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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
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Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Revolução Francesa

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A França vivia um período de instabilidade social profundo no século XVIII.O povo,também chamado os “sans culottes”,por andar mal vestido e faminto constituía 98% da população.

Eles formavam o Terceiro Estado, sendo que o Clero formava o primeiro e a nobreza, (o rei e seus pares)o segundo.

Apesar de constituir a maioria só o povo pagava impostos e sustentava o Estado nas suas sofridas costas;o Rei ,a nobreza e o clero ,isentos de impostos e com todas as regalias que o sistema feudal lhes proporcionava,vivia em palácios,festas e caçadas,ignorando completamente o que se passava fora de seus muros.

Naquele ano,1792 a França teve um de seus piores invernos;a farinha,que fazia o pão,base da alimentação da pobreza,teve seu preço elevado e ficou muito acima do bolso dos mais pobres.A miséria campeava absoluta.

Nunca,como naquele momento,as injustiças sociais do “ancien régime” doeram tanto.

A nobreza dominava a política, a justiça e a religião.

Com a França empobrecida por guerras perdidas o Rei convocou os Estados Gerais para reorganizar as finanças do Reino. Reuniu-se o Clero,a Nobreza e o povo,o terceiro estado,composto de trabalhadores urbanos e agricultores e a pequena burguesia;eram chamados deputados.

Mal as discussões começaram, o Terceiro Estado retirou-se da Assembléia pois percebeu que seus interesses estavam sendo manipulados e desconsiderados.

Revoltado, o povo arrombou um castelo e roubou centenas de mosquetes;a pólvora,sabia onde encontrar,na Bastilha,a tremenda prisão do Rei para onde eram levados os opositores do Regime.

A família real foi arrancada á força,de Versalhes e levada para as Tulherias,o palácio de Paris.

A revolta nas ruas estava cada vez pior.

O Rei foi solicitado a assinar a Constituição, onde abria mão de direitos feudais e cederia ás exigências do povo,liderado por Robespierre,movido pelo Iluminismo,difundido após a Guerra Civil Americana.

Criou-se então a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e a expressão: "Liberdade,Igualdade e Fraternidade", que perdura até hoje como símbolo dos movimentos libertários.

O povo exigiu que Necker fosse o Ministro da Fazenda,o Rei aceitou,porém os tumultos de rua continuavam.

Os conservadores girondinos formados pela alta burguesia e trabalhadores especializados, começaram a se estranhar com os jacobinos,gente da baixa burguesia que queria mudar tudo;instalou-se o caos e o Terror,comandados por Robespierre e Saint-Just e inflamado pelo jornal de Marat,que exigia sangue e dizia que não se faz revolução com água de rosas; e Danton,para quem o processo da Revolução passava pela morte de tudo que existia e era conhecido.

O Rei foi condenado á morte pela guilhotina,instrumento mortal inventado pelo Dr. Guilhotin,que,mais tarde,provou do próprio veneno.

Nesta “navalha nacional”,morreram milhares de franceses,inclusive Robespierre e a Rainha Maria Antonieta.Instalou-se o Terror em 1793,onde todos desconfiavam de todos e matavam todos.

A religião católica foi abolida,igrejas destruídas,os bens do clero,roubados e freiras e padres violados e assassinados cruelmente.

Cristo foi substituído por Marat,cuja banheira onde foi assassinado pela girondina Charlotte Corday,foi elevada a sacrário e colocada nos altares, enquanto o resto da Europa rugia de raiva e impotência.

Durou muito tempo esse estado de coisas;até que foi criado o Diretório,governo de cinco membros,entre eles um corso baixinho e com um ego do tamanho da Europa chamado Napoleão Bonaparte.

Não poderia terminar esse despretensioso ensaio sem falar no hino revolucionário “A Marselhesa”,composto pelo oficial de cavalaria Joseph Rouget de Lisle e que depois se tornou o hino nacional francês.

Eis o refrão:

Aux armes,citoyens
Formé vous bataillons;
Marchons!Marchons!
Qu’un sang impur
Abreuve nous sillons.

Este trecho “que um sangue impuro ágüe nossos arados” demonstra o teor de hostilidade que vivia o país.

Será que veremos tudo isto de novo,Monsieur Sarkozy? Agora que vossa mercê acha que há muitos “sang impur “ na França?As revoltas populares daí não são como as nossas ,no Brasil,que acabam em música,suor e cerveja.

Abra os olhos,meu senhor.

E “VIVE LA FRANCE!”

sábado, 16 de outubro de 2010

A Leva da Morte

Na tarde de 16 de Outubro de 1918, Francisco Correia de Herédia, primeiro e único visconde da Ribeira Grande, foi assassinado.
Chegara a ser uma figura importante do Partido Progressista de José Luciano de Castro. Abandonara-o, com José Maria de Alpoim, quando da Dissidência Progressista. Fidalgo cavaleiro da Casa Real, ostentou várias comendas e foi governador dos distritos de Beja, Bragança e Lisboa.
Numa reunião efectuada em sua casa, na Avenida da Liberdade, em 11 de Julho de 1907, foi decidido passar à acção directa contra a ditadura de João Franco. Estavam presentes, para além de Herédia, José Maria de Alpoim, Afonso Costa e Alexandre Braga.
Eram precisas armas. Pagou-as o visconde. Levantou-as, na loja de um carbonário, no começo de Janeiro de 1908. Eram nove carabinas Winchester calibre 351 e um lote de pistolas FN-Browning. Foram escondidas nos Armazéns Leal, na Rua de Santo Antão. Alguma informação terá chegado aos ouvidos do comandante da Polícia, pois mandou revistar a loja. Afonso Costa foi avisado. Enroladas em tapetes, as armas foram levadas no automóvel de Ribeira Brava para a casa de Luís Grandela, irmão do proprietário dos Armazéns Grandela.
A 28 de Janeiro de 1908, os líderes revolucionários aguardaram no Elevador da Biblioteca, a S. Julião, a notícia da morte de João Franco e do triunfo da rebelião. As horas passaram, sem que chegassem boas novas. João Franco não estava em casa e escapou. As entradas e saídas no Elevador deram nas vistas da Polícia. Foram presos mais de 100 conspiradores. Contavam-se entre eles Afonso Costa, Ribeira Brava e Egas Moniz. Alpoim conseguiu fugir, de automóvel, para Espanha.
Quatro dias depois, a 1 de Fevereiro de 1908, Manuel Buíça atirou contra o rei e contra o príncipe D. Luís Filipe com uma carabina Winchester, enquanto Alfredo Costa, com o pé no estribo da carruagem real, fazia fogo com uma pistola Browning. As armas faziam parte do lote que Ribeira Brava pagara e levantara na loja do carbonário Gonçalo Heitor Ferreira.

Em 1910, o visconde ia nos 58 anos. Juntou-se ao Partido Republicano Português e manteve-se sempre chegado a Afonso Costa. Abandonou o título, mas juntou Ribeira Brava aos seus apelidos. Foi eleito Deputado da Nação, como já tinha sido durante a Monarquia. Teve grande influência política na Madeira, de que foi governador.
Em Outubro de 1918, a agitação social contra o governo de Sidónio Pais recrudesceu. Houve tumultos espontâneos e acções organizadas pela oposição democrática.
Na manhã do dia 12, um regimento de Coimbra levantou-se contra o governo. O alferes Sidónio Pais, filho do Presidente, foi perseguido pelas ruas da cidade.
Em Lisboa e no Porto não chegou a acontecer nada. As coisas terão corrido mal aos revoltosos, pois é difícil acreditar que os de Coimbra tentassem deitar abaixo Sidónio sem contarem com apoios importantes no resto do País. Terá sido essa a interpretação do Presidente. Face à ameaça de insurreição generalizada, decretou o estado de sítio. As cadeias encheram-se de democráticos. Ribeira Brava também foi preso.
Quatro dias depois, já não cabiam mais prisioneiros nos calabouços do Governo Civil de Lisboa. As autoridades decidiram transferir uns tantos para os fortes do Campo Entrincheirado (São Julião da Barra, Alto do Duque e Caxias).
Ao fim da tarde do dia 16, cento e cinquenta presos foram reunidos no pátio do Governo Civil. Saíram dali, enquadrados por mais de duzentos e cinquenta guardas armados. Deveriam dirigir-se ao Cais do Sodré, onde os aguardavam um comboio especial.
A coluna atravessou o Largo da Biblioteca e chegou à Rua Vítor Córdon, Ouviu-se um tiro e a confusão estabeleceu-se. Os guardas disparavam para onde estavam virados. Quando o tiroteio cessou, havia no chão sete mortos, entre os quais se contava um guarda. O corpo de Ribeira Brava foi encontrado numa valeta, degolado por um golpe de baioneta. O antigo visconde tinha 66 anos.
No dia seguinte, um comunicado do governo "esclarecia" o incidente. Francisco Herédia recebera, na prisão, uma pistola escondida num tacho de açorda. Procurara fugir, atirando contra os guardas da escolta.
A pistola nunca foi encontrada. Há quem diga que alguém disparou contra a Polícia de uma janela de um bordel da Calçada do Ferragial. A voz do povo fez o seu julgamento: a matança terá sido organizada pela polícia sidonista.

