*É um Lusófono com L grande? Então adira ao MIL: vamos criar a Comunidade Lusófona!*

MIL: Movimento Internacional Lusófono | Nova Águia


Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de uma centena de milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por mais de meia centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia. Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.
SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
NIB: 0036 0283 99100034521 85; NIF: 509 580 432
Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).

Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

Colecção Nova Águia: https://www.zefiro.pt/category/zefiro-nova-aguia

Outras obras promovidas pelo MIL: https://millivros.webnode.com/

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Rubem Fonseca, um lobo na estepe








UM LOBO DA ESTEPE



Parece incrível,mas, o mestre Rubem Fonseca está lançando um livro de memórias.

O grande escritor brasileiro, conhecido por ser avesso a publicidadedespertará ,sim,a curiosidade não só de seus leitores fieis como de todos os amantes da literaturae,porque não dizer,de todos os curiosos.

Rubem escreve,porém,não gosta de se expor e até aoslançamentos dos seus livros não comparece,como recentemente na FLIP.

No mundo literário isso não é novidade.Existem outros anacoretas ou quase,como Saramago,HermannHesse,Coetzee que preferem tomar um chá de sossego a enfrentar o público,essemonstro de mil olhos e sete cabeças que define ou não o sucesso de alguém.

O livro em questão chama-se José e embora escrito naterceira pessoa não esconde que opersonagem é o autor,cujo nome completoé José Rubem Fonseca.

Será que Rubem,ummestre nos contos,autor de livrosmemoráveis como “O Cobrador”,”Feliz Ano Novo”,” Agosto” e, recentemente “O Seminarista” desvendará para o mundo suapersonalidade introvertida e nosdeixará invadir esse campo tão defendido do EU do autor?

O livro inicia-se na sua infância em Juiz de Fora, embora seja o mais cariocados mineiros.

Da adolescênciaaté á maturidade, já no Rio, o livro se estende com narrativas da faculdade edo trabalho como advogado criminalista.

Uma época importante ficou escondida :a passagem do escritor peloIPES,Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais,entidade que referendou o golpede 64,dando-lhe suporte e ,dizem alguns,tornando-o possível.Não vejo porqueRubem devesse omitir este fato;afinal,ele era apenas um funcionário, sem poderde mando e execução.

Aliás , a política foi banida completamente ,afora umas breves menções de viagens à Cuba,cujo povo ele pareceu adorar.

Mas, não se deve punir o livro por isso ,pois sua abrangência e interesse superatodos os senões e nos traz momentos de beleza tocante como a morte dos irmãos e bons momentos de humor fescenino.

Entende-se que o homem Rubem Fonseca hesite emdesnudar-se frente ao leitor.O escritornão precisa falar de si mesmo; sua obra fala por si.

Concordo com Rubem que o escritor deve se preservar.A convivência com os nossossemelhantes é impossível nesta guerra de egos e espíritos mesquinhos queparecem viver num estado constante de competição.O escritor é o lobo doescritor.

E ,quanto mais medíocre,mas, competitivo e invejoso.

Quanto aos nossos leitores,um pouco de mistério não faz mal; deixa a imaginaçãodo leitor funcionar também neste campo.

Hesse, o autor do “Lobo da Estepe” ,escreve ao leitor:

“É claro que não posso nem pretendo dizer aos leitores como devem entender minhahistória.Que cada um encontre nela aquilo que lhe possa ferir a corda íntima eo que lhe seja de alguma utilidade.”

Sábias palavras!


*Miriam Sales é escritora e articulista brasileira

domingo, 21 de novembro de 2010

Triste realidade

Aletho Alves de Sá Oliveira

Acordo assustada. Meu filho chora. Levanto da cama rapidamente. Ele está sentado no chão com as mãos no pescoço. Olha pra mim e diz soluçando:
— Dói, mamãe.
A gripe piorou. São quatro e meia da manhã. Tenho de estar no trabalho às seis, não posso faltar. Na verdade, nem atrasada posso chegar.
Anteontem, minha colega foi demitida por ter chegado uma hora atrasada, já que os metroviários fizeram uma paralisação de trinta minutos. Eu trabalho sem carteira assinada, não tenho seguro-desemprego e não consegui terminar meu curso de técnica em enfermagem, pois os professores do ensino profissionalizante nas escolas públicas estão em paralisação há mais de quatro meses. Então, fico me perguntando: de que adianta eu ganhar ajuda financeira do Estado se a minha única chance de mudar de vida é um caminho totalmente incerto?
Desesperada, pego minha bolsa, coloco uma muda de roupa para o meu filho em uma sacola plástica. Uma lágrima escorre pelo meu rosto, já sei que perderei meu emprego. Mas a saúde do meu filho vem em primeiro lugar. Na realidade, como posso mantê-lo saudável sem um real no bolso? Os pensamentos me afligem. Vou ou não vou ao hospital? Para ir ao posto de saúde mais próximo tenho de pegar dois ônibus e a esta hora da madrugada eles já estão lotados. Oh, meu Deus, será que estou no inferno?
Não agüento ver meu filho gemendo de dor. Coloco-o no colo e vou ao Posto de Saúde mais próximo.
São quinze para as seis quando desço do ônibus. Meu filho dorme. Caminho alguns minutos. Chego, finalmente, ao Posto. A fila é enorme; não há uma cadeira desocupada; a que encontro não tem encosto. Há gente que traz aquelas cadeiras de praia. Só faltam as barracas, pois os colchonetes já estão espalhados pelos corredores. É como se o mundo estivesse acabando e as pessoas tentassem sobreviver como podem. O cheiro é horrível e a única pessoa de branco é um rapaz que está tirando a blusa para enxugar o vômito de um velho deitado no chão que eu suponho ser seu avô.
Finalmente, vejo uma enfermeira. Vou em direção a ela e pergunto:
— Onde fica a ala pediátrica?
— Minha senhora, o pediatra ainda não chegou.
— Certo, mas... o médico de plantão?
— Desculpe, ele não veio hoje.
Antes que pudesse questionar alguma coisa, a mulher foi embora. Parece que todos os funcionários não se arriscam em conversar muito tempo com os pacientes, pois têm medo de serem agredidos verbalmente ou, até, fisicamente.
Estou esperando atendimento há horas e já não sei se fiz o melhor trazendo meu filho para este lugar.
Cansada, com fome, com medo, abaixo minha cabeça e vejo o rosto do meu filho. Seus olhos estão fechados, sua face está pálida e o seu corpo parece gélido. Percebo, então, que ele fez algo melhor do que eu: encontrou um lugar melhor para viver.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Revolução Francesa

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A França vivia um período de instabilidade social profundo no século XVIII.O povo,também chamado os “sans culottes”,por andar mal vestido e faminto constituía 98% da população.

Eles formavam o Terceiro Estado, sendo que o Clero formava o primeiro e a nobreza, (o rei e seus pares)o segundo.

Apesar de constituir a maioria só o povo pagava impostos e sustentava o Estado nas suas sofridas costas;o Rei ,a nobreza e o clero ,isentos de impostos e com todas as regalias que o sistema feudal lhes proporcionava,vivia em palácios,festas e caçadas,ignorando completamente o que se passava fora de seus muros.

