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Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

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"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Ao Sol, Os Pensamentos (segundo excerto)


Peace, William Strutt, 1896


Da Imortalidade

A ideia da imortalidade tem desde há muito aniquilado a eternidade da alma. Nada há de mais errado que a estátua, pois todas as coisas mortas se tornam rígidas e duras. Mas na sua tenra idade, o homem é elástico.

Do Ego

Um deve pensar sempre e exclusivamente sobre a vida superficial, de modo a que o pensamento a quebre e dela nasça um fundo. Mas uma vez que algo se torna fundo o suficiente para beber as águas da vida, o Filósofo não pensa. Na Primavera, o Filósofo não pensa.

Da Atenção

Sonhar o raro, e o difícil e o mais desejado, não é raro, antes é regra. Quando o querer dos homens, e não o objecto querido, for único, quando os homens quiserem cada um aquilo que o seu mistério pede, então nenhum competirá nem colidirá com um outro. A Terra será o Jardim das Estrelas.

Do Retiro

Quando um homem projecta a sua força em direcção à sua alma, ilumina o que, no exterior, o rodeia. Se este homem projecta a sua força para o exterior, destruirá o que ama.

Da Digestão

A aprendizagem e a assimilação são inimigos ferozes. A sabedoria está na observação dos seus combates.

Do Amor Próprio

O medo do que não deve ser temido é criador de novos terrores. O medo do que deve ser temido possui a tranquilidade da sapiência.

Da Modéstia

O Silêncio é uma forma de gravidade, é pelo silêncio que os amantes se conquistam e é pelo silêncio que o Sol reúne todas as visões num só astro.


André Consciência

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Ao Sol, Os Pensamentos (primeiro excerto)


Peace, William Strutt, 1896


Da Mulher Primordial

O homem não pode perder algo antes de temer perdê-lo, e não pode temer perdê-lo previamente a manifestar as suas potências activas. A Magia é o inicio da posse, a sua degradação última é a justiça. Mas é desígnio das raízes devorar as flores.


Da Discriminação

Apesar do treino do Filósofo ser de adaptação e não esforço, o seu dever é para com a não-adaptação, só assim pode o Filósofo ser um abrigo para a sua civilização.


Do Vazio

O Filósofo não é o Filósofo, o seu repouso está em compreender o Filósofo.


Do que Decaiu

Os princípios morais da bondade e da justiça são sinais de uma civilização sem harmonia, e nesse estado gostariam de a preservar.


Da Realização

A realização consiste de se respirar. Nesse acto, a alma faz amor com o corpo.
Todavia, a realização do intelecto está na separação, ele elimina o conhecimento para compreender com a inteligência. Por este método, separa o trigo do joio.


Da Energia

Os opostos não combatem. Uma coisa cria o seu reverso sem esforço e é criada por ele, no acto simples de existir. Assim ambas as coisas se desenvolvem.
Previamente ao Filósofo aplicar este método, o seu pensamento não pode ser claro.
Porque este trabalho é feito sem esforço, o pensamento claro não é fatigável.


Da Natureza

O Sol quis olhar-se a si próprio, na sua imaginação de si mesmo, é a Terra:
O homem que deseje compreender terá de ter por toda a acção a própria essência.

O Sol é responsável por cada manifestação e movimento na Terra, todas as coisas são fases do Sol.
Este mistério faz do homem contemplativo uma serpente maravilhada.


André Consciência

domingo, 26 de dezembro de 2010

TEÓFILO BRAGA E A FILOSOFIA PORTUGUESA

Em suma, para os dois mais insignes hermeneutas da Filosofia Portuguesa, Teófilo Braga é um autor a valorizar – não apenas na primeira dita “fase romântica”, em que por influência de Michelet, Vico e Hegel, entre outros, se dedicou mais expressamente às tradições nacionais (1), mas inclusivamente na sua posterior dita “fase positivista”, dado que, mesmo aí, recordando as palavras de Álvaro Ribeiro, aspirou à “formação, dentro do positivismo, de uma escola tipicamente portuguesa”.



(1) Sobre esta fase, ver em particular o artigo “Teófilo o jovem”, de Rodrigo Sobral Cunha, publicado na NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI (nº 6, 2º Semestre de 2010).