Fonte: República - A Luz e a Sombra, de A. Trabulo.
Fotos: net.
Também publicado em decaedela.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Fernando Pessoa e Afonso Costa

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Fernando Pessoa não morria de amores por Afonso Costa. Pela mão de Álvaro de Campos, enviou ao jornal "A Capital", a 6 de Julho de 1915, uma carta em que negava a conotação de futurismo, aplicada ao drama que o grupo da Orpheu tencionava apresentar. Rematava do seguinte modo:

Passo em branco sobre a atribuição de futurismo que nos pretendem lançar. De resto seria de mau gosto repudiar ligações com o futurismo numa hora tão deliciosamente mecânica em que a própria Providência Divina se serve dos carros eléctricos para os seus altos ensinamentos.

O jornal publicou apenas a última frase.


Dois dias antes, Afonso Costa, acompanhado por alguns amigos, resolvera dar um passeio até Algés, para gozar a brisa fresca do mar. Quando o veículo chegou à Avenida 24 de Julho, viu-se um clarão e ouviu-se o que parecia ser um disparo. Costa julgou que o tentavam matar e atirou-se pela janela do eléctrico em movimento. Fracturou o crânio e ia morrendo. Correu em Lisboa uma adivinha malévola:

Qual é a coisa, qual é ela, que entra pela porta e sai pela janela?

Dias depois, Álvaro de Campos voltou a atacar Afonso Costa, noutra carta endereçada ao mesmo jornal. A redacção achou melhor guardá-la na gaveta. Rezava assim:

O chefe do Partido Democrático não merece a consideração devida a qualquer membro da humanidade. Ele colocou-se fora das condições em que se pode ter piedade ou compaixão pelos homens. A sua acção através da sociedade portuguesa tem sido a dum ciclone, devastando, estragando, perturbando tudo, com a diferença, a favor do ciclone, que o ciclone, ao contrário de Costa, não emporcalha e enlameia. Para o responsável máximo do estado de anarquia, de desolação e de tristeza em que jazem as almas portuguesas, para o sinistro chefe de regimentos de assassinos e de ladrões, não pode haver a compaixão que os combatentes leais merecem, que aos homens vulgares é devida. Costa nem sequer tem o relevo intelectual que doure a sua torpeza. A sua figura é a dum sapo que misteriosamente se tornasse fera...
... Por isso eu quero frisar - e sei que ao frisá-lo estão comigo os votos de grande número de portugueses, dos católicos oprimidos, das classes médias atacadas, dos cidadãos pacíficos assaltados nas ruas, de todos aqueles que o general Pimenta de Castro representava - que só não me regozija, no desastre acontecido a Costa, a circunstância, que infelizmente se parece confirmar, do seu restabelecimento.

Referências:
Obra essencial de Fernando Pessoa, Prosa publicada em vida, Edição de Richard Zenith, Assírio e Alvim, Lisboa, 2006.
República - A luz e a sombra, A. Trabulo. A publicar em breve.
Foto e caricatura: Net.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Vincere, radiografia de um ditador

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O homem nasce bom; a sociedade o corrompe, dizia o filósofo Rousseau.

Claro,uma criança é uma folha em branco que será preenchida pelas suas experiências e aprendizados no decorrer da vida,porém,a genética não deve ser menosprezada.

Fui atacada por essas considerações filosóficas logo depois de assistir o magnífico filme italiano Vincere,do excelente cineasta Marco Bellocchio,o homem que percebeu - não com belos olhos,mas,com olhos voltados para a realidade – o nascimento de um ditador.

O filme trata dos primeiros anos de Mussolini,um governante que ascendeu de uma forma inexplicável entre os italianos,embora fosse um ser humano cruel e um político equivocado,cujos destemperos colaboraram com o sofrimento e derrota do seu país na Segunda Guerra Mundial.

Que se examinem os homens,aconselha Bellocchio,porque não se pode separar o homem do ditador em que ele se torna.Sábio conselho!

O filme mostra Mussolini visto por Ida Dasler,uma mulher apaixonada que para segui-lo esquece tudo –família,valores,crenças – e financia o jornal Il Poppolo d’Italia,plataforma para o lançamento de Mussolini como líder político.

Quando ele se alista para lutar na 1ª Guerra e volta ferido ela vai visitá-lo não hospital e descobre que ele já era casado com Rachelle Guidi e tinha filhos;ele a enxota do hospital como um cachorro,embora estivesse grávida de Benito Albino Mussolini,filho do ditador.

Sem dinheiro,desiludida no seu amor e ferida de morte ao descobrir que o homem que amava e admirava era,na verdade um crápula vendido,Ida começou sua campanha pública pelo reconhecimento do seu filho.Foi presa e colocada num manicômio até morrer de hemorragia cerebral anos depois.

Nas poucas visitas do poder à moça,percebemos o comportamento dos poderosos e dos seus asseclas,as mentiras montadas, a supressão de documentos importantes,a chantagem insidiosa aos parentes e amigos da mulher,a degradação pública patrocinada por uma imprensa leniente, a morte de um amor causador da perdição da pessoa mais fraca.

Seu filho,também,foi encarcerado num hospital e,depois de tomar à força muitas drogas poderosas,morreu aos 26 anos num manicômio.

Essas pessoas foram banidas da biografia do ditador e a certidão de casamento de Ida nunca foi encontrada.

O que o filme se propõe a mostrar é que sempre existe um homem atrás do mito e que ambos devem ser estudados , pois um, nunca poderá separar-se do outro.Benito recebeu sem nenhum escrúpulo o amor e o patrimônio de Ida;Mussolini soube como alijá-la da sua vida quando isto lhe foi conveniente e essa relação poderia prejudicar os seus interesses e sua incansável luta pelo poder.

O indivíduo massacrado pelo sistema não é um fato novo.

O filme vem bem a propósito no momento em que a direita fascista está estudando uma reabilitação da memória de Mussolini.E que a presença do bufão Berlusconi no poder já se estende há três anos,apesar dos escândalos sexuais e financeiros que envolvem seu nome.

Bellocchio,na sabedoria dos seus setenta anos,quer provar que o cinema tem um papel relevante na sociedade e na construção da história de um pais.E que cabe aos artistas –escritores,músicos,cineastas – registrarem sem piedade os erros de um sistema.

A metamorfose de Mussolini , -de agitador socialista que queria derrubar o rei e assassinar o papa - em ideólogo do fascismo,sua ascensão ao posto de ditador e aliado da Alemanha Nazista, nos deixa pasmos; fica difícil de entender como esse homem tornou-se ídolo dos italianos.

Ma,la nave va...

Mas,que vá sempre fiscalizada pelos artistas,escritores e cine.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Um «pequenino esforço»

O Presidente da República, Aníbal António Cavaco Silva, disse que «normalmente faço um grande esforço para ter bom senso». Mas ele ou não se tem esforçado o suficiente ou não sabe o que é o bom senso: promulgou o acordo ortográfico (com o qual concorda, e não pratica), o «casamento» entre pessoas do mesmo sexo (com o qual não concorda, e não pratica) e praticamente todas as outras medidas que o governo «so-cretino» tem tomado que vão no sentido, cada vez mais, de reforçar o Estado e de enfraquecer a sociedade, e que conduzem, inexoravelmente e objectivamente – e deliberadamente? – à falência (cultural, económica, social) de Portugal. Enfim, é a «cooperação estratégica» a bem da «estabilidade»... definitiva.
O primeiro ministro, José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, pediu um «esforço nacional, colectivo» e mesmo «patriótico» no combate à redução do défice. Posteriormente, o ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, afirmou que o país tem de fazer um «esforço muito sério e significativo» na redução da despesa pública. Claro que, no país, é o povo que tem de fazer esse esforço… pagando cada vez mais impostos. Afinal, e como sentenciou António Almeida Santos, «o povo tem que sofrer as crises como o Governo as sofre»; ou como os deputados a «sofrem» – um do PS queixou-se de que o seu salário de quase quatro mil euros «não dá para tudo» e, por quase «não terem dinheiro para comer», quer que a cantina da assembleia também abra para jantares. Entretanto, Augusto Santos Silva, tal como muitos dos seus «camaradas», acusou o maior partido da oposição e o seu líder de serem «irresponsáveis» por não estarem dispostos a ratificar, sem conhecimento prévio, tudo o que o governo pretende. Compreende-se porquê: os outros é que têm de ser responsáveis porque os «súcialistas» não o são.
Tendo voltado a ouvir recentemente o álbum «Ser Solidário», de José Mário Branco (tenho todos os discos de originais dele), uma das suas canções – para além de «FMI» («Consolida, filho, consolida!») – destacou-se ainda mais: «Vá... Vá...», uma sátira aos «revolucionários de café» - «(...) Sinto vocação de pensador “engagé”. Mas o peso da consciência... no peito! Não consigo suportar este remorso, tenho de fazer um pequenino esforço. Vou mudar de vida, ai isso é que vou! (...)» Não é uma «bonus... track», mas a faixa é, a dada altura, devidamente pontuada por «efeitos sonoros», ou expressões inequívocas, de alguém (o próprio autor-cantor) que está a «aliviar a tripa»... E termina com um sussurro perfeitamente audível: «Vá... vá... b*rd*m*rd*.»
Esta audição foi como que uma «iluminação»: fez-me compreender, e aceitar, e assumir, que os (mais ou menos) grandes, (mais ou menos) duros e sempre mal cheirosos c*g*lh**s que eu expulso para a sanita a pensar nos senhores Silva, Sousa, Santos, Almeida Santos, Santos Silva, e vá... vá... vários outros, constituem o resultado do meu «pequenino esforço», individual, mas «sensato», «patriótico», muito sério e significativo em prol da República Portuguesa. E hoje, 5 de Outubro de 2010, cem anos depois da defecação da dita cuja, a minha «homenagem» só podia consistir, a seguir a um lauto almoço, numa c*g*d*l* verdadeiramente histórica!
Depois é puxar o autoclismo e vai (vá... vá...) tudo abaixo. Tal como este país, que está a «(sa)ir pelo cano»... do esgoto. A 1 de Fevereiro de 1908 tinha «entrado» por outro cano... o da espingarda.

