” – como, sobretudo, Teixeira Rego – “uma das pessoas mais inteligentes que conheci”[1].

Ora, é precisamente nesse contexto estudantil que Agostinho da Silva evoca o seu colega – apenas dois anos mais novo: “Nunca vi ninguém estudar tanto e tão seriamente como Casais naquela Biblioteca Municipal do Porto, que conservava no acervo e na atitude a lembrança de um Herculano, de um Rocha Peixoto, de um Martins Sar­mento ou de um Sampaio (Bruno), este último educador do próprio Teixeira Rego, que fisicamente acabara por se parecer com seu Mestre. Já era o Casais daquela altura e daquela longa cabeça que o Brasil veio a conhe­cer, mas quase ficava oculto pelas pilhas de livros que requisitava de cada vez e que lia com voracidade e ve­locidade, muito antes de terem aparecido os métodos americanos de correr num segundo as páginas pares e adivinhar por elas as páginas ímpares; que lia, entendia e digeria em alimentação própria, sempre com um belo jeito de não ter grandes notas, como que a reservar-se para dar a sua medida na grande e difícil vida que o es­perava.”.

Sendo que, logo de seguida, Agostinho da Silva assinala uma diferença de percursos entre os dois: “Nisto nos dividíamos, eu e Casais. O indo-europeu e mau conselheiro político — embora fosse a República a deusa de Teixeira Rego —, talvez, por outro lado andasse eu muito sob a influência de Goethe, coi­sa de que me curei depois, e prezasse sobre tudo a Or­dem, com muita impaciência perante as fraquezas e os compromissos dos políticos e as injustiças que a cada momento via praticadas, o que já não era muito goetheano; o nosso poeta e crítico temia principalmente a ditadura que se aproximava e que, apesar de tudo, era apenas militar, quando o que realmente ameaçava o País era o obscurantismo coimbrão e o mesquinho espírito do quintal das couves. Quando tudo se decidiu, fiquei eu com a tropa, ele com a Constituição. Menos de um ano depois, entrei na Seara Nova, e tive o gosto de ser demitido do serviço público ainda antes de Casais Montei­ro; onde iria o Goethe!/ Com Espanha, França e outras aventuras, perdi de vista Casais, que entrara na Presença, andava ensi­nando e fazia política (…).”.

Já no Brasil – para onde Agostinho da Silva partiu em meados da década de quarenta e Adolfo Casais Monteiro uma década mais tarde –, recorda Agostinho a presença de Casais na Universidade da Bahia: “Casais chegara para en­sinar na Faculdade de Filosofia, na Cadeira de Hélio Simões, e na Escola de Teatro da Martim Gonçalves viera eu propor a Edgard Santos que se fundasse aquele Centro de Estudos Afro-Orientais que iniciou a políti­ca africana do Brasil e que talvez tivesse feito o mesmo com o Oriente — se trabalhou com o Japão e os Ára­bes – se o Presidente Jânio [Quadros], que tão bem entendeu o Centro, não tivesse, por outro lado, deixado de recon­duzir o Reitor no cargo de que jamais deveria ter sido apeado. Em 59, porém, só o Reitor me acompanhou na ousadia e praticamente se trabalhou a ocultas da Universidade, que talvez derrubasse o Centro se o tivesse sabido a funcionar; o escritório era no subterrâneo da Reitoria e, para disfarçar a minha presença, inventaram-se na Escola de Teatro aulas de filosofia, não sendo esta a última vez em que havia de ensinar o que não sei; coisa muito útil, porque se aprende muito estu­dando com aluno.”.

E acrescenta, de forma particularmente impressiva: “Aí aprendi ainda a conhecer a generosidade humana de Casais, o seu entusiasmo por poder ajudar os escritores locais, o seu gosto de relações, a real identificação com que no Dois de Julho acompanhava, com as autoridades e o povo, o cortejo cívico dos Caboclos, muito admirado — mas não tinha de quê – de que um cate­drático português, por esse tempo em Salvador, considerasse a festa como ofensiva para os seus brios de pa­triota dilecto do regime, não das Musas. A todos, alunos ou não alunos, animava e ajudava Casais, empresa em que naturalmente, como sempre sucede, gastava às vezes óptima cera com péssimos defuntos. Quando vinha a desilusão, que muito o feria, ou ficava dois ou três dias de papo para o ar, estendido na cama, meditando nas injustiças do mundo, e assim o encontrou Jorge de Sena, que tanto admirava Casais, quando em 59 desembarcou no Brasil (…)./ Depois o vi cansar-se de tanto folclore bahiano (…), enquanto abalava para o Sul, a buscar seu jornal, ou Faculdade ou editor (…) naquele exílio que era, simultaneamente, forçado e de gosto; não suportaria Portugal e lhe era difícil viver sem Portugal. Entre os contrários balançava, sem que tivesse chegado a alcançar que se unem as várias geometrias naquela que não tem dimensão alguma.”.

