*É um Lusófono com L grande? Então adira ao MIL: vamos criar a Comunidade Lusófona!*

MIL: Movimento Internacional Lusófono | Nova Águia


Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de uma centena de milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por mais de meia centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia. Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.
SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
NIB: 0036 0283 99100034521 85; NIF: 509 580 432
Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).

Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Desde 2008"a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

Colecção Nova Águia: https://www.zefiro.pt/category/zefiro-nova-aguia

Outras obras promovidas pelo MIL: https://millivros.webnode.com/

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
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domingo, 28 de dezembro de 2025

Cinquenta anos depois, é tempo, de facto, de pedir desculpas

 


Cinquenta anos depois da nossa descolonização dita “exemplar”, é de facto, tempo, mais do que tempo, de pedir enfim desculpas – como tanto têm reclamado os detractores da nossa história.

Por uma vez, esses detractores, em cada vez maior número, têm razão: temos a obrigação de pedir desculpas por uma descolonização tão “exemplarmente má”.

E não estamos a falar em particular dos chamados, mal chamados, “retornados” – muitos deles nascidos em África e que, de um momento para o outro, se viram obrigados, em muitos casos apenas por terem um tom de pele mais claro, a regressar a um país que mal ou nada conheciam.

Sabemos que muitos deles não gostarão de ouvir o que se segue, mas di-lo-emos na mesma: se o seu sacrifício fosse o sacrifício necessário para que os países donde vieram prosperassem, então poderíamos, no limite, considerar que esse tinha sido um sacrifício “aceitável”, por mais que “tragicamente aceitável”.

Na verdade, porém, não foi nada disso que se passou. Com a expulsão dos chamados, mal chamados, “retornados”, esses países ficaram altamente depauperados a nível de mão-de-obra qualificada, o que desde logo inviabilizou qualquer miragem de real prosperidade. Para além disso, a prometida “libertação” nem chegou a ser sequer uma miragem. Basta dizer que, sem excepção, todos os novos regimes políticos que então emergiram foram regimes de partido único.

Cinquenta anos depois de todo esse processo, é de facto, tempo, mais do que tempo, de pedir enfim desculpas. Nós pedimos: a todos os chamados, mal chamados, “retornados” e, sobretudo, a todos os povos irmãos lusófonos, cuja prometida “libertação” foi realmente uma farsa, como, cinquenta anos depois, ainda é visível. Aluda-se apenas, para o atestar, ao que se tem passado, nestes últimos tempos, em Moçambique.

Renato Epifânio

sábado, 27 de dezembro de 2025

A CPLP desistiu da Guiné-Bissau?

 

Entrevista à Deutsche Welle sobre a situação da Guiné-Bissau

O Movimento Internacional Lusófono (MIL) entende que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) desistiu da Guiné-Bissau, facto que repudia, mas garante: “Nós não desistimos”. O Presidente do MIL, Renato Epifânio, não vê com satisfação o caminho que a CPLP segue…

DW: A CPLP está a lidar com a crise guineense da forma que deveria?

Renato Epifânio (RE): É preciso que a própria CPLP aja de uma forma mais afirmativa aos mais diversos níveis. Na Guiné-Bissau, promovendo uma cooperação mais próxima, mais presente, de modo a que estes desrespeitos pela Lei Constitucional não ocorram. Essencialmente, apelamos a que a CPLP se envolva mais…

DW: Lançaram uma petição onde exigem maior contundência à CPLP, mas a organização é desprovida de poderes políticos. Que resultados esperam de quem por essência não vos pode oferecer nada?

RE: A CPLP é gerida pelos diversos governos, portanto, a CPLP fará o que os governos, que têm o real poder, decidam o que a CPLP possa fazer. Sabemos que a CPLP, no actual contexto, na actual orgânica institucional, é um mero secretariado executivo, sabemos isso, mas o que nós defendemos é que a CPLP se altere, para assim poder corresponder a esses anseios e de toda a sociedade civil lusófona. É preciso dar mais meios para que a própria CPLP possa responder ao que se está a passar. Imagine que a CPLP tivesse acompanhado, passo a passo, de forma minuciosa, todo o processo eleitoral que ocorreu na Guiné-Bissau – decerto, o que se passou depois não se teria passado.

DW: Os membros da CPLP têm lavado as mãos para o caos que se instalou na Guiné-Bissau... Trata-se de respeito, receio ou indiferença?

RE: Infelizmente, consideramos que há uma indiferença, mais do que isso, que há uma certa desistência da Guiné-Bissau. A Guiné-Bissau está-se a tornar um caso crónico, sempre em crise, muitas vezes com graves atropelos à ordem constitucional, das mais elementares regras da democracia… Obviamente, isso tem consequências – com os diversos países a assumir a sua frustração, a sua incapacidade de mudar o “statuo quo”. Sabemos que não é Portugal, sozinho, que pode alterar a situação na Guiné-Bissau, até porque isso, obviamente, levantaria fantasmas de neocolonialismos… Terá que ser uma entidade transversal aos diversos países, como é a CPLP,  a assumir a condução deste processo. Temos a convicção de que o caminho é esse.

DW: Acha que uma organização como a CPLP se deixa contagiar por petições e iniciativas semelhantes, se considerarmos o seu historial e todo o posicionamento em relação às crises na organização?

RE: A própria CPLP, não, porque não tem capacidade para, autonomamente, se reformar, mas os diversos governos, sim. Se os diversos governos se empenharem mais fortemente na própria CPLP, a situação mudará. A nossa prioridade é essa: sensibilizar a opinião pública em prol desse fortalecimento estratégico da CPLP.

Fonte: https://www.dw.com/pt-002/a-cplp-desistiu-da-guin%C3%A9-bissau/a-75072652

sábado, 31 de maio de 2025

Dos refluxos históricos

 


Se os refluxos esofágicos se resolvem em minutos – ou, no máximo, em poucas horas, como se comprovou na mais recente campanha eleitoral em Portugal –, os refluxos históricos podem demorar décadas, por vezes séculos. Como os vulcões que, sem aviso prévio, expelem lava recalcada, os refluxos históricos expelem fracturas que não já visíveis a olho nu.

No quadro europeu, o país que, provavelmente, vive mais assombrado com essas fracturas históricas é a Alemanha. Daí, por exemplo, o continuar a apoiar acriticamente tudo o que Israel faça – por pior que faça, como tem feito, mais recentemente, na Faixa de Gaza.

Em Portugal, a uma escala menor, temos também essas fracturas, essas sombras – desde logo na nossa relação com Espanha. No recente apagão eléctrico, elas vieram uma vez mais ao de cima. Como se, de facto, desde sempre e para sempre, “de Espanha, nem bom vento nem bom casamento”. Sendo que há reais factores de fricção – não só na gestão da rede eléctrica como, em particular, na gestão dos caudais fluviais.

A nível estritamente endógeno, há, porém, a nosso ver, uma fractura muito mais funda, ainda que, aparentemente, já distante no tempo – falamos em todo o processo de descolonização, que obrigou mais de meio milhão de portugueses a saírem, subitamente, de vários países africanos e a retornarem a Portugal. Sendo que muitos deles não foram realmente “retornados”, dado que haviam nascido nesses países.

