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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
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Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
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domingo, 26 de setembro de 2010

PORTUGAL

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Portugal tem quatro vertentes: ibérica, europeia, mediterrânica e atlântica. Quem não compreender isto, escusa de nos vir falar de Pátria.
O equilíbrio das quatro é o grande desafio de filosofia política que se coloca ao Portugal contemporâneo. Hipostasiar uma só é trair a Alma Portuguesa.

Hipostasiar a vertente europeia coloca-nos numa fileira política que vai do neo-liberalismo ao racismo brancóide mais alarve e anacrónico.

Hipostasiar a vertente ibérica fecha-nos num destino pequeno, a que escapámos há 500 anos encontrando no mar e no longe uma pátria maior, em que se realizou o sentido civilizacional de Portugal, enquanto pátria de pátrias.

Hipostasiar a vertente mediterrânica encerra-nos no império velho (Grécia, Roma, Islão), de que Portugal foi o quarto e finalizador movimento, superando as Colunas de Hércules e demandando as Ilhas Afortunadas pelo Mar Oceano, transmutando o Império do Mundo em Império do Espírito.

Hipostasiar a vertente atlântica abandona-nos à fraqueza pretérita de ter havido um Império, a viver numa saudade inútil que nunca realizará o Portugal por vir.


Previamente publicado no blogue
Crónicas da Peste.
Imagem: (Da série) O pequeno Mundo, Jorge Molder, 2001.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

From the intelectual revival of the europeans

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The thirteenth and fourteenth centuries were a period of growing, independent or quasi-independent cities: Venice, Florence, Genoa, Lisbon, Paris, Bruges, London, Antwerp, Hamburg, Nuremberg, Novgorod, Wisby and Bergen for example. They were all trading cities with many travellers, and when men trade and travel they talk and think.

A Short History of the World, H. G. Wells, London, 2006

Herbert George Wells (Bromley 21 de Setembro de 1866 - Londres 13 de Agosto de 1946)

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A Festa do Divino

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Dizem que em 1765, as pessoas que viviam nas ilhas de Portugal, conhecidos como “os ilhéus”, costumavam sair em procissão, nas manhãs de domingo para esmolar. Trouxeram esta sua tradição para Salvador quando chegaram para trabalhar nesta terra.

Sempre traziam uma criança ricamente, vestida a quem chamavam “O Imperador”.

Os vigários das paróquias recebiam o menino e os pedintes com água benta e, depois, conduziam a criança para dentro da igreja até a capela – mor onde se sentava numa bela cadeira de espaldar .

Nesta época eram comuns as prisões por dívidas;então o Imperador acompanhado do seu séquito visitava as cadeias e soltava esses presos,sem maiores formalidades;apenas pagavam o que eles deviam.

A festa começava quando palanques eram armados no Largo de Santo Antonio Além do Carmo,seguidos de jantares públicos,além de cantorias,danças e diversões que,não raro,acabavam em desordens.

A confusão era tanta que o Conde de Lavradio,um sujeito de maus bofes,proibiu o furdunço.

Passado algum tempo,a irmandade do Divino Espírito Santo restaurou a figura do Imperador,escolhida entre os meninos ricos da cidade.

No sábado de Aleluia,os irmãos saiam ás ruas pedindo esmolas para a festa,sempre acompanhados de quatro garotos vestidos de branco com enfeites encarnados,usando chapéus de palha com a copa coberta de algodão.Dois deles tocavam pandeiros,outro tocava tambor e o último levava uma bandeira.

Os meninos cantavam essa trova:

Aleluia Virgem Santa,
recobrai doce alegria,
Cristo já ressuscitou
que glória teve Maria!

Saindo do Santo Antonio iam á igreja de Nazaré onde cantavam a saudação:

Deus vos salve ,santa casa
Deus vos salve,sacrário bento;
onde está bem colocado
o Santíssimo Sacramento.

Ainda hoje temos a Festa do Divino;mas,não com a mesma pompa e alegria.


Essa e outras histórias de antigamente estão no meu novo livro "A Bahia de Outrora".

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Revivendo o Passado!

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O escritor Xavier de Maistre é o pai do livro “Viagem à roda do meu quarto”.

Para pessoas que não gostam ou não podem viajar,diz ele,um livro satisfaz plenamente;e, repare que na sua época não havia Internet.

Pensando nisto escrevi ”A Bahia de Outrora”,um livro que “abre a cortina do passado
tira a mãe preta do serrado
bota o rei negro no congado,
como queria Ari Barroso.

O livro é uma viagem pela Bahia Antiga,mas,com ligeiras alterações conta o passado do Brasil,suas raízes,tradições e costumes.

Fala das sinhozinhos e das mães pretas que as amamentaram, fala de enterros e viagens,de festas e costumes,das modinhas e das serenatas.

Não esquece os presépios e as procissões,os bailes e carnavais,as festas de largo e os cinemas,os namoros e casamentos.

A culinária baiana não poderia faltar nem os preceitos dos terreiros, menos ainda os banhos de cheiro e o corpo fechado.

Você sabe o que acontece se cai sal no chão? Mulher grávida deve comer farinha nova?

E o defunto,se enterra com os pés prá fora da casa?

O livro é importante para estudantes medianos ou universitários, para gente ligada ao turismo e,principalmente,para professores e Universidades.Depois de uma consulta prévia o enviei para as Universidades de Harvard e Coimbra que de bom grado o aceitaram.

Apesar de ser um livro focado na história,seus textos são curtos,concisos e bem humorados.

Para pedir o livro que, por enquanto, não vou pôr em livrarias, é fácil.

Peça pelo e-mail: miriamdesales@gmail.com e enviarei instruções para pagamento.O valor de $20.00 não é alto dada à qualidade da edição e conteúdo. Também pode ser adquirido pelo Mercado Livre em até 10 vezes.

Após o lançamento oficial dia 18 de julho quando estará nas livrarias possivelmente não poderei garantir este preço.

Sinceramente, gostaria que cada leitor pudesse ter este livro;fosse eu rica,não o venderia,distribuiria à mancheias para todos.

Agradeço aos meus editores Via Litterarum que me mostrou como editoras sérias trabalham; à Fundação Pedro Calmon pela força que me deu ao apresentar o livro para projetos governamentais; para o amigo virtual José Carlos Daltozo,de Martinópolis,oferecendo-me oferecendo-me os postais antigos sobre a Bahia que ilustram a capa e o miolo do livro tirados da sua enorme coleção particular e ao amigo virtual e mestre de Informática, Júlio Araújo,cujas dicas sensacionais muito me ajudaram na divulgação do mesmo.

E agradeço principalmente a você,leitor,que prestigiou o meu trabalho de três anos,levando o livro para casa.

Boa diversão!