Reencontraram-se depois em Santa Catarina, como recorda ainda Agostinho da Silva: “e aí deu uma bela lição num Círculo de Filosofia que se tinha inventado naquele Desterro, sob a asa protectora de Henrique Fontes, o duro velho, e de Jorge Lacerda, aquele que os deuses, por o amarem, levaram jovem. Mas onde o vi pela última vez foi no aeroporto do Rio, de viagem pa­ra São Paulo e Araraquara, onde se lhe metera na cabe­ça que me devia levar para a banca de seu doutoramen­to ou concurso, não sei mais. Ia, no seu jeito, com entusiasmo e com resignação; colegas e alunos lhe agradavam totalmente, tinha, naquele interior, todos os meios de trabalho de que podia precisar, ficava perto de São Paulo, onde lhe estavam amigos, livros, vida viva, podia passar suas férias no Rio, no apartamento junto ao mar; o problema, porém, é que era homem de serra, e monge também de certo modo, e que Portugal lhe faltava (…). Não era homem para ter a felicidade, que não é, de resto, dos mais altos valores, nem para que a Paz o tomasse, que essa sim, é valor (…). De algum momento para diante se tornou a sua vida, apesar de todo o entusiasmo pela literatura (…), um caminhar lento e fatal para a morte (…).”.

E assim termina, Agostinho da Silva, esta sua eloquente e comovente evocação: “tão lon­ge o via já, tão separado do que era realmente vida, que não lamentei muito que nos não tivéssemos encontrado durante o período em que leccionámos na Améri­ca, ele em Wisconsin, onde, ao que parece, se sentiu muito bem, apesar do frio, eu em Nova York, onde recebi, por meus alunos, muita boa lição de humanidade excelente. Há quem morra antes de ter vivido e quem viva depois de ter morrido; houve em Casais as duas coisas: não creio que tivesse estado na América ple­namente vivo; e estou seguro de que viverá mais e mais à medida que Portugal se despoje de seus falsos ouropéis de poderoso Estado e renasça no espírito que o fez grande antes do absolutismo real, do capitalismo italiano e alemão e da opressão religiosa; isto é: na liberdade republicana, numa austera solidariedade eco­nómica e na inteira fantasia de pensar Deus, ou de O não pensar; mais precisamente, de O pensar e de, simultaneamente, O não pensar”. Eis, em suma, o retrato que Agostinho da Silva nos dá de Adolfo Casais Monteiro: o de alguém que, após o exílio, se foi sentindo cada vez mais um expatriado. Neste caso em inteiro reverso com o percurso de vida de Agostinho da Silva: que só após o exílio, e muito particularmente no Brasil, nesse Brasil que ele tanto amou – e idealizou –, encontrou de facto a sua Pátria.



[1] Ver, a esse respeito, a nossa obra: Perspectivas sobre Agostinho da Silva, Lisboa, Zéfiro, 2008, p. 62.

Ainda disponíveis: seis volumes das "Obras Escolhidas de Manuel Ferreira Patrício"

 

Manuel Ferreira Patrício, com os Coordenadores da Edição (Renato Epifânio e Samuel Dimas).
Foto de Rui Carapinha, da Associação Nova Cultura (Montargil).

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13 de Fevereiro: 5ª sessão do Ciclo "O Esplendor Caótico do Mundo", com o apoio da PASC (GT “Lusofonia e Relações Internacionais”)

Com periodicidade mensal, “O Esplendor Caótico do Mundo” é um Ciclo de “Conversas Improváveis”, a realizar on-line, entre três pessoas de formações diferentes – Ana Sofia Lopes (Medicina), Paula Policarpo (Direito) e Renato Epifânio (Filosofia) –, que têm em comum a paixão de pensar o estado do mundo e as relações internacionais sem concessões à ditadura do “politicamente correcto”.

Em cada sessão deste Ciclo, apoiado institucionalmente pela PASC: Plataforma de Associações da Sociedade Civil (GT “Lusofonia e Relações Internacionais”) e Zero Desperdício/ Dariacordar, haverá sempre convidados.

O MIL, a(s) Esquerda(s) e a(s) Direitas(s)...



José Pedro Zuquete, in Ideias e Percursos das Direitas Portuguesas, coord. de Riccardo Marchi, Lisboa, Texto Editora, 2014, p. 420.