Não é aqui o espaço para reconstituir todo esse processo traumático. Sim, sabemos que vivíamos um contexto especialmente adverso no plano geopolítico que inquinou todo o processo da nossa descolonização. Seja como for, houve mais de meio milhão directamente sacrificados nesse processo. Sendo que, como nós próprios já defendemos, se o seu sacrifício fosse o sacrifício necessário para que os países donde vieram prosperassem, então poderíamos, no limite, considerar que esse tinha sido um sacrifício “aceitável”, por mais que “tragicamente aceitável”.

Na verdade, porém, não foi nada disso que se passou. Com a expulsão dos chamados, mal chamados, “retornados”, esses países ficaram altamente depauperados a nível de mão-de-obra qualificada, o que desde logo inviabilizou qualquer miragem de real prosperidade. Para além disso, a prometida “libertação” nem chegou a ser sequer uma miragem. Basta dizer que, sem excepção, todos os novos regimes políticos que então emergiram foram regimes de partido único.

Mas o que tem isso ainda a ver, perguntar-se-á, com os resultados eleitorais deste mês de Maio? Na nossa perspectiva, bastante, no caso da força política que ficou em segundo lugar. Há uma massa humana (que entretanto se alargou à geração dos filhos e dos netos) que escolheu claramente esse partido para expressar o seu ressentimento histórico, ainda que por vezes ele se expresse de forma indirecta – por exemplo, no ataque à “subsidiodependência” (de que eles não beneficiaram, na maior parte dos casos, quando tiveram que passar a viver em Portugal), e também num certo racismo simétrico ao que eles próprios sofreram – dado que, em muitos casos, tiveram que sair de África apenas porque eram “brancos”.

Renato Epifânio

Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono


terça-feira, 27 de maio de 2025

Também no jornal Público: "A bolha mediática que persiste..."

 


Os resultados destas Eleições Legislativas vieram uma vez mais evidenciar o crescente fosso entre a “bolha mediática”, em que vive a generalidade dos nossos jornais, rádios e televisões, e o país real. No meio século da instituição do nosso regime dito “democrático” e numa época em que cada vez mais se fala da “crise dos media”, eis o que nos deveria fazer pensar. Pela amostra, porém, tudo ficará mais ou menos como antes.

Semana após semana, foi-se criando um cenário que desabou por completo com os primeiros resultados eleitorais. Afinal, nunca houve nenhuma verdadeira disputa entre Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos. Apesar do primeiro nunca ter explicado plenamente a origem da sua fortuna pessoal, do outro lado tínhamos alguém que, afinal, tinha adquirido o seu património imobiliário com a fortuna da sua família. Imaginar que o país real estaria mais próximo de Pedro Nuno Santos do que de Luís Montenegro só pode mesmo derivar de um completo desconhecimento do país real.

O mesmo se diga sobre os crescentes resultados do partido “Chega”. Semana após semana, mês após mês, a nossa “bolha mediática” falou de um inevitável declínio deste partido, como se não fosse já evidente que o “Chega” tem uma sólida base eleitoral. Espanta, aliás, que ainda não tenha sido feito um estudo sociológico a evidenciar isso mesmo. Querem uma dica? Analisem a grande coincidência eleitoral entre a população portuguesa que, directa e indirectamente, foi vítima da nossa descolonização dita “exemplar” e o número de votantes nesse partido.

Essa questão é, de resto, a nosso ver, um dos símbolos maiores do crescente fosso entre a “bolha mediática”, em que vive a generalidade dos nossos jornais, rádios e televisões, e o país real. Ano após ano, década após década, foi-nos garantido que o processo da nossa descolonização tinha sido de facto “exemplar”. Quem viveu de perto todo esse processo sabe bem, porém, que tudo isso é falso, absolutamente falso. Os nossos programas de “verificação de factos” nunca falaram, obviamente, disso. O que, convenhamos, é até compreensível: há alegados “factos” que são de tal modo falsos que não são infirmáveis em programas de “verificação de factos”. Eles rebentam, de uma ponta a outra, toda a “bolha mediática” das nossas últimas décadas.

Renato Epifânio

sábado, 25 de janeiro de 2025

A crise dos “media” e a vitória de Trump

 

Sobretudo em Portugal, mas não apenas, é recorrente falar-se das crise dos “media” – em particular, dos jornais, mas também das estações de televisão e de rádio. De tal modo que se chega a exigir o apoio do Estado, na premissa de que os “media” são essenciais para o bom funcionamento da nossa democracia.

Para nossa perplexidade, raramente ouvimos os “media” a questionarem-se porque estão de facto em crise – mais concretamente, porque cada vez mais gente não recorre aos “media” habituais para se informar sobre o país e o mundo.

A recente vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais nos Estados Unidos da América poderia ser um bom ponto de partida para esse pertinente e necessário questionamento. Semana após semana, mês após mês, os “media” em Portugal anteciparam a derrota de Trump. Na véspera das eleições, ouvimos até alguém vaticinar, numa televisão “de referência”, que Kamala Harris iria ganhar com “grande vantagem”.

Poderia ser mas não será, como já se esperava. Ninguém fez “mea culpa” pelos seus vaticínios e, já no rescaldo das eleições, alguém, noutra televisão “de referência”, garantia que Trump havia ganho as eleições porque o seu eleitorado “vivia numa bolha”. Excelente explicação: cerca de oitenta milhões de norte-americanos vivem numa bolha! Se, ao menos, tivessem seguido a cobertura das eleições pelos “media” em Portugal…

Como é cada vez menos indisfarçável, quem vive cada vez mais numa “bolha” são os nossos “media”. E, por isso, sobretudo quanto aos temas internacionais, cada vez menos gente recorre aos “media” portugueses. Falamos por nós: se tivéssemos seguindo as eleições norte-americanas apenas pelos nossos “media”, jamais poderíamos ter previsto os resultados que se verificaram. Como não foi de todo o caso, não ficámos minimamente surpreendidos. Como, de resto, já acontecera muitas vezes no passado, noutras eleições para além das nossas fronteiras.

Como, porém, a explicação que se tem dado é que foram os eleitores norte-americanos que se enganaram – não, de todo, os “media” em Portugal –, nada irá decerto mudar. Em próximas eleições, teremos o mesmo coro de jornalistas e/ ou comentadores a dizerem exactamente o mesmo que disseram a respeito destas. E depois ficam muito espantados com o facto de cada vez menos gente os ouvir. É no que dá viver numa “bolha”: confundimos o mundo com a nossa própria sombra…

Renato Epifânio


segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Para que serve a CPLP?

Nos últimos anos e, na continuidade do apoio da antiga União Soviética aos países que combateram o colonialismo português, temos assistido ao aumento da influência da Rússia na África Lusófona.

Com efeito, com exceção de Cabo Verde, todos os outros países africanos da CPLP não só não suspenderam as relações com a Rússia (como fizeram Portugal e Cabo Verde) como as reforçaram: foi o caso de Moçambique, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e São Tomé e Príncipe. Luanda parece estar no seu próprio caminho, aproximando-se mais dos EUA mas sem cortar decisivamente com a Rússia. Quanto ao Brasil lulista, parece mais próximo da Rússia do que durante a administração Bolsonaro e as teses antiocidentais no Brasil estão hoje em dia mais fortes do que nunca.