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

sábado, 28 de agosto de 2010

Do Futuro da Filosofia Portuguesa: Breve Nota (em Memória de António Telmo)

“Se admitirmos que o homem é, de algum modo, a sua circunstância – a circunstância orgânica (a par de outras, a família, a sociedade, etc.) é a Pátria ou a Nação.”(1)

O homem não é, ou não é apenas, uma “pura abstracção”, mas um ser concreto, universalmente concreto, um ser que, de resto, será tanto mais universal quanto mais assumir essa sua concretude, a concretude da sua própria circunstância. Dessa circunstância faz axialmente parte a “pátria”, isso que, segundo José Marinho, configura a nossa “fisionomia espiritual”(2). Nessa medida, importa pois assumi-la, tanto mais porque, como escreveu igualmente Marinho, foi “para realizar o universal concreto e real [que] surgiram as pátrias”(3). Ainda nesta esteira, propõe-nos Marinho a distinção entre “universal” e “geral” – nas suas palavras: “O geral tem âmbito mais restrito e insere-se na prossecução de conceitos, o verdadeiro universal está já numa relação da intuição para a ideia e vincula o singular concreto e indefinível com o uno ou o único transcendente.”(4). Daí, enfim, a sua expressa defesa de uma filosofia situadamente portuguesa, não fosse esta “dirigida contra o universalismo abstracto e convencional de escolásticas e enciclopedistas em que têm vivido"(5).

Esta é, contudo, apenas uma possibilidade, não, de modo algum, uma inevitabilidade, nem sequer, muito menos, uma obrigação. Não se trata aqui, com efeito, de instituir um “serviço filosófico obrigatório” de forma a garantir a existência da “filosofia portuguesa”. Esta existirá apenas enquanto existir pelo menos uma pessoa que, de forma inteiramente livre, se assuma na dupla condição de “filósofo” e de “português”.
Que cada um de nós dê pois, se quiser, o passo em frente…


(1) Francisco da Gama Caeiro, in AA.VV., Ao Encontro da Palavra: homenagem a Manuel Antunes, Lisboa, FLUL, 1986, p. 40.
(2) Estudos sobre o pensamento português contemporâneo, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1981, p. 19.
(3) Cf. O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra e outros textos, “Obras de José Marinho”, vol. IV, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001, p. 502
(4)Filosofia: ensino ou iniciação?, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Centro de Investigação Pedagógica, 1972, p. 45.
(5) Cf. Filosofia portuguesa e universalidade da filosofia e outros textos, “Obras de José Marinho”, vol. VIII, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2007, p. 553. Essa é, pelo menos, a sua “interpretação”: “…minha interpretação arranca de um sentido da filosofia nacional para uma singularidade de pensar mais autêntica e para uma universalidade mais verdadeira, filosofia [que] se não demonstra por meio de juízos e afirmações, mas por um pensamento que tenha em si próprio o cunho da autêntica universalidade (…).” [ibid., p. 352].

sábado, 21 de agosto de 2010

Faleceu hoje António Telmo, um dos autores maiores da Filosofia Portuguesa


Na sua última aparição pública: 8 de de Agosto de 2010, Vale do Infante, no pré-lançamento da obra "O Portugal de António Telmo" (foto de Jesus Carlos).


António Telmo Carvalho Vitorino nasceu no dia 2 de Maio de 1927, em Almeida. Entre os dois e os seis anos, viveu em Angola com a família. Quando esta regressa a Portugal, fixou-se em Alter-do-Chão e, mais tarde, em Arruda-dos-Vinhos. António Telmo viverá por lá até aos seus dezasseis. Antes de ir estudar para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ainda morará em Sesimbra. Na sua infância e juventude, foi um auto-didacta. Estudava em casa e fazia os exames em Lisboa.
Aos vinte e três anos, entra para o grupo da Filosofia Portuguesa, depois de ter conhecido José Marinho (1904-1975) e Álvaro Ribeiro (1905-1981).
A convite de Agostinho da Silva (1906-1994) e de Eudoro de Sousa (1911-1987), foi professor de Literatura Portuguesa, durante três anos, na recém-formada Universidade de Brasília. De lá foi para Granada e, só depois, é que voltou a Portugal. Foi director da Biblioteca de Sesimbra e posteriormente radicou-se em Estremoz como professor de Português. Faleceu hoje, ao princípio da manhã, no Hospital de Évora. Deixa uma extensa obra:

- Arte Poética, Lisboa, Guimarães, 1963.
- História Secreta de Portugal, Lisboa, Vega, 1977.
- Gramática secreta da língua portuguesa, Lisboa, Guimarães, 1981.
- Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, Lisboa, Guimarães, 1982.
- Filosofia e Kabbalah, Lisboa, Guimarães, 1989.
- O Bateleur, Lisboa, Átrio, 1992.
- Horóscopo de Portugal, Lisboa, Guimarães, 1997.
- Contos, Lisboa, Aríon, 1999.
- O Mistério de Portugal na História e n’ Os Lusíadas, Lisboa, Ésquilo, 2004.
- Viagem a Granada, Lisboa, Fundação Lusíada, 2005.
- Congeminações de um neopitagórico, Vale de Lázaro, Al-Barzakh, 2006/ Lisboa, Zéfiro, 2009.
- Contos Secretos, Chaves, Tartaruga, 2007.
- A Verdade do Amor, seguido de Adoração: cânticos de amor, de Leonardo Coimbra, Lisboa, Zéfiro, 2008.
- Luís de Camões, Estremoz, Al-Barzakh, 2010.
- A Aventura Maçónica, Lisboa, Zéfiro, 2010.
- O Portugal de António Telmo, Lisboa, Guimarães, 2010.

O seu funeral realiza-se amanhã, 22 de Agosto, em Estremoz, pelas 9 horas.


No próximo número da NOVA ÁGUIA, de que foi colaborador desde a primeira hora, publicaremos um texto seu, datado de 1955: “O ESTILO DA RENASCENÇA PORTUGUESA.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Agostinho da Silva: para além da Esquerda e da Direita, uma Visão de Futuro

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A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo.

Agostinho da Silva, Cortina 1 [inédito]



Se há alguém que, no século XX português, transcendeu a fronteira entre “esquerda” e “direita”, esse alguém foi, mais do que qualquer outro, Agostinho da Silva. Decerto, não foi o único. Muito longe disso. Poderia apontar o exemplo de (quase) todos os outros grandes filósofos portugueses, dado de que todas as mentes minimamente complexas – como são, em geral, as dos filósofos – nunca encaixam nessas etiquetas de “esquerda” e de “direita”.

Só, ao invés, as mentes mais simples, mais incipientes, são apenas de “direita” ou de “esquerda”. As mentes mais simples e aquelas mais complexas que, por razões nalguns casos intangíveis, sucumbem ao complexo de parecerem apenas de “esquerda” ou de “direita”. Poderia dar aqui também, decerto, múltiplos exemplos – de um lado e do outro. Mas é um facto que dada a hegemonia cultural da “esquerda”, ou do que se convencionou chamar de “esquerda”, no século passado – em particular, na segunda metade, – há bastantes mais exemplos de “complexados de esquerda”. Noutros tempos terá acontecido o inverso – a História, como se sabe, tem uma estrutura pendular.

Qualquer pessoa, minimamente isenta, pode atestá-lo: há pessoas que, com o horror de assumir posições identificáveis como de “direita”, assumem, nalguns casos de forma particularmente hilariante, posições mais identificáveis como de “esquerda”, não se coibindo até de denunciar publicamente como de “direita” algumas posições de outros, algumas posições de outros que eles, em privado, reconhecem ser também as suas. Eu, pelo menos, conheço algumas pessoas assim. Só não me peçam para dar exemplos.

Em Agostinho da Silva, pelo contrário, o que encontramos é uma completa ausência de complexos nesse campo. E por isso podemos vê-lo assumir, por vezes em imediata sequência, posições tidas como mais “esquerda” e de “direita”. E isto, saliente-se, sem qualquer incoerência. Agostinho da Silva foi decerto um filósofo paradoxal – fazendo, nalguns casos, gala disso –, mas não foi, de todo, um filósofo incoerente. O que aqui procuraremos será, precisamente, dar exemplos disso.

