*É um Lusófono com L grande? Então adira ao MIL: vamos criar a Comunidade Lusófona!*

MIL: Movimento Internacional Lusófono | Nova Águia


Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de uma centena de milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por mais de meia centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia. Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.
SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
NIB: 0036 0283 99100034521 85; NIF: 509 580 432
Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).

Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

Colecção Nova Águia: https://www.zefiro.pt/category/zefiro-nova-aguia

Outras obras promovidas pelo MIL: https://millivros.webnode.com/

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
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sábado, 17 de outubro de 2026

Miguel Real, sobre as "Visões de Agostinho da Silva: de Portugal à Lusofonia", edição revista e aumentada...


 "Visões de Agostinho da Silva: de Portugal à Lusofonia", de Renato Epifânio (Sintra, Zéfiro, 2024).

ISBN: 978-972-8958-26-8

Para encomendar: info@movimentolusofono.org

Colecção Nova Águia: https://www.zefiro.pt/category/filosofia-nova-aguia

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sábado, 10 de outubro de 2026

Agostinho da Silva, primeiro inspirador da CPLP...

Cármen Maciel, "A construção da Comunidade Lusófona a partir do antigo centro", Tese de Doutoramento em Sociologia, Fac. Ciências Sociais e Humanas, Univ. Nova de Lisboa, 2010 (Tese vencedora da 4ª edição do "Prémio Fernão Mendes Pinto"), Lisboa, Instituto Camões, 2015, p. 50.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

As lições de Agostinho da Silva para os próximos 25 anos de CPLP

 No dia em que se celebram os 25 anos da criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, o presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados do Brasil, Aécio Neves, escreve sobre as origens da criação do grande grupo lusófono...

Há 25 anos germinava uma semente plantada há mais de meio século na política brasileira: nascia, em Lisboa, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP. Costuma-se remontar o processo de criação da CPLP à histórica cimeira de São Luís do Maranhão, que reuniu, pela primeira vez, chefes de Estado e de governo dos países de língua portuguesa. No entanto, nesse primeiro jubileu de prata, gostaria de resgatar a herança de Agostinho da Silva, o principal semeador de nossa Comunidade.

O professor Agostinho, como é conhecido entre nós, brasileiros, deixa Portugal em 1944 e busca abrigo no Brasil, onde se naturalizou em 1958. Ao chegar, encontra terreno fértil para o resgate de tradições locais e, por meio destas, relançar a universalidade da lusofonia. Neste Brasil da década de cinquenta, quando fervilhavam ideais de autonomia e desenvolvimento, Agostinho aproxima-se de duas figuras chaves na política brasileira: Afonso Arinos de Melo Franco e José Aparecido de Oliveira. Ali começa a germinar a semente cujo primeiro broto, no Brasil, é a Política Externa Independente, com seu viés africanista e o apoio ao processo de descolonização. A partir desta semente de autonomia no universalismo, semeada por Agostinho, chegamos à cimeira de São Luís, em 1989, e à fundação formal da CPLP, em 1996.

Fomos sete na criação. Hoje, somos nove países que buscam aprimorar sua capacidade de cooperação. E estamos bem acompanhados: nesses 25 anos, 18 nações amigas se tornaram Estados associados à CPLP. Neste “mundo, mundo, vasto mundo”, como diria o poeta Carlos Drummond de Andrade, mais do que países, nossa língua reúne povos. Essa era a principal mensagem do professor Agostinho e dos Centros de Estudos Afro Orientais que fundou nas universidades brasileiras.

Também em Agostinho devemos buscar inspiração para enfrentarmos os desafios do presente. Para ele, todo projeto de comunidade terá sempre três “S” em sua raiz: saber, sustento e saúde. E, nestes eixos, nossa CPLP buscou aprofundar sua cooperação. Temos, hoje, uma cooperação em agricultura e segurança alimentar bem estruturada, por meio do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSAN) e do compartilhamento de experiências na produção de alimentos. Mas podemos avançar também no compartilhamento de tecnologias de sustentabilidade da produção.

Na área de saúde, tão central no contexto atual, aprovamos o Plano Estratégico de Cooperação em Saúde. Mas também podemos fazer mais. O presente desequilíbrio entre vacinados e não vacinados no mundo é inaceitável. Temos, no Brasil, instituições capazes de contribuir para aumentar a produção mundial de vacinas e medicamentos.

Para isso, o Congresso brasileiro trabalhou com afinco e aprovou a modernização da nossa lei de patentes, permitindo que, em situações de pandemia, possamos avançar de forma rápida e conjunta na produção e distribuição de medicamentos.