Miriam de Sales Oliveira é escritora com 06 livros publicados, membro da Academia de Letras de Poções e da Câmara Baiana do Livro.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Notícia de Um Crime Hodierno

A José Saramago


Atlantic, Virgo de Los, 2008


Era um final de semana escandalosamente promissor, demitira-me do ofício como quem não quer a coisa, tolhido na alma e violentado, esgotado e ausente de sentidos, consternado e, por que não, de súbita e fatal descrença invadido, as já depenadas asas da provação voluntária e consciente a que me submetera, castigava apenas um ou outro poema sazonal que caprichosamente carpira numa esplanada de bairro, junto de meus semelhantes e de seus sombrios delírios veraneantes, de modo que em mim despertava outrossim a sossegada celeridade de um deus que se revezasse pacificamente na peçonha ondulante da comédia humana que eu ajudara a eternizar, chamámos-lhe uma obra aberta, labiríntica, por comodidade e, enfim, tratava-se de uma questão que concernia aos intervenientes, era conveniente às musas e conivente com os mais sóbrios desígnios desta que se diz minha fiel leitora, um objecto artístico, sintomático, pejado de sentimentos cruéis e de suicidárias significações, tudo em prole da prole, minha irmã, que insiste em vestir a saudade com lágrimas de escárnio e ânsias milhafres, um manuscrito pois em estado latente de decomposição, sinal dos tempos apocalipticamente caligrafados, correntes e cilícios, sarcófagos secos de sombras e de sóis que a cerveja e os caracóis reconhecem não admitir, porque a minha vontade é a de desaparecer por momentos no turbilhão de vossas mágoas, porque a leviandade comove-me e a minha obra aperta, extinguindo-se serena, sabiamente, dedicada às manhãs e à contemplação de incêndios que só as marés soem artísticas sofrer, comendo cerejas sob o chaparro da memória que entardece cedo, questionando a seriedade de Deus com uma gargalhada maior e mais larga, rude e o meu sonho confrontando o eterno, impiedoso e mágico pesadelo do tempo.


João Nery S.

Putos a Roubar Maçãs, Dead Combo, 2008

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Lubango




Às vezes, um homem resguarda-se nas recordações. Há dias, deu-me para procurar um álbum velho de fotografias. Abri-o e vi-me menino.

Nessa noite, sonhei que tinha morrido e que me iam meter num caixão grande demais. Era como se tivessem esperado que eu continuasse a crescer e me fizesse maior do que sou.

Numa parte do sonho, alguém pegou num retrato meu. Rasgou-o em pedaços e foi-se embora. Antes de sumir, voltou-se para trás e mandou-me reconstituir a minha própria fisionomia.

Não sei quem era o mandante, mas detinha algum ascendente sobre mim. Esforcei-me por obedecer. Não fui, porém, capaz de encaixar os retalhos num todo coerente. As peças não se ajustavam. Pareciam provir de existências diferentes.

Acordei a meio da noite e preocupei-me. Se calhar, andava a sonhar os sonhos de outrem.

Vou adiantado em anos. Há que dar sentido ao mundo e entender os passos dados. Resolvi regressar a Sá da Bandeira, à procura do fio condutor que faltava à minha vida.

Não o fiz de forma física. A minha cidade fica longe, no espaço e no tempo. Não a visito desde 1964. Havia de ter dificuldade em reconhecê-la, pois a guerra transformou Angola toda. A maioria dos habitantes brancos refugiou-se em Portugal.

O nome do baptismo, Sá da Bandeira, foi riscado do mapa. Desapareceu da geografia, mas não da memória. Dantes, tinha duas denominações. Agora, chama-se apenas Lubango.

Existe, hoje, outra povoação onde moram homens e mulheres diferentes. Estou certo de que, se regressar, me irei sentir estranho. Afundei raízes deste lado do mar. Se voltasse, poderia perder-me nos caminhos novos e até nos velhos.

No entanto, ao percorrer as ruas da lembrança, o asfalto ainda lá está, como um tapete liso. Os jardins são bonitos e as árvores frondosas. Os pássaros esvoaçam, como sempre. As montras permanecem espelhadas e cheias de coisas que apetecem. As cascatas da Huíla e da Hunguéria refrescam os sentidos. Os precipícios do Bimbe e da Tundavala continuam a assustar.

Posso imaginar, representadas numa única fotografia, as pessoas que foram importantes para mim, enquanto crescia. Estão lá todas. Ninguém morreu nem fugiu. Não há quem retoque a memória com os estragos do tempo. As moças da minha geração não engordaram nem envelheceram. Ao fundo, reina a Ponta do Lubango. É a mãe de todas as recordações.

Um homem não manda nas lembranças, mas consegue orientar-se por elas. Pode, também, inventá-las ou usar as de outros e fingir que são suas. Foi assim que este livro começou a nascer. Não é uma autobiografia, embora mostre coisas que me pertenceram ou que ainda são minhas.

Acho que fiquei obcecado pela ideia da fotografia. No centro da imagem que construí, está o meu pai. Eu apareço muitas vezes, com estaturas e rostos que vão mudando. As outras pessoas figuram apenas uma vez.

Não se admirem se as qualidades de alguns e os defeitos de muitos vos pareçam exagerados, nem se espantem por me escaparem acontecimentos óbvios. Eu era pequeno e olhava o mundo de baixo. Qualquer obstáculo me limitava o campo de visão. E, depois, as palavras hão-de parecer sublinhadas, especialmente quando falo do meu pai.

Constatei cedo que a história de um rapazinho não chegava para preencher um volume de duzentas páginas sem entediar o leitor e que a descrição da minha vivência familiar era importante apenas para mim e para os meus irmãos. Servia, no entanto, de testemunho de uma certa forma de colonização. É isso que vale e por isso fica.

Ainda pensei em enfeitar o texto com episódios conhecidos, mas arrependi-me logo. Por um lado, vim de lá novo e sei pouco. Por outro lado, alguns intervenientes estão vivos e poderiam não gostar do modo como seriam retratados. Soltei, pois, a imaginação, com os perigos que ela comporta.

Do prólogo do romance "Lubango", a publicar em breve.

Fotos: Internet.
Também publicado em decaedela.