(Adenda) Será desta que vai... sair? O Sousa está disposto a fazer um «último esforço»...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

«Em 2010, “não” a 1910, “sim” a 1810!»

Este é o título do meu mais recente artigo de opinião (com factos) no jornal Público, com data de hoje, 27 de Setembro de 2010, e que pode ser lido também aqui.

Comida de Santo: o Caruru

Ontem foi dia dos Santos Gêmeos, dia de comer caruru.

O quiabo é uma planta africana chamada calulu, daí o nome do famoso prato. Desde cedo, as donas de casa alvoroçadas, cortando os quiabos, (depois de bem lavados e enxutos numa toalha limpa, para secar a baba.) triturando as castanhas, amendoins, cebolas, gengibre, camarões secos, tudo para fazer a comida ao gosto dos ibejis. depois de triturado no pilão, junta-se o quiabo cortadinho bem miúdo e põe-se um pouco do azeite; não se coloca água; quiabos, temperos e azeite postos nas panelas, mexe-se constantemente para não pegar e vai-se acrescentando o dendê, quando necessário. Não esquecer o sal.

Pronto o caruru, arruma-se a mesa, com a separação ritual: o caruru dos meninos, seguindo todos os preceitos; o dos grandes, á vontade. caruru, vatapá, efó, arroz de hauçá, cana cortadinha, farofa de azeite, abará, acarajé, pipoca branca, feijão fradinho, banana frita, cocada puxa, o banquete do santo. a bebida de Cosme é o aluá de abacaxi, feito com a infusão das folhas da fruta, depois de bem lavadas e macerando de um dia para o outro.

então é só degustar essas maravilhas, mas, primeiro que tudo se deve alimentar os meninos: coloca-se uma porção de cada iguaria numa "quartinha” de barro e agradece os benefcios recebidos e/ou pedem-se outros. Deixa-se a comida por três dias, depois recolhe-se a quartinha e joga-se num matinho verde.

Pode-se oferecer a comida dos santos todos os meses do ano, exceto novembro, mes dos eguns.

A mesa dos meninos é um caso á parte, como ensinou Maria de S. Pedro, quituteira de primeira, dona do restaurante que tinha o seu nome, no Mercado Modelo. Dizia D. Maria: Todos os pratos da festa devem estar sob uma pequena mesa: caruru, pipocas, amendoim, farofa de azeite, cana cortadinha, banana frita, arroz branco, abará, abóboras, acarajé, milho branco, coco cortado em pequenos pedaços, galhinha de molho pardo e ovo cozido. Enchia-se uma bacia grande que se punha no chão bastante limpo e forrado. Chamava-se os sete meninos mais jovens; as crianças, entre sete e oito anos abaixavam-se em volta da bacia; As crianças mais velhas e os adultos batiam palmas ritmadas; D. Maria chamava -Vem cá, vem cá, Dois - Dois. Os pequeninos, simbolicamente, mantinham as mãozinhas por cerca de um minuto sobre o caruru, começando, a seguir, todos juntos a jantar. Todos cantam com alegria e entusiasmo, mantendo o ritmo das palmas: - Eu te dou de comê, Dois - Dois! Eu te dou de bebê, Dois - Dois; os versos são cantados sete vezes, depois, passa-se para outros:

S. Cosme mandou fazer
Uma camisinha azul.
No dia da festa dele
S. Cosme quer caruru.
Vadeia Cosme, vadeia
Vadeia, Cosme, na areia!
Vadeia, Cosme, vadeia,
Vadeia, Cosme, na areia!
Eu tenho pai
Que me dá de comê.
Eu tenho mãe
Que me dá de bebê.
Comido o alimento santo,

Os meninos esperam o sinal para levantar as mãos. Aí começa a festa dos grandes; Voltam às palmas e os cantos: Louvado seja, ó meu Deus

Que Cosme e Damião comeu.

Repete-se três vezes esses versinhos. Depois, os sete meninos e a dona da casa carregam a bacia para dentro da casa.



Este e outros textos sobre a Bahia e a cultura negra está no livro "A BAHIA DE OUTRORA" à venda através do e-mail: miriamdesales@gmail.com.Sedex grátis para qualquer país.

domingo, 19 de setembro de 2010

Uma história esquecida da Segunda Guerra Mundial

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No dia 19 de Setembro de 1945, data a todos os títulos memorável na nossa história, a bandeira da Pátria desfraldava-se orgulhosamente em todas as localidades importantes e em muitas povoações timorenses enfim libertadas da opressão estrangeira.” – José dos Santos Carvalho, “Vida e Morte em Timor Durante a Segunda Guerra Mundial”, 1970.

Aileu

Em Aileu (Timor Leste) ergue-se um monumento evocativo dos militares portugueses, e respectivas famílias, que se suicidaram aquando da invasão de Timor Leste pelas tropas imperiais japonesas no decorrer da Segunda Guerra Mundial, vítimas da propaganda dos Aliados os militares portugueses estavam convictos de que eles próprios e as suas famílias seriam barbaricamente torturados e violados.

D. Aleixo Corte-Real (régulo timorense), lá onde se mistura a lenda com a História, recusou em reconhecer a soberania japonesa sobre o território, afirmando: “Sou Português, e só os Portugueses me podem prender!”. O resultado: as forças invasoras executaram-no não só a ele, como toda a sua família. A colonização de Timor contava com a presença de Portugal e da Holanda, resta-me realçar que foram os timorenses do lado português que organizaram a resistência aos japoneses, aliados da Itália fascista e da Alemanha nazi, com o propósito de restabelecer a soberania portuguesa no território (a foto que ilustra este artigo é uma vista parcial da cerimónia aquando desse restabelecimento, cujo 65º aniversário passará certamente em branco). A Administração Portuguesa do território foi internada em campos de concentração japoneses. Salazar, tentando manter a necessária neutralidade (violada pelos japoneses) de Portugal não prestou qualquer auxílio aos portugueses presentes no território, nem aos que estavam detidos pelos japoneses, nem aos que participaram nas bolsas de resistência à ocupação, em nome de Portugal.

Portugueses contra o Eixo

Embora não sendo das fontes mais fiáveis (encontra-se completamente esgotada a obra “Timor – Ocupação Japonesa durante a Segunda Guerra Mundial” de Carlos Vieira da Rocha, publicado em 1996 pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal) creio ser digno de nota a seguinte entrada da Wikipédia portuguesa referente à Segunda Guerra Mundial:

“Em Timor ocorrem os únicos combates em que participam forças portuguesas durante a guerra. Apesar de nunca se estabelecer formalmente o estado de guerra entre Portugal e o Japão, militares e voluntários civis portugueses combatem ao lado das tropas australianas e holandesas contra os invasores japoneses. Na Austrália, é inclusive formada a primeira unidade militar pára-quedista portuguesa, que é lançada na retaguarda das linhas japonesas, para realizar operações de guerrilha contra os invasores.”

Com base no citado “Vida e Morte”, "Todos os portugueses que então aí viviam, fossem eles timorenses, metropolitanos, goeses, madeirenses, africanos ou macaenses, estiveram sujeitos a prolongado e pertinaz suplício que estóica e patrioticamente suportaram".

A mesma obra numera as baixas do lado português: "muitas centenas de timorenses assassinados, mortos em combate ou falecidos na prisão e, entre os não-nativos de Timor, pelo menos, trinta e sete assassinados, dez mortos em combate, seis mortos por suicídio, vinte falecidos ao abandono no interior da ilha onde andavam foragidos e oito que miseravelmente acabaram os seus dias no cárcere japonês".

Encontra-se ainda disponível a obra "Timor na 2.ª Guerra Mundial — O Diário do Tenente Pires" de António Monteiro Cardoso (Centro de Estudos de História Contemporânea, ISCTE, 2007) que inclui, como o título indica, o diário de um dos oficiais portugueses que participou activamente na guerrilha contra a invasão nipónica.

Ausência de memória

Antes de lerem esta minha curta chamada de atenção, quantos dos leitores estavam a par deste episódio referente à Segunda Guerra Mundial? Muito poucos certamente, as nossas escolas estão mais preocupadas em ensinar banalidades em vez da História nacional, é portanto normal que tal se reflicta não só nos nossos governantes, mas também entre aqueles que se declaram como alternativa a estes… é triste, mas é o Portugal que ainda vamos tendo.