Naquele ano,1792 a França teve um de seus piores invernos;a farinha,que fazia o pão,base da alimentação da pobreza,teve seu preço elevado e ficou muito acima do bolso dos mais pobres.A miséria campeava absoluta.

Nunca,como naquele momento,as injustiças sociais do “ancien régime” doeram tanto.

A nobreza dominava a política, a justiça e a religião.

Com a França empobrecida por guerras perdidas o Rei convocou os Estados Gerais para reorganizar as finanças do Reino. Reuniu-se o Clero,a Nobreza e o povo,o terceiro estado,composto de trabalhadores urbanos e agricultores e a pequena burguesia;eram chamados deputados.

Mal as discussões começaram, o Terceiro Estado retirou-se da Assembléia pois percebeu que seus interesses estavam sendo manipulados e desconsiderados.

Revoltado, o povo arrombou um castelo e roubou centenas de mosquetes;a pólvora,sabia onde encontrar,na Bastilha,a tremenda prisão do Rei para onde eram levados os opositores do Regime.

A família real foi arrancada á força,de Versalhes e levada para as Tulherias,o palácio de Paris.

A revolta nas ruas estava cada vez pior.

O Rei foi solicitado a assinar a Constituição, onde abria mão de direitos feudais e cederia ás exigências do povo,liderado por Robespierre,movido pelo Iluminismo,difundido após a Guerra Civil Americana.

Criou-se então a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e a expressão: "Liberdade,Igualdade e Fraternidade", que perdura até hoje como símbolo dos movimentos libertários.

O povo exigiu que Necker fosse o Ministro da Fazenda,o Rei aceitou,porém os tumultos de rua continuavam.

Os conservadores girondinos formados pela alta burguesia e trabalhadores especializados, começaram a se estranhar com os jacobinos,gente da baixa burguesia que queria mudar tudo;instalou-se o caos e o Terror,comandados por Robespierre e Saint-Just e inflamado pelo jornal de Marat,que exigia sangue e dizia que não se faz revolução com água de rosas; e Danton,para quem o processo da Revolução passava pela morte de tudo que existia e era conhecido.

O Rei foi condenado á morte pela guilhotina,instrumento mortal inventado pelo Dr. Guilhotin,que,mais tarde,provou do próprio veneno.

Nesta “navalha nacional”,morreram milhares de franceses,inclusive Robespierre e a Rainha Maria Antonieta.Instalou-se o Terror em 1793,onde todos desconfiavam de todos e matavam todos.

A religião católica foi abolida,igrejas destruídas,os bens do clero,roubados e freiras e padres violados e assassinados cruelmente.

Cristo foi substituído por Marat,cuja banheira onde foi assassinado pela girondina Charlotte Corday,foi elevada a sacrário e colocada nos altares, enquanto o resto da Europa rugia de raiva e impotência.

Durou muito tempo esse estado de coisas;até que foi criado o Diretório,governo de cinco membros,entre eles um corso baixinho e com um ego do tamanho da Europa chamado Napoleão Bonaparte.

Não poderia terminar esse despretensioso ensaio sem falar no hino revolucionário “A Marselhesa”,composto pelo oficial de cavalaria Joseph Rouget de Lisle e que depois se tornou o hino nacional francês.

Eis o refrão:

Aux armes,citoyens
Formé vous bataillons;
Marchons!Marchons!
Qu’un sang impur
Abreuve nous sillons.

Este trecho “que um sangue impuro ágüe nossos arados” demonstra o teor de hostilidade que vivia o país.

Será que veremos tudo isto de novo,Monsieur Sarkozy? Agora que vossa mercê acha que há muitos “sang impur “ na França?As revoltas populares daí não são como as nossas ,no Brasil,que acabam em música,suor e cerveja.

Abra os olhos,meu senhor.

E “VIVE LA FRANCE!”

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Vincere, radiografia de um ditador

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O homem nasce bom; a sociedade o corrompe, dizia o filósofo Rousseau.

Claro,uma criança é uma folha em branco que será preenchida pelas suas experiências e aprendizados no decorrer da vida,porém,a genética não deve ser menosprezada.

Fui atacada por essas considerações filosóficas logo depois de assistir o magnífico filme italiano Vincere,do excelente cineasta Marco Bellocchio,o homem que percebeu - não com belos olhos,mas,com olhos voltados para a realidade – o nascimento de um ditador.

O filme trata dos primeiros anos de Mussolini,um governante que ascendeu de uma forma inexplicável entre os italianos,embora fosse um ser humano cruel e um político equivocado,cujos destemperos colaboraram com o sofrimento e derrota do seu país na Segunda Guerra Mundial.

Que se examinem os homens,aconselha Bellocchio,porque não se pode separar o homem do ditador em que ele se torna.Sábio conselho!

O filme mostra Mussolini visto por Ida Dasler,uma mulher apaixonada que para segui-lo esquece tudo –família,valores,crenças – e financia o jornal Il Poppolo d’Italia,plataforma para o lançamento de Mussolini como líder político.

Quando ele se alista para lutar na 1ª Guerra e volta ferido ela vai visitá-lo não hospital e descobre que ele já era casado com Rachelle Guidi e tinha filhos;ele a enxota do hospital como um cachorro,embora estivesse grávida de Benito Albino Mussolini,filho do ditador.

Sem dinheiro,desiludida no seu amor e ferida de morte ao descobrir que o homem que amava e admirava era,na verdade um crápula vendido,Ida começou sua campanha pública pelo reconhecimento do seu filho.Foi presa e colocada num manicômio até morrer de hemorragia cerebral anos depois.

Nas poucas visitas do poder à moça,percebemos o comportamento dos poderosos e dos seus asseclas,as mentiras montadas, a supressão de documentos importantes,a chantagem insidiosa aos parentes e amigos da mulher,a degradação pública patrocinada por uma imprensa leniente, a morte de um amor causador da perdição da pessoa mais fraca.

Seu filho,também,foi encarcerado num hospital e,depois de tomar à força muitas drogas poderosas,morreu aos 26 anos num manicômio.

Essas pessoas foram banidas da biografia do ditador e a certidão de casamento de Ida nunca foi encontrada.

O que o filme se propõe a mostrar é que sempre existe um homem atrás do mito e que ambos devem ser estudados , pois um, nunca poderá separar-se do outro.Benito recebeu sem nenhum escrúpulo o amor e o patrimônio de Ida;Mussolini soube como alijá-la da sua vida quando isto lhe foi conveniente e essa relação poderia prejudicar os seus interesses e sua incansável luta pelo poder.

O indivíduo massacrado pelo sistema não é um fato novo.

O filme vem bem a propósito no momento em que a direita fascista está estudando uma reabilitação da memória de Mussolini.E que a presença do bufão Berlusconi no poder já se estende há três anos,apesar dos escândalos sexuais e financeiros que envolvem seu nome.

Bellocchio,na sabedoria dos seus setenta anos,quer provar que o cinema tem um papel relevante na sociedade e na construção da história de um pais.E que cabe aos artistas –escritores,músicos,cineastas – registrarem sem piedade os erros de um sistema.