domingo, 2 de maio de 2010

A cama

Manda a caridade cristã que a gente visite os enfermos ,mas,essa visita que fiz a D. Veveva não foi uma obrigação,foi um prazer.
Essa senhora nonagenária , que nunca perdeu a alma de criança, era uma velha amiga da minha mãe e fazia (quase)parte da família há muitos anos.
Alegre, despreocupada, criou filhos e viu chegar os netos e bisnetos com a alegria de menina que ganhou sua primeira boneca.
Entrei no seu quarto que cheirava a lavanda e até tinha uns laivos de santidade e logo a avistei, deitada entre lençóis de linho ,recostada no centenário leito de jacarandá que antes serviu de descanso a seus pais,avós e bisavós.Essa ânsia de estar sempre mudando de casa e móveis é coisa de classe média e pequenos burgueses,sem nome nem tradição.
Olhando a cama monumental, de cabeceira alta onde rosas entalhadas formavam um belo buquê sustentado por Amor e Psique, fiquei ruminando sobre esse móvel de importância vital na vida dos humanos ,que é a cama.Nela nascemos,amamos e morremos.Pelo menos era assim,antes das modernidades dos hospitais e enfermarias coletivas,onde a privacidade se esvai e toda a miséria humana é exposta a olhos indiferentes.
Quanta coisa importante se desenrola nesse exíguo espaço de madeira talhada; quantos ais de felicidade, quantas aventuras ,quantos sonos reparadores ou noites de insônia,quanta dor,quanta felicidade!
As camas antigas parecem sempre cheias de fantasmas do passado, parece que todos que por lá descansaram deixaram um pouco de si,da sua essência,um perfume sutil de passado.
As noivas que passaram ali a sua primeira noite de amor, levantado ,enfim,o véu de mistério que envolve a procriação.A descoberta do amor ou a triste cruz do dever;lembremos das uniões por conveniência,sem amor,sem desejo,tão comuns nos séculos passados.
Tão diferente das largas camas das cortesãs, com seus macios colchões de penas de ganso e seus edredons de seda e matelassé;naquelas camas ,fortunas familiares escorriam pelos dedos,perdia-se tudo até mesmo,a alma.
Neste mesmo móvel , homens desesperados terminavam suas vidas não agüentando a miséria e o remorso.
Mas, havia o lado alegre. Crianças vinham ao mundo soltando seus vagidos inocentes, logo, logo acariciadas por mãos delicadas que as levava aos seios;mãos puras e maternais cumprindo o seu papel de perpetuar a espécie.O marido olha extasiado!A jovem mulher se sente imensamente feliz ;pais,avós,todos juntos celebram o milagre da vida.Pois aquela coisinha enrugada e chorosa é o prolongamento daquela família,a certeza da continuidade,é a ressurreição da carne.
E a morte, a indesejada das gentes!Quantos últimos suspiros de saudade ou alívio estas madeiras ouviram e guardaram!
Muitos gritos, muito sofrimento ,muita ansiedade,lágrimas que molharam os lençóis, gritos de dor e tristeza,aflição,angustia!
A cama simboliza a vida e nela a vida se desenvolve.
E o sono ,momento perfeito de repouso e lassidez!
Minha amiga acordou do seu cochilo que eu velava. Sorriu. Acomodou-se entre os travesseiros de pluma, apanhou o seu crochê e tascamos a conversar,enquanto o sol se punha no Porto da Barra,enchendo o mar de ouro líquido.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Diversidade Cultural

Existe uma linha tênue entre o que é pobreza e o que é riqueza cultural, entre o que é popularmente aceito por uma sociedade e o que é culturalmente benéfico para a mesma.

É necessário, porém, considerar sempre a capacidade criativa, o livre-arbítrio (o livre exercício da mente, ou a liberdade de escolha) e a formação cultural do indivíduo e da sociedade em que vive para se analisar estes conceitos sob um ponto de vista imparcial e contribuir para a consolidação de culturas tão diversas num planeta tão diverso.

A dificuldade resulta do fato de que todas as pessoas são iguais, mas ao mesmo tempo tão diferentes no modo de pensar, de agir, de criar, que torna sua convivência um verdadeiro desafio. Principalmente porque, em parte, muitos dos maiores disseminadores da cultura são os menos favorecidos economicamente e menos reconhecidos.

É indispensável, nos dias de hoje, sobretudo, valorizar mais as diferenças sem expor ou ferir os indivíduos em seus direitos e igualdade.


César dos Anjos
Autor de poesias, crônicas, contos e microcontos
Blogs de Literatura:
http://cesardosanjos.blogspot.com/
http://sistemapoetico.blogspot.com/

domingo, 25 de abril de 2010

Dos meninos que correram com os cavalos


Revolução de 25 de Abril, Alfredo Almeida Coelho da Cunha, 1974


Como chegámos a este asco e tudo se tornou lama? Lembro-me de um dia tremendo em que as ruas foram belas, lembro-me de tudo com uma nitidez de prata, rostos verdes e um cântico numa onda nua. Havia cavalos perdidos e homens fardados de flores e eu era um dos meninos que corriam. Não sei explicar porque começámos todos a correr, sei que fecharam a escola e havia aquela menina que chorava sentada nas escadas e dizia que agora iam prender o pai e eu disse-lhe olha, o meu pai disse que eles não querem fazer mal às pessoas, eu não sabia nada e lembrava-me do meu pai fardado com uma G3 no banco de trás do carro a dizer-me o pai não sabe quando volta, não saias de casa, e depois eu estava no meio dos outros miúdos que corriam, não sei para onde.
Acho que ainda corro dentro de mim, nunca mais tive descanso, quero voltar, quero voltar e poder fazer alguma coisa, ser já grande para a onda sem fim, que corria num relâmpago branco pelas ruas. Um dia alguém narrará esse dia, não o dia que foi, mas o dia dentro dos meninos que corriam, o dia que dividiu aquelas vidas em dois abismos do tempo, um dia alguém explicará a minha geração, a dos meninos que correram entre os rostos verdes, os cavalos, as fardas sangradas de flores e que eram demasiado pequenos para se tornarem políticos, homens ricos ou heróis e passaram o resto das suas vidas a fugir com os olhos mortificados de esperança e poesia. Um
dia...

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Texto que nos chegou...

CRISE NA HUMANIDADE, ABALO NA IGREJA

Esboço para um Exame de Consciência

[Conversa ao Pé do Fogo]

“Deus nos deu dois ouvidos e uma boca,
para sabermos ouvir mais e falar menos”

P. Antônio Vieira

Por que não ouves?!
A autoridade da Igreja pode errar, porque é humano.
Mas precisa sempre dar testemunho da luz que brilha na sua Igreja.
Estou mais preocupado com a vida, do que com a hierarquia.
A Hierarquia deveria estar mais Preocupada com a vida, do que com ela mesma.

Luciano Reis

I
PREÂMBULO- SEM MONOPÓLIOS

1. Na década de 60, tive nas mãos, e ainda guardo, um impressionante documento: “Exame de Consciência da Igreja do Silêncio”. Agora insisto na necessidade de um “Exame de Consciência da Igreja do Barulho”, onde o barulho, às vezes é mais constrangedor e mais incômodo do que o silêncio opressivo. A Igreja é ainda uma grande reserva moral da humanidade. Sempre será. Precisamos Restaurar a força de sua Mensagem.
No entanto, a Igreja está perdendo o diálogo e o discurso, em meio a certos resquícios de arrogância localizada, no momento em que o mundo mais precisa de sua credibilidade.
A humanidade precisa desta âncora firme. As pessoas não podem fazer a Igreja perder um milímetro de credibilidade por incompetência, ou inapetência de diálogo, ou por falsos silogismos e débeis conspirações.
Precisamos ir ao fundo das questões e tomar atitudes dignas das Igrejas e da Humanidade. A Igreja está perdendo o diálogo e o discurso, em meio a certos resquícios de arrogância localizada.
Acreditamos que o fulcro da questão é conceitual e só depois é prático.
A Igreja precisa se restaurar, a cada Páscoa, a cada dia. Precisa recuperar a sua juventude, sempre. A Igreja verdadeira nunca envelhece. Liberêmo-la dos adereços que lhe tolhem o vigor e escondem a luz.
As doenças superam-se, resolvendo as causas e, não as conseqüências.