Post-Scriptum No dia 16 irá decorrer, nas instalações da Biblioteca Nacional, uma Homenagem a António Telmo. Às 18h será apresentada a obra “O Portugal de António Telmo” (Guimarães, 2010) com a presença de Pedro Sinde, Renato Epifânio, Rodrigo Sobral Cunha, Miguel Real e o filósofo Pinharanda Gomes. 2010 tem-nos sido pesado em baixas, há que aproveitar as cada vez mais raras oportunidades para homenagear e recordar os nossos maiores pensadores, pelo andar da carruagem chegará o dia em que também estes poderão desaparecer nas areias do tempo, há que os recordar.

O Diabo, Semanário Independente
14 de Setembro, 2010.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Algumas reflexões sobre a erudição

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Vocês, meus caros,já notaram a quantidade e variedade de escolas ,alunos e professores que temos no nosso pais?

Ficamos contentes, pois, parece que damos uma grande importância à Educação e à Cultura, pois,para alguns,elas andam juntas e de mãos dadas.

Mas,cá com meus botões,acho que estamos enganados.

As escolas particulares na sua grande maioria,foram criadas no intuito de ganhar dinheiro;alguns professores ensinam apenas com esse objetivo também e não se esforçam para aprender cada vez mais, contentando-se apenas em “parecer” preparados.

Os alunos estão lá ,não para aprender alguma coisa que lhes seja útil no futuro,mas,para passar de ano,tagarelar com os colegas e “ficar” com o sexo oposto.

A cada trinta anos temos uma nova geração ,infelizmente,composta de pessoas que não sabem nada e apenas se limitam a copiar o trabalho das gerações passadas,acumuladas durante milênios e estudadas hoje de modo apressado e apenas para deitar sabedoria no seu meio social e aparecer como o erudito,o bambambam,respeitado e incensado pelos contemporâneos.

Somos imediatistas. Queremos informação,não instrução.Aprendemos apenas o necessário para garantir a sobrevivência e,no caminho,vamos largando as pesadas mochilas do conhecimento denominado supérfluo,como nos livramos de peças de roupa sem importância.

Borboleteamos pelos caminhos do saber,decorando um pouco de cada matéria afim de manter uma conversa erudita e,como em terra de cego quem tem um olho é rei,podemos arrastar soberbamente nossa plumagem,entre os nossos pares embasbacados.

Não pensam que a informação é apenas uma estrada para a instrução,valendo pouco por si mesma se não for embasada por um conhecimento mais profundo.

Ao me defrontar com um desses penso como Schopenhauer:-“Ah,essa pessoa deve ter pensado muito pouco para poder ser tão lida.”

Há pouco assisti a uma palestra de uma respeitada erudita um pouco curvada sob o peso de muitos mestrados e doutorados.

Pois bem:de cada vinte palavras que proferia,dez eram citações;parecia uma colcha de fuxico feita com retalhos de conhecimento alheio.Fiquei imaginando aonde ficaria escondido o seu verdadeiro pensar.

Acho que ela lia sem pensar fosse à mesa,nas viagens,no toilette e não pude deixar de rir imaginando se ela teria tão poucos pensamentos próprios que precisava tomar emprestado os alheios.

Conheci muitos analfabetos sábios e muitos sábios analfabetos.

A verdadeira sabedoria brota do homem,da sua essência,aprimorada,sim,pela leitura e pelo conhecimento que nos vem dos livros aos quais é nosso dever questionar e não receber essas informações como um prato de sopa.

Leia mais:
www.abahiadeoutrora.blogspot.com

domingo, 12 de setembro de 2010

A Alimentação a Bordo dos Navios Bacalhoeiros




Comia-se bem, a bordo do navio-hospital Gil Eannes, no final da década de 60. As refeições dos oficiais consistiam em sopa, prato de peixe, prato de carne e sobremesa. O resto da tripulação não passava nada mal e os doentes cumpriam as dietas indicadas. Os navios de pesca tinham a vantagem de poderem dispor do peixe do dia.
Nas viagens de longo curso, antes de haver frigoríficos, a alimentação era sujeita a grandes restrições. Levava-se o que não se estragava: biscoitos, salgados e conservas. Ainda hoje, na Ilha Terceira, na costa oposta a Angra do Heroísmo, existe a povoação de Biscoito, que terá ganho o nome da provisão que ali iriam fazer os navios do largo.
Durante as travessias, raramente se podia pescar. A comida era um enjoo. Os navios costumavam levar galinhas e uma vaca, ou algumas cabras. Os animais ocupavam espaço e a alimentação deles também. Para mais, faziam muita porcaria. Os maiores eram abatidos cedo. Quando se matavam, era uma festa, mas a carne tinha de se consumir depressa para não se estragar.
Ao passar ao largo dos Açores, rumo à Terra Nova, lá se apanhava alguma tartaruga que permitia cozinhar belas canjas. Uma vez por outra, arpoava-se um golfinho que se divertia a acompanhar a embarcação. Dizia-se que dava bons bifes de cebolada.
Vale a pena passar os olhos numa lista de produtos alimentares embarcados para uma viagem de cerca de seis meses num lugre de 30 pescadores, durante a década de 1920-30:

40 barricas de farinha de trigo

18 barricas de carne de vaca salgada
50 kg de carne de porco
1350 kg de batatas
1100 kg de feijão seco encarnado e branco
150 kg de feijão frade
150 kg de grão-de-bico
100 kg de arroz
100 kg de açúcar
10 kg de especiarias
90 kg de banha
200 kg de toucinho
60 kg de café moído
5 kg de chá
360 kg de cebolas
Duas latas de chouriço
400 l de azeite
200 l de vinagre
40 l de óleo para frituras
400 l de vinho
400 l de aguardente
8 fardos de bacalhau seco
120 garrafas de cerveja
12 garrafas de vinho do Porto

O chouriço parece pouco... É curioso reparar em que o número de litros de aguardente era igual ao de vinho tinto.
Viviam-se tempos duros. Inventavam-se pratos a fingir carne, como o arroz de corações de bacalhau, mas as opções eram reduzidas. As cagarras, uma variedade de gaivota, davam uma bela caldeirada, depois de passarem 3 dias em vinha-de-alhos, para perderem o gosto a peixe.
As gaivotas espreitavam a escala, em grandes bandos. A sua pesca era cruel: iscava-se o anzol com um pedaço de fígado de bacalhau e atirava-se ao vento. Não se podia escolher quem vinha ao isco e, às vezes, sacrificavam-se inutilmente gavinas e albatrozes.
A adaptação de motores aos navios de madeira iniciou-se no começo da década de 30. Muitos lugres tinham propulsão mista, à vela e a motor. Alguns passaram a dispor de frigoríficos para o isco e para as provisões dos tripulantes.
Ainda hoje, o cozinheiro é o homem mais importante a bordo, a seguir ao capitão. Acima desse, só Deus, e mora longe... Os pescadores eram sujeitados a uma vida de extrema dureza. A satisfação do estômago foi das poucas a que passaram a ter acesso nos longos dias do mar, com o advento da refrigeração.

Fonte: Francisco Correia Marques, em: Oceano, nº 45, Janeiro/Março 2001.
Fotografia do autor.
Também publicado em decaedela.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O clubismo partidário na política portuguesa

Um fenómeno que sempre me tem chocado desde o meu inicial interesse pela política tem sido o que chamo de “clubismo partidário”, embora presente em boa parte da Europa este encontra em Portugal o seu expoente máximo. Já o senti na pele inúmeras vezes, quando acompanhando a comitiva de algum dos partidos pequenos (aparentemente as épocas eleitorais são as raras ocasiões em que um completo estranho pode falar seja com quem for na rua sem ser relegado ao ostracismo, basta meia dúzia de panfletos numa mão e um qualquer autocolante ou crachá na lapela do casaco) ouvi milhentas vezes a seguinte frase: “sabe, concordo plenamente com as vossas ideias, mas voto no partido ‘x’ desde o 25 de Abril”, sendo o partido ‘x’ na maior parte das vezes o PS e o PSD, e em menor número a CDU e o CDS/PP.

Choca-me esta falta de cultura democrática, aparentemente a esmagadora maioria dos portugueses encara os partidos políticos como se fossem clubes de futebol: por pior que seja o treinador, alguém muda de clube? Não. Tal explica em boa parte o actual Estado a que chegou a política nacional, num universo eleitoral que conta com a existência de 19 (dezanove) partidos políticos, 12 não têm qualquer representação parlamentar.

Partidos de quadros

Alguns dos pequenos partidos acabam por ser partidos de quadros para os dois grandes, de entre estes destacam-se claramente o Partido Popular Monárquico e o Partido da Terra, cujos dirigentes (locais e nacionais) acabam por integrar as listas do Partido Social Democrata, por vezes literalmente, sem o recurso a uma coligação oficial. Outro partido que a nível regional consegue estar próximo do poder, embora não dispondo de qualquer autarca ou deputado, é o Partido Democrático do Atlântico: seja o governo açoriano PS ou PSD o PDA acaba por agir como a consciência política invisível; trata-se afinal de um partido fundado há 30 anos cujos quadros foram quase todos membros fundadores da autonomia política da região.