A metamorfose de Mussolini , -de agitador socialista que queria derrubar o rei e assassinar o papa - em ideólogo do fascismo,sua ascensão ao posto de ditador e aliado da Alemanha Nazista, nos deixa pasmos; fica difícil de entender como esse homem tornou-se ídolo dos italianos.

Ma,la nave va...

Mas,que vá sempre fiscalizada pelos artistas,escritores e cine.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Castro Alves, o poeta da esperança!

Em 1847,nascia, na Fazenda Cabaceiras, Antonio de Castro Alves,um dos maiores poetas brasileiros.

Filho de médico,o pai mudou-se ,mais tarde,para Muritiba,cidade do Recôncavo Baiano,para que o filho aprendesse as primeiras letras.

Em 1854 a família mudou-se para Salvador e o menino Cecéu foi matriculado no Colégio Sebrão;mas,logo foi transferido para o Ginásio Baiano,do emérito professor Abílio César Borges.

Ávido leitor dos poetas franceses,como Vitor Hugo,aos 13 anos escreve sua primeira poesia.

Indo estudar Direito no Recife,onde foi colega de Tobias Barreto,consegue publicar num jornal desta cidade,”A Destruição de Jerusalém”,provavelmente influenciado por Torquato Tasso,célebre poeta italiano.

Belo,elegante,vasta cabeleira negra,olhos pretos devoradores,o jovem fazia sucesso entre as mulheres;até a famosa atriz Eugênia Câmara,depois sua grande paixão,declamou versos seus no Teatro Santa Isabel.

Em 1864,porém,coisas terríveis aconteceram.Seu irmão mais velho suicidou-se e ele contraiu uma tuberculose;após a primeira hemoptise voltou à Bahia,para tratar-se.

Um ano depois volta para Recife com Fagundes Varela e declama “O Século” na abertura dos cursos jurídicos.Funda uma sociedade abolicionista.

Começam as viagens,Salvador,Rio de Janeiro,sempre em companhia da amada Eugênia Câmara.

Quando ele aparecia nos saraus ou na platéia dos teatros, belo e forte como um jovem herói,irrepreensivelmente vestido de negro que lhe ressaltava a palidez romântica,os homens o aplaudiam com vigor e as mulheres suspiravam,comovidas.Todos os que ouviam a sua voz melodiosa e retumbante,eram presas de fortíssima comoção e prorrompiam em brados entusiasmados.

Cursa o terceiro ano de Direito em São Paulo,na Faculdade do Largo de São Francisco.

1868 foi um ano produtivo. Escreveu e declamou “o Navio Negreiro”,foi aprovado nos exames,seu poema “Gonzaga” estreou no Teatro São José e rompeu com Eugênia.

Parece que a tragédia foi sua companheira,pois,ao sair para uma caçada, pulando para atravessar um riacho,detonou sua própria espingarda e baleou o pé,que teve que ser amputado,sem anestesia.

A conselho médico vai para Curralinho;tenta a cura em Santa Isabel;melhor,volta para Salvador para o lançamento do seu livro “Espumas Flutuantes”.

Em 1871, aos 24 anos,morre o poeta maior da Literatura brasileira.Desaparecia tão cedo a sua formosa mocidade e gênio;foi o guia e chefe dessa geração de jovens desassombrados,que lutava pelo que considerava certo e pela liberdade dos despossuídos.

Já o era no seu tempo como é agora, idolatrado pelo povo;Sofreu com a inveja e a “panelinha” literária da época,que existe e persiste até os nossos dias.Mas,a admiração anônima e espontânea dos leitores é o que interessa ao escritor porque o leva à fama e à posteridade.

Os sábios distinguem e julgam;só o povo ratifica a justiça ou o gosto dessas sentenças;a admiração popular nunca faltou a Castro Alves.

Ainda hoje me emociono até às lágrimas quando recito “Ode ao Dois de Julho” ou “Navio Negreiro”;do mesmo jeito que me emocionava nos idos de ’60,quando na Escola Normal ou nos festejos do 2 de Julho era chamada a recitá-los,em público.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Algumas reflexões sobre a erudição

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Vocês, meus caros,já notaram a quantidade e variedade de escolas ,alunos e professores que temos no nosso pais?

Ficamos contentes, pois, parece que damos uma grande importância à Educação e à Cultura, pois,para alguns,elas andam juntas e de mãos dadas.

Mas,cá com meus botões,acho que estamos enganados.

As escolas particulares na sua grande maioria,foram criadas no intuito de ganhar dinheiro;alguns professores ensinam apenas com esse objetivo também e não se esforçam para aprender cada vez mais, contentando-se apenas em “parecer” preparados.

Os alunos estão lá ,não para aprender alguma coisa que lhes seja útil no futuro,mas,para passar de ano,tagarelar com os colegas e “ficar” com o sexo oposto.

A cada trinta anos temos uma nova geração ,infelizmente,composta de pessoas que não sabem nada e apenas se limitam a copiar o trabalho das gerações passadas,acumuladas durante milênios e estudadas hoje de modo apressado e apenas para deitar sabedoria no seu meio social e aparecer como o erudito,o bambambam,respeitado e incensado pelos contemporâneos.

Somos imediatistas. Queremos informação,não instrução.Aprendemos apenas o necessário para garantir a sobrevivência e,no caminho,vamos largando as pesadas mochilas do conhecimento denominado supérfluo,como nos livramos de peças de roupa sem importância.

Borboleteamos pelos caminhos do saber,decorando um pouco de cada matéria afim de manter uma conversa erudita e,como em terra de cego quem tem um olho é rei,podemos arrastar soberbamente nossa plumagem,entre os nossos pares embasbacados.

Não pensam que a informação é apenas uma estrada para a instrução,valendo pouco por si mesma se não for embasada por um conhecimento mais profundo.

Ao me defrontar com um desses penso como Schopenhauer:-“Ah,essa pessoa deve ter pensado muito pouco para poder ser tão lida.”

Há pouco assisti a uma palestra de uma respeitada erudita um pouco curvada sob o peso de muitos mestrados e doutorados.

Pois bem:de cada vinte palavras que proferia,dez eram citações;parecia uma colcha de fuxico feita com retalhos de conhecimento alheio.Fiquei imaginando aonde ficaria escondido o seu verdadeiro pensar.

Acho que ela lia sem pensar fosse à mesa,nas viagens,no toilette e não pude deixar de rir imaginando se ela teria tão poucos pensamentos próprios que precisava tomar emprestado os alheios.

Conheci muitos analfabetos sábios e muitos sábios analfabetos.

A verdadeira sabedoria brota do homem,da sua essência,aprimorada,sim,pela leitura e pelo conhecimento que nos vem dos livros aos quais é nosso dever questionar e não receber essas informações como um prato de sopa.

Leia mais:
www.abahiadeoutrora.blogspot.com

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O editor Monteiro Lobato

Homem de múltiplas facetas,o escritor Monteiro Lobato,um dos mais importantes do nosso país,era também editor.