2. Terminei este texto no dia 1º de Abril, 5ª Feira Santa. Nesse dia o enviei para diversas autoridades, solicitando algum parecer. O resultado dessa distribuição restrita do texto trouxe um rico diálogo, com um padre jesuíta de Portugal, um missionário de alma e coração. O diálogo via e-mail foi em caráter pessoal, por isso não tenho direito para o publicar e de divulgar o nome do autor. Publicamos as respostas que demos ao comentário, no final, do texto.
No último comentário recebi um reforço comovido:
Muito bons textos, amigo, cheios de história e de sabedoria…
São bem necessários nos tempos de ignorância que atravessamos…
Força! Ânimo!...
Abraço amigo pascal!
Ass._____
(O texto foi retocado após os comentários).

Este é um simples texto de opinião e neste nível deve ser considerado.
A questão que está na base é a sórdida “polêmica da pedofilia”. Mas esta é uma questão menor, neste ensaio.
Busco refletir sobre as dinâmicas das engrenagens da Igreja e as forças humanistas que ela congrega e que ela representa, num mundo plural. É preciso saber liberar a luz e o calor que existem dentro da Instituição. É preciso não se apequenar.
Posiciono-me como numa conversa informal ao pé do fogo, em noite de frio, de irmão para irmão, sem estrado e sem cerimônia.
Devo insistir que quero apenas dar a minha opinião, leal, mas firme, num momento de crise. Ofereço apenas uma eventual ajuda para as pessoas fazerem um profundo exame de consciência sobre as próprias atitudes: para fazerem a lição de casa.
O Papa, os Cardeais e os Bispos não estão dispensados de fazer o próprio exame de consciência. Não estão além do Bem e do Mal. No entanto, hoje, em todos os setores da atividade humana, há pessoas tão arrogantes, que se julgam além do bem e do mal, devido ao poder eventual a que foram guindados, às vezes por pesadas artimanhas.

3. Precisamos nos cuidar para que as interpelações que Cristo fez aos escrivas e fariseus hipócritas não se apliquem ao Papa e aos Bispos. Releia e confira.
Se somos uma família, sentâmo-nos à mesma mesa, e escutâmo-nos uns aos outros. Frente a frente.
É preciso saber que hierarquia é responsabilidade. É serviço. Non ministrari sed ministrare. Esta norma vale para todos os gestores de bens públicos.
Deus não deu a ninguém o Monopólio da Verdade. A ninguém!
Só uma inconcebível arrogância poderia pensar diferente.
A verdade vai sendo compartilhada. Então todos podemos errar e em conseqüência devemos reconhecer as falhas e corrigi-las.
No entanto há outros modos de olhar a crise atual: “Há males que vêm para o Bem”, diz o povo.
Estou com o Pe. Antônio Vieira, ao declarar:
“Quantas vezes os que pareceram acasos, foram Conselhos Altíssimos da Providência Divina!”.
Do caos às vezes nasce a Luz.
Não podemos perder a oportunidade que o momento nos oferece de repensar algumas pendências antigas que emperram a Instituição e a expõem ao desdém de muitos.
Os cristãos católicos precisam reforçar os motivos de serem cristãos e católicos, pois isto lhes faz muito bem e lhes dá mais esperança na vida.
O Novo tempo começa dentro de nós, na terra, por isso rezamos: “Venha a nós o vosso reino”.
Os cristãos precisam se reunir, em torno da Mensagem do Evangelho, uma Mensagem de Luz para o Mundo.

II

MAIS MENSAGEM, MENOS RITUAL

4. Este é o espírito deste ensaio, no contexto desta polêmica insidiosa que desabou sobre a sociedade neste mês de março de 2010, parece atingir seu ápice nesta Semana Santa.
Em vez de culparmos uns e outros, precisamos repensar as ideias que adotamos, em relação à vida e à sociedade, na qual pensamos ser fermento e luz. Que LUZ?
É preciso superar um certo ritualismo que deixa, em segundo plano, o essencial da Mensagem do Evangelho. O que nunca poderia acontecer. É preciso reagir.
Às vezes o ritualismo e os trajes imperiais ofuscam a Mensagem. Privilegiam o espetáculo visual...
Todos precisamos recompor nossos conceitos, neste mundo plural e multipolar, ao qual a Igreja precisa saber se adaptar, de cabeça erguida e sem arrogância; sem pedestal e sem trajes imperiais.
O nosso mundo ressente-se de uma condição precária, em gente capaz de pôr de pé uma estrutura argumentativa. Vence mais quem fala mais alto e não quem tem a razão.
A Igreja Cristã não é uma Igreja Medrosa, nem uma Igreja do medo. O medo supõe opressão. Também não é uma Igreja de frustrações e tristezas. É a Igreja da Esperança, do júbilo, da solidariedade fraterna. O cristianismo é religião da verdade e não da humilhação.
É a Igreja do perdão, mas não é a Igreja da omissão ou da cumplicidade.
“Suaviter et fortiter” é a pedagogia recomendada.

5. Parece que o Frei Bartolomeu dos Mártires tinha razão ao proclamar, em Roma, aos Cardeais: “A Igreja precisa de uma Eminentíssima Reforma”.
Precisamos procurar entender por que uma pequena questão, localizada, abala, ameaça e compromete a credibilidade da mais antiga instituição da humanidade. A quem serve e porque se expande, como tufão ou como uma avalanche, a campanha difamatória, daí orquestrada, pelos meios de comunicação?!
“Dormientibus non sucurrit jus”. A justiça não socorre quem não se defende.
Se alguém perguntar quais as minhas credenciais, eu direi que sou um cristão, cientista da linguagem e preocupado com o futuro da humanidade. Sou um humanista.
Elaborei o Movimento “Pacto Humanístico Mundial”, e por ele luto.

Quem quiser pode aqui expor os próprios comentários.
Leia. Comente. Compartilhe suas ideias, democraticamente.

Lembre-se:
“Os gestores da Igreja podem errar.São Humanos.
Mas precisam sempre saber dar testemunho da Luz
que brilha no seu coração e na Igreja”.

Para saber mais (clique):
http://alfa8omega.blogspot.com

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Texto que nos chegou...

VINHOS DA BAIRRADA
Uma Sedução

J. Jorge Peralta

1. A região da Bairrada é uma das 10 (dez) grandes regiões vinícolas de Portugal. São elas: Minho, Trás-os-Montes, Beiras, Extremadura, Alentejo, Ribatejo, Setúbal, Algarve, Açores e Madeira. Nessas regiões coexistem diversas categorias, totalizando 47 regiões vinicultoras especiais.
O vinho da Bairrada é mais um ícone da Lusofonia.
A Bairrada, situada na Beira Litoral, é composta por terras planas e férteis e clima ameno, influenciado por sua proximidade com o Oceano Atlântico.
A Bairrada compreende a região entre, o Rio Vouga e o Rio Mondego; situa-se entre as fraldas das Serra do Caramulo e do Buçaco, até as areias e dunas da faixa marítima.
A Bairrada abrange: os Concelhos de Anadia, Mealhada, Oliveira do Bairro, Mira, Cantanhede, Aveiro, Coimbra e Vagos.