Bom, assim sendo, votando o povo essencialmente somente nos partidos que surgiram logo após o 25 de Abril, como explicamos o Bloco de Esquerda? Pois bem, o BE resulta da fusão dos UDP – União Democrática Popular, o PSR – Partido Socialista Revolucionário e o Política XXI, todos eles partidos de quadros por direito próprio (normalmente chegando a acordo com o PCP ou com o PS), o que justifica plenamente o seu sucesso.

Curioso que todos estes partidos surgidos nos primeira década após o 25 de Abril de 1974 não tiveram que se submeter ao actual pouco democrático hábito da obrigatoriedade de apresentação de um mínimo de 7.500 assinaturas.

Bipartidarismo?

Embora por toda o mundo existam normalmente dois partidos de massas, todos do “centrão” (centro-esquerda e centro-direita), o modelo bipartidário adoptado pelos Estados Unidos da América (nos quais existem somente o Partido Democrático – que inclui toda a Esquerda, desde a mais liberal à mais radical e marxista – e o Partido Republicano – que inclui toda a Direita, dos nacionalistas aos capitalistas neo-liberais) aparentemente vai acabar por se impor de igual modo na Europa, com principal destaque para Portugal, “desde 25 de Abril de 1974 o principal tubo de ensaios da CIA”, confessou-me em tempos Oswald Le Winter aquando um dos nossos encontros (autor dos interessantíssimos “Desmantelar a América” e “Democracia e Secretismo”, ambos publicados pela Europa-América).

Porque destaco Portugal? Porque ao contrário da restante Europa, onde partidos fundados um ano antes ou até alguns meses antes das eleições conseguem eleger deputados ou até chegar ao governo, por cá os principais intervenientes da política nacional são sempre os mesmos, recordo há anos, numa entrevista à extinta “Tempo”, já António Costa Pinto destacava que “quem quiser fazer política, tem que aceder a um dos dois partidos do poder, PS ou PSD” (cito de memória, as palavras podem não ter sido exactamente estas).

Mesmo aqui ao lado, em Espanha, Rosa Díez fundou em 2007 o União, Progresso e Democracia (UPyD) após a sua saída do PSOE, passando logo a ser a quinta força política mais votada, elegendo representantes.

Em Portugal? Temos um exemplo perfeito de alguém com nome e influência suficientes ter tentado o mesmo: Manuel Monteiro com o seu Partido da Nova Democracia, o que deu errado? Simples, a base eleitoral que lhe permitia ser eleito pelo CDS/PP não mudou a sua orientação de voto com a sua saída. Creio que tal serviu de lição a quaisquer outros dissidentes que achem possível sobreviver politicamente fora dos partidos com representação parlamentar: só nestes há hipótese de aceder seja ao que for.

Como contornar?

Embora não seguindo eu próprio esta máxima (a minha veia libertária leva-me sempre a apelar ao voto nos partidos mais pequenos, dado romanticamente ainda os considerar como livres de pecado) creio que a única solução terá obrigatoriamente que passar por esses dois partidos do centrão. Já nestas páginas referi que, no que diz respeito ao eleitor e até aos próprios quadros e militantes base dos pequenos partidos – soube de casos em que candidatos e dirigentes desses mesmos partidos acabaram por admitir ter votado num dos grandes com assento parlamentar por duvidar do sucesso eleitoral do seu próprio partido – os partidos à Esquerda e à Direita são vistos como versões mais puras das ideias centrais fundacionais dos PS e PSD, mas havendo sempre a hipótese da regeneração desses dois partidos, é normal que absorvam os votos de todos os pequenos.

Então como afectar os destinos da nação? Dou-vos o exemplo de Passos Coelho, aparentemente insignificante demais para ser convidado por Pinto Balsemão para a reunião do Clube Bilderberg deste ano, vítima de uma quase purga pela anterior presidente laranja, Manuela Ferreira Leite, chegou ou não chegou à presidência do partido?

Pois bem, os grandes partidos aceitam já o “direito de tendência interna”, se no CDS/PP tal obriga à apresentação de um documento formal assinado por um mínimo de 300 militantes (que foi a morte da “Tendência Nacionalista Lusitana da Democracia Cristã do Barreiro) no PSD é permitida a criação de clubes de pensadores ou grupos de reflexão (prefiro estes termos ao “think tank”, como a plataforma de reflexão estratégia Construir Ideias. Democraticamente, estas plataformas bem podem acabar por se tornar nos únicos meios de alterar o actual estado das coisas, agindo como veículo ideológico.

31 de Agosto, 2010.
O Diabo

terça-feira, 31 de agosto de 2010

António Telmo

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Tendo levado a cabo um pequeno interregno (estamos na “silly season”, e optei por não comentar os imensos não-assuntos que assolam a comunicação social até à “reentré” de Setembro), interrompo-o pesarosamente devido a novo óbito, se já me tinham pesado as partidas de Jorge do Nascimento Cabral, João Aguiar e António Manuel Couto Viana, que direi agora que soube ontem que nos deixou outro gigante do bom combate, um paladino das letras e do pensamento português: o filósofo António Telmo.

Infelizmente, tal como já ocorrera com o poeta Rodrigo Emílio, por sobrecarga de trabalho (tenho várias obras a traduzir e a rever a tempo de estarem nas livrarias em Outubro e tenho estado também a finalizar, com o auxílio do professor António Marques Bessa, o lançamento da revista “Finis Mundi” dentro de duas semanas) falhei não só os lançamentos da revista “Nova Águia”, da qual sou colaborador pontual, em que esteve presente António Telmo, como me vi obrigado a não ir ao pré-lançamento da obra “O Portugal de António Telmo” (que chegará em Setembro às livrarias) no passado dia 8 de Agosto, aparentemente o último acto público que contou com a presença do filósofo.

Os primeiros dois livros que li, ainda em tenra idade, não teria eu nem 20 anos, foram “História Secreta de Portugal” e “Horóscopo de Portugal” (ambos reeditados em 1997, o primeiro pela Vega e o segundo pela Guimarães Editora). As suas obras mais recentes, “Congeminações de Um Neopitagórico” e “A Verdade do Amor” (ambas da Zéfiro) aguardam ainda leitura numa pilha de livros que se ergue cada vez mais alto na cabeceira da minha cama… mas a sua hora chegará, acredito, romântica e misticamente, que certos livros nos encontram na hora certa, não somos nós que os encontramos.

António Telmo foi, desde a primeira hora, colaborador da “Nova Águia” e membro do Movimento Internacional Lusófono (recordo a confusão que foi quando apresentei ambos os projectos na Horta, na antiga fábrica da baleia, dada a confusão entre os exercícios militares que a CPLP leva a cabo, confundindo-se a CPLP com o MIL, dois órgãos completamente diferentes, na mente de algum do público presente). Tal como sucede também com Pinharanda Gomes, António Telmo além de colaborador e colega era, e continuará a ser, uma inspiração para todos nós que sonhamos com um Portugal mais justo e elevado.

Partilho convosco a declaração do MIL no dia do seu funeral (22 de Agosto):

“No dia do seu funeral, o MIL: Movimento Internacional Lusófono apresenta aos familiares de António Telmo as suas mais sentidas condolências. Membro do MIL desde a primeira hora, António Telmo foi um dos autores maiores da Filosofia Lusófona. Discípulo de Álvaro Ribeiro, José Marinho e Agostinho da Silva, defendeu sempre o princípio de que “sem autonomia cultural não pode haver autonomia política”. Foi, por isso, de forma coerente e consequente, ainda que de modo muito singular, um patriota. Tal como nós, ele sabia que a autonomia política de todos os países de língua portuguesa só se manterá enquanto se mantiver essa autonomia cultural lusófona. Manter-nos-emos fiéis a esse princípio, assim honrando a memória de António Telmo.”

Tem-nos sido pesada em baixas este ano, a cultura, principalmente as letras, em Portugal tem sido fustigada nos últimos meses, até José Saramago nos deixou, na sétima arte (o cinema) vimos partir António Feio, actor que tantas gerações fez rir e sorrir, haverá arte mais nobre numa época tão cinzenta e pesada como a que testemunhamos?

Espero bem já conseguir debruçar-me, na minha próxima intervenção, acerca dos problemas do quotidiano, os incêndios sazonais que parecem apanhar sempre de surpresa as instituições responsáveis, alguém devia estudar antropologicamente e psicologicamente o estranho fenómeno de amnésia colectiva que faz com que todos os anos surja o mesmo problema nos mesmos moldes, quase nos mesmos locais… sem que se tenham reunido os meios necessários (aéreos principalmente) para o evitar.

Será amnésia? Terão algo a ganhar com isso? Ou, pura e simplesmente e alarmantemente, estão-se completamente nas tintas? Valeria a pena uma análise científica do fenómeno…

Incentivo, 1º título da imprensa faialense
30 de Agosto, 2010.

sábado, 21 de agosto de 2010

O forunês...

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A atenção que gostaríamos de chamar para uma situação que nos diz respeito a todos

Há, sem dúvida, um dialecto forunês. Utilizam até um dicionário diferente. Cavaco Silva, por exemplo, sabe falar forunês perfeito. Em vez de dizer que os pobres estão cada vez pobres, diz que "as pessoas de mais baixo rendimento passam por situações de privação".

