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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
NIB: 0036 0283 99100034521 85; IBAN: PT50 0036 0283 9910 0034 5218 5; BIC: MPIOPTPL; NIF: 509 580 432

Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"
Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica.

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo.


Agostinho da Silva

domingo, 23 de julho de 2017

Agostinho da Silva, primeiro inspirador da CPLP...

Cármen Maciel, "A construção da Comunidade Lusófona a partir do antigo centro", Tese de Doutoramento em Sociologia, Fac. Ciências Sociais e Humanas, Univ. Nova de Lisboa, 2010 (Tese vencedora da 4ª edição do "Prémio Fernão Mendes Pinto"), Lisboa, Instituto Camões, 2015, p. 50.

Prefácio de Adriano Moreira à "Via Lusófona II"



Encontram-se facilmente argumentos contraditórios que se assemelham, de um lado contra ou a favor da unidade europeia, por outro a favor e contra o movimento lusófono. De facto, o problema da unidade europeia, que talvez deva preceder o exame da questão da lusofonia, pela razão de que tem séculos a vocação de organizar a primeira, sendo que a vocação se mantém para além do fracasso da organização ao longo dos tempos, e o mesmo acontece agora com a vocação de afirmar a segunda, parcela que é do europeísmo, deparando-se também com os acidentes da organização. Quanto ao europeísmo, e para evitar enumerar a longa teoria de projectistas da paz europeístas, lembremos todavia que vai da proposta de um tribunal arbitral (Pierre Dubois, século XVI) entre soberanias, a uma espécie de Senado (Podiёbrad, 1464) a tender para o federalismo (William Penn, 1718), para realizar uma partilha interna de impérios findos com a guerra de 1914-1918 a favor dos Estados-Nações convergentes globalmente na Sociedade das Nações, e acabando, neste século XXI sem bússola, e pelo que toca à Europa, num regionalismo, que é a União Europeia, sem conceito estratégico para enfrentar o globalismo, cuja estrutura interna é mal conhecida, quanto às redes múltiplas, interdependências, e até centros de decisão. Porque as gerações vivas procuram naturalmente responder a esta circunstância nova, as correntes de resposta são múltiplas, ou acentuando a perda-recuperação do nacionalismo ou a compensação da soberania individual com a regionalização da nova invenção, ou com tendências para aceitar a terra casa comum dos homens cuja governança falta. Por tudo, as subsistentes memórias plurais do passado entram frequentemente em conflito com os próprios normativismos contratuais ou organizações como a ONU, e, sem surpresas com os regionalismos menores, como é a União Europeia. Acontece que se podemos não esquecer a visão de Camões de uma unidade (cristandade) em que Portugal seria a cabeça da Europa toda, e por isso merece ser citado entre os crentes da unidade europeia, é também o defensor da identidade singular da Pátria em que um fraco Rei faz fraca a forte gente, na época em que, depois da guerra de 1939-1945, a Europa deixou de poder considerar-se “a luz do mundo”, perdeu o Império Euromundista de que Portugal teve parte até 1974, não acertou na governança da plataforma da União, dividiu-a entre ricos e pobres, fez crescer o desamor europeu, viu reaparecer as ambições das pequenas pátrias, e renascer a inquietação dos Estados-Nações, a cuidar de novo das suas raízes, do seu novo isolado futuro, do bem estar dos seus cidadãos, da sua dignidade na comunidade global. É neste clima que o tema do milagre português, que tem a memória camoniana da unidade europeia congregada com a memória da unidade não perdida, assumiu a lusofonia com a importância