2. A região da Bairrada é região de bons vinhos de longa tradição.
Na região da Bairrada temos a mais celebrada Universidade de Portugal, a Universidade de Coimbra, e a Universidade que se destaca como o mais produtivo pólo de formação tecnológica do país, a Universidade de Aveiro.
A Região tem ainda belas praias, como Costa nova, Mira, Figueira da foz. Tem as Termas da Cúria e do Luso e inúmeras outras atrações que atraem os estudiosos, os turistas e os veranistas.

3. A Bairrada tem uma gastronomia riquíssima, na qual se destaca o famoso leitão assado da Bairrada, de fama internacional.
O vinho da Bairrada é uma das marcas que engrandecem o País.


VINHOS DA BAIRRADA
Uma Visita Alegre

Na Bairrada são produzidos vinhos de mesa brancos, tintos, frisantes, espumantes.
Diz-se que o vinho alegra o coração das pessoas. Mas sei agora que visitar à Vinha também alegra.
Quando, em 2009, passamos por Oliveira do Bairro, o grande amigo e professor F. Ladeira, agendou uma visita às vinhas da família Sidónio de Sousa, de ancas, Oliveira do Bairro. Visitamos a vinha.
Acompanhou-nos o dono em pessoa. Estivemos nas caves, degustando algumas das delícias.

Visita inesquecível para quantos me acompanharam, uma aula de vinicultura. Veja algumas fotos de lembrança.

Para ver mais imagens (clique): http://www.facebook.com/album.php?aid=12360&id=100000333516139&saved

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O voo do pássaro 4




O pássaro era um enviado. Ou um emissário, como quiserem chamar-lhe.
Aproximou-se da terra em voo poderoso, mas discreto. A firmeza das asas com imperceptível movimento permitia-lhe planar sem vento.
Aproximou-se dos rios, das casas e das gentes.
Desta vez queria ser olhado, gostaria que o vissem, que se sentissem observados, que percebessem da existência, no céu, de uma vontade, uma curiosidade ou um desejo pela ordem na terra.
Mas estavam todos tão ocupados nos seus negócios, seus medos e paixões, pressas e obsessões que ainda que descesse em voo picado e lhes beliscasse as pálpebras, mesmo assim não dariam por ele.
Percorreu ruas, sobrevoou estádios, seguiu barcos em percursos de rios. Inutilmente.
Aproximou-se então do sítio menos recomendável, aquele sobre o qual lhe tinham dado as piores informações: lugar de ladrões e pequenos negociantes, desgraçados e artistas pobres, rufias e mulheres da rua, imigrantes e drogados, bêbedos e marginais... aproximou-se, primeiro com cepticismo, esperava, no meio de tanta azáfama, um total alheamento, um não querer saber do céu. Mas era curioso como apesar do caos aparente, tantos objectos espalhados pelo chão, havia nos olhares dos que procuravam pelo meio da imensa e surpreendente variedade das mais inesperadas coisas, um olhar ainda humano, um procurar ainda atento, um silêncio pelo meio do burburinho baixo das vozes, uma lentidão por entre o movimento dos corpos, um saber estar.
Foi no meio do improvável local que lhe haviam descrito e nomeado como "Feira da Ladra", que o enviado encontrou, finalmente, o precioso elemento perdido e com paciência o foi recolhendo no meio das penas para, sobrevoando o resto da cidade, poder espalhar pelas zonas mais doentes de civilização, o tão precioso, refrescante, raro e cobiçado tempo. Sem preço.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O Milhafre