Por Miguel Esteves Cardoso

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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Amado Jorge

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Zélia, Jorge e Saramago: o mundo vai ficando mais pobre...

Agosto, ao contrário do que diz a tradição, não pode ser um mês tão azarado assim, pois, neste mês nasceu Jorge Amado. Dia 10, exatamente.

Leonino com todas as qualidades do signo que tem o sol como astro dominante, Jorge iluminava qualquer ambiente por onde passasse. Jorge era luz!

Não foi por acaso que Jorge nasceu na Bahia; a Bahia mereceu Jorge, ou melhor, ambos se mereceram e se amaram profundamente.

O escritor levou essa paixão aos quatro cantos do mundo; fez sua terra conhecida, seus costumes e tradições desvendados e despertou no mundo a curiosidade sobre esta terra mística e encantadora que fez nascer homens assim.

Seus personagens são eternos.

Jorge não se considerava um escritor, mas, um contador de estórias e, é sim, um dos maiores do mundo.

Despojado, humano, afável, perambulava pelas ruas de Salvador, reconhecido e aclamado por todas as classes sociais. Suas camisas estampadas e de forte colorido chamavam atenção.

Homem de hábitos simples, eu o encontrava sempre na Perini Master, sentado no banco da sua praça que o amigo Pepe inaugurou dentro do espaço da loja, enquanto Zélia, azafamada, percorria as gôndolas em busca de temperos especiais para o seu amor.

A primeira vez que o vi e lhe fui apresentada foi na casa de um amigo comum, o pintor Mirabeau Sampaio. Entre as centenas de santos barrocos e telas de pintores famosos como Aldemir Martins e painéis de Carybé, trocamos algumas palavras.

Mas,Mirabeau,amigo irmão, me contava vários causos sobre ele. Formavam um trio maravilhoso: Jorge, Mirabeau, Carybé, o argentino mais baiano do mundo.

Trocavam chistes, roubavam santos e sapos uns dos outros, falavam sacanagens, irreverentes todos eles, línguas despudoradas. Relembravam fatos da juventude, causos de colégio, o Vieira para Mirabeau e Jorge, o cassino Tabaris e os puteiros. Causos de mulheres da vida cheias de calor humano e caridade cristâ que faltam a muitas beatas, como aquela madame dona de castelo na Ladeira da Montanha que, ao saber da morte de Norma, bem – amada esposa de Mirabeau, presenteou-lhe com uma magnífica coleção de tangos argentinos, para consolar a dor da perda.Tangos que eu ouvi nos fins de tarde enquanto tomava um café e bebia sabedoria baiana dos lábios do meu amigo.

Jorge completaria 98 anos.

Como os escritores não morrem,ficam encantados, ele e Zélia devem ter comemorado o evento sentados naquele banco da casa do Rio Vermelho, ao lado dos grandes amigos, Mirabeau, Carybé e Caymmi.

Enquanto a cidade os reverencia, com os dobres dos atabaques, com a cadencia do samba, com os trejeitos das morenas sestrosas, com as talagadas de cachaça servidas no Pelourinho, onde novos Quincas passeiam e pastoreiam a noite, e no cais onde outros Mestre Manoel e o que resta dos saveiros preparam uma moqueca de peixe bem apimentada, pelas ruas e ladeiras da Bahia – pois com certeza sairiam para bebemorar – prostitutas, mestres de saveiros, capitães de areia, gigolôs, travestis, obás, filhas de santo, lhes pedirão a benção.

domingo, 11 de julho de 2010

A NAU DOS INSENSATOS

Para alguns, a Vida é uma marcha de vencidos rumo à derrota final...

Como todo mundo me emocionei e me indignei com o novo “Caso Samudio” que a Imprensa noticia a todo momento e de todas as formas.

Como todo mundo ,também quero” exorcisar” o Mal,quero vê-lo longe do meu território,quero livrar-me do causador ,encarcerando-o para sempre.

Mas,todo crime,toda transgressão ,toda quebra do tecido social tem muitos aspectos.

Neste caso vem aflorando nitidamente o preconceito,sempre escondido e muito bem embrulhado,por ser,ele próprio,um desvio da sociedade.

Por isso nunca freqüenta reuniões sociais ,só aflora à boca pequena nos tititis nos cabeleleiros e bares da moda e na Internet.

Tenho ouvido e percebido o que se fala veladamente da Elisa,a moça sacrificada.

O escritor é um fotógrafo social e tem o dever de perceber,ler nas entrelinhas e analisar as tendências.

Comentários machistas procuram justificar o crime.Senhoras pias que freqüentam as igrejas,mães de família que até podem estar criando elisas sem o saber,homens apaixonados por futebol ou hipócritas de carteirinha (afinal são eles que produzem as elisas) andam falando ou insinuando sutilmente que ela teve o que merecia;afinal era uma prostituta,uma Maria – chuteira querendo se dar bem,uma atriz pornô que protagoniza aqueles filminhos que o senhor,Seu José,assiste nas madrugadas solitárias enquanto sua santa esposa dorme o sono dos anjos.

Isto me incomoda: a violência, o preconceito, o poder de julgar e destruir uma vida, barbaramente, hediondamente, apenas por ser uma vida transgressora, marginal, diferente daquelas vidas com as quais nossa sociedade não está acostumada a conviver, mas, está acostumada a produzir.

se existem prostitutas,atrizes pornôs e oportunistas é porque o nosso sistema as cria e chafurda nesse esterco social que determina até pela posição econômica quem deve ser escória e quem deve ser certinha.

A mesma sociedade que ajuda a promover bandidos a heróis,que paga centenas de milhares de dólares a indivíduos despreparados para a fama e riqueza mesmo sabendo que seu passado aparecerá pois somos seres biográficos,um dia ,aqueles genes aparecerão e até vamos deixando rastros pelo caminho como esse infeliz do Bruno,antes festejado,hoje execrado,mas,que já deixava vestígios de suas tendências violentas,ignoradas pela polícia,quando a Elisa pediu proteção.

Um assassinato não surge do nada; percorre um longo caminho desde a agressão verbal,um tapinha que a canção diz que não dói,os desentendimentos freqüentes em casa ,tudo isso somado à arrogância,ao orgulho e à sensação de impunidade de quem se acha acima do bem e do mal.

Que planeja,mata e quando tudo termina senta para tomar cerveja e falar de futebol;que,na própria delegacia faz planos para a Copa de 2014.

Àvida leitora de romances policiais desde menina quase que aposto que nessa estória cruel o buraco é mais embaixo;não pode ter causado tanta violência apenas uma investigação de paternidade;não seriam mobilizados tantos psicopatas e assassinos apenas por causa de um bebê e uma mísera pensão.Para mim,Elisa morreu porque sabia demais;viu o que não era para ver.

Esse crime, pela maneira que foi cometido,pelos participantes ,parece queima de arquivo,crime de tráfico.

Me corrijam se estiver errada.

Acorda,polícia!

IMG:Dos jornais

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A potência e a aldeia




As reacções à morte de Saramago, por omissão ou presença, revelaram que se tratava de um homem polémico que não vivia fora deste Mundo. Mas as diferenças entre Espanha e Portugal mostram mais do que isso.

Vamos esquecer a ausência de Cavaco Silva no funeral de Saramago e a sua muito particular forma de ver o cargo que ocupa. Aceitemos uma coisa: que Saramago, como qualquer intelectual que tenha algum interesse, não era consensual.

Não era consensual o seu posicionamento político. Mas era um heterodoxo. Sendo comunista convicto, tanto podia fazer críticas contundentes ao regime cubano como o defender com unhas e dentes. Ia a Israel e não hesitava em dizer o que pensava. Mas não deixava de ir. Discutia a democracia. Era um intelectual empenhado, mas não era um mero instrumento de uma agenda política.

Não era consensual a sua obra. Como escreveu Manuel Gusmão, recontou "a história já contada pelos vencedores" . Foi isso que fez em "Levantado do Chão" e no "Memorial do Convento", transformando os camponeses alentejanos e os servos que construíram o Convento de Mafra (e não os grandes homens) em sujeitos da História, assumindo assim como sua a "tradição dos oprimidos" (Walter Benjamin, citado mais uma vez por Manuel Gusmão). É essa história recontada que está em "O ano da morte de Ricardo Reis" ou na "História do Cerco de Lisboa".

Também refez a história bíblica, que tantos dissabores lhe causou. Como leitor, teria ficado por "O Evangelho segundo Jesus Cristo". Muitos dos seus livros eram "alegorias do presente" - "Ensaio sobre a cegueira", "Ensaio sobre a lucidez" ou "Jangada de Pedra" - ou apenas alegorias das ansiedades humanas de todos os tempos - "O Homem Duplicado" e "As Intermitências da Morte".

Mas à volta de cada um dos livros nasceu quase sempre uma polémica. Por vezes estéril e pobre - foi, na minha opinião, o caso de "Caim" e do "Ensaio sobre a Lucidez" -, outras marcantes e profundas. Não faltou quem visse em cada uma delas apenas a forma, acusando o autor de golpes publicitários, e ignorasse o conteúdo. Seja como for, Saramago e a sua obra nunca estiveram fora do Mundo. E isso causou incómodo. Uma qualidade, portanto.