Esta "conquista" da África Lusófona por parte do regime de Putin encontra várias explicações:
1. A disponibilidade da Rússia em enviar os mercenários da Wagner, agora renomeada "Africa Corps", para, sem grandes pruridos no respeito da democracia local ou dos direitos humanos, combater insurgentes ou a oposição local em troca da garantia de acesso gratuito ou a baixo preços a recursos naturais.
2. A oferta de cereais (alguns furtados da Ucrânia) e de outros produtos alimentares.
3. A oferta ou cedência a baixo custo de petróleo ou gás natural.
4. O envio de "conselheiros técnicos" e de empréstimos financeiros de curto prazo.
5. A pura e simples corrupção dos líderes locais.

Por estas razões a influência russa em África não tem parado de crescer. Atualmente a "Africa Corps" está presente na República Centro Africana onde há um conflito potencial com o destacamento militar português composto por 243 militares, dos quais 188 integram a MINUSCA e 55 participam na missão de treino da EUTM RCA. Para além da República Centro Africana, e sempre através da "Africa Corps", a Rússia tem militares "não-fardados" na Líbia, no Mali (onde recentemente 80 russos foram mortos numa emboscada dos tuaregues), Sudão e Burkina Faso. O plano inicial era de colocar em África mais de 40 mil mercenários mas houve problemas de recrutamento provocados pelas perdas russas na Ucrânia (que estão consistentemente acima das mil baixas diárias) e o objetivo não foi alcançado.

A presença dos mercenários russos também não correu bem em todo o lado: Em Moçambique, por exemplo, em 2019 (e tendo em vista o gás natural moçambicano) a "Wagner" enviou algumas centenas de mercenários para o norte do país para lutar contra as forças do Estado Islâmico. Mas este destacamento russo foi ineficaz: as barreiras linguísticas e culturais dificultaram a integração com as tropas do governo e os Wagner foram surpreendidos com um número elevado de baixas (sete mercenários foram capturados e degolados por insurgentes). Meses depois retiravam-se de Moçambique. Hoje em dia são os militares do vizinho Uganda quem estabiliza a situação e garante a paz no território.

Se a ligação militar entre os países da CPLP parece mais sólida do que nunca, o mesmo parece acontecer no contexto diplomático, embora com menos intensidade, no que respeita às votações na Assembleia Geral da ONU.

E contudo não devia ser assim. A CPLP devia ter uma posição comum mais alinhada e concertada com o interesse de todos os seus Estados. Isso mesmo é determinado pelo artigo 4.º dos seus estatutos: "a) A concertação político-diplomática entre os seus membros em matéria de relações internacionais, nomeadamente para o reforço da sua presença nos fora internacionais; b) A cooperação em todos os domínios, inclusive os da educação, saúde, ciência e tecnologia, defesa, oceanos e assuntos do mar, agricultura, segurança alimentar, administração pública, comunicações, justiça, segurança pública, economia, comércio, cultura, desporto e comunicação social."

Ora o recente acordo militar entre São Tomé e Príncipe e a Federação Russa, apesar de opaco e secreto, colide — naquilo que dele se conhece — com várias alíneas destes estatutos e consequentemente e vem questionar a seriedade com que os países que integram esta comunidade encaram a sua participação enquanto Estados livres e soberanos a que nada obriga a pertencerem à Comunidade. E se colide de forma tão flagrante, há que perguntar para que serve, mesmo, uma comunidade de Estados independentes que não respeitam estes princípios basilares. De que serve uma CPLP maximalista no âmbito geográfico ("todos" os países lusófonos mais a dúbia Guiné Equatorial) mas minimalista até ao grau zero no que respeita às suas posições perante os maiores conflitos mundiais da atualidade?

De que serve uma CPLP que nem sequer consegue garantir que um dos seus Estados-membros não tenha abolido "de forma total" a pena de morte conforme prometeu no processo de adesão e que fique "satisfeita" (palavras de Zacarias da Costa, o atual secretário-executivo da CPLP) com a situação com os direitos humanos neste país "lusófono"?

Rui Martins, membro do MIL

sexta-feira, 15 de março de 2024

A objecção de consciência: uma abordagem filosófico-política

 



Para o bem e para o mal, as sociedades têm reconhecido, cada vez mais, a “liberdade de consciência” enquanto direito irredutível de afirmação do indivíduo face – no limite, contra – o colectivo. Falamos, obviamente, sobretudo das sociedades ditas “ocidentais”. Noutro tipo de sociedades – em particular, na Ásia ou em África –, esse alegado direito só muito parcialmente é reconhecido ou não é reconhecido de todo. 

Essa foi, igualmente, a nossa matriz. Recordemos, a esse respeito, o célebre julgamento do Mestre de Platão, que este tão eloquentemente descreve na sua célebre obra Apologia de Sócrates. A Sócrates, não foi reconhecido qualquer direito de “rebelião” contra o colectivo: apenas a possibilidade de sair desse colectivo, ou seja, de se expatriar. Sócrates, porém, de forma muito significativa, preferiu beber a cicuta, preferiu o suicídio. Também para ele, por mais injusta que tivesse considerado a sentença, o direito do todo, do colectivo, prevalecia, em absoluto, sobre o “seu” direito individual.

Essa dita “consciência individual” foi, de resto, algo que só foi sendo muito lentamente reconhecido ao longo da própria história da filosofia – primeiro, na dita “Idade Média”, por influência do cristianismo (que, inquestionavelmente, é uma religião que, até em termos comparativos com outras, defende o valor da individualidade), e, depois, na dita “Idade Moderna”, em que, de Descartes até Kant (apenas para referir dois filósofos de referência dessa época), a categoria de indivíduo foi ganhando cada vez mais valor ontológico.

No plano político, as sociedades ocidentais não acompanharam imediatamente esse percurso que se fez no plano filosófico – isso só foi acontecendo ainda mais lentamente. Em Portugal, por exemplo, apenas com a “Revolução Liberal” de 1820 se deram passos reconhecíveis nesse sentido, ainda que muito tímidos. A própria categoria de “cidadão”, em contraponto à de “súbdito”, só viria a ser mais abertamente afirmada com a implantação da República em 1910, quase um século depois, e mesmo assim com grandes restrições. Por exemplo, no plano político-eleitoral: bastando, para o efeito, referir as diferenças que subsistiram entre homens e mulheres quanto ao direito de voto em eleições.

Hoje, em Portugal e nas sociedades ditas “ocidentais”, os direitos individuais têm vindo a ser cada vez mais reconhecidos, a ponto da própria categoria de “colectivo” se estar a esvaziar de qualquer valor ontológico. Há aqui, claramente, um movimento de simetria: quanto mais peso tem o colectivo, menos peso têm os indivíduos; quanto mais peso têm os indivíduos, menos peso tem o colectivo. No limite, o reconhecimento absoluto dos direitos individuais levaria à abolição plena da qualquer sentido de colectividade ou de comunidade. Resta, a este respeito, perguntar se nas ditas “sociedades ocidentais” não estamos cada vez mais próximos desse limite, que é, também ele, a nosso ver, suicidário.