Essa idéia nasceu da compra da “Revista do Brasil”,onde antes colaborava com seus artigos polêmicos,como “A Velha Praga”,condenando as constantes queimadas que grassavam nas fazendas de café com a desculpa da renovação do solo.

Pois,desta revista,acabou brotando a Cia.Editora Nacional que veio revolucionar o mercado editorial brasileiro,inexistente numa época onde todas as nossas grandes publicações eram feitas em Paris ou Lisboa.

Nacionalista ferrenho,Lobato,revoltou-se contra isto e contra a “panelinha” literária,onde só medalhões tinham acesso às publicações.

Levantou-se ,também,contra a “sacralidade “do livro,conforme pensavam os leitores,livreiros e escritores da época,que viam com horror de donzela,a necessidade de se vender como mercadoria esse objeto sagrado.

Lobato mostrou que o livro, sim,é um negócio como outro qualquer,que gera custos,logo ,tem que gerar receita,e apregoava aos quatro ventos:

-“Livro é sobremesa; tem que ser posto diante do nariz do freguês”, para horror dos puristas da época.

Acreditando nisto,e,ignorando solenemente as pedradas que recebeu toda a vida,na sua editora recusou-se a publicar medalhões e abriu caminho para novos autores desconhecidos como a Srª Leandro Dupré (Éramos seis),Osvaldo Orico,Pedro Calmon,Menotti dal Picchia,Oswald de Andrade, Paulo Setúbal e muitos outros,renovando a literatura nacional.

Mas,como vender?Esse era o busilis.

Que fez Lobato?

Criou uma rede de distribuição que se constituiu numa reviravolta editorial, introduzindo métodos práticos e funcionais; dirigindo-se ao Departamento de Correios e verificando a existência de mil e tantas agencias postais no pais, escreveu uma carta –circular a cada agente,pedindo a indicação de casas ou firmas que pudessem receber esta mercadoria chamada “ livro”.

Com muita surpresa viu que todas as agencias lhe responderam.

De imediato entrou em contato com comerciantes diversos perguntando-lhes se não quereriam aumentar seus lucros vendendo livros consignados,uma mercadoria como outra qualquer,batata,bacalhau ou querosene.

Logo,se não vendesse, o comerciante devolveria o produto cujo porte seria pago pela Editora.

Se os vendesse receberiam uma comissão de 30%.

E,enfático:-Responda se topa ou não topa.

Quase todos toparam. E Lobato passou de trinta e poucos vendedores anteriores,as livrarias,para cerca de mil e tantos postos de venda,lojas de ferragens,papelarias,farmácias,bazares etc.

As edições que não passavam de 400 exemplares subiram para três a quatro mil e os livros pululavam,às vezes,até seis lançamentos num mês.

Mas,Lobato havia inovado também na qualidade gráfica,no feitio das capas,substituindo as antigas e feias por capas desenhadas por nomes famosos das Artes Plásticas,como Lemi.

Lobato corria atrás do leitor,procurando saber onde morava,levando o livro pessoalmente em casa dele,batendo papo sobre tudo,fazendo do leitor um amigo.

Modestamente, confesso ,que ajo assim,também;cada leitor é meu amigo,quero saber dele,escrevo para ele,adoro seus comentários e sugestões.

Não tenho pudores para vender meus livros;sem ser invasiva ofereço,propago,procuro.

Quando penso em oferecê-lo a alguém, que acho que haveria de gostar da obra, e esse alguém não pede o livro,penso comigo:-Que pena!

E lamento não ser rica para poder presenteá-lo.

Este ser humano tão rico de idéias e pensamentos, Monteiro Lobato ,existiu.

E está sempre presente no meu pensamento. Sua influencia sobre mim ,desde a infância,pois,”Reinações de Narizinho” foi o primeiro livro que li,permanece até hoje e eu o amo como um pai espiritual que abriu para mim os caminhos do Conhecimento.

***Trecho da palestra que proferi “Monteiro Lobato,um homem de muitas Artes”,na Academia de Cultura da Bahia.
Lobatoé o escritor homenageado na Bienal do Livro 2010,em S. Paulo.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Amado Jorge

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Zélia, Jorge e Saramago: o mundo vai ficando mais pobre...

Agosto, ao contrário do que diz a tradição, não pode ser um mês tão azarado assim, pois, neste mês nasceu Jorge Amado. Dia 10, exatamente.

Leonino com todas as qualidades do signo que tem o sol como astro dominante, Jorge iluminava qualquer ambiente por onde passasse. Jorge era luz!

Não foi por acaso que Jorge nasceu na Bahia; a Bahia mereceu Jorge, ou melhor, ambos se mereceram e se amaram profundamente.

O escritor levou essa paixão aos quatro cantos do mundo; fez sua terra conhecida, seus costumes e tradições desvendados e despertou no mundo a curiosidade sobre esta terra mística e encantadora que fez nascer homens assim.

Seus personagens são eternos.

Jorge não se considerava um escritor, mas, um contador de estórias e, é sim, um dos maiores do mundo.

Despojado, humano, afável, perambulava pelas ruas de Salvador, reconhecido e aclamado por todas as classes sociais. Suas camisas estampadas e de forte colorido chamavam atenção.

Homem de hábitos simples, eu o encontrava sempre na Perini Master, sentado no banco da sua praça que o amigo Pepe inaugurou dentro do espaço da loja, enquanto Zélia, azafamada, percorria as gôndolas em busca de temperos especiais para o seu amor.

A primeira vez que o vi e lhe fui apresentada foi na casa de um amigo comum, o pintor Mirabeau Sampaio. Entre as centenas de santos barrocos e telas de pintores famosos como Aldemir Martins e painéis de Carybé, trocamos algumas palavras.

Mas,Mirabeau,amigo irmão, me contava vários causos sobre ele. Formavam um trio maravilhoso: Jorge, Mirabeau, Carybé, o argentino mais baiano do mundo.

Trocavam chistes, roubavam santos e sapos uns dos outros, falavam sacanagens, irreverentes todos eles, línguas despudoradas. Relembravam fatos da juventude, causos de colégio, o Vieira para Mirabeau e Jorge, o cassino Tabaris e os puteiros. Causos de mulheres da vida cheias de calor humano e caridade cristâ que faltam a muitas beatas, como aquela madame dona de castelo na Ladeira da Montanha que, ao saber da morte de Norma, bem – amada esposa de Mirabeau, presenteou-lhe com uma magnífica coleção de tangos argentinos, para consolar a dor da perda.Tangos que eu ouvi nos fins de tarde enquanto tomava um café e bebia sabedoria baiana dos lábios do meu amigo.

Jorge completaria 98 anos.

Como os escritores não morrem,ficam encantados, ele e Zélia devem ter comemorado o evento sentados naquele banco da casa do Rio Vermelho, ao lado dos grandes amigos, Mirabeau, Carybé e Caymmi.