que sustenta o autor deste livro oportuno, e que não ignora o vigor com que analistas atentos, multiplicam os avisos e críticas contra a forma como a unidade europeia vai perdendo vigor, com falta de conceito estratégico, com tendência para reviver o directório de má história, tudo agravando a circunstância da lusofonia e do luso-tropicalismo, que devia ser a bandeira do enfraquecido Estado português, que é a do nosso autor, que não pode ser diminuída, porque é um alicerce nosso. O facto de Portugal sempre ter necessitado de um apoio externo, e, findo o Império Euromundista, ter racionalmente seguido a União da frente marítima atlântica na decisão de abandonar as responsabilidades coloniais, isso não impede querer fortalecer outras parcelas de liberdade nacional, nem ignorar ter obrigações para com outras organizações, como a ONU e o BIT, o que parece ter sido esquecido no regime da troika e sequelas vigentes. Ora, de todos os países que partilharam o Império Euromundista findo com a guerra de 1939-1945, e a filosofia da ONU, foi Portugal o único que, depois de uma guerra longa, ao lado das guerras pesadas que todos os outros sustentaram (França, Holanda, Inglaterra, Bélgica), conseguiu inspirar a organização da CPLP e do Instituto Internacional de Língua Portuguesa, lançando as ideias a que o Brasil deu força e organização. Ignorar que a língua portuguesa é uma janela de liberdade, é por exemplo não meditar na importância universitária que lhe dá a Universidade Católica de Tóquio, ou o interesse que em 2005 levou o governo de Pequim a delegar no governo de Macau o estudo da língua, “para aproveitar a herança portuguesa”: deixámos em Macau uma escola portuguesa, julgo que nesta data a China tem catorze, e aqui começa a ser institucionalizado o ensino do Mandarim. O erro, creio, é não admitir que a “língua portuguesa não é nossa, também é nossa”. Isto porque em cada latitude onde se fala absorve valores diferentes que nos outros não acolhe, a começar com o português do Brasil com os seus valores dos nativos, africanos, alemães, portugueses, italianos, tendo uma música específica. É este erro que tem expressão no querer submeter a língua a tratados, ignorando que é um organismo vivo, cuja vida não é neutra em relação à circunstância. Por outro lado, depois do fim do império Euromundista, a CPLP é uma expressão de “maneira portuguesa de estar no mundo”, o que implica, para além dos erros cometidos, como a inquisição, o transporte de escravos, a expulsão dos judeus, o estatuto jurídico diferenciado das populações, ter conseguido, pela intervenção universitária e missionária da já intitulada Escola Ibérica da Paz, onde o padre António Vieira tem parte actual, dar uma contribuição notável para o património imaterial da Humanidade, usando a comunidade de afectos que permitiu a organização da CPLP e do Instituto Internacional da Língua Portuguesa. Por vezes é citada a Comunidade Britânica, anterior à segunda guerra mundial, mas vistas as diferenças em relação aos países que não são de origem anglo-saxónica, a semelhança não existe. O cimento dessa nossa afinidade parece ser, como foi na formação demorada das Nações, a comunidade de afectos entre as etnias encontradas e os colonizadores finalmente encaminhados não para a tolerância, mas para o respeito das diferenças. A unidade europeia não é incompatível com isto, falta-lhe o culto acentuado da comunidade de afectos, acima das memórias imperiais, que sobreviveram a duas guerras mundiais. Por isso, é um serviço, não apenas aos interesses de Portugal, mas aos do património imaterial comum da humanidade, a defesa dos valores lusófonos, a que se dedicou o MIL.