A categoria de “objecção de consciência” tem sido, historicamente, um compromisso entre o direito colectivo e os direitos individuais – diríamos, mais filosoficamente, entre o uno e o múltiplo. Em Estados com uma religião oficial, por exemplo, não se pondo em causa o direito do Estado a ter uma religião oficial, aceita-se que nem todos os cidadãos a sigam. Sendo que esse exemplo, nas sociedades ditas “ocidentais”, é, nos dias de hoje, muito mais uma questão teórica do que uma questão prática. Mesmo nos Estados que ainda têm uma religião oficial – como, por exemplo, a Grã-Bretanha –, só o Chefe de Estado tem, por dever de função, essa obrigação legal – enquanto líder máximo, no caso, da religião anglicana (uma ramificação, como se sabe, da reforma protestante europeia). E mesmo isso tem sido visto, cada vez mais, como um manifesto anacronismo.

O exemplo mais clássico do direito à “objecção de consciência” acontece, ainda nos dias de hoje, nos casos do serviço militar. Mas mesmo esse depende da circunstância em que estamos. Em Portugal, por exemplo, com o fim do “Serviço Militar Obrigatório”, ele perdeu, decerto, pertinência jurídica. Mas imaginemos que Portugal era invadido por um outro qualquer país e que o Estado impunha uma mobilização geral para a defesa do nosso território. Seria realmente lícito a qualquer um de nós, cidadãos, invocar o direito à “objecção de consciência”? Mesmo que, em seu abono, citasse as célebres palavras de Bernardo Soares no seu Livro do Desassossego (“Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente”)?

A questão não é tão ociosa como possa parecer – nos dias de hoje, há países que estão a viver esse dilema. Pela nossa parte, tendemos a reconhecer o direito à “objecção de consciência” em qualquer circunstância. Mas esse direito, obviamente, tem consequências. Nesse caso limite – em que um cidadão português se recusasse a defender o nosso território –, talvez tivéssemos que regressar ao exemplo de Sócrates – e de propor, a esse objector, o expatriamento. Felizmente, em Portugal, esse cenário não é sequer vislumbrável. Por isso, os dilemas da “objecção de consciência” têm-se posto quase que exclusivamente na área da medicina (a interrupção voluntária da gravidez é o exemplo mais clássico), sem problemas de maior (ou seja, respeitando o direito à “objecção de consciência” dos médicos). Antes assim.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

O MIL, a NOVA ÁGUIA e a Saudade

 

Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da sociedade civil portuguesa, o MIL (Movimento Internacional Lusófono) é uma Associação Cultural e Cívica registada notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de uma centena de milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por mais de meia centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia. 

No essencial, defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, visando a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade. Enquanto Associação Cultural e Cívica, que neste momento preside à PASC: Plataforma de Associações (Portuguesas) da Sociedade Civil/ Casa da Cidadania, o MIL tem sobretudo apostado num caminho de cariz cultural, aquele que a nosso ver mais resultados terá a médio/ longo prazo.

Daí, desde logo, a nossa Revista, a NOVA ÁGUIA, que procura honrar o espírito da Revista A ÁGUIA (1910-1932), órgão do movimento da "Renascença Portuguesa", que reuniu a elite cultural da sua época. À semelhança da revista A ÁGUIA, que procurou dar uma orientação maior à República (lembramos que ela foi lançada a 1 de Dezembro de 1910), a NOVA ÁGUIA, procura, com o mesmo espírito, repensar a nossa situação no século XXI. Ela foi lançada em 2008 para, sobretudo, promover o conhecimento da nossa tradição filosófica e cultural numa perspectiva futurante – na premissa de que nenhum povo que despreze a sua tradição poderá ter real futuro.

A par da Revista NOVA ÁGUIA, temos promovido uma série de outras publicações, nomeadamente, também desde 2008, as Actas dos Colóquios Luso-Galaicos sobre a Saudade: III Colóquio (2008), IV Colóquio (2012), V Colóquio (2017), VI Colóquio (2018) e VII Colóquio (2022). Estes Colóquios iniciaram-se ainda no século passado, em 1993, promovidos, em particular, pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em parceria com outras entidades, portuguesas e galegas. Desde a nossa fundação, o MIL tem sido uma dessas entidades parceiras.

A nosso ver, estes Colóquios têm sido sobretudo uma ponte de diálogo cultural entre Portugal e a Galiza – e não apenas a respeito da temática da Saudade. De tal modo que temos ampliado o âmbito desses Colóquios: para Encontros sobre Filosofia e Cultura Luso-Galaica. O próximo será já em 2024 e, uma vez mais, iremos aprofundar esse diálogo cultural entre a Galiza e Portugal, sendo que a temática da Saudade extravasa em muito o espaço luso-galaico, como muito bem demonstrou António Braz Teixeira num recente livro, publicado pelo MIL: “A saudade na poesia lusófona africana e outros estudos sobre a saudade” (2021). Na Revista NOVA ÁGUIA, ao longo de todos os seus números já lançados – mais de três dezenas, desde 2008 –, podemos também encontrar diversos ensaios que o comprovam.

Texto publicado conjuntamente com o ensaio "A saudade no pensamento português contemporâneo”, in Revista Super Interessante História – Edição Biblioteca, Editora Abril (Brasil), Fevereiro de 2024, pp. 114-121.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

A propósito de Roberto de Mesquita

 

Segundo os mais diversos críticos literários, Roberto de Mesquita foi um poeta açoriano com real projecção nacional. Nas palavras de Jacinto do Prado Coelho, ele foi “no quadro do parnasianismo e sobretudo do simbolismo (…) um dos mais altos expoentes logo a seguir a Camilo Pessanha…”. Eduíno de Jesus, por seu lado, escreveu que “Roberto de Mesquita realizou algumas das melhores poesias do parnasianismo português. Como poucos, parece ter seguido escrupulosamente o conselho de Gautier: Sculpte, lime, cisèle. Os seus versos têm a consistência do mármore. Ele fugia à rima fácil e ao automatismo técnico em que muitas vezes caem os versejadores regulares. Pelo contrário usou rimas difíceis e trabalhou a forma sempre como se se tratasse de uma novidade, com uma consciência nítida e serena.”. Quando muito, discutem os críticos a sua linhagem literária, nomeadamente a sua alegada subsunção na linhagem simbolista – como escreveu a esse respeito Pedro da Silveira: “Hesito considerar Roberto de Mesquita rigorosamente um simbolista. Acima disso – e do que também tem de parnasiano – ele é um poeta de insularidade açórica, que foi buscar a Verlaine, L´Isle-Adam, Cesário, Antero e António Feijó (e talvez a Pessanha, que conhecia de revistas, e a Mallarmé) uns quantos elementos que o ajudassem a pôr a nu a sua dor de encarcerado da água do Atlântico”.

Não querendo entrar nós nessa discussão, gostaríamos aqui de salientar a dimensão “situada” da sua obra – o que não tem, na nossa perspectiva, nada de pejorativo, como iremos defender. Ainda segundo diversos críticos, é essa a marca maior da sua originalidade. Começando de novo por Jacinto do Prado Coelho, escreveu ele que que pertence a Roberto de Mesquita “um lugar no panorama da poesia portuguesa, pela qualidade estética de Almas Cativas; mais restritamente, situa-se no quadro da literatura açoriana pela expressão admirável da condição vivencial de ilhéu exilado no Atlântico”. Vitorino Nemésio, por seu lado, vê na sua obra o “perfil difuso e abúlico da açorianidade”. Para Luís de Miranda Rocha, Roberto de Mesquita é mesmo “o mais importante poeta genuinamente açoriano”. Para Pedro da Silveira, por sua vez, “o que há de insular, de açorianidade, na sua obra, em parte também parnasiana, contribui largamente para lha marcar de originalidade”. Tomás da Rosa, por fim, escreveu o seguinte: “Roberto de Mesquita, adequando o seu ‘mundo’ interior ou exterior, marcado pela solidão insular, aos princípios de certo simbolismo e de certa poesia de Antero, consegue uma expressão estilística própria, uma arte pessoal, resultante da experiência humana, vivida e intimamente sentida numa ilha. Numa pequena ilha isolada, muitas vezes brumosa e batida por temporais, lhe decorre a existência. Este isolamento, este viver em solidão sem terra firma e com o mar em roda num clima húmido e depressivo, caracteriza o que Vitorino Nemésio designou por açorianidade.”.