Nossa cooperação na agenda de clima também precisa se aprofundar. O Brasil tem matriz energética limpa e larga experiência em tecnologias verdes. Devemos avançar a transferência de tecnologia dentro dos países da CPLP. Não será discriminando a agricultura tropical que vamos superar os desafios da mudança do clima. Não nos esqueçamos de que milhares de cidadãos em nossos países dependem da agricultura para gerar renda e sustento.

Os tempos não são fáceis e extremismos abundam mundo à fora. Mas nós, na lusofonia, vamos iniciar nossa jornada rumo aos próximos 25 anos da CPLP já de posse do recém-concluído Acordo sobre Mobilidade entre os Estados Membros da CPLP, celebrado em julho deste ano, em Luanda. Quanto mais mobilidade, maior nosso sentimento de pertencimento a nossa comunidade e maiores são as trocas entre os povos.

Diante destes desafios, o Congresso Nacional no Brasil prepara-se para aprofundar nossa cooperação parlamentar. Nossos parlamentos congregam a pluralidade e a riqueza de nossas sociedades. É nos Parlamentos que a língua se manifesta em sua forma mais concreta, aquela da ação política e a da transformação da realidade. À luz da herança de Agostinho da Silva, é com profunda honra que saúdo a todos, em nome da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados do Brasil, e os convido a homenagearmos os 25 anos da nossa Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Aécio Neves – Brasil in “Semanário Expresso”

Aécio Neves - Presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados do Brasil

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Para o Agostinho: no dia em que faria 113 anos...


Foste o Filósofo da nossa Terra
Foste um Filósofo sem Terra
Só do Mar

Demasiado pouco foi Portugal para ti
A tua Pátria sempre foi muito maior
Maior do que Portugal, maior do que o Brasil

És o Farol da Lusofonia, a Luz que não se apaga
O Homem do Leme desta Nau que ainda parte
Aquele que nos guia neste perpétuo nevoeiro

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Também no Jornal Público: Agostinho da Silva, "maltratado"?

Escreveu Paulo Trigo Pereira no jornal “Observador” (11.04.2017) um interessante artigo intitulado “Agostinho da Silva: Amado e Mal-Tratado”, onde denuncia, a nosso ver com acerto, que Agostinho da Silva tem sido “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”.
Sendo a denúncia acertada, as explicações que Paulo Trigo Pereira expõe no seu artigo não acertam, de todo, a nosso ver, no alvo. Dito isto, gostaríamos desde já de ressalvar que não pomos minimamente em causa o agostinianismo de Paulo Trigo Pereira, até porque sabemos, por experiência própria, que há muitas formas de ser agostiniano – formas diferentes, muito diferentes, e até contraditórias. Com efeito, Agostinho da Silva consegue, ainda hoje, congregar pessoas das mais diversas proveniências filosóficas, ideológicas, religiosas, etc.
Feita esta (para nós) importante ressalva, vamos então à nossa explicação para o facto de Agostinho da Silva continuar a ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”. No essencial, isso deve-se, a nosso ver, à sua visão do país, bem distante (para dizer o mínimo) da visão defendida quer por parte de certa “inteligentzia nacional”, quer e sobretudo pelas instituições públicas.
Compreendemos que, para Paulo Trigo Pereira, que se assume como um “federalista europeu”, o assunto seja incómodo, mas a verdade é que, ainda em vida, Agostinho da Silva expôs as maiores reservas a uma visão oficial do país que, no essencial, reduzia Portugal à então C.E.E. (Comunidade Económica Europeia). Na altura, sobretudo por isso, Agostinho da Silva foi de facto ridicularizado e posto de parte: era, alegadamente, um “passadista”, um “velho do Restelo”, senão mesmo ainda um “homem do Império”, que não aceitava o que nos foi impingido como o (único) futuro, com os resultados que estão hoje à vista de todos.
Na verdade, desde há muito tempo, Agostinho da Silva defendia um outro futuro para Portugal. Apenas alguns exemplos: num texto publicado no jornal brasileiro O Estado de São Paulo, com a data de 27 de Outubro de 1957, Agostinho da Silva havia proposto “uma Confederação dos povos de língua portuguesa”. Num texto posterior, chegará a falar de um mesmo “Povo não realizado que actualmente habita Portugal, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, o Brasil, Angola, Moçambique, Macau, Timor, e vive, como emigrante ou exilado, da Rússia ao Chile, do Canadá à Austrália” [“Proposição” (1974)].
Por tudo isso, chegou a defender: “não me pareceu que a revolução de 1974, tal como estava a ser feita, conduzisse a alguma coisa em que valesse a pena colocar