Não era consensual na sua personalidade. Os seus "Cadernos de Lanzarote" revelam o melhor o pior. Por vezes um homem grande e generoso. Outras, tão mesquinho e mundano como qualquer homem. Ainda assim, nunca chegou, nessa aparente trivialidade, aos calcanhares da "Conta-Corrente" de Vergílio Ferreira, hoje aceite - e bem - como um nome indiscutível da literatura portuguesa.

Não sendo um homem consensual, não o foi também na sua morte. Mas vale a pena perceber as diferenças entre a forma como Portugal e Espanha lidaram com isso.

Em Espanha, o presidente do governo não se ficou pelas obrigações protocolares. Escreveu um belíssimo texto no El Pais sobre o autor. Só que não foi o único. O católico conservador de direita, Mariano Rajoy, também deixou a sua mensagem elogiosa que foi para lá da mera formalidade. O rei manifestou a sua tristeza. Em Lanzarote o povo anónimo dedicou-se a leituras espontâneas da sua obra. Em Lisboa, vários ministros espanhóis, incluindo a número dois do governo, marcaram presença.

Em Portugal, o campo ideológico oposto a Saramago não se fez representar no funeral. Não esteve lá nem Pedro Passos Coelho, nem Paulo Portas. Cavaco Silva fez o que fez e o que fez seria uma impossibilidade em Espanha. Foram ditas frases de circunstância, mas nos fora de debate, na blogosfera e nas caixas de comentários dos jornais desaguaram insultos, ressentimento e mesquinhas acusações de gente que dizendo-se patriota dedica a sua energia a cuspir na sua própria cultura.

Em Espanha, o homem polémico foi incorporado como fazendo parte da cultura espanhola. Como um seu. "Os espanhóis choram hoje Saramago como um dos nossos, porque sempre o sentimos a nosso lado", escreveu Zapatero a Pilar del Rio.

Em Portugal, Saramago foi linha de fronteira e renegado por parte do País. Com o pequeno pormenor do homem em causa ser português, escrever em português e ter regressado na sua morte a terra portuguesa.

A forma como Espanha lida com o que tem, mesmo que o tenha por adopção, e Portugal lida com a sua cultura ajuda a explicar porque uma é uma potência cultural e o outro apenas um país cheio de talentos que acabam, mais tarde ou mais cedo, por partir ou viver próximo da indigência.

Os nossos escritores são tratados como adereço para citações em discursos e os nossos criadores como "subsidiodependentes". Somos um país pequeno, onde toda a gente se conhece. Isso ajuda a explicar a nossa mesquinhez, em que o ressentimento conta mais do que o orgulho. É normal. O que é estranho é que façamos questão de não deixar de ser uma aldeia.


Daniel Oliveira
Fonte: Expresso

sábado, 19 de junho de 2010

A Longa Viagem do Elefante

A LONGA VIAGEM DO ELEFANTE

A notícia da morte de Saramago (Morte de Saramago? sinto q/ ainda não me caiu a ficha!) me alcançou num dia feliz.

Estava num hotel em Salvador com meus cunhados portugueses tramando um passeio pela Bahia histórica, onde nossos antepassados comuns, deixaram a sua marca.

Naquele momento, para mim,o sol se pôs;o maior escritor da língua portuguesa de repente, não mais estava lá;tinha ido,como ele desenhava assim a morte.

Levantada do chão fiquei eu.

Sem ter para quem apelar passei uma mensagem telepática para Blimunda,aquela que recolhia os espíritos,no livro “Memorial do Convento”,pedindo-lhe que nos trouxesse de volta este monumento da literatura mundial.

Sem resposta, juntei a coragem e as lições de vida e paciência que recebi do Cipriano Algor,tentando imaginar-me sem novos livros de Saramago.

O escritor, dizia ele,é como todos os homens:sonha.

Então, vamos considerar como um mau sonho esse acontecimento.

Saramago vive!

Vive nas centenas de personagens que criou, vive nos livros que espiam para mim na prateleira da minha biblioteca,vive nos momentos de felicidade que esses textos me proporcionaram,vive no autógrafo que me deu em Lisboa,esse fato,por si mesmo,uma estória de amor.

Meu marido, o português Raul, que detesta filas chamem-se elas filas ou bichas,como em Lisboa,ficou ,de pé,cerca de uma hora até conseguir para mim o autógrafo daquele que ele sabia ser o autor do meu coração.

Está aqui, o livro “Ensaio sobre a cegueira”,agora,ao meu lado,como uma presença eterna do escritor que tanto admirei e admiro,estando nesta ou noutras paragens.

Que não me deixe muito cair na cegueira mental e nem me deixe faltar a sua presença através da sua obra que contém toda a humanidade.

Termino com as palavras do próprio Saramago,que,como eu,também teve o seu pilar aonde pudesse descansar as costas batidas pela vida.Como o português Raul é para mim.

"Viver aquilo que ainda tenho para viver, que, com esta idade, não pode ser muito, mas vou tentar por duas, três ou quatro razões vivê-lo bem. Não é viver na farra porque nunca fui disso, viver bem como tenho vivido com a Pilar que foi algo que eu não podia esperar que me sucedesse".

terça-feira, 8 de junho de 2010

A Lusofonia como Comunidade de Destino

Nos tempos mais recentes temos testemunhado o aparecimento de várias iniciativas lusófonas que, creio eu, têm vindo a tentar colmatar a inacção da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que existe mais no papel do que no mundo material. Entre estas, e outras há, numero o surgimento da revista “Ìgbà Ábídí”, da revista “Nova Águia”, da “Cultura Entre Culturas”, da “Afro” e ainda da extinta “Magazine Grande Informação”, todas elas publicações nitidamente lusófonas. Adicionalmente surgiram também a Associação Portuguesa de Cultura Afro-Brasileira, o Movimento Internacional Lusófono e o Instituto da Democracia Portuguesa – Instituto este que também tem como bandeira a Lusofonia.
Muitos dos membros de todos estes movimentos, entre os quais me incluo de quando em vez devido ao meu cepticismo nato na concretização de resultados visíveis a curto ou a médio prazo, acreditam que Portugal e os países lusófonos terão um papel relevante no futuro colectivo do planeta, alguns apontam a já existente CPLP como uma organização que, bem trabalhada, poderá vir a obter o seu relevo internacional nos campos cultural, económico, social e inclusive militar uma vez ultrapassados os traumas existentes entre a antiga potência colonizadora, que foi Portugal, e as antigas colónias, e já é bem a Hora de ultrapassarmos todos esses traumas e construirmos, unidos, uma comunidade de destino comum: a Lusofonia!

Nações vs Pátrias
Pela minha parte tendo a crer que a CPLP poderá não ser suficiente, como o próprio nome indica aceita somente países e não as nações lusófonas que não possuam nem Estado ou país seu, assim de memória consigo realçar Macau, a Galiza, a Goa portuguesa e comunidades isoladas no Bangladesh, outras certamente existirão e, excepcionalmente, já ouvi de diversos açorianos e madeirenses que gostariam que os Açores e a Madeira tivessem uma voz própria na CPLP, podendo os governos regionais colaborar onde o governo nacional não o faz… mas é uma questão delicada esta, já que acaba por insinuar algumas tendências separatistas – se é certo que as afirmações “o Porto é uma nação” ou “o Norte é uma nação” passam sem enervar ninguém, ou passavam dado que se a Norte se mantiver o hábito de hastear bandeiras espanholas a coisa pode mudar, as de “a Madeira é uma nação” ou “os Açores são uma nação” causem de imediato uma qualquer reacção adversa, certamente por se confundir o termo Pátria pelo de Nação, numa Pátria podem coexistir muitas nações! Goa, Macau e Galiza portanto, comunidades lusófonas que não são países, onde se incluem? Poderá a CPLP criar um estatuto especial para estas regiões de modo a participarem na mesma? Estou em crer que sim (volta e meia sou muito crente, dado que é difícil ser céptico 365 dias por ano).

Um Novo Bloco Geopolítico
O mundo avança a um ritmo cada vez mais rápido, a Rússia desperta, o Império americano mantém-se, agressivamente como antes embora com novo timoneiro, o Movimento dos Não Alinhados acaba por se ir alinhando, aos poucos, num dos lados… surge-nos a Lusofonia como via paralela, uma comunidade internacional espalhado pelos continentes europeu, africano, americano e asiático.
Poderá advir daqui um novo bloco de influência internacional? Uma vez mais, creio que sim, mesmo a nível militar já imaginaram um contingente constituído por militares brasileiros, portugueses, timorenses, moçambicanos, angolanos e etc.? Um bloco de países nitidamente desfavorecidos e tidos, a Ocidente, como “terceiro-mundistas”, países que, como um todo, contam com uma riqueza material e cultural tão diversa quanto única, todos diferentes mas com uma língua que os une.
Já prevendo a existência do dito bloco geopolítico lusófono, a Telesur, televisão sul-americana fundada pelo governo da República Bolivariana da Venezuela, subvencionada pelos governos de Cuba, da Argentina e da Bolívia, emite noticiários em língua portuguesa, há já dois anos, para a Guiné Bissau, Angola e Moçambique.