Não querendo também nós aqui discutir a questão da existência de uma “literatura açoriana” – na lapidar tese de Onésimo Teotónio Almeida, “o facto de nos Açores existir uma experiência, já quase secular, de uma literatura que reflecte de modo muito especial o mundo açoriano, o que não aconteceu nem na Madeira nem em qualquer outra parte de Portugal, ao menos com o nível de consciência e de corrente ou tradição em que ela surge nos Açores”; independentemente da sua extensão ou “quantidade”, como ressalvou a esse respeito Machado Pires: “A existência de uma verdadeira (…) literatura regional não é uma questão de quantidade, mas uma questão de qualidade. Neste sentido, não são açorianos os autores nascidos nos Açores ou que deles falam, mas todos aqueles que criam, transmitem ou apelam para uma peculiaridade açoriana, com qualidade literária” –, pretendemos aqui apenas defender que o carácter alegadamente “situado” da obra de Roberto de Mesquita não infirma, a priori, a sua dimensão verdadeiramente universal. Bem pelo contrário. Isto se, obviamente, partirmos da premissa – como nós aqui partimos, de forma expressa – de que o ser humano não é, ou não é apenas, uma “pura abstracção”, mas, sobretudo, um ser concreto, universalmente concreto, um ser que, de resto, será tanto mais universal quanto mais assumir essa sua concretude, a concretude da sua própria situação – não apenas geográfica como histórica.

Dessa “situação” – escreveu o filósofo José Marinho – faz axialmente parte a “pátria”, isso que, nas suas palavras, configura a nossa “fisionomia espiritual”. Nessa medida, importa pois assumi-la, tanto mais porque, como escreveu igualmente Marinho, foi “para realizar o universal concreto e real [que] surgiram as pátrias”. Ainda nesta esteira, propõe-nos Marinho a distinção entre “universal” e “geral” – nas suas palavras: “O geral tem âmbito mais restrito e insere-se na prossecução de conceitos, o verdadeiro universal está já numa relação da intuição para a ideia e vincula o singular concreto e indefinível com o uno ou o único transcendente.”. Daí, enfim, a sua expressa defesa de uma filosofia situadamente portuguesa, não fosse esta “dirigida contra o universalismo abstracto e convencional de escolásticas e enciclopedistas em que têm vivido”. Para concluir: os filósofos são, decerto, os grandes pensadores da universalidade; mas, por isso mesmo, são ou devem ser também os grandes pensadores do “universal concreto”, do “universal situado” – e não apenas do “universal geral e abstracto”; se se restringirem apenas a este plano, não serão de resto, verdadeiros pensadores do universal – mas apenas do geral; só o serão se pensarem, se se pensarem, no “universal concreto”, no “universal situado”: nessa medida, pensadores portugueses universais serão aqueles que pensarem, se pensarem, no “universal concreto”, no “universal situado”, ou seja, aqueles que pensarem, se pensarem, na situação concreta da nossa História e Cultura… A mesma tese se aplica aos poetas. E por isso ousamos, enfim, dizer: é na sua dimensão mais “situada” que se enraíza a dimensão mais “universal” da obra de Roberto de Mesquita.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Guerra Junqueiro, visto por José Marinho

 

Ainda que nem sempre explicitamente, o pensamento de José Marinho teceu-se no seu constante diálogo com alguns filósofos – em particular, Sampaio Bruno e Leonardo Coimbra. De tal modo que o seu pensamento mais estritamente teorético pode ser mesmo interpretado como uma tentativa de sintetizar essas duas cosmovisões, tão, a priori, antitéticas entre si: a brunina afirmando o primado ontológico da homogeneidade originária do ser sobre a heterogeneidade actual do existente, a leonardina afirmando o inverso, fazendo, nessa medida, a apologia deste “mundo de distâncias e separações”.

Ainda que por vezes de forma tácita, o pensamento de José Marinho teceu-se igualmente no seu constante diálogo com alguns poetas: eis o que aqui veremos a respeito de Guerra Junqueiro.

Apesar de, como confessou numa carta a José Régio, datada de 26 de Agosto de 1950, ter chegado a padecer de uma “junqueirianite aguda”, nunca, na nossa perspectiva, Marinho se projectou nele a ponto de com ele se identificar – tal como aconteceu, na nossa leitura, com Antero de Quental. Deveu-se isso, porventura, ao facto de, em múltiplas passagens da sua obra, inclusive nos textos que expressamente lhe dedicou, Guerra Junqueiro aparecer enquanto par menor – nomeadamente, em relação a Sampaio Bruno e a Teixeira de Pascoaes. Assim, Junqueiro ora é visto como “precursor” de Pascoaes, ora enquanto “acompanhante” de Bruno, enquanto seu “amigo e irmão espiritual”.

Em diversas passagens da sua obra, eis, com efeito, como Marinho perspectiva a obra de Junqueiro: “A meditação de Junqueiro acompanha de perto a meditação de Bruno, o movimento de alma aparece similar nos dois íntimos amigos e irmãos espirituais, aqueles homens, sem dúvida, que contra todo o esperado e sabido, mais longe se adiantaram, desde o nosso abortado renascimento e antes da nova Renascença Portuguesa, pelos caminhos da meditação do homem e do seu universal destino.”; “…o filósofo de A Ideia de Deus e o poeta das Orações são aqueles propositores do difícil enigma e da imperiosa verdade cuja caminhada os homens da Renascença Portuguesa logo prosseguiram”; “…na vida espiritual portuguesa, tal qual foi, tal qual é, ele [Junqueiro] representa, com Sampaio Bruno, algo de grave entre o mais grave: a assumpção da negatividade”.

Segundo Marinho, eis a “tarefa” que ambos herdaram de Antero – “…o Absoluto ficaria neste nosso pensador crucial numa forma clássica, pretérita, como Unidade do ser enquanto ser. Para os poetas e pensadores sequentes, nomeadamente Guerra Junqueiro e ainda também Sampaio Bruno, transitaria a grave, a imensa dificuldade, se é bem certo que tudo quanto se concebe como unidade (toda a unidade resulta afinal aleatória) se devolve necessariamente não só à diversidade do idêntico, mas à multiplicidade ou à relação do uno-múltiplo insolúvel”–, a tarefa que (só) Bruno cumpriu: “Sampaio Bruno é o nosso primeiro filósofo da negação e da negatividade (…). A sátira do seu grande amigo e convivente Guerra Junqueiro, se comparada à negação de Bruno e à visão que a consente, afigura-se-nos hoje, embora fundamente significativa, muito mais aleatória e episódica na forma que assumiu”.