(excerto)

terça-feira, 30 de março de 2010

Os mecenas advinham de uns "capitalistas" que tinham por Agostinho uma admiração espantosa...

Com 23 anos conhece o grupo de Filosofia Portuguesa. Álvaro Ribeiro, José Marinho, Eudoro de Sousa, Agostinho da Silva são alguns dos nomes com que António Telmo travou conhecimento. «Na Universidade?», perguntámos. «No café! Tínhamos uma “Universidade” no café». Quisemos, então, saber como travou conhecimento com o grupo: «Foi Deus que me encaminhou para lá, através de uma coincidência. O meu irmão, Orlando Vitorino, estava a estudar Ciências e Letras em Arruda-dos-Vinhos, e precisava de um explicador de Filosofia. Na altura, foi indicado ao meu pai o melhor que existia, que era, precisamente, o José Marinho. Foi assim que o conheci. Quando fui para Lisboa estudar, conheci o Álvaro Ribeiro na rua. Foi assim que tomei conhecimento e entrei no grupo de Filosofia Portuguesa».
Do grupo «restam vivos Orlando Vitorino, Pinharanda Gomes, Braz Teixeira, Luís Furtado, António Cândido Franco, Joaquim Domingues...». Carlos Aurélio, Luís Paixão e António Duarte completam o grupo.

Agostinho da Silva, um outro amigo que viria a fazer parte da sua vida, marcou-o definitivamente. A seu convite e de Eudoro de Sousa, viaja para Brasília, onde ficou durante três anos a leccionar Literatura Portuguesa. Uma história um tanto ou quanto insólita que o escritor conta com especial relevo: «Estava em Lisboa, a almoçar com um amigo, quando ele teimou comigo para ir consultar um astrólogo famoso, na época, de nome Hórus. Fui, mas de má vontade. O indivíduo disse-me em Agosto que, no ano seguinte, em Fevereiro, iria para o Brasil. Disse-me o dia e tudo. E eu não acreditei, claro! Pessoalmente, ir para o Brasil era uma ideia que me desagradava... Gostava de estar em Portugal. Lembro-me de ter pedido ao astrólogo que me indicasse outro destino que gostasse mais (risos), mas ele teimou comigo que iria para o Brasil, precisamente naquela data. Disse-me também que dia 1 de Outubro conheceria a minha mulher. E este primeiro prenúncio cumpriu-se. Entretanto, o António Quadros tinha ido ao Brasil fazer umas conferências e transmitiu-me que o Eudoro de Sousa e o Agostinho da Silva me queriam lá. O Hórus tinha-me dito para aceitar todos os convites que me fossem feitos em vida. E quando o Quadros me disse aquilo, escrevi ao Reitor da Universidade de Brasília, que me respondeu que já era professor naquela universidade e para ir o mais depressa possível, pois ia começar o semestre. Estava preparado no dia 20 para embarcar no aeroporto de Lisboa, quando anunciaram que o voo havia sido cancelado devido a um vidro partido no avião, tendo sido adiado para o dia seguinte. Precisamente a 21 de Fevereiro, como o astrólogo tinha anunciado, cheguei ao Brasil».

E não chegou sozinho. A família acompanhou-o, a amizade com Agostinho da Silva cresceu naturalmente, uma época que António Telmo recorda com bastante enlevo.

«Todas as manhãs, o Agostinho vinha ter comigo ao meu gabinete. As minhas aulas eram poucas, passava muito tempo a ler e a estudar. Como o Agostinho da Silva era uma pessoa de muita autoridade naquela universidade, ninguém me censurava por largar o meu posto de trabalho tão frequentemente... Então, andava a passear com ele, falávamos muito... Mesmo quando saí do Brasil, subscrevia-me muito com ele, isto já em Granada».