Enquanto a cidade os reverencia, com os dobres dos atabaques, com a cadencia do samba, com os trejeitos das morenas sestrosas, com as talagadas de cachaça servidas no Pelourinho, onde novos Quincas passeiam e pastoreiam a noite, e no cais onde outros Mestre Manoel e o que resta dos saveiros preparam uma moqueca de peixe bem apimentada, pelas ruas e ladeiras da Bahia – pois com certeza sairiam para bebemorar – prostitutas, mestres de saveiros, capitães de areia, gigolôs, travestis, obás, filhas de santo, lhes pedirão a benção.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Entrevista da escritora Miriam Sales ao Jornal "Mais Bahia"

A proposta do MAIS LETRAS é mergulhar com você no mundo da literatura. Todas as semanas a Civilização Brasileira indica o que há de melhor nesse universo.

23/07/10


A escritora Miriam Sales conta sobre o livro "A Bahia de Outrora"

O Mais Letras dessa semana indica o livro A Bahia de Outrora. Para falar sobre a obra, conversamos com a autora Miriam Sales (foto). A escritora é uma ativista em defesa da literatura baiana e autora dos Contos e Causos e Maktub, além de centenas de crônicas publicadas na internet e em três blogs que ela mantém com atualizações diárias. Na nossa entrevista ela conta que a obra foi benéfica por lhe trazer grandes lembranças e muito mais. Confira!

Por Fabiana Oliva


MB - Do que se trata o livro A Bahia de Outrora?

MS - É um livro memorialista, porém, cabe no gosto do público de qualquer extrato social ou intelectual. Em crônicas curtas e bem humoradas, retrata uma Bahia do passado, revivendo seus costumes, tradições e crenças.

MB - Qual é o objetivo da obra?

MS - Mostrar às novas gerações como era essa Bahia patriarcal e provinciana, onde todos se conheciam, uma Bahia cordial, apesar das diferenças sociais que sempre estiveram presentes nessa nossa sociedade estratificada. Falo das famílias ricas e das lavadeiras do Abaeté; da cultura e tradição negra, influindo seriamente no nosso cotidiano e ajudando a formar gerações, como a Mãe Preta, homenageada no capítulo final.

MB - Como surgiu a idéia de escrevê-lo?

MS - Foi uma idéia antiga. Apaixonada pela Bahia queria deixar registrado seu passado nas páginas de um livro para que nunca fosse esquecido.

MB - Como foi o processo de construção da obra?

MS - Esse processo custou-me cinco anos de trabalho: pesquisas,conversas com mulheres mais velhas,sinhás e pretas velhas,com o povo do santo,leituras de livros antigos,e até velhos diários bem escondidos debaixo dos lençóis de cetim.Confissões de matronas respeitáveis para quem a Bahia de hoje seria pior que Sodoma e Gomorra juntas.

MB - Que lembranças esse livro trouxe da sua vida?

MS - Ah, muitas!Minha infância e adolescência, as festas de largo, o Sábado do Bonfim, as viagens de avião, usando luvas e chapéus, as visitas, a culinária, os namoros no portão, os chás nas Duas Américas, as viúvas e a negra do mingau. Os saudosistas vão adorar e os mais jovens vão morrer de rir.

MB - Como a Sra. analisa essa nova geração de jovens viciados no mundo virtual?

MS - A Internet é como a eletricidade; tanto ilumina como mata. O mundo ficou bem menor e as pessoas se encontram mais e se conhecem melhor virtualmente. Mas de uma forma muito interessante, pois, através da palavra digitada a gente acaba conhecendo melhor a essência da pessoa que vai além da sua aparência. Existem riscos, por isso, precisamos ter cuidado.

MB - A Sra. acha que o livro impresso vai acabar daqui uns tempos devido a chegada do livro digital?

MS - Espero que não! Para minha geração o cheiro, a cor, o volume do livro que a gente segura com carinho é imbatível. Entretanto, que venham os digitais, mais práticos e armazenando milhares de informações. Mas, note a TV não aposentou o cinema e o jornal digital ainda não substituiu o impresso.

MB - É fato sabido que várias gerações têm demonstrado desinteresse pela leitura. Na sua opinião qual é a melhor maneira de estimular o hábito de ler?

MS - A leitura jamais deverá ser forçada. Literatura não é disciplina, é indisciplina, devemos estimular o aluno a descobrir caminhos, abrir as portas da fantasia e imaginação. Toda obra literária contém os elementos primários da estória humana: amor, ódio, gozo, sofrimento, ciúme, paixão. Mas, o ciúme de Bentinho não é o mesmo do Otelo. Inútil obrigar as novas gerações a ler os clássicos. Eles chegarão lá através dos gibis, porque não? É uma longa caminhada.


Obra: A Bahia de Outrora
Autora: Miriam de Sales Oliveira
Editora: Via Litterarum
Preço sugerido: R$20,00


N.A.
A "Bahia de outrora" pode ser pedido diretamente à autora através do e-mail
miriamdesales@gmail.com e será enviado via sedex sem outro custo para o leitor além do valor acima mencionado.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A Festa do Divino

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Dizem que em 1765, as pessoas que viviam nas ilhas de Portugal, conhecidos como “os ilhéus”, costumavam sair em procissão, nas manhãs de domingo para esmolar. Trouxeram esta sua tradição para Salvador quando chegaram para trabalhar nesta terra.

Sempre traziam uma criança ricamente, vestida a quem chamavam “O Imperador”.

Os vigários das paróquias recebiam o menino e os pedintes com água benta e, depois, conduziam a criança para dentro da igreja até a capela – mor onde se sentava numa bela cadeira de espaldar .

Nesta época eram comuns as prisões por dívidas;então o Imperador acompanhado do seu séquito visitava as cadeias e soltava esses presos,sem maiores formalidades;apenas pagavam o que eles deviam.

A festa começava quando palanques eram armados no Largo de Santo Antonio Além do Carmo,seguidos de jantares públicos,além de cantorias,danças e diversões que,não raro,acabavam em desordens.

A confusão era tanta que o Conde de Lavradio,um sujeito de maus bofes,proibiu o furdunço.

Passado algum tempo,a irmandade do Divino Espírito Santo restaurou a figura do Imperador,escolhida entre os meninos ricos da cidade.

No sábado de Aleluia,os irmãos saiam ás ruas pedindo esmolas para a festa,sempre acompanhados de quatro garotos vestidos de branco com enfeites encarnados,usando chapéus de palha com a copa coberta de algodão.Dois deles tocavam pandeiros,outro tocava tambor e o último levava uma bandeira.

Os meninos cantavam essa trova:

Aleluia Virgem Santa,
recobrai doce alegria,
Cristo já ressuscitou
que glória teve Maria!

Saindo do Santo Antonio iam á igreja de Nazaré onde cantavam a saudação:

Deus vos salve ,santa casa
Deus vos salve,sacrário bento;
onde está bem colocado
o Santíssimo Sacramento.

Ainda hoje temos a Festa do Divino;mas,não com a mesma pompa e alegria.


Essa e outras histórias de antigamente estão no meu novo livro "A Bahia de Outrora".

domingo, 11 de julho de 2010

VOO DA GENITÁLIA

Fotografia "Hot Water" by Sidclay Dias
(Obra gentilmente autorizada pelo artista para essa postagem)


Em memória de José Saramago


(Parafraseando Antônio de Castro)

A ti, nobre embaixador do intelecto, da orgulhosa teimosia de viver,
da honesta palavra que nem sempre benefícios traz a quem as profere,
parabéns pela tua vida no momento da tua despedida. Até sempre!