Tal como, na visão de Marinho, Junqueiro aparece menorizado relativamente a Bruno, o mesmo acontece relativamente a Pascoaes. Aliás, o autor da Teoria do Ser e da Verdade chegou a escrever que “o que principalmente me interessa na poesia de Junqueiro é o caminho que nela se abre, ou tão somente se entremostra, para alguma coisa que por todos os lados a excede: a poesia de Teixeira de Pascoaes” – ainda que, logo de seguida, tenha ressalvado que “a poesia de Junqueiro não vale apenas como vestíbulo da poesia de Pascoaes, ainda que tal coisa não devesse ser desonrosa para poeta algum, pois quem se encontre nos caminhos que levam à verdadeira grandeza, em poesia como em filosofia, participa nela”. Eis, de resto, a tese que Marinho reiterou em diversas da sua obra, nomeadamente ao defender, de forma expressa, que “a mais profunda herança de Junqueiro vai passar para Teixeira de Pascoaes”, a tese que o próprio Pascoaes validou, pelo menos indirectamente, ao ter assumido, na sua juventude, ter querido ser “um outro Guerra Junqueiro”.

Apesar desta visão mais desapaixonada, nunca deixou, porém, Marinho, de considerar Junqueiro como um dos “homens verdadeiramente grandes do nosso país”. Por mais que lhe tivesse faltado a “unidade interna da obra”, por mais que “o poeta tenha ficado muito atrás do filósofo”, foi Junqueiro, ainda nas palavras de Marinho, “um daqueles poetas cada vez mais raros que ligam o céu à terra e nos forçam a olhar outra face matinal dos seres e das coisas”. Teve, nessa medida, o que tanto faltou a Antero de Quental como a Fernando Pessoa – ainda nas palavras de Marinho, “a Antero faltou o sentido do liame sublime”, “a Pessoa faltou, como falta a clássicos formais, ou modernistas informes, o sentido do que liga e separa”. E por isso, com efeito, se insurgiu enfim Marinho com o facto de “Junqueiro e Pascoaes serem injustamente olvidados ou ignaramente aludidos”. 

domingo, 12 de novembro de 2023

Entre Basílio Teles e José Marinho

 