Porquê Granada e não um regresso a Lisboa? «Fui para Granada só para ocupar o espaço, para tomar posse. Quando fui para Espanha, havia um capitalista conhecido do Agostinho da Silva, que me pagava para ali estar. E, depois, que estava eu lá a fazer? O Agostinho dizia-me: “você está aí... a Espanha está dominada, portanto deixe-se estar.” E estive ali um ano! Passeava, lia, estudava...» Fazemos aqui um pequeno parêntesis. Segundo o nosso anfitrião, Agostinho da Silva tinha um sonho: pôr um português em cada lugar do mundo, marcando assim a nossa cultura em todo o planeta. Os mecenas advinham de uns "capitalistas" que tinham por Agostinho uma admiração espantosa, patrocinando o que Telmo chama de “nacionalismo místico”. E como ele, várias outras pessoas viajaram para o estrangeiro, sem fazer qualquer tipo de relatório. Estavam, pura e simplesmente, estudando, fazendo conferências, leccionando. E depois? «Ao fim de um ano vim-me embora para Portugal, para Sesimbra. Fui director da Biblioteca de lá, e só depois é que voltei para o ensino, para Estremoz... tenho andado por muito lado... Uma casa só não dá», explica.

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sábado, 27 de fevereiro de 2010

ברוך שפינוזה

Bento de Espinosa (24 de Novembro de 1632, Amsterdão, Holanda – 21 de Fevereiro de 1677, Haia, Holanda)

Desapossando-se desse cidadão, filho de judeus expulsos por D. Manuel, Portugal antecipou o pagamento de uma boa indemnização à Holanda pela perda do Brasil.
Como a distância de trezentos anos modifica na perspectiva da História a proporção das coisas! Quem nos dissesse no século XVI que o obscuro e desprezível judeu, pai de Espinosa, ao emigrar de Lisboa, nos arrebatava uma riqueza comparável à dos imensos territórios do país brasileiro teria o ar de um utopista em delírio. E, todavia, o que hoje vemos é que o império do Brasil, depois de tanto sangue derramado e de tanto oiro despendido para o manter por algum tempo sob a dominação honorária da nossa bandeira, desapareceu para nós sem outro vestígio mais que o cansaço, a corrupção e a tristeza que imprime no enfranquecimento das gerações e na decadência das raças a memória das suas glórias extintas e das suas riquezas desbaratadas; ao passo que Espinosa, tornado holandês pela intolerância do nosso despotismo católico, funda no país a que rejeitámos a base de um novo critério que põe a Holanda à frente de todo o grande movimento filosófico do mundo moderno. Entre os grandes pensadores que no século XVII deitaram abaixo toda a velha construção da psicologia, abrindo caminho novo ao regime experimental da nossa era, foi esse português de Amsterdão, magro, sóbrio, moreno, nervoso, terno, namorado – legítimo português por todos os caracteres fisiológicos – quem mais poderosamente manejou ideias, renovou e fortaleceu inteligências, elevando proporcionalmente no seu meio social o nível da dignidade humana, e criando em toda a parte, pela penetração e pela independência do seu génio, novas e fecundíssimas correntes de investigação e de processo, na filosofia, na moral, na política, na arte. atraindo magneticamente e arrastando na sua órbita lumiosa toda uma constelação de espíritos, entre os quais veremos sucessivamente irradiar Leibniz, Malebranche, Voltaire, Lessing, Goethe, Byron, Novalis, Hegel, Schopenhauer, Hartamann, Bukle, Draper, Quetelet, Spencer, todos aqueles enfim que uma vez perguntaram a si mesmos, num intuito moral, num intuito político, num intuito pedagógico ou num intuito estético, se as acções humanas são livres ou são necessárias [...]


Ramalho Ortigão, Holanda, 1883

Imagem: Bento de Espinoza, autor anónimo (Herzogliche Bibliothek, Wolfenbuettel, Alemanha), ca. 1665

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Próximo Domingo...

Exactamente um ano depois de ter começado, o ciclo de simpósios sobre os 12 Teoremas do 57 - Actualidade dos Teoremas do Movimento de Cultura Portuguesa vai chegar ao seu termo, no próximo dia 28 de Fevereiro, domingo, pelas 15:00, com a realização do quarto e último dos encontros definidos, na Livraria Fonte de Letras, em Montemor-O-Novo, que tem apoiado esta iniciativa dos Cadernos de Filosofia Extravagante. Desta vez, os apresentadores e os teoremas serão os seguintes:

Roque Braz de Oliveira e a Propriedade
Carlos Aurélio e o Indivíduo
Pedro Sinde e a Liberdade

Cada interlocutor convidado apresentará durante dez minutos um teorema.