(...)
Sobre a cabeça e sobre os braços do Cristo, havia teias de aranha; em baixo os ratos roíam-lhe a cruz.
Então o homem sentiu que aquele seio constelado, e aquela boca donde saiu a revelação do amor, do perdão, e da alma, tinham o pó, a podridão, a caliça e os bichos; e que, se um dia Cristo, vendo o homem aflito e miserável, lhe tinha arrancado da alma o mal, não era muito que o homem, encontrando Cristo abandonado, profanado e roído, lhe limpasse da cabeça as aranhas. Mas, quando ia a limpar a imagem, viu, sobre a cruz, junto da mão pregada, um milhafre enorme. O homem, com as mãos, quis arredar o milhafre.
E a ave, então, com a antiga voz dos animais da Bíblia, do Apocalipse e dos livros dos profetas, disse surdamente: "Homem, deixa a cruz sossegada!"
Através das fendas viam-se os astros sagrados. E o milhafre, batendo as asas, dizia:
"Deixa a cruz, deixa! Não tenhas medo que apodreça. Lá em cima luzem agora estrelas, sóis, planetas, cintilações, carbúnculos. É o pó dos Deuses mortos. Todos se finaram, histriões ensanguentados, e a sua farsa acabou em desterros.
"Morreram velhos, expulsos, esfomeados e nus.
"Este ficou, solitário, alumiando. Ele perdoou enquanto os outros lutaram, ele amou enquanto os outros choraram: por isso fica enquanto os outros passam. Deixa. Esta cruz, que é de madeira, vale tanto como as que lá em cima fazem os raios dos astros, ou no silêncio dos mirtos dois olhares bem-amados.
"Deixa as aranhas, o pó, a caliça, os bichos, a neve, a geada, o apodrecimento. Ele pode bem dar às aranhas o seu corpo de madeira, pois que vos deu a vós o seu corpo de carne – a vós, que pregais com o mesmo riso e o mesmo esquecimento os morcegos no alto das janelas e o Cristo no alto dos montes; a vós, que lhe vindes limpar os cabelos de madeira, depois de lhe ter arrancado os cabelos vivos; a vós, que quereis lavar as nódoas que ele tem no peito, e não vedes as imundícies que tendes na alma. Tudo o que ele criou, o amor, o ideal, o perdão, a fé, o pudor, a religião, Deus, todo aquele evangelho da vida nova anda pelo mundo, tão degradado, tão coberto de bichos, tão imundo como o seio desta imagem antiga. A matéria, o impudor, o apetite rude, o ódio, o aviltamento, o tráfico, a miséria e a penalidade, andam sujando a tua alma, ó homem! como as aranhas andam sujando a cabeça deste Cristo! E não reparais, e não vedes, sobre os espíritos, sobre os corações, sobre as consciências, o pó, a caliça, o caruncho, os ratos e os vermes!
"Sim, é verdade: tudo é magnífico e são, e banhado de sol. As cidades são cheias e caiadas, só as consciências é que têm nódoas; as praças estão limpas de iluminações, só os corações é que estão escuros; os cais estão arejados, só os espíritos é que sufocam; os corpos estão sãos, cobertos de estofos, frescos e resplandecentes, só as almas é que andam nuas, miseráveis e leprosas. De resto, tendes o riso, a farsa, os paraísos artificiais, as arcas venais, e também o esfriamento do túmulo! Oh! amigos íntimos dos vermes, como vós cuidais do corpo, e o lavais, e o amaciais, e o engordais – para a pastagem escura das covas!
"Homem, que fizeste tu da alma? Ao princípio não era conhecida, depois foi vendida, depois foi apupada; tu, modernamente, julgaste melhor matá-la – mas não certamente de cansaço com viagens a Deus! Deste-la a despedaçar à negra matilha do mal. Em compensação, guardaste o corpo: para esse uma religião, um asilo forte como o Sol, os sete selos da lei e a escolta dos regimentos. Esse é o sagrado, o imaculado, o pontifical, o vitorioso. Proibição a Deus de lhe tocar. Para ele palácios, cortejos, serralhos, estofos, pedrarias, o sol e a iluminação dos astros. Para ele a inviolabilidade: Não matarás!
"Começaram então as cruzes a ficar desertas, os cepos a encher-se de musgo, as forcas a apodrecer nos caminhos. Nós, os milhafres, e os nossos camaradas, os abutres, para quem já não havia corpos nos despenhadeiros, ladrões arroxeados pela corda, afogados disformes, deixámos os grandes montes e os rios, as vastas tradições do sangue, e viemos, para viver, aceitar, com os capões, a domesticidade nos parques resplandecentes, ou andámo-nos mostrando aos imbecis, pelas feiras, numa gaiola! E as aves da noite, depois de terem visto a natureza imensa, as aflições do vento, as núpcias do mar, de terem lutado nas tempestades e insultado as estrelas, vêm, modestamente, comer bichinhos no saguão dos burgueses! Eu, que tinha estado entre a força, quis, ao menos, ficar entre a graça; e, depois de ter vivido na noite de Deus, quis, ao menos, morrer na madrugada de Jesus! E, entretanto, a alma morre esmagada e solitária, e a grande vida moderna, a vida do sol, da música, dos metais, vai, entre fulgurações, pisando e cuspindo naquela coisa miserável. E ainda está quente o sangue de Jesus!
"Homem, que fizeste tu do pensamento?
"Anda expulso, perseguido e sublime, como um Deus antigo. Cravaste-lhe no seio as sete dores. Coube-lhe a dor e o escárnio. É necessário que, nas cidades, os pensadores e os artistas extáticos sofram e sangrem: os triunfos dos homens da matéria são como os dos antigos imperadores – só são completos, quando passam entre torturas. E quem havia de soluçar sobre a cena moderna da paixão, senão os que têm alma?
"Amam, sufocam, caem, agonizam, e, entretanto, vai passando a coorte dos vitoriosos e dos reluzentes, e as suas bolsas riem-se daqueles corações, como os botões de ouro das suas camisas apupam a luz dos astros.
"E os que quiserem viver e tiverem a alma grande, bela e heróica, têm de se baixar à estatura burguesa e mercantil dos cérebros modernos. Os deuses olímpicos, se não se deixassem ajuizadamente finar nas florestas antigas, teriam de se empregar nas secretarias. O soberbo pavão de Juno viveria num pomar dos arrabaldes. Homero seria localista. Os cavaleiros andantes roubariam lenços nos ajuntamentos, e o trágico São Jerónimo seria presidente duma junta de paróquia. Deste modo tu aceitas a arte, o pensamento, a alma. Não, arte, não te vás; a vida moderna dar-te-á uma libré resplandecente; vem, música, tu que criaste a Alemanha, far-me-ás uma contradança; vem, arquitectura, tu que deste hospitalidade a Deus, far-me-ás uma estufa; vem, escultura, tu que fizeste o povo dos deuses, o bela escultura! vem fazer-me um gavetão. Oh! tristes domesticidades do ideal!"
Houve um silêncio. Havia na sala um ar místico, como para concepção dum deus.
O milhafre esvoaçava. Ouvia-se o chorar duma flauta. E o olhar do Cristo errava, contemplativo e atento, entre as estrelas inumeráveis, enquanto na escuridão, aos seus pés, os ratos lhe roíam a cruz.
"Vai-te, disse o milhafre. Os ratos roem a cruz, eu estou velho: a antiga geração das aves da noite vai-se. Os pregos já se despregam, a cruz apodrece. E quando ela se desfizer, atirarei o seu pó à grande natureza, ao elevar da Lua, que vale o elevar da hóstia. Irei, oh meu Deus! para além dos sóis e dos caminhos lácteos, onde as constelações são gotas de sombra, certo – eu que sou da vasta terra, o selvagem dos prados, a respiração dos antros, eu que sou a palpitação dos montes – certo de que, se os homens não deram a cruz aos Cristos, não lha dará também a natureza. E eu, que roi as ossadas verdes, tendo visto sempre Este que fez o bem, que amou, que perdoou, pregado numa cruz, irei também, entre os sóis meio doidos, eu, que devastei, e matei, e escorri de sangue, crucificar-me num astro!"
Assim falou, lentamente, aquele milhafre filosófico e letrado, enquanto as violas gemiam, e os pobres tremiam de frio; assim falava, de cima duma cruz, numa sala legendária, longe das maravilhas dos Cains burgueses, nestes tempos livres, sensatos, verdadeiros, magníficos, em que, como se não podem pôr certas verdades na boca dos homens, têm de se dependurar do bico dos milhafres.

Eça de Queiroz, O Milhafre, Gazeta de Portugal, 6 de Outubro de 1867

Foto: José Maria de Eça de Queiroz (Póvoa de Varzim, 25 de Novembro de 1845 — Paris, 16 de Agosto de 1900)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

ברוך שפינוזה

Bento de Espinosa (24 de Novembro de 1632, Amsterdão, Holanda – 21 de Fevereiro de 1677, Haia, Holanda)