Como todas as figuras mitológicas, Prometeu é uma figura ambivalente, no sentido em que ambivalentemente pode ser perspectivada. A priori, há pelo menos duas perspectivas possíveis: uma mais positiva, outra mais negativa. Segundo a perspectiva mais positiva, que é, de resto, a mais corrente, a mais comummente divulgada, Prometeu é uma figura heróica que afrontou o divino para ajudar os homens. E que pagou por isso. Tragicamente.
Recordemos a versão do mito mais celebrizada: “Foi por amor aos homens que Prometeu enganou Zeus. Primeiro em Mecone, durante um sacrifício solene, dividiu em duas partes um boi: pôs para um lado a carne e as entranhas do animal, cobrindo-as com a pele; aos ossos, despojados da carne, cobriu-os com gordura, tingindo-os assim de branco. Disse depois a Zeus que escolhesse a sua parte, deixando o resto aos homens. O deus optou pelo esqueleto coberto de banha e, quando descobriu que nesse quinhão só havia ossos, ficou revoltado contra Prometeu e contra os mortais, que a sua astúcia tinha favorecido. Para os punir, decidiu deixar de lhes enviar o fogo.”.
“Então – continuemos a narração do mito –, Prometeu auxiliou-os uma vez mais: roubou algumas sementes de fogo «à roda do sol» e levou-as para a Terra, escondidas num caule de férula. Outra tradição conta que ele tirou o fogo da forja de Hefesto. Zeus puniu os mortais e o seu benfeitor. Aos primeiros, enviou-lhes uma criatura por ele expressamente forjada para o efeito: Pandora. Quanto a Prometeu, prendeu-o com grilhões de aço no cimo do Cáucaso e determinou que uma águia, filha de Equidna e de Tífon, lhe fosse comendo o fígado, que se ia renovando incessantemente.”[1].
A narração do mito prossegue ainda com as peripécias relativas à libertação de Prometeu do seu martírio – “Contudo, Héracles passou pela região do Cáucaso e trespassou com uma flecha a águia de Prometeu, terminando assim o seu cativeiro. Zeus, orgulhoso do feito do filho que ampliaria mais a sua glória, não protestou, mas para que o seu juramento não fosse em vão, obrigou Prometeu a usar um anel feito do aço dos seus grilhões…” –, mas isso, por ora, não nos interessa. Fixemo-nos, pois, no essencial: Prometeu afrontou o divino “por amor aos homens”, sofrendo a dura pena acima descrita. Por isso, tornou-se uma figura amada pelos homens. O que parece lógico: se Prometeu afrontou o divino “por amor aos homens”, parece lógico que os homens o amem por isso.
Será mesmo? Eis a dúvida que queremos aqui suscitar. Para tal, nem sequer iremos argumentar com o facto de, segundo a enunciada narração do mito, tudo ter começado com um primeiro engodo de Prometeu, que originou a ira de Zeus e a sua consequente vingança[2]. A nossa crítica é, procura ser, mais funda. Centra-se na própria lógica de relação entre o humano e o divino que aqui está em causa e que subjaz à enunciada narração do mito: a saber, uma lógica de rivalidade e, por isso, de confronto. Nessa medida, pouco importa saber quem começou esse confronto. Se a lógica da relação é de confronto, isso pouco ou nada importa. Se o humano e o divino se vêem como rivais, o confronto é inevitável. Desde sempre.
Aqui chegados, anteciparão decerto aqueles que nos ouvem que a perspectiva de Basílio Teles sobre Prometeu – por ele exposta no estudo que acompanha a sua tradução do “Prometeu agrilhoado” de Ésquilo[3] – não é aquela em que mais nos revemos, por, precisamente, se fundar numa lógica de relação entre o humano e o divino pautada pela rivalidade e, por isso, pelo confronto. Nada de mais certo, nada de mais errado. Antes, contudo, de dizermos em que medida isso assim é, iremos expor, sucintamente, a perspectiva de Basílio Teles. 
No ensaio filosófico que acompanha a sua tradução do “Prometeu agrilhoado” de Ésquilo, intitulado “A Tragédia”, expõe Basílio Teles a sua perspectiva sobre Prometeu. Justifica, o autor, a acção de Prometeu pela sua “ingénita repulsa por toda a espécie de tirania”[4], que o levou a rebelar-se contra Zeus. Em nome da humanidade, como salienta – e por isso o define como “desinteressado amigo e educador da espécie humana”[5], como “símbolo das forças progressivas que há nela, isto é, das grandes individualidades criadoras que promoveram, e neste momento promovem, essa marcha ascensional para a estabilidade e o embelezamento da existência colectiva, e que pagam com sofrimento, reveses, amarguras, essa iniciativa audaciosa”[6].
Eis, com efeito, na perspectiva de Basílio de Teles, do que se trata: da “afirmação insistente, impetuosa, da liberdade de pensar e de proceder em face da ordem que o advento de Zeus inaugurava, a do medo e do servilismo cobarde dos Olímpicos que lhe aceitaram e defendiam o império”[7]. Nessa medida, plenamente justificada fica, pois, a acção de Prometeu: se Zeus simbolizava o “império”, a “tirania” sobre os homens, havia que lutar contra ele. Na sua revolta contra Zeus, Prometeu simboliza a revolta do humano contra o divino, aqui tido como opressor. Só assim, nessa luta, nessa revolta, poderia a humanidade libertar-se…
Ainda na perspectiva de Basílio Teles, nessa luta se confrontam duas “concepções divergentes”, “que filosoficamente se designam pelas expressões transcendentalismo e imanentismo, vulgarmente pelas de Religião e Ciência”[8]. “A primeira – defende Basílio Teles –, pela contradição irremovível entre deus e o mal (lucidamente reconhecida pela religião dos Medo-Persas), entre deus e a moral por conseguinte, e por ser quase exclusivamente moralista, não comporta uma interpretação unitária e racional do Universo, sem soluções que não sejam sempre dogmáticas: exigindo, pois, a cega submissão do crente a uma Lei indemonstrável e a uma entidade incompreensível.”[9]. Eis, pois, em suma, na perspectiva de Basílio Teles, tudo o que Zeus simboliza: uma ordem transcendente, que exige a plena submissão dos homens pela crença.
A segunda concepção, simbolizada por Prometeu, caracteriza-se antiteticamente àquela – ainda nas palavras de Basílio Teles: “A segunda implica sempre conhecimento e soluções racionais, a conformidade livre e consciente do homem, portanto, com uma Natureza inteligível e com leis verificáveis, por ser criação pura do espírito, em que nenhum mistério, contradição ou incoerência grave se toleram.”[10]. Eis, então, porque Prometeu simboliza, na perspectiva de Basílio Teles, o espírito científico ou imanentista, em antítese ao espírito religioso ou transcendentalista, simbolizado por Zeus. Ele nega a submissão cega, a mera crença, ele exige a plena inteligibilidade do mundo, a plena revelação do ser. Ele nega o lugar do enigma, do próprio mistério, ele exige a inteira luz, o “fogo divino”, símbolo da própria verdade.
Num texto inédito só publicado postumamente, já neste século, escreveu José Marinho as seguintes palavras: “…lendo Basílio Teles, verifico que esse sagaz pensador político, republicano aparentemente paradoxal mas no fundo lúcido e coerente pensador político português, na sua Questão religiosa critica negativamente toda a tendência religiosa e metafísica transcendentalista, semita e judaica pensa ele, e adopta e propaga a tendência imanentista./ Ora se Basílio não fosse demasiado modernista e juvenilista (se o não fosse no seu tempo) teria reparado em que a distinção entre imanência e transcendência não pode pôr-se nos termos em que ele a estava pondo (…). E por isto já Platão no seu Sofista marcara a analogia da situação do filósofo com a da criança. Porque a criança, posta na urgência de escolher entre o bolo e a laranja, estende as mãozitas para ambos. Assim também, explica Platão, entre ser e não-ser, uno e múltiplo, eternidade e tempo, não cabe escolher (…).”[11].
Da mesma forma que, ironicamente, José Marinho acusou algures Sampaio Bruno de o ter pré-plagiado, também nós aqui, com a mesma ironia, acusamos José Marinho de nos ter pré-plagiado relativamente a Basílio Teles. E isto porque, com efeito, o que José Marinho nos diz na passagem citada é exactamente o que pensamos: Basílio Teles vai demasiado longe na sua crítica do divino. Se ela se justifica em relação a Zeus, bem como a qualquer seu sucedâneo Deus-Pai, ela perde validade relativamente a muitas outras figurações do divino, que, ao contrário do que pretende Basílio Teles, não é necessariamente uma instância opressora do humano. Daí também o limite da sua figuração prometeica do humano: ela só é justificável face a um divino opressor. Face a uma figuração não opressora do divino, a figuração prometeica do humano torna-se absurda. Pois que sentido faz lutar contra algo que não só não nos oprime como, na medida em que em nós o assumimos, nos liberta?
Essa é, aliás, a figuração do divino que José Marinho nos propõe – e daí o cabimento da sua crítica a Basílio Teles, bem expressa nestas palavras: “É assim que, para muitos homens, o amor é atributo divino, assim, para muitos, Deus dita normas e julga do bem e do mal. E toda a existência humana perde o sentido se Deus não ama o homem, se não é um Pai para ele, se não é um juiz e um Senhor. Para nós, é justamente o contrário e ousamos dizer que se a maior parte dos homens (dos homens ocidentais: a maioria do euro-americanos) está convencida de que só um Deus criador, um Deus amor, um Deus providência, um Deus pai, um Deus juiz misericordioso, um Deus senhor é o remate compreensível de todo o mal e de todo o possível, de toda a existência terrestre e transcendental do homem – nós, com não menor firmeza, dizemos que Deus não pode ser tal como o nosso coração o deseja, mas como a nossa inteligência o vê. Deus sabe que afirmamos isto para poucos ouvidos e talvez para nenhum. Nem na Idade Média, nem na Época de Cristo assim primitivos estavam os homens, como hoje, tão pouco preparados para admitir uma concepção ética-metafísica de Deus.”.
“E a tal ponto isto é assim – continua Marinho – que quase invariavelmente, quando falamos com um ateu e um agnóstico expondo alguma coisa das nossas ideias neste ponto, eles respondem: «Um Deus como esse não serve para nada. Ou um Deus que intervém na vida e na existência do homem e atende à dor e à desgraça do homem ou nenhum.». Assim falam os homens que dizem amar a liberdade!”[12]. Eis, a nosso ver, a crítica que por inteiro atinge a figuração do divino de Basílio Teles. Com efeito, ao figurá-lo, Basílio Teles desde logo o amaldiçoa por, nas suas palavras, “consentir que as maiores infâmias se pratiquem”, “sendo-lhe por igual indiferente a ira feroz do verdugo e o caloroso gemido da vítima”[13]. Por isso, aliás, o caracterizou Marinho como “o grande irmão-inimigo de Sampaio Bruno”[14] – dado que, partindo ambos da mesma denúncia da “realidade do mal”, chegam a conclusões opostas: enquanto que Bruno procura conciliar essa denúncia com a afirmação da “existência de Deus”[15], já Teles põe em causa não só a “omnipotência de Deus” como, em última instância, a própria “existência divina”[16].
Há, contudo, uma virtualidade nessa crítica do divino de Basílio Teles, mesmo na perspectiva de José Marinho. Se, ainda nas palavras do autor de Verdade, Condição e Destino no pensamento português contemporâneo, “o movimento da filosofia é desabsolutizar o que não é autenticamente absoluto”[17], na “negação de Deus e de todo o divino enquanto é para nós”[18], e assim reconhecer “o autêntico”[19], e assim antecipar “o único verdadeiro”[20], então a crítica de Basílio Teles concorre para este intento. Na sua desconstrução do que perspectivava como o divino, ele, de facto, “desabsolutiza o que não é autenticamente absoluto”. Indo demasiado longe na sua crítica do divino, ele não vai contudo suficientemente longe, pelo menos tão longe quanto Marinho e nós próprios gostaríamos. E por isso não reconhece “o autêntico”, e por isso não antecipa “o único verdadeiro”. Chegou, contudo, a meio do caminho. O que não é pouco. Sem o saber, Basílio Teles cumpriu parte dos próprios “desígnios de Deus” – ainda nas palavras de Marinho: “Tudo se passa como se Deus preferisse ser negado a ser minorado em qualquer forma de antropomorfismo.”; “Deus, desde sempre, não confia na fé e no saber dos homens. Ser negado estava também nos seus desígnios.”[21].
Mas, porque a negação não é nunca o verdadeiro fim último, importa ir mais além… No entanto, dado que, de facto, todo o pensar é situado, não só no espaço como também, senão sobretudo, no tempo, na história, talvez não fosse possível a Basílio Teles ter ido mais além, ao que está para lá da negação. O universo cultural em que viveu era demasiado impositivo relativamente à figuração dita “cristã” do divino. Foi contra essa figuração do divino no seu tempo que Basílio Teles lutou. De forma prometeica, assim pensando libertar os homens. Não foi essa apenas uma luta teológica, ou anti-teológica. Foi também, senão sobretudo, política, sócio-política. Na verdade, Basílio Teles lutou sobretudo contra a Igreja, por ele vista, não sem razão, como o grande sustentáculo da ordem social e política então vigente. O ardor prometeico com que se empenhou nessa luta fê-lo reduzir a figuração cristã do divino ao que era defendido pela Igreja de então, mais ainda, fê-lo reduzir o divino a uma única figuração. Daí o seu ateísmo, ou, como o classificou Pinharanda Gomes, o seu anti-teísmo[22]. Ao contrário do que então não terá parecido possível a Basílio Teles, há, contudo, muito mais vida, muito mais divindade, para além dessa figuração do divino contra a qual ele, não sem razão, lutou. Passados 100 anos sobre o seu falecimento, eis o que mais importa, a nosso ver, afirmar.