Finda a apresentação iniciar-se-á o debate alargado a todos os convivas do simpósio.


Publicado em: http://filosofia-extravagante.blogspot.com/2010/02/teoremas-do-57-ultimo-simposio-no-dia.html

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Faria hoje 106 anos...

“Ser cidadão do mundo, essa confiante aspiração dos estóicos, está a caminho de ser uma terrível banalidade.”


“para realizar o universal concreto e real surgiram as pátrias”

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

"Portugal, porque reaparecesse um vínculo colectivo, voltaria a ser uma Pátria"

“É que decididamente, havia então, há hoje só uma palavra: – República!
Hesita ainda, apesar de tudo, uma parte da nossa população letrada. E, inquieta, pergunta a si-mesmo o que seria, se em Portugal se implantasse a República.
Há pouco mo perguntaram, para que em público à pergunta respondesse.
Respondi começando por advertir que o pedido que me era feito me recordara certo incidente da história anedótica, literária e política, nossa contemporânea.
Com efeito, quando aqui há anos exerceu o seu efeito sobre a poesia portuguesa o simbolismo francês, uma das composições que apareceram e mais impressão causaram tinha o título fúnebre Quando a morte vier, e dizia os filosóficos desenganos das vaidades mundanais que no pó das sepulturas liquidam.
Logo nas colunas literárias duma folha política lisbonense se leu uma paródia a essa peça de versos, e esta paródia por título tinha: Quando a República vier, e dizia o descalabro dos egoísmos devoristas, que na igualdade democrática finalizam e concluem. Havia um ritornello típico. Era este:

Quando a República vier,
Ireis cavar pés de burro;
Ireis cavar pés de burro,
Quando a República vier.

E não teriam direito de queixumes aqueles que fossem dispensados por haverem gozado até ali do favoritismo que vive, parasitariamente, do trabalho nacional. Pois que só esses é que receio possam nutrir de que de os prejudique o advento da República. Visto como a República não é o governo dum partido nem o monopólio de tal ou tal casta de gente. A República é, pelo contrário, o governo de todos, por todos e para todos. A causa da República compreende todo o país e, no fim e ao cabo, a República é a Nação.
Se, pois, a República se implantasse em Portugal, o povo português adquiriria a consciência da soberania e ganharia as virtudes políticas que fundamentam a dignidade cívica. Ele tomar-se-ia a sério. Respeitar-se-ia, e o verdadeiro patriotismo faria pulsar os corações. Se a República se implantasse em Portugal, o progresso da civilização portuguesa seria ininterrupto e logo de início se assinalaria pelo timbre de grandíssimos avances efectuados. Se a República se implantasse em Portugal, o povo português viria novamente a contar na história do mundo, onde hoje, quando não é desprezado, passa despercebido.
Se a República se implantasse em Portugal, Portugal deixaria de ser aquele «sítio onde cinco milhões de egoísmos se exploram reciprocamente e se aborrecem em comum», consoante da definição pretérita de Eça de Queiroz. Portugal, porque reaparecesse um vínculo colectivo, voltaria a ser uma Pátria. E essa Pátria novamente se integraria na Civilização.
Consequentemente, ontem como hoje, hoje como ontem, ainda e sempre uma só palavra havia, uma só palavra há: - República!
FIM”

Sampaio Bruno, in A Dictadura, Lello & Irmão, 1909

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Dos povos...

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“Os povos, como nascentes e manifestações terrestres do espírito, têm iniludível fisionomia espiritual, embora esta se configure de modo menos apreensível que o expressivo rosto dos homens singulares.”.