Desapossando-se desse cidadão, filho de judeus expulsos por D. Manuel, Portugal antecipou o pagamento de uma boa indemnização à Holanda pela perda do Brasil.
Como a distância de trezentos anos modifica na perspectiva da História a proporção das coisas! Quem nos dissesse no século XVI que o obscuro e desprezível judeu, pai de Espinosa, ao emigrar de Lisboa, nos arrebatava uma riqueza comparável à dos imensos territórios do país brasileiro teria o ar de um utopista em delírio. E, todavia, o que hoje vemos é que o império do Brasil, depois de tanto sangue derramado e de tanto oiro despendido para o manter por algum tempo sob a dominação honorária da nossa bandeira, desapareceu para nós sem outro vestígio mais que o cansaço, a corrupção e a tristeza que imprime no enfranquecimento das gerações e na decadência das raças a memória das suas glórias extintas e das suas riquezas desbaratadas; ao passo que Espinosa, tornado holandês pela intolerância do nosso despotismo católico, funda no país a que rejeitámos a base de um novo critério que põe a Holanda à frente de todo o grande movimento filosófico do mundo moderno. Entre os grandes pensadores que no século XVII deitaram abaixo toda a velha construção da psicologia, abrindo caminho novo ao regime experimental da nossa era, foi esse português de Amsterdão, magro, sóbrio, moreno, nervoso, terno, namorado – legítimo português por todos os caracteres fisiológicos – quem mais poderosamente manejou ideias, renovou e fortaleceu inteligências, elevando proporcionalmente no seu meio social o nível da dignidade humana, e criando em toda a parte, pela penetração e pela independência do seu génio, novas e fecundíssimas correntes de investigação e de processo, na filosofia, na moral, na política, na arte. atraindo magneticamente e arrastando na sua órbita lumiosa toda uma constelação de espíritos, entre os quais veremos sucessivamente irradiar Leibniz, Malebranche, Voltaire, Lessing, Goethe, Byron, Novalis, Hegel, Schopenhauer, Hartamann, Bukle, Draper, Quetelet, Spencer, todos aqueles enfim que uma vez perguntaram a si mesmos, num intuito moral, num intuito político, num intuito pedagógico ou num intuito estético, se as acções humanas são livres ou são necessárias [...]


Ramalho Ortigão, Holanda, 1883

Imagem: Bento de Espinoza, autor anónimo (Herzogliche Bibliothek, Wolfenbuettel, Alemanha), ca. 1665

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O Senhor dos Navegantes IV


+++, Ruela, 2010


[...] Ofereci-lhe outro cigarro. Ele recusou-o com um gesto.
– São horas de nos irmos embora – disse, empregando o plural, como se estivesse certo de que eu partiria, com ele, do Senhor dos Navegantes. Realmente, eu deixara de o temer.
Atravessámos o adro. Ao passarmos junto do local que ele me dissera haver sido um cemitério romano, vi-o deter-se. Os seus olhos pareciam buscar, sob as plantas silvestres, um determinado sítio. Encontrou-o, decerto, porque vergando a cabeça, gritou para dentro da terra:
– Cá estou! Ouves? Cá estou e vou continuar a lutar!


Ferreira de Castro in O Senhor dos Navegantes, Colecção 98 Mares – Expo'98, Lisboa, 1998

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Da Coragem, 1 de Fevereiro de 1908




– Quem vem lá?
– Um pai e um filho.
– Nobre ou plebeu?
– Dois homens, na morte somos iguais.
– Aproximai-vos do archote, para que vos possa ver a face.
– Aqui nos tem. Podemos lavar o rosto?

A Morte fica impávida, quase surpreendida.

– Sim, por certo, acompanhai-me até ao poço. Quem sois vós?
– Um filho e um pai.

Lavam o rosto. A Morte recua um passo.

– A maioria dos homens nem na vida se lava e nunca me foi feito tal pedido na morte. Quem sois?
– Um filho e um pai. Dois homens.
– Dois homens. Estamos prontos, pode levar-nos.


K. N.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O Senhor dos Navegantes III

Get down on your knees and pray!, Ruela, 2009


[…] Tenho lido muito, muito; desde há quatrocentos anos quase não faço outra coisa.
Por um lado, a leitura distrai-me, leva-me a esquecer a cadeia; por outro, tortura-me, pois é pelos livros dos homens que eu vejo, sobretudo o drama que criei… Ultimamente, lá no manicómio, só queriam dar-me livros optimistas, livros em prol. Os médicos afirmavam que essas obras não me despertariam ideias sombrias… Mas eu protestei imediatamente…
– Ah, o senhor esteve no manicómio? – perguntei, de modo tímido.
– Estive – respondeu-me ele, com naturalidade. – Não tenha medo de me ofender, pois desde o princípio adivinhei que o senhor pensa que eu sou louco. Não me ofende nada… Todos têm pensado de mim a mesma coisa, já lhe disse. Estive e lá estaria ainda se, ontem, não tenho conseguido fugir. Estava lá ia já para oito anos. E sabe porquê? Porque, um dia, entrei numa igreja e gritei aos crentes que se encontravam ajoelhados: «Não vos resigneis, pois o mundo que eu fiz é muito imperfeito e, portanto, precisa mais do vosso esforço do que da vossa resignação. Imperfeito há-de ele ser sempre e vós também; contudo, em muita coisa podeis aperfeiçoar o mundo e a vós próprios. Mas não é de joelhos que o fareis; é de pé e a lutar! Quem vos fala já foi Deus e sabe por que fala assim…» […]


Ferreira de Castro in O Senhor dos Navegantes, Colecção 98 Mares – Expo'98, Lisboa, 1998