I

Quando a noite
(ao coito) se entrega
o poeta alça seu sagrado masculino ao céu...
Faz-se de morto... Vela o espírito do sexo...
Cria poeticamente o sândalo...
Vê que seu poema agudo intermitente
(porque cãibra precoce e alienígena)
ejacula desmedidamente gotinha de silêncio
sobre o cálido broto do cálculo:
Torna-se gosma solitária da multiplicação
dos pães ateístas - E o é!
- Mas estando a par da símile brochura
poupa-se do cru,
penteia a franja do vento
e se entrega de vez à sórdida nudez
do orvalho.

II

Oh, vida minha!
Tu és igual ao enigma do inseto.
Por ti arde no escuro
o voo da genitália masturbada,
e a quilha copulada do segredo
invade os cornos poéticos
dos fracos...

Oh! Sê, para mim, o amanhecer gorduroso...

Com flores à porfia
corro do acocho que alimenta
o poderio das agruras reconvexas,
todavia eu sei me juntar
ao sabor de reconheçer-te imêmore
qual o mormaço que cerceia
o abraço.

III

Quando o dia
(ao poeta se entrega) cala a poesia
- morna e sem fôlego -
Cios e gritos revelam-se fotografias carnívoras
cujo album não resulta nem tão cult
nem tão objeto quase
quanto o estigma do belo
(que estufa o peito em aspiral)
afinado pela cobiça de amar
o lugar-comum da irmã-lágrima,
o códice do fim-tempo,
o aplauso da pá-lavra...

Oh! Nenhuma poética seria tão beat
nem tão insana
quanto aquela que no-la faria
acossar o prepúcio do medo,
o acinte da verve.

IV

Pensar, poema, no teu despir,
despe-se-me o coração,
o gozo da palavra - o medo e a não-poesia:
essa abdução cruel da fome
à baila do ato
de impelir-me à boca
outras soberbas gramáticas sadomasoquistas
(as mais palatáveis...)
sobretudo as que não prosperem
em circulo.

V

Despe-se. Despe-se
a ferrugem da idade - a audácia e o torpor que se contorce:
A locução adverbial da fala
quando atravessa corpos
como faca aguçada...
Cio que fode o texto...
Elegia quando alanceia o instante...
Nojo do erro do acrobata em cacho...
Elo lustrante do cigarro que ilude...
Vulva de clímax masturbada
- Essa ave sem palavra que margeia a lança -
que ama o sândalo qual machado
que bafora seus primeiros respingos
de borra e lanternagem
ao amanhecer do primeiro escarro.

VI

Devasso:

O célere cervo
imita o glúteo ermitão da palavra;
é o nervo-álibi do coito imponderável;
o ato-falho da cópula no sacrifício.

VII

Revelação:

(Nada a temer...)

O que vos nunca cuidei a dizer com tanta seiva,
vo-lo direi, porque me vejo
já por fugir do silêncio
- esse ódio que corta tal como o boquiabrir da língua;
o asno-estorno do cadafalso;
a afta-falação da partida;
a contramão do mano orgasmo;
o fim do fim.


© Benny Franklin

A NAU DOS INSENSATOS

Para alguns, a Vida é uma marcha de vencidos rumo à derrota final...

Como todo mundo me emocionei e me indignei com o novo “Caso Samudio” que a Imprensa noticia a todo momento e de todas as formas.

Como todo mundo ,também quero” exorcisar” o Mal,quero vê-lo longe do meu território,quero livrar-me do causador ,encarcerando-o para sempre.

Mas,todo crime,toda transgressão ,toda quebra do tecido social tem muitos aspectos.

Neste caso vem aflorando nitidamente o preconceito,sempre escondido e muito bem embrulhado,por ser,ele próprio,um desvio da sociedade.

Por isso nunca freqüenta reuniões sociais ,só aflora à boca pequena nos tititis nos cabeleleiros e bares da moda e na Internet.

Tenho ouvido e percebido o que se fala veladamente da Elisa,a moça sacrificada.

O escritor é um fotógrafo social e tem o dever de perceber,ler nas entrelinhas e analisar as tendências.

Comentários machistas procuram justificar o crime.Senhoras pias que freqüentam as igrejas,mães de família que até podem estar criando elisas sem o saber,homens apaixonados por futebol ou hipócritas de carteirinha (afinal são eles que produzem as elisas) andam falando ou insinuando sutilmente que ela teve o que merecia;afinal era uma prostituta,uma Maria – chuteira querendo se dar bem,uma atriz pornô que protagoniza aqueles filminhos que o senhor,Seu José,assiste nas madrugadas solitárias enquanto sua santa esposa dorme o sono dos anjos.

Isto me incomoda: a violência, o preconceito, o poder de julgar e destruir uma vida, barbaramente, hediondamente, apenas por ser uma vida transgressora, marginal, diferente daquelas vidas com as quais nossa sociedade não está acostumada a conviver, mas, está acostumada a produzir.

se existem prostitutas,atrizes pornôs e oportunistas é porque o nosso sistema as cria e chafurda nesse esterco social que determina até pela posição econômica quem deve ser escória e quem deve ser certinha.

A mesma sociedade que ajuda a promover bandidos a heróis,que paga centenas de milhares de dólares a indivíduos despreparados para a fama e riqueza mesmo sabendo que seu passado aparecerá pois somos seres biográficos,um dia ,aqueles genes aparecerão e até vamos deixando rastros pelo caminho como esse infeliz do Bruno,antes festejado,hoje execrado,mas,que já deixava vestígios de suas tendências violentas,ignoradas pela polícia,quando a Elisa pediu proteção.

Um assassinato não surge do nada; percorre um longo caminho desde a agressão verbal,um tapinha que a canção diz que não dói,os desentendimentos freqüentes em casa ,tudo isso somado à arrogância,ao orgulho e à sensação de impunidade de quem se acha acima do bem e do mal.

Que planeja,mata e quando tudo termina senta para tomar cerveja e falar de futebol;que,na própria delegacia faz planos para a Copa de 2014.

Àvida leitora de romances policiais desde menina quase que aposto que nessa estória cruel o buraco é mais embaixo;não pode ter causado tanta violência apenas uma investigação de paternidade;não seriam mobilizados tantos psicopatas e assassinos apenas por causa de um bebê e uma mísera pensão.Para mim,Elisa morreu porque sabia demais;viu o que não era para ver.

Esse crime, pela maneira que foi cometido,pelos participantes ,parece queima de arquivo,crime de tráfico.

Me corrijam se estiver errada.

Acorda,polícia!

IMG:Dos jornais

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Revivendo o Passado!

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O escritor Xavier de Maistre é o pai do livro “Viagem à roda do meu quarto”.

Para pessoas que não gostam ou não podem viajar,diz ele,um livro satisfaz plenamente;e, repare que na sua época não havia Internet.

Pensando nisto escrevi ”A Bahia de Outrora”,um livro que “abre a cortina do passado
tira a mãe preta do serrado
bota o rei negro no congado,
como queria Ari Barroso.