"Nautas", de Octávio dos Santos, mais uma obra promovida pelo MIL...

"Nautas - O início da Sociedade da Informação em Portugal" é uma obra que procura identificar as principais questões, dúvidas, soluções e polémicas que a modernização tecnológica do país levantava nesse período fulcral, de transição de século e de milénio. Quer assumir-se como uma referência relevante, como um contributo, necessariamente modesto, para o registo, análise e compreensão de um processo indispensável e indissociavelmente ligado ao desenvolvimento - técnico, económico, social, cultural - do nosso país. Todos os que quiserem compreender o que atualmente se faz neste âmbito em Portugal precisam de conhecer, ou de recordar, o que se fez - e quem, onde, como e porque se fez - há duas décadas.


Octávio dos Santos, "Nautas", Lisboa, MIL/ DG Edições, 2017, 239 pp. ISBN: 978-989-8661-81-4


Outras obras promovidas pelo MIL:


 

O MIL, a(s) Esquerda(s) e a(s) Direitas(s)...



José Pedro Zuquete, in Ideias e Percursos das Direitas Portuguesas, coord. de Riccardo Marchi, Lisboa, Texto Editora, 2014, p. 420.

sábado, 22 de julho de 2017

"Portugal, um perfil histórico"


Inserida na Colecção Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, foi lançada, em 2016, a obra Portugal, um perfil histórico, da autoria de Pedro Calafate, Professor de “Filosofia em Portugal” na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A obra obedece ao esquema da Colecção e daí decorre, simultaneamente, o seu maior mérito e o seu maior defeito: conseguir, em pouco mais de uma centena de páginas, dar-nos uma panorâmica da forma como Portugal foi sendo sucessivamente, século após século, analisado; as muitas inevitáveis omissões, porém, podem e devem ser supridas noutras obras, algumas das quais coordenadas pelo próprio autor – falamos, em particular, de História do Pensamento Filosófico Português (Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa/ Caminho, 1999-2004, 5 vols.) e de Portugal como Problema (Público/ Fundação Luso-Americana, 2006, 6 vols.). Dado esse condicionamento prévio relativo à extensão, salientamos porém o seu mérito: uma obra como esta é sem dúvida muito útil para promover uma auto-consciência histórica dos portugueses, sobretudo numa época em que essa auto-consciência sofre as mais diversas formas de erosão. Para quem, porém, como nós, se empenha na preservação de Portugal, sobretudo enquanto realidade (decerto dinâmica) cultural, uma obra como esta não pode deixar de ser saudada, desde logo pela rememoração que promove das nossas raízes históricas. É comum dizer-se que ninguém poderá ter um presente saudável e um futuro auspicioso recalcando o seu passado. Com as devidas nuances, o mesmo vale para (todos) os povos.
Resultado de imagem para Portugal, um perfil históricoA obra divide-se em cinco capítulos, o primeiro com o título “Idade Média e Renascimento: a génese de um destino colectivo”. Nele se analisam, sucessivamente, as seguintes temáticas: “O mito do herói fundador: a narrativa lendária sobre D. Afonso Henriques” (pp. 12-16); “A vontade do ‘comum povo livre e não sujeito’” (pp. 17-18), sobre a crise sucessória de 1383-85, que culminou na eleição do Mestre de Avis; “Portugal como marco da última idade do tempo” (pp. 18-20), sobre a emergente auto-consciência histórica do país enquanto nação; “As primeiras expressões da relação anímica ente o homem e a terra” (pp. 20-24); “Identificação dos principais atavismos da sociedade portuguesa” (pp. 24-26), em que se salienta “o olhar crítico de D. Pedro” sobre o país, posteriormente retomado por outras figuras, com D. Luís da Cunha, Antero de Quental e Guerra Junqueiro – assinalando-se “o atraso na administração da justiça como a principal debilidade da sociedade portuguesa”; “Portugal e a Europa: a ideia de ‘irmandade’ europeia fundada em ‘letras comuns’” (pp. 26-28), onde, igualmente guiados pelos olhar de D. Pedro, se assinala a génese, entre nós, de uma irmandade europeia enquanto “irmandade de sabedoria”, qual “pátria ecuménica dos ocidentais de então”, “acima das pátrias nacionais”; “A concepção existencial da linguagem: a afirmação do valor da língua portuguesa” (pp. 28-32), sobre “as primeiras manifestação de outro aspecto fundamental da nossa consciência histórica, atinente ao valor de uma língua comum” – destacando-se o papel de João de Barros, que “estabelece uma articulação causal entre a língua e a nação”; “As faces do império cristão” (pp. 32-41), sobre a importância da religião (cristã) para a consolidação da auto-consciência histórica do país e do império entretanto iniciado.

O segundo capítulo é dedicado ao “Seiscentismo” e nele se destacam as figuras de António Vieira” (pp. 43-50), que viu “nos portugueses os obreiros da plenificação da história, uma ‘segunda criação do mundo’, expressa num sonho de harmonia e paz universais, não apenas no interior de cada homem, mas na relação de próximo com próximo, de reino com reino e de todos com Cristo”; de Manuel Fernandes de Vila Real (pp. 50-51), que “no século XVII ombreou com Vieira nesta cruzada de aproximação e de eliminação de barreiras entre os membros da comunidade por nós formada”; bem como ainda as de Luís Mendes de Vasconcelos, Manuel Severim de Faria e Duarte Ribeiro de Macedo (pp. 51-55) – “pelo modo como criticava os ‘fumos da Índia’ que atolavam sectores cada vez maiores da sociedade portuguesa na inacção, na exibição do luxo importado, nomeadamente das nações industriosas da Europa, desequilibrando, sem necessidade, a nossa balança comercial”. No terceiro capítulo, por sua vez, sobre “As Luzes”, no item “A história-tribunal e o dogmatismo da Razão” (pp. 57-65), começa-se por se questionar a acusação de que “o século XVII fora o período das espessas trevas, da falsa filosofia, do mau gosto em matéria de eloquência, da decadência das letras e das ciências, do estiolamento das instituições de ensino, da invasão da esfera temporal do Estado pelo poder espiritual da Igreja, da entrega dos nossos interesses vitais à economia inglesa, conduzindo o país ao abismo e à ruína, da qual teríamos que nos erguer a todo o custo, numa atmosfera de salvação nacional, a que acorreria o despotismo esclarecido do consulado pombalino, variante do Estado absoluto”.