domingo, 31 de janeiro de 2010

31 de Janeiro

O 31 de Janeiro constituía o tema favorito do sargento João Madruga. Embora tivesse acabado mal, fora a manhã mais bonita da sua existência. Madruga meteu na boca a última garfada de carne, limpou os lábios ao guardanapo, bebeu mais um gole de vinho tinto, e começou.
– Nós fomos para a revolução prontos para matar e morrer, mas aquilo quase não passou de um desfile. Às duas da manhã, saímos para a rua com dois regimentos. Estava nevoeiro e fazia frio. Eu estava colocado em Caçadores 9, que tinha o quartel na Rua de S. Bento. Juntámo-nos no Campo de Santo Ovídio com o pessoal de Infantaria 10 e com muitos soldados da Guarda-Fiscal, uns a pé, outros a cavalo. Os sargentos eram unidos e estavam do nosso lado, mas poucos oficiais nos quiseram acompanhar. Vieram apenas o capitão Leitão, o tenente Coelho e o alferes Malheiro.
Na madrugada do dia 31, os oficiais talassas conseguiram impedir o Regimento de Infantaria 18 de se juntar a nós. No entanto, alguns chefes militares não tinham ideias muito claras. Nem queriam estar contra Deus nem contra o Diabo. Houve ainda oficiais superiores que nem souberam, até ser dia, que estávamos na rua. Bom, quando nos pusemos em marcha, íamos cheios de ilusões. Julgávamos que era só chegar fogo a palha seca. Deitávamos os primeiros foguetes e a festa começava...
Não aconteceu assim, embora tivéssemos chegado a dispor de superioridade militar. O Governo ficou com a Guarda Municipal e com a artilharia da Foz e da Serra do Pilar. O destacamento de Cavalaria 6 andava por ali, sem saber para que lado cair. Contávamos que bastasse ter os regimentos na rua para que surgissem generais ou coronéis dispostos a comandar-nos. Não apareceram. Nem os civis que se juntaram a nós foram tantos como esperávamos. O Partido Republicano andava muito dividido e teve pouco a ver com a revolução.
Não se combatia. Esperava-se. A Guarda Municipal retirou quando viu chegar o Regimento de Infantaria 10, mas voltou a ganhar ânimo e foi rodeando as nossas tropas em Santo Ovídio. O subchefe do Estado-Maior da guarnição do Porto, tenente-coronel Magalhães, atreveu-se a entrar a cavalo no Campo, sem que alguém o impedisse. Quis falar com o capitão Leitão. Levaram-no junto dele. Magalhães tentou convencer o capitão a desistir da revolta, mas o homem era teimoso e estava decidido a seguir em frente.
De manhã cedo, um grupo de estudantes veio juntar-se a nós, dando vivas à República. A malta animou-se. Esperava-se que o Regimento de Infantaria 18 acabasse por aderir ao levantamento. As praças lá permitiram que os civis arrombassem uma porta. Santos Cardoso, um fala-barato em que poucos revoltosos confiavam, entrou no quartel acompanhado do actor Miguel Verdial e começou a arengar aos oficias. A acreditar no que o homem dizia, o rei já tinha fugido para um navio e navegava àquela hora para Inglaterra. Fora proclamada a República! O governo ameaçava expulsar do Exército os oficiais que se lhe opusessem.
A palestra surtiu algum efeito e a confusão instalou-se no Regimento.
Entretanto, a banda de Infantaria 10 desceu a Rua de Almada, a tocar “A portuguesa”. Nós e os civis íamos atrás. Não estávamos alinhados para o combate, mas para um desfile. Ocupámos a Praça de D. Pedro por volta das seis da manhã. A nossa bandeira foi hasteada na Câmara Municipal do Porto. Houve discursos. Ninguém os ouviu, mas não fazia mal. Era a República! Tínhamos governo e tudo!
As horas passaram. A tropa tinha fome. Estavam ali 600 homens, e pouco pão se pôde arranjar. Fui conversando com os colegas. Demos conta que não havia propriamente um plano militar e que nenhum ponto estratégico tinha sido ainda tomado. Começámos a preocupar-nos.
Os nossos oficiais resolveram então formar uma coluna. Subimos a Rua de Santo António em direcção à Batalha. A banda pôs-se outra vez à frente, a dar música ao povo.
A Guarda Municipal tinha-se posicionado no adro da Igreja de Santo Ildefonso. Já não estava sozinha. Do lado do Teatro de S. João, alinhava o destacamento de Cavalaria 6, que acabara por se inclinar para o campo dos talassas. Do outro lado, havia uma centena de praças da Guarda-Fiscal. A Guarda-Fiscal estava dividida. Metade alinhou connosco e metade com o Governo. Os municipais, não. Eram quase todos monárquicos. A nossa coluna não pretendia lutar, mas sim chamar para o nosso lado o resto da tropa. Acreditávamos que tanto a população como os soldados queriam mesmo a República. A essa hora, ainda dispúnhamos de vantagem em termos de efectivos. Dificilmente a Guarda Municipal seria capaz de enfrentar dois regimentos do Exército. A ser um ataque, estaria a ser conduzido de forma idiota. Marchávamos em coluna de quatro e subíamos uma rua íngreme, direitinhos às balas do inimigo. Os civis iam-se misturando connosco.
Alguns populares correram à frente da banda e insultaram os soldados da Municipal. Os gajos estavam cheios de medo e dispararam alguns tiros. Foi a debandada. Os civis correram rua abaixo pelo meio da formação, desorganizando completamente a nossa coluna. Alguns militares fugiram também, abandonando as armas. Quando conseguimos reunir de novo a tropa, éramos apenas 150 a defender a República. Retirámos para os Paços do Concelho.
Aos poucos, as tropas governamentais foram aparecendo. As peças trazidas da Serra do Pilar foram apontadas para nós. Era impossível oferecer resistência. Por volta das dez e meia da manhã, acabámos por desistir. A República durara três horas.

Excerto do romance 1910 (António Trabulo, Editorial Cristo Negro, Lisboa)

sábado, 30 de janeiro de 2010

O Senhor dos Navegantes II


Fénix
, Ruela, 2009


[...] A minha imaginação havia já começado a diminuir, começava já a aproximar-se do que viria a ser a imaginação dos homens. Criei um pássaro e os outros foram apenas variantes. Utilizei o primeiro modelo e fi-lo de todos os tamanhos, desde a avestruz, tão grande que pode ser cavalgada, até ao colibri, que, de minúsculo, se confunde com um insecto. A seguir, fi-lo de todas as cores e com todas as combinações de cores. Depois, em vez de criar, pus-me a exagerar determinadas parcelas do que já havia feito. E cheguei, assim, até a caricatura da minha própria obra. A algumas das aves limitei-me a esticar-lhes as pernas, as caudas ou os bicos, de tal forma que estes ficaram grotescos e muito maiores do que o corpo. As outras dei-lhes uma amplitude de asas de que não careciam ou deixei-lhes apenas uns simples cotos. Variei-lhes, também, o fulgor dos olhos e a composição dos seus gorjeios, deixando umas eternamente mudas e obrigando outras a cantarem até na hora da morte. Mas tudo isso eram simples pormenores, porque, no fundo, a ave, a ideia fundamental, eram a mesma. Eu parecia um desses artistas que realizou, certo dia, uma descoberta feliz e passou, depois, o resto da vida a lutar desesperadamente para dar a ilusão de que não se repetia, quando, em realidade, não fazia outra coisa senão plagiar-se a si próprio… [...]


Ferreira de Castro in O Senhor dos Navegantes, Colecção 98 Mares – Expo'98, Lisboa, 1998

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O Senhor dos Navegantes I

Photobucket
Mar, Ruela, 2009


A minha fantasia não encontrava limite algum e os habitantes das profundezas deste mar que estamos vendo o atestam.

Branca, airosa, pequenita, erguida sobre o tope de uma colina, a Capela do Senhor dos Navegantes divisava-se de longe, como um farol.
E a ela, mais do que uma luz que brilhasse na noite atlântica, os pescadores enviavam esperanças e desesperos quando em graves riscos se viam nas cavas e lombas do mar. Porque ficava alta, ao fim de íngreme, pedregoso carreiro, raras gentes lá iam, salvo em dia de festa, com morteiros e filarmónica, uma vez cada ano. Fascinado pela sua solidão e largueza panorâmica, eu encontrara, porém, maneira de a atingir, naquelas tardes de Estio, sem me fatigar. Para subir às montanhas, um livro sob o braço, punha-me a caminho.
Logo que as pernas se cansavam, sentava-me e lia, enquanto os melros iam cantando nas velhas árvores da encosta. Sem o livro, pequeno seria o meu repouso e continuaria a ascensão antes de refeito, que a tendência de quem anda, leve rodas, leve hélices ou apenas, modestamente, os pés com que nasceu, é, já se sabe, chegar com brevidade ao ponto de destino – mesmo que nada tenha lá que fazer. Com um livro, é outra coisa. Sendo bom, prende-nos mais tempo do que os braços de uma mulher e só desejamos interromper a sua leitura no final de um capítulo ou em parágrafo onde possamos retomá-la facilmente. […]


Ferreira de Castro in O Senhor dos Navegantes, Colecção 98 Mares – Expo'98, Lisboa, 1998