Estruturas Conjuntas
Em Janeiro dois investigadores da Universidade do Minho (Joaquim Carneiro e Vasco Teixeira) sugeriram a criação de uma Agência Espacial Luso-Brasileira, dado que o Brasil, como referi anteriormente nestas páginas, se encontra extremamente avançado no domínio da tecnologia aeroespacial e Portugal é membro da Agência Espacial Europeia.
"Ao nível académico, há muita abertura para que se concretize este projecto estratégico para os dois países. Seria a volta das caravelas com a união Brasil-Portugal em tecnologia", referiu por seu lado Sérgio Mascarenhas, director do Programa Internacional de Estudos e Projectos para a América Latina e coordenador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, ao “Ciência Hoje” (3 de Janeiro).
No rescaldo desta notícia o Movimento Internacional Lusófono emitiu um comunicado apoiando a iniciativa e sugerindo que a mesma incluísse as restantes nações lusófonas, dando origem a uma Agência Espacial Lusófona.
Fundado em 1992, sedeado actualmente no Palácio da Independência, existe já o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e, graças à dinamização da Associação de Cultura Lusófona e do Instituto Camões, a Texto Editora publicou recentemente um “Dicionário Temático da Lusofonia”.
Estaremos prontos para esta comunidade de destino? Uma vez ultrapassadas todas as réstias de complexos de colonizador, por parte dos governantes e dos cidadãos portugueses, e de complexos de colonizados, por parte dos governantes lusófonos, faltará somente vontade política.
Creio que o primeiro sinal está à vista: existem actualmente mais emigrantes portugueses em Angola do que imigrantes angolanos em Portugal, se isto não é sintomático de que algo está a mudar, não sei o que será!

O Diabo, semanário independente
8 de Junho, 2010

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Intelectuais Brasileiros e os Escritores Populares

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Entre os dias 26 e 27 de maio estive num seminário sobre Jorge Amado , bancado pela Companhia das Letras e que contou com mediadores e palestrantes ,acadêmicos paulistas e baianos,além de escritores e jornalistas.

Fui representando a Câmara Baiana do Livro,mas,iria de qualquer jeito,mesmo recém – chegada da Bienal de Minas,pois os temas eram importantíssimos e a equipe,excelente.

Sem contar que lá estava o José Eduardo Agualusa,escritor angolano de boa cepa que eu sempre quis conhecer.

Os temas foram variados; tratou-se desde as capas e traduções dos livros do autor,espalhadas pelo mundo todo,até suas preferências políticas,seus personagens inesquecíveis,como Dona Flor e Quincas Berro D’água,o sincretismo da sua obra e até o comentado “aburguesamento” do escritor, desde a revolução de 64.

Tive a sorte de conhecer o Jorge e a Zélia , através de um amigo comum,Mirabeau Sampaio,mas,- helás- nunca ficamos íntimos,primeiro e sobretudo pela minha natural timidez que me impedia de me achegar aos famosos,pois sei,como a abordagem é antipática.Aliás,uma atitude que era do próprio Jorge,também.

Relendo páginas do seu livro auto-biográfico “Navegação de Cabotagem”,encontro textos que bem definem o escritor e o homem,ambos coerentes um com o outro.

Selecionei este:

“Os intelectuais da elite brasileira,os de esquerda e os de direita,irmãos gêmeos na pretensão e na tolice,uns quantos imitam os europeus,a maioria é fotocópia dos ianques,de brasileiros não têm quase nada;mesmo livresco e limitado,o saber os coloca acima da cidadania,sentem-se superiores,repudiam a criação popular,viram a cara,tapam o nariz á rua,á praça,ao folclore,o povo fede e eles são uns senhoritos.”

Descobriram agora,meus leitores porque o Jorge nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras?

A Academia odeia escritores que vendem livros ,acha que os campeões de venda são escritores “menores”,de segunda, e prefere apoiar os “mestres e doutores”,que escrevem em academês e o povo não entende nem lhes compra os livros.

Agora , até que mudou um pouco seu conceito,mas,a meu ver,para pior,pois o fardão é vestido por “globais” , e autores de obras menores e pouco importantes,tais como coletânea de frases e assuntos musicais,ou biografias escandalosas.

Jorge Amado , Darcy Ribeiro,claro,não teriam vez.Nem esta escriba que escreve essas mal – traçadas,sempre em linguagem popular,mas,que,pelo menos,vende livros.

Existem escritores brasileiros que amam a brasilidade, como Antonio Torres , Antonio Cândido, o quase esquecido Adonias Filho,criadores da cultura mestiça do Brasil com S e existem os outros, que repetem de oitiva o discurso importado e bestialógico,como diz Jorge.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

27 de Maio de 1977



Em memória de dois amigos


Na madrugada de 27 de Maio de 1977, um grupo armado assaltou a cadeia de S. Paulo, em Luanda. Depois, tomou conta da Rádio Nacional de Angola. Na vizinhança, tinham-se concentrado algumas centenas de manifestantes. As tropas fiéis a Agostinho Neto e os militares cubanos dispararam sobre os populares e retomaram o edifício. Por volta das 14 horas, ocuparam também o quartel da 9ª Brigada, onde teria estado preso Saidy Mingas.

O exército cubano, que tinha dado um contributo decisivo para o desfecho da guerra civil e constituía a força militar mais poderosa em Angola, apoiou o presidente Neto e garantiu-lhe uma vitória rápida. Foi decretado o recolher obrigatório.

No dia seguinte, foram encontrados na zona da Boavista, dentro de um jipe e de uma ambulância, os corpos de oito pessoas, entre as quais se encontravam três membros do Comité Central do M.P.L.A.: Saidy Mingas, ministro das Finanças, Veríssimo da Costa (Nzaji), chefe da Segurança das F.A.P.L.A., e Paulo Mungungu (Dangereux).

Do grupo, faziam ainda parte os cadáveres de Eurico Gonçalves, comandante do M.P.L.A., que se encontrava doente com filaríase, e Garcia Neto, antigo estudante de Direito da Universidade de Coimbra, que vira o Curso interrompido por agentes da P.I.D.E. e passara vários anos nos calabouços, até ser libertado no dia 26 de Abril de 1974. Alheios à contenda entre Nito e Neto, foram sacrificados por acaso. Eram amigos um do outro e do Comandante da Polícia de Luanda, João Saraiva de Carvalho. Tinham vivido juntos em Coimbra, na República do Kimbo dos Sobas. Ao saberem que se estavam a passar movimentações anormais, dirigiram-se a casa do João, para se informarem. O Chefe da Polícia ausentara-se. Foram apanhados pelos revoltosos, que vinham procurá-lo, e passados pelas armas.

Numa praia de Luanda, apareceram ainda vários cadáveres carbonizados. Houve quem afirmasse que os homens tinham sido queimados vivos.

A vingança não se fez esperar. O ódio soltou-se nas ruas da capital e propagou-se a Angola inteira. Os nitistas foram trucidados.

O número total de mortos é desconhecido. Bastantes meses depois, a Amnistia Internacional calculava que tivessem sido executadas, sem julgamento, entre vinte e quarenta mil pessoas, mas ninguém sabe como essas contas foram feitas. Ao que parece, ocorreram fuzilamentos em todas as Províncias. Terão sido muitas vezes precedidos de tortura. Em Luanda, prosseguiram durante meses a fio.

Consta que foram abatidos muitos jovens. Diz-se que alguns nem sabiam quem era Nito Alves. Sem fontes credíveis que permitam uma boa aproximação à verdade histórica, vive-se muito do que se ouve. Terão desaparecido turmas inteiras de alunos das Faculdades de Angola. No Lubango, alguns dirigentes da J.M.P.L.A. poderão ter sido amarrados de pés e mãos e empurrados para o abismo da Tundavala.

O fim de alguns conspiradores mais conhecidos transpirou, ainda que os relatos disponíveis devam ser encarados com reserva.



A ordem para o fuzilamento de Nito Alves terá partido do Presidente da República Popular de Angola. Escreveu-se que João Jacob Caetano, o Monstro Imortal das lendas da guerra da independência, morreu garrotado. Sita Valles entrou de mão dada com o marido, José Van Dunem, nas instalações do Ministério da Defesa. O casal terá sido enviado para o Forte de S. Miguel. Nenhum dos dois saiu de lá com vida.

A história do 27 de Maio está por fazer. Quem sabe o que se passou, ou esteve ligado ao processo contra-revolucionário, ou dá-se com quem esteve, e cala-se. Há quem afirme que a dissidência de Nito Alves poderia ter tido solução política. Certo é que a repressão foi desproporcionada e que pereceram muitos inocentes.

Uma das consequências da revolta falhada foi a centralização do Poder. O debate político empobreceu, no interior do M.P.L.A., em parte por falta de interlocutores. Reduziram-se as possibilidades de exprimir pontos de vista diferentes e de defender posições de grupos sociais específicos.

Modificado de Retornados - O Adeus a África. Editorial Cristo Negro, Lisboa, 2009.


Fotos pequenas: Internet.
Foto grande: festa da minha formatura. Eurico Gonçalves é o terceiro da direita, na fila detrás e Garcia Neto o segundo da esquerda, na fila da frente.

Também publicado em decaedela.