[1] Cf. Pierre Grimal, Dicionário da Mitologia Grega e Romana, tradução de Victor Jabouille, Lisboa, Difel, 1992, pp. 396-397.

[2] Recordemos a narração do mito: “Primeiro em Mecone, durante um sacrifício solene, dividiu em duas partes um boi: pôs para um lado a carne e as entranhas do animal, cobrindo-as com a pele; aos ossos, despojados da carne, cobriu-os com gordura, tingindo-os assim de branco. Disse depois a Zeus que escolhesse a sua parte, deixando o resto aos homens. O deus optou pelo esqueleto coberto de banha e, quando descobriu que nesse quinhão só havia ossos, ficou revoltado contra Prometeu e contra os mortais.”.

[3] “A Tragédia”, in Prometheu agrilhoado, Porto, Lello & Irmão, 1914, pp. 97-132 [na edição mais recente (Ensaios Filosóficos, pref. de António Braz Teixeira, Lisboa, IN-CM, 2006), pp. 103-126].

[4] Ibid., p. 102 [p. 108].

[5] Ibid., p. 104 [p. 109].

[6] Ibid., p. 105 [pp. 109-110].

[7] Ibid., p. 107 [p. 111].

[8] Ibid., p. 115 [p. 116].

[9] Ibid., pp. 115-116 [p. 116].

[10] Ibid., pp. 116 [p. 116].

[11] Teixeira de Pascoaes, Poeta das Origens e da Saudade, “Obras de José Marinho”, vol. VI, Lisboa, IN-CM, 2005, p. 463.

[12] Significado e Valor da Metafísica e outros textos, “Obras de José Marinho”, vol. III, Lisboa, IN-CM, 1996, pp. 196-197.

[13] Cf. O Livro de Job – tradução em verso (com um estudo sobre o poema), Porto, Lello & Irmão, 1912, pp. 183-184 [pp. 27-28]. No seguimento desta passagem, diz-nos ainda Basílio Teles que “o Universo não evolve para um destino ético – ao contrário do que pensava o nobre espírito de Antero – para um fim superior de beleza moral, de santidade”.

[14] Cf. Verdade, Condição e Destino no pensamento português contemporâneo, Porto, Lello & Irmão Editores, 1976, p. 195.

[15] Dizendo-nos que “Deus” tolera o “mal” porque, entretanto, deixou de ser “omnipotente” [cf. A Ideia de Deus, prefácio de Pinharanda Gomes, Porto, Lello, 1998 (3ª), p. 243].

[16] Ainda nas palavras de Marinho: “Nos comentários ao Livro de Job considera Basílio o problema do mal, decisivo para ele tanto, ou mais, que para Sampaio Bruno. Mal para ele tão agudo, tão fundo, que constitui fonte de argumentos bastantes não só para negar a providência, como [em] Amorim Viana, ou para negar a omnipotência divina, como [em] Sampaio Bruno, mas para negar o próprio Deus, a transcendência e um fim harmonioso do Universo.” [Verdade…, ed. cit., p. 194]. Cf., igualmente, António Braz Teixeira, Deus, o Mal e a Saudade: estudos sobre o pensamento português e luso-brasileiro contemporâneo, Lisboa, Fund. Lusíada, 1993, pp. 68: “…enquanto Bruno refere dialecticamente o seu pensamento ao de Amorim Viana, Basílio Teles vai formular o seu em oposição a Antero, negando que o universo evolua para um destino ético, para um fim superior de beleza moral e santidade, pois a irrefragável existência do mal na natureza é, para ele, suficiente prova da inexistência de um Absoluto ou de um ser transcendente, superior e exterior ao mundo./ Se, para Amorim Viana, a existência de um Deus, centro de toda a perfeição, toda a luz e todo o bem, era suficiente para postular a inexistência do mal, se, para Bruno, a coexistência de ambos só se explicaria desde que se inserisse o mistério na raiz do próprio filosofar, tornando extensivo o mal a Deus e pondo-o na origem do mundo e do homem, para Basílio Teles é a obsessiva convicção da realidade do mal que o conduz à negação ateia da divindade.”.

[17] Cf. O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra e outros textos, “Obras de José Marinho”, vol. IV, Lisboa, IN-CM, 2001, p. 334. Cf., igualmente, ibid., p. 436: “Um absoluto é já bastante. Não fazedor de absolutos. Pelo contrário, a metafísica denuncia… Desabsolutização.”.

[18] Assim procurando “purificar a ideia de Deus de todo o vínculo antropolátrico” [cf. ibid., p. 585].

[19] Cf. Significado…, ed. cit., p. 461: “Dissolver os falsos absolutos e reconhecer o autêntico tal é o fim primeiro do pensamento (...).”.

[20] Cf. Aforismos sobre o que mais importa, “Obras de José Marinho”, vol. I, Lisboa, IN-CM, 1994, p. 355: “E assim o que nega [o «ateu iniciático»], nega afinal os passageiros deuses, e antecipa o único verdadeiro.”.

[21] Apêndice documental de A Doutrina do Nada: o pensamento meontológico de José Marinho, Dissertação de Doutoramento em Filosofia de Jorge Croce Rivera, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1998, vol. III, pp. 177 e 389, respectivamente. Cf., igualmente, ibid., p. 317: “Deus está mais interessado em revelar-se e ser aceite na sua Revelação do que em ser objecto de crença.”.

[22] Mais exactamente, o seu “antiteísmo agonista: o antiteísmo que, sabendo de Deus pela crença, O não justifica por uma adequada teodiceia, porque se apoia no agónico sofrimento do homem no mundo, simbolizado pela mitologia em Prometeu” [cf. Teodiceia Portuguesa Contemporânea, Lisboa, Livraria Sampedro Editora, 1974, p. 32].