O livro é uma viagem pela Bahia Antiga,mas,com ligeiras alterações conta o passado do Brasil,suas raízes,tradições e costumes.

Fala das sinhozinhos e das mães pretas que as amamentaram, fala de enterros e viagens,de festas e costumes,das modinhas e das serenatas.

Não esquece os presépios e as procissões,os bailes e carnavais,as festas de largo e os cinemas,os namoros e casamentos.

A culinária baiana não poderia faltar nem os preceitos dos terreiros, menos ainda os banhos de cheiro e o corpo fechado.

Você sabe o que acontece se cai sal no chão? Mulher grávida deve comer farinha nova?

E o defunto,se enterra com os pés prá fora da casa?

O livro é importante para estudantes medianos ou universitários, para gente ligada ao turismo e,principalmente,para professores e Universidades.Depois de uma consulta prévia o enviei para as Universidades de Harvard e Coimbra que de bom grado o aceitaram.

Apesar de ser um livro focado na história,seus textos são curtos,concisos e bem humorados.

Para pedir o livro que, por enquanto, não vou pôr em livrarias, é fácil.

Peça pelo e-mail: miriamdesales@gmail.com e enviarei instruções para pagamento.O valor de $20.00 não é alto dada à qualidade da edição e conteúdo. Também pode ser adquirido pelo Mercado Livre em até 10 vezes.

Após o lançamento oficial dia 18 de julho quando estará nas livrarias possivelmente não poderei garantir este preço.

Sinceramente, gostaria que cada leitor pudesse ter este livro;fosse eu rica,não o venderia,distribuiria à mancheias para todos.

Agradeço aos meus editores Via Litterarum que me mostrou como editoras sérias trabalham; à Fundação Pedro Calmon pela força que me deu ao apresentar o livro para projetos governamentais; para o amigo virtual José Carlos Daltozo,de Martinópolis,oferecendo-me oferecendo-me os postais antigos sobre a Bahia que ilustram a capa e o miolo do livro tirados da sua enorme coleção particular e ao amigo virtual e mestre de Informática, Júlio Araújo,cujas dicas sensacionais muito me ajudaram na divulgação do mesmo.

E agradeço principalmente a você,leitor,que prestigiou o meu trabalho de três anos,levando o livro para casa.

Boa diversão!

Miriam de Sales Oliveira é escritora com 06 livros publicados, membro da Academia de Letras de Poções e da Câmara Baiana do Livro.

sábado, 19 de junho de 2010

A Longa Viagem do Elefante

A LONGA VIAGEM DO ELEFANTE

A notícia da morte de Saramago (Morte de Saramago? sinto q/ ainda não me caiu a ficha!) me alcançou num dia feliz.

Estava num hotel em Salvador com meus cunhados portugueses tramando um passeio pela Bahia histórica, onde nossos antepassados comuns, deixaram a sua marca.

Naquele momento, para mim,o sol se pôs;o maior escritor da língua portuguesa de repente, não mais estava lá;tinha ido,como ele desenhava assim a morte.

Levantada do chão fiquei eu.

Sem ter para quem apelar passei uma mensagem telepática para Blimunda,aquela que recolhia os espíritos,no livro “Memorial do Convento”,pedindo-lhe que nos trouxesse de volta este monumento da literatura mundial.

Sem resposta, juntei a coragem e as lições de vida e paciência que recebi do Cipriano Algor,tentando imaginar-me sem novos livros de Saramago.

O escritor, dizia ele,é como todos os homens:sonha.

Então, vamos considerar como um mau sonho esse acontecimento.

Saramago vive!

Vive nas centenas de personagens que criou, vive nos livros que espiam para mim na prateleira da minha biblioteca,vive nos momentos de felicidade que esses textos me proporcionaram,vive no autógrafo que me deu em Lisboa,esse fato,por si mesmo,uma estória de amor.

Meu marido, o português Raul, que detesta filas chamem-se elas filas ou bichas,como em Lisboa,ficou ,de pé,cerca de uma hora até conseguir para mim o autógrafo daquele que ele sabia ser o autor do meu coração.

Está aqui, o livro “Ensaio sobre a cegueira”,agora,ao meu lado,como uma presença eterna do escritor que tanto admirei e admiro,estando nesta ou noutras paragens.

Que não me deixe muito cair na cegueira mental e nem me deixe faltar a sua presença através da sua obra que contém toda a humanidade.

Termino com as palavras do próprio Saramago,que,como eu,também teve o seu pilar aonde pudesse descansar as costas batidas pela vida.Como o português Raul é para mim.

"Viver aquilo que ainda tenho para viver, que, com esta idade, não pode ser muito, mas vou tentar por duas, três ou quatro razões vivê-lo bem. Não é viver na farra porque nunca fui disso, viver bem como tenho vivido com a Pilar que foi algo que eu não podia esperar que me sucedesse".

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Intelectuais Brasileiros e os Escritores Populares

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Entre os dias 26 e 27 de maio estive num seminário sobre Jorge Amado , bancado pela Companhia das Letras e que contou com mediadores e palestrantes ,acadêmicos paulistas e baianos,além de escritores e jornalistas.

Fui representando a Câmara Baiana do Livro,mas,iria de qualquer jeito,mesmo recém – chegada da Bienal de Minas,pois os temas eram importantíssimos e a equipe,excelente.

Sem contar que lá estava o José Eduardo Agualusa,escritor angolano de boa cepa que eu sempre quis conhecer.

Os temas foram variados; tratou-se desde as capas e traduções dos livros do autor,espalhadas pelo mundo todo,até suas preferências políticas,seus personagens inesquecíveis,como Dona Flor e Quincas Berro D’água,o sincretismo da sua obra e até o comentado “aburguesamento” do escritor, desde a revolução de 64.

Tive a sorte de conhecer o Jorge e a Zélia , através de um amigo comum,Mirabeau Sampaio,mas,- helás- nunca ficamos íntimos,primeiro e sobretudo pela minha natural timidez que me impedia de me achegar aos famosos,pois sei,como a abordagem é antipática.Aliás,uma atitude que era do próprio Jorge,também.

Relendo páginas do seu livro auto-biográfico “Navegação de Cabotagem”,encontro textos que bem definem o escritor e o homem,ambos coerentes um com o outro.

Selecionei este:

“Os intelectuais da elite brasileira,os de esquerda e os de direita,irmãos gêmeos na pretensão e na tolice,uns quantos imitam os europeus,a maioria é fotocópia dos ianques,de brasileiros não têm quase nada;mesmo livresco e limitado,o saber os coloca acima da cidadania,sentem-se superiores,repudiam a criação popular,viram a cara,tapam o nariz á rua,á praça,ao folclore,o povo fede e eles são uns senhoritos.”

Descobriram agora,meus leitores porque o Jorge nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras?

A Academia odeia escritores que vendem livros ,acha que os campeões de venda são escritores “menores”,de segunda, e prefere apoiar os “mestres e doutores”,que escrevem em academês e o povo não entende nem lhes compra os livros.