José Marinho, in Estudos sobre o pensamento português contemporâneo, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1981, p. 19.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O suplício físico de Jacques de Molay

O suplício físico de Jacques de Molay, impotente para produzir nenhum resultado mais que baixamente material, desencadeou sobre a Igreja as forças mágicas que essa acção material era incompetente para dominar, servindo só para as desencadear. E o pior foi que o processo de imolação fosse pelo Fogo, isto é, pelo Elemento da Ordem. Assim, para falar um pouco obscuramente, o que era Adepto Exempto, em vez de passar a Mestre do Templo, foi erguido a Mago, e, apto a pronunciar a Palavra da Era, pronunciou-a como Irmão Negro, e contra a Igreja. Toda a civilização moderna, desde a Reforma aos nossos tempos, no que é oposição à Igreja e conspurcação dela e dos seus princípios, é a vingança encarnada de Jacques de Molay. A fogueira em que foi queimado o Grão-Mestre dos Templários foi o lume que ateou o incêndio em que hoje todos ardemos.
Num ponto, porém, a vingança de Molay, operando por vias inferiores, caiu no mesmo erro em que haviam caído os seus algozes. Foi quando D. Sebastião, AE [Adepto Exempto], foi feito cair em Alcácer Quibir. Caiu pela espada, isto é, pela Terra, e o erro foi o mesmo que o de fazer Molay cair pelo Fogo, porque de igual natureza. No mesmo modo o Adepto Exempto ascendeu a Mago, queimando o grau intermédio, e pronunciou, no tempo dado, a Palavra da Era seguinte.
[actualizámos a ortografia]

Fernando Pessoa, Subsolo (espólio 54-93) in Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética – Fragmentos do espólio, introdução e organização de Yvette K. Centeno, Ed. Presença, Lisboa, 1985, p. 43.

A Esfera Armilar

1. Álvaro Ribeiro: «A estrela sobrenatural aliada à esfera armilar é um símbolo que os estetas ainda não interpretaram devidamente, porque não prestaram suficiente atenção ao enigma da eclíptica.»
2. A eclíptica significa o movimento da cruz na esfera, determinando os solstícios e os equinócios, as quatro estações e os quatro ventos.
[...]
4. Sobre a eclíptica de uma esfera armilar dos Jerónimos lê-se Emanuel Rei de Portugal e do Resto. Eis D. Manuel I identificado com o Rei do Mundo.
[...]
8. Sendo a cruz da Ordem de Cristo uma cruz de poder, que tem por fim servir de reflexão preparatória da iniciação mágica, deve ser posta em correspondência com o microcosmos, isto é, com o composto humano.
9. O homem decaído é policêntrico, como policêntricos são alguns arcos das portas manuelinas. Noutras palavras: o centro da vida vegetativa e o centro da vida instintiva não coincidem com o centro da vida mental e nenhum com qualquer dos outros.
[...]
13. As cores da cruz da Ordem de Cristo dizem que a via era a do sangue, quer dizer que se levava o pensamento a coincidir com o princípio da vida.
[...]

António Telmo, A Esfera Armilar, in Filosofia e Kabbalah, Guimarães Editores, Lisboa, 1989, pp. 177-179.

Imagens: Esfera Armilar do Mosteiro dos Jerónimos, fonte: A Touch of Lisbon - Guided tours in and around Lisbon, 2008. Cruz da Ordem de Cristo e planta do Templo de Salomão, fonte: Wikipedia.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Semita e Ário




[…] Depois deste ligeiro trabalho que apresentei a público, sob o título «O Espírito Lusitano ou o Saudosismo» – trabalho que ando a desenvolver – concluí que a Saudade, como síntese do espiritualismo cristão e do naturalismo pagão, por isso que ela contém em si o Desejo e a Dor, a Esperança e a Lembrança – esperança incidindo sobre o passado, lembrança incidindo sobre o futuro – é o próprio espírito lusitano na sua expressão mais íntima, profunda e original.
E concluí também que o nosso Povo, nascido do casamento do sangue semita com o ária, criando a Saudade viva, tornou-se espiritualmente autónomo, e concebeu a ideia-sentimento, fonte da nova e verdadeira Renascença, pois a renascença italiana, de que Goethe, Wagner e Nietzsche são descendentes, é obra individual de alguns artistas de génio; e não realizou a fusão perfeita e viva do Paganismo com o Cristianismo, dado o carácter exclusivamente pagão dos italianos.
Em Portugal essa fusão, isto é, a ideia-mãe da Nova Renascença, fez-se na alma da Raça, é a própria alma do Povo, e, por isso, eternamente viva e criadora.
É certo que só a moderna geração poética revelou plenamente esta verdade, porque o espírito lusitano tem sido guerreado desde séculos por todos os meios – religiosos, literários, artísticos e políticos, e porque chegou, enfim, o momento da sua completa revelação, como sinal da nova obra que Portugal terá de realizar… […]

Teixeira de Pascoaes, in Ainda o Saudosismo e a «Renascença», A Águia, 2ª série, nº12, Porto, 1912.