Daí ainda, neste capítulo, “a crítica de Verney ao Padre António Vieira” (pp. 65-66), crítica “arrasadora no âmbito das suas obras profético-especulativas”; “As principais debilidades estruturais do país, segundo D. Luís da Cunha” (pp. 66-68), que, alegadamente, “pôs o dedo nas feridas da nossa desonra como país intolerante, da inépcia económica decorrente dos tratados por nós assinados e ainda da falta de articulação entre o bem espiritual da Igreja e o bem temporal do Estado”; a referência a Alexandre de Gusmão” (pp. 68-69), “em favor de uma sociedade mais sensata, mais gregária e com menos fracturas, menos separada por privilégios sem fundamento”; e, por fim, “as reformas necessárias, segundo António Ribeiro Sanches” (pp. 69-72), decorrentes do seu “diagnóstico: a desigualdade perante a lei e os privilégios de alguns eliminavam o sentido de comunidade e de bem comum, gerando um sentimento de injustiça que minava os esforços de modernização do país, acrescendo uma tendência para a intolerância, sobretudo no domínio religioso”. No quarto capítulo, por sua vez, elencam-se “cinco perfis do Portugal no século XIX”: Alexandre Herculano (pp. 73-75), “talvez o mais lido, ouvido e respeitado intelectual do século XIX português”; Antero de Quental (pp. 76-77), que defendia que a nossa “solução passaria pela ruptura com um passado de enganos: ‘quebrar resolutamente com o passado’”; Oliveira Martins (pp. 77-79), que considerava que “os povos da Península, entre eles o nosso, necessitavam certamente de uma reorganização orgânica”; Guerra Junqueiro (pp. 80-81), para quem “o nosso problema mais grave era de ordem moral, situava-se não tanto no âmago ou na natureza do ‘povo’, mas nas nossas elites dirigentes”; e João Andrade Corvo (pp. 82-85) que, para além de outros méritos, “teve ainda um pioneirismo assinalável sobre Portugal no plano geostratégico”, relevando a nossa dimensão atlântica.

O quinto e último capítulo da obra será decerto o mais questionável, pela escolha que Pedro Calafate faz de “Três perfis do Portugal no século XX”: Fernando Pessoa (pp. 87-91), que retoma, no século XX, a ideia messiânica de António Vieira sobre Portugal; António Sérgio (pp. 91-101), para quem a solução era “importar o mais possível, animado que estava por esse ideal da cultura europeia”; e Jorge Borges de Macedo (pp. 102-107) que temperava o europeísmo de Sérgio, optando, por um lado, “pela Europa das pátrias e não pela Europa das regiões” e, por outro, reafirmando a nossa dimensão atlântica. Tendo consciência de que este tipo de exercícios de escolha é sempre questionável, há pelo menos um autor que, a nosso ver, deveria ter merecido maior destaque numa obra deste cariz: Agostinho da Silva. E isto porque, na nossa visão, foi Agostinha da Silva aquele que mais e melhor pensou o Portugal pós-imperial. Num texto publicado no jornal brasileiro O Estado de São Paulo, com a data de 27 de Outubro de 1957, Agostinho da Silva havia já proposto “uma Confederação dos povos de língua portuguesa”. Num texto posterior, chegará a falar de um mesmo povo, de um “Povo não realizado que actualmente habita Portugal, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, o Brasil, Angola, Moçambique, Macau, Timor, e vive, como emigrante ou exilado, da Rússia ao Chile, do Canadá à Austrália” (in “Proposição” (1974). Daí ainda o ter-se referido ao que “no tempo e no espaço, podemos chamar a área de Cultura Portuguesa, a pátria ecuménica da nossa língua” (in “Presença de Portugal”), daí, enfim, o ter falado de uma “placa linguística de povos de língua portuguesa — semelhante às placas que constituem o pla­neta e que jogam entre si” (entrevista ao Jornal de Letras, 15.09.1986), base da criação de uma “comunidade” que expressamente antecipou.