Agora , até que mudou um pouco seu conceito,mas,a meu ver,para pior,pois o fardão é vestido por “globais” , e autores de obras menores e pouco importantes,tais como coletânea de frases e assuntos musicais,ou biografias escandalosas.

Jorge Amado , Darcy Ribeiro,claro,não teriam vez.Nem esta escriba que escreve essas mal – traçadas,sempre em linguagem popular,mas,que,pelo menos,vende livros.

Existem escritores brasileiros que amam a brasilidade, como Antonio Torres , Antonio Cândido, o quase esquecido Adonias Filho,criadores da cultura mestiça do Brasil com S e existem os outros, que repetem de oitiva o discurso importado e bestialógico,como diz Jorge.

sábado, 1 de maio de 2010

Assembléia Paraense - Prêmio AP de Literatura

Assembléia Paraense - Prêmio AP de Literatura

Coquetel na Boate da sede social para os vencedores do Prêmio AP de Literatura.
Os três primeiros colocados nas categorias crônica, conto, poesia e infanto juvenil foram homenageados e receberam as respectivas premiações.

PREMIAÇÃO - Poesia
Benjamin da Costa Franklin - Benny Franklin
Obra: Filamentos de um poema em pedaços
1º Lugar

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Diversidade Cultural

Existe uma linha tênue entre o que é pobreza e o que é riqueza cultural, entre o que é popularmente aceito por uma sociedade e o que é culturalmente benéfico para a mesma.

É necessário, porém, considerar sempre a capacidade criativa, o livre-arbítrio (o livre exercício da mente, ou a liberdade de escolha) e a formação cultural do indivíduo e da sociedade em que vive para se analisar estes conceitos sob um ponto de vista imparcial e contribuir para a consolidação de culturas tão diversas num planeta tão diverso.

A dificuldade resulta do fato de que todas as pessoas são iguais, mas ao mesmo tempo tão diferentes no modo de pensar, de agir, de criar, que torna sua convivência um verdadeiro desafio. Principalmente porque, em parte, muitos dos maiores disseminadores da cultura são os menos favorecidos economicamente e menos reconhecidos.

É indispensável, nos dias de hoje, sobretudo, valorizar mais as diferenças sem expor ou ferir os indivíduos em seus direitos e igualdade.


César dos Anjos
Autor de poesias, crônicas, contos e microcontos
Blogs de Literatura:
http://cesardosanjos.blogspot.com/
http://sistemapoetico.blogspot.com/

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Poema do Maestro Jorge Antunes em homenagem aos estudantes brasilienses nos 50 anos de Brasília

21/04/2010

Qual a diferença entre um coração de estudante e um coração de cinquentão?

Velho coração alerta!
O cinquentão sempre espera
a utopia, a quimera,
fraternidade por perto,
um coração bem aberto
e um grande amor em oferta.

Jovem coração alerta!
Doce ímpeto de luta,
coragem absoluta,
chega logo, abre a faixa.
O estudante sempre acha
alguma janela aberta.

domingo, 18 de abril de 2010

Papai Balzac e o casamento

Balzac, apesar de celibatário convicto, sabia das coisas.
Seu livro, ”A Fisiologia do Casamento”, narra com humor e irreverência, os prazeres e percalços da vida conjugal, vista à maneira francesa nos idos de 1830.
O maior problema do casamento nesta época, era o desconhecimento, para as moças do que aconteceria no leito conjugal e, para os homens, o total descaso sobre os mecanismos da fisiologia feminina, cujo despertar do desejo era mais tardio e totalmente diferente do desejo masculino; o amor romântico recém inventado, povoava de contos de fadas o imaginário dessas garotas e a violência brutal do desejo masculino, ”exigindo carícias, plenas, obscenas”, como fala a música de Chico, assustava de tal modo as donzelas, que, praticamente, o casamento terminava aí.
Balzac aconselhava: – “Nunca comecem o casamento por uma violação”.
Ele comparava, de modo magistral, o recém casado a um orangotango tentando tocar violino.
Um rico banqueiro estava a tocar seu violino, no jardim, quando Balzac reparou o macaco do dono, trazido de Bornéo, vir se achegando, de mansinho, embevecido, escutando os sons.
Num dado momento, o banqueiro se ausentou e deixou o violino no parapeito da janela; como a corrente que prendia o bugio era muito comprida, ele passou a mão no violino e correu com ele para baixo de uma árvore.
O nosso antepassado agarrou o instrumento e cheirou-o, como se fosse uma banana.
O violino emitiu um acorde e o macaco sacudiu a cabeça, voltou-o, mirou-o, de todos os ângulos, levantou-o no ar, agitou-o, colocou-o perto do ouvido, o largou no chão, tornou a apanhá-lo, com um ar de completa desconfiança e agradável surpresa.
Pôs o violino debaixo da barba e segurou com força, mas, ao ver o violino mudo, achou que não valia a pena perder tempo aprendendo a lição. Começou a puxar as cordas com vigor e saíram sons discordes, como era de se esperar.
Enraivecido com o seu fracasso ao produzir música, agarrou o arco e começou a surrar as cordas, sem dó, nem piedade; depois de destruir completamente o violino, sentou-se e começou a desfiar as louras sedas do arco, feito em pedaços.
Deste dia em diante, sempre que vou a um casamento, diz Balzac, não deixo de comparar o novel marido a um orangotango tentando tocar violino.
O amor é a mais doce e melodiosa das harmonias, disso sabemos.
A mulher é um delicado instrumento de prazer (as feministas vão querer o meu sangue, mas, sosseguem, garotas, é o Balzac dizia, não eu), mas, é necessário conhecer-lhe as cordas vibráteis, estudar-lhes a posição, dedilhar com maestria o teclado, acariciar as cordas.
Quantos orangotangos – digo – maridos casam sem ter noção do corpo da mulher!
Despedaçam o coração que não compreendem e falam de amor do mesmo jeito que escravos natos falam de liberdade; por ouvir dizer.
Começam por arrombar a porta alheia e querem ser bem recebidos na sala.
Mas,qualquer artista sabe que a dedicação e o conhecimento do seu instrumento, anos de observação e estudo é que cria a harmonia da música; assim, tocam uníssonos e ambos se tornam uma só alma.
Homens, maridos ou amantes, ajudei em alguma coisa?
Se querem uma melodia maravilhosa aprendam, ao menos, a tocar o instrumento.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A sabedoria do Luís...

Muitas mulheres consideram os homens perfeitamente dispensáveis no mundo, a não ser naquelas profissões reconhecidamente masculinas, como as de costureiro, cozinheiro, cabeleireiro, decorador de interiores e estivador.

É «de esquerda» ser a favor do aborto e contra a pena de morte, enquanto direitistas defendem o direito do feto à vida, porque é sagrada, e o direito do Estado de matá-lo se ele der errado.

Quando o casamento parecia a caminho de se tornar obsoleto, substituído pela coabitação sem nenhum significado maior, chegam os gays para acabar com essa pouca-vergonha.

Você é o seu sexo. Todo o seu corpo é um órgão sexual, com exceção talvez das clavículas.

Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data.

A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer «escrever claro» não é certo mas é claro, certo?


Luís Fernando Veríssimo