Esta é parte da herança de Teixeira de Pascoaes, cuja complexidade e fundura não é redutível a apropriações unívocas. Viveu, escreveu e morreu antes de qualquer lusofonia, no desígnio bárdico de cantar uma pátria maior do que os folclores a que os patrioteirismos sempre a apequenam. O Portugal de Pascoaes permanece demasiado vasto para o nanismo intelectual de tantos que o querem transformar em mais um palerma beato: uma grandeza civilizacional em que se uniram as duas margens do Mediterrâneo, a helénica e a semita. A intuição poética visionária de quem sabia ser Portugal o último ouro da grandeza pretérita que ergueu a Civilização Europeia. A obra de Pascoaes é um mapa doado a todos os futuros, o legado dos que se sabem póstumos em vida.


K. N.
Também publicado no blogue O Bar do Ossian.

domingo, 6 de dezembro de 2009

[...] os portugueses típicos nunca são portugueses. Há algo de americano [...] no temperamento intelectual deste povo


Santo Agostinho, Sandro Botticelli, 1480


A esfera armilar é um complexo sistema de transferência de graus. Após a invenção do sextante, que calculava a declinação dos astros em relação ao horizonte marítimo, e da linotipo que imprimia tábuas de logaritmos para uso em navegação, o instrumento caiu em desuso e passou a ser usado somente como produto de decoração ou status.

Fonte:
Esfera Armilar.


Os sensacionistas portugueses são originais e interessantes porque, sendo estritamente portugueses, são cosmopolitas e universais. O temperamento português é universal; esta, a sua magnífica superioridade. O acto verdadeiramente grande na história portuguesa – esse longo, cauteloso, científico período dos Descobrimentos – é o grande acto cosmopolita da História. Nele se grava o povo inteiro. Uma literatura original, tipicamente portuguesa, não o pode ser porque os portugueses típicos nunca são portugueses. Há algo de americano, com a barulheira e o quotidiano omitidos, no temperamento intelectual deste povo. Ninguém como ele se apropria tão prontamente das novidades. Nenhum povo despersonaliza tão magnificamente. Essa fraqueza é a sua grande força. Esse não regionalismo temperamental é o seu inusitado poder. É essa indefinidade de alma que o define.
Porque o facto significativo acerca dos portugueses é que eles são o povo mais civilizado da Europa. Eles nascem civilizados porque nascem aceitadores de tudo. Neles nada há do que os antigos psiquiatras costumavam chamar misoneísmo, o que significa apenas ódio às coisas novas; gostam francamente de mudar e do que é novo. Não possuem elementos estáveis, como os franceses, que só fazem revoluções para exportação. Os portugueses estão sempre a fazer revoluções. Quando um português se vai deitar faz uma revolução porque o português que acorda na manhã seguinte é diferente. É precisamente um dia mais velho, um dia mais velho sem dúvida alguma. Outros povos acordam todas as manhãs no dia de ontem; o amanhã está sempre a vários anos de distância. Mas não esta tão estranha gente. Move-se tão rapidamente que deixa tudo por fazer, incluindo ir depressa. Não há nada menos ocioso do que um português. A única parte ociosa do país é a que trabalha. Daí a sua falta de evidente progresso.


Álvaro de Campos, O Sensacionismo (excerto), 1916, in Fernando Pessoa, Textos de Intervenção Social e Cultural, A Ficção dos Heterónimos, introdução, organização e notas de António Quadros, ed. Europa-América, Lisboa, 1986, p. 84 (original em inglês, tradução de J. Monteiro-Grillo).