Daí também a omissão mais significativa no plano conceptual que encontramos neste livro: referimo-nos à Lusofonia – como nós próprios já tivemos a oportunidade de escrever (“Pensar a Lusofonia no século XXI”, in A Via Lusófona II, Zéfiro, 2015):

No século XXI, para pensarmos a Lusofonia, temos que superar os paradigmas colonialistas e mesmo pós-colonialistas. Estes estão ainda reféns de um olhar enviesado por uma série de complexos históricos que há que transcender de vez, de modo a podermos realizar essa visão futurante do que pode ser a Lusofonia. Transcender não significa escamotear. Indo directo ao assunto, é evidente que a Lusofonia se enraíza numa história que foi em parte colonial e, por isso, violenta. Não há colonialismos não violentos, por muito que possamos e devamos salvaguardar que nem todas as histórias coloniais tiveram o mesmo grau de violência. Eis, de resto, o que se pode aferir não apenas pelas análises históricas, mas comparando a relação que há, nos dias de hoje, entre os diversos povos colonizadores e colonizados. Assim haja honestidade para tanto. Não será, porém, esse o caminho que iremos aqui seguir. Não pretendemos alicerçar a Lusofonia na relação que existe, nos dias de hoje, entre Portugal e os países que se tornaram independentes há cerca de quarenta anos. Se assim fosse, estaríamos ainda a fazer de Portugal o centro da Lusofonia, estaríamos ainda a pensar à luz dos paradigmas colonialistas e mesmo pós-colonialistas. O que pretendemos salientar é que, sem excepção, é do interesse de todos os países que se tornaram independentes há cerca de quarenta anos a defesa e a difusão da Lusofonia. Eis, desde logo, o que se prova por nenhum desses países ter renegado a língua portuguesa como língua oficial. Se o fizeram, não foi decerto para agradar a Portugal. Foi, simplesmente, porque esse era o seu legítimo interesse, quer interno – para manter a unidade nacional de cada um dos países –, quer externo – fazendo da língua portuguesa a grande via de inserção na Comunidade Internacional (…).

15-18 de Novembro: Programa do 2º Festival TABULA RASA



O Programa foi publicamente apresentado no dia 24 de Fevereiro de 2017, data em que lançámos igualmente o volume que resultou da primeira edição deste Festival.



Conforme o publicitado no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Fátima, entidade promotora do evento, no dia 24 de Fevereiro, e, mais recentemente, no dia 9 de Março, no Palácio da Independência, sede do MIL: Movimento Internacional Lusófono, entidade organizadora, está já acessível o Programa do II Festival TABULA RASA, que irá decorrer entre os dias 15 e 18 de Novembro. Assim, no primeiro dia, teremos, da parte da tarde, o Anúncio dos Prémios “Obras TABULA RASA 2016-2017”, a serem entregues no última dia, bem como as Conferências de Abertura, a serem proferidas por Adriano Moreira e Guilherme d’Oliveira Martins. Depois do jantar, teremos a apresentação da Revista NOVA ÁGUIA Nº 20 e de outras obras.

No dia seguinte, inicia-se uma série de quatro painéis, que se estendem pelo terceiro dia, sobre “A Literatura e o Sagrado” (tema geral deste II Festival) nos diversos países e regiões do espaço de língua portuguesa: em Portugal, por Annabela Rita; em Angola, por Carlos Mariano Manuel; no Brasil, por Mariene Hildebrando; em Cabo Verde, por Elter Manuel Carlos; na Galiza, por Maria Dovigo; em Goa, por Henrique Machado Jorge; na Guiné-Bissau, por Braima Cassamá; em Malaca, por Luísa Timóteo; em Macau, por Jorge Rangel; em Moçambique, por Delmar Maia Gonçalves; em São Tomé e Príncipe, por Orlando Piedade; e, finalmente, em Timor-Leste, por Luís Cardoso.

Para além desta dimensão lusófona, este Festival terá ainda uma dimensão ecuménica, com um painel, a decorrer na tarde do dia 16, sobre “O sagrado nas várias tradições religiosas”: na tradição católica, por Samuel Dimas e Joaquim Domingues; na tradição islâmica, por Fabrizio Boscaglia; na tradição judaica, por Pedro Martins; na tradição druídica, por Joaquim Pinto; na tradição oriental, por Rui Lopo. No dia seguinte, teremos um outro painel sobre “O sagrado no pensamento, na poesia e nas artes”; no pensamento, por Manuel Cândido Pimentel; na poesia, por Luísa Malato e Celeste Natário; na música, por Edward Ayres Abreu; nas artes plásticas, por José Carlos Pereira. Nas noites de 16 e 17, teremos ainda dois painéis-tertúlia onde alguns escritores falarão sobre a sua experiência de escrita: Afonso Cruz, António Carlos Cortez, Fernando Pinto do Amaral, Gonçalo M. Tavares, João de Melo e Maria João Cantinho.

Na manhã de dia 18, finalmente, entregar-se-ão os Prémios “Obras TABULA RASA 2016-2017”, nas diversas categorias: literatura infanto-juvenil (justificação: Pedro Teixeira Neves); poesia (justificação: António José Borges); ficção (justificação: António Ganhão); filosofia (justificação: António Braz Teixeira). Depois, conforme o já anunciado, Miguel Real irá justificar a entrega do Grande Prémio “TABULA RASA Vida e Obra” a Pinharanda Gomes, que fará depois também uma intervenção. Por fim, ainda antes do almoço, far-se-á o encerramento formal do II Festival, sendo certo que, pela tarde fora, bem como nos três dias anteriores, teremos alguns momentos culturais surpresa. Não é, de facto, por acaso que os Festivais TABULA RASA assumiram o lema: “Muito mais do que um Festival Literário…”.   

 
Co-organização MIL/ NOVA ÁGUIA - para mais informações:

Fotos e Vídeos da Entrega do Prémio MIL Personalidade Lusófona a Ruy Mingas e Lançamento da NOVA ÁGUIA 19...

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sexta-feira, 21 de julho de 2017

Uma polémica no Jornal Público: "Portugal, um país racista?" (I e II)

 

Habituados que estamos à intervenção no espaço público, não nos surpreenderam, de todo, algumas reacções ao nosso artigo “Portugal, um país racista?” (PÚBLICO, 18.07.2017). As mais extremadas exploraram o mais do que estafado nexo “lusotropicalismo > salazarismo > nazi-fascismo”.
Ainda que (cada vez mais) cépticos quanto à possibilidade de desconstruir esses lugares-comuns, que em particular pululam, sem qualquer espécie de sentido crítico, nas redes sociais, não podemos deixar de os (tentar) contrariar.
Em benefício desse desiderato, podemos até, à partida, aceitar a crítica de Fernando Henrique Cardoso, reputado sociólogo e ex-Presidente do Brasil, a Gilberto Freyre, que sempre o acusou de “adocicar as relações entre as etnias diferentes, considerando-o mais poeta do que cientista” (cf. Adriano Moreira, “A Lusofonia como Utopia”, in NOVA ÁGUIA, nº 20, 2º semestre de 2017, no prelo).
Uma coisa é, porém, aceitar isso, outra, completamente diferente, é sugerir que o seu paradigma de sociedade multi-racial é, de alguma forma, afim do paradigma social nazi-fascista. O próprio Gilberto Freyre, de resto, assumiu que a sua proposta podia e devia ser lida, no Brasil, como uma resposta aos “nostálgicos da colonização holandesa” e “alemã” (in O Mundo que o Português criou, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1940, p. 52).
Esses, sim, defendiam uma colonização abertamente racista e segregadora. Por isso, ainda hoje espanta ver no Brasil pessoas, algumas até de ascendência africana, que proclamam que o grande azar do Brasil foi ter sido criado por Portugal e não pela Holanda ou pela Alemanha. Decerto, não têm consciência de que o Brasil teria sido um país muito parecido com a África do Sul. Não que isso tenha feito da sociedade brasileira uma sociedade imune ao racismo. Mas, uma vez mais, importa não confundir os paradigmas – que, neste caso, são particularmente contrastantes.
E, quanto ao nexo salazarista, também é mais do que tempo de relermos a obra de Gilberto Freyre libertos desses preconceitos e sectarismo ideológicos – porta, de resto, já aberta pelo insuspeito Mário Soares: “Agora, passados os anos e lendo novamente Gilberto Freyre, abstraindo Salazar e as guerras coloniais, aquilo que ele disse é verdadeiro. Aquilo que ele disse sobre luso-tropicalismo é verdadeiro, é uma cultura própria e temos que desenvolvê-la no futuro.” (cf. Vamireh Chacon, "O Futuro Político da Lusofonia", Lisboa, Verbo, 2002, p. 49).


Há uma nova moda politicamente correta a emergir, de forma cada vez mais ruidosa, no nosso discurso político-mediático: a de considerar Portugal um país racista. Há mesmo políticos de alguns partidos que parecem ter particular gáudio em ecoar tal consideração. Nas suas mentes, Portugal continua a ser um país atrasado, ainda longe do cume civilizacional da Europa, sendo esse alegado “racismo” um dos supostos sintomas do nosso atraso.
Esse (cada vez menos) tácito discurso, de tal modo provinciano, não resiste, porém, à crítica. Decerto, Portugal terá alguns atrasos nas mais diversas áreas em relação a outros países europeus. Mas não, de todo, nesta área. Quem conhece minimamente a Europa não poderá senão concordar connosco: Portugal é, provavelmente, para não dizer decerto, o país menos racista da Europa. Defender esta evidência não significa, obviamente, dizer que não há racismo em Portugal. Significa apenas afirmar que, comparando com o que acontece na restante Europa, o racismo em Portugal é bem menor.
Decerto, isso não acontece por razões genéticas. Não há nenhum “gene lusitano” menos propenso ao racismo. O que acontece, muito naturalmente, é que a nossa cultura, tal como se foi sedimentando ao longo dos séculos, desenvolveu essa marca axial: tal como acontece com qualquer outro povo que, não se tendo cingido às suas fronteiras e cristalizado uma qualquer homogeneidade étnico-identitária, se foi habituando, ainda que nem sempre de forma pacífica, a lidar com a alteridade: étnica, linguística, cultural, religiosa, etc.
Apenas um exemplo: há não muitos anos, ocorreu um aceso debate em França sobre a alegada descaracterização da principal selecção de futebol, com um crescente número de atletas vindos do Ultramar. Pois bem: em Portugal, nunca houve um debate público similar e um dos nossos maiores símbolos futebolísticos continua a ser Eusébio. É a nossa própria identidade histórico-cultural que se tornou mestiça, sendo por isso absurdo um debate como o que ocorreu em França. É igualmente por isso que, em Portugal, ao contrário do que acontece em muitos países europeus (bem sabemos que, nalguns casos, com alguns problemas que nós não temos), não há partidos com uma agenda racista com expressão.
Bem sabemos igualmente que por vezes ocorrem incidentes que parecem pôr em causa o panorama que aqui traçámos: como foi o incidente (grave, a nosso ver) ocorrido com a nossa Polícia na Cova da Moura. Também não ignoramos que, na grande Lisboa e noutras áreas metropolitanas do país, persistem bolsas de pobreza com alguns contornos não apenas económico-sociais, mas também étnicos. Todos esses problemas, porém, que existem e não devem ser escamoteados, não podem pôr em causa todo o restante, que não é pouco, até porque pode e deve constituir-se como um dos nossos maiores motivos de orgulho perante os outros países da Europa. Ao menos nesse plano, somos nós o exemplo.

Renato Epifânio
Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono

O Livro do MIL, já na sua terceira edição...

Edição revista e aumentada - para encomendar:
info@movimentolusofono.org

Torne-se Sóci@ do MIL e receba "A Via Lusófona (I e II)" como oferta...



Para aceder às fichas de Sóci@ do MIL:

"Agostinho da Silva - Ele Próprio" - Filmado por António Escudeiro - Edições Zéfiro - Nova edição na íntegra num só vídeo



quinta-feira, 20 de julho de 2017

MIL-Notícias, Cabo Verde...

Cabo Verde vai criminalizar consumo de carne de tartaruga
O Governo de Cabo Verde aprovou, em Conselho de Ministros, a criminalização do consumo de carne e ovos de tartaruga, reforçando as medidas previstas no regime jurídico especial de proteção das tartarugas marinhas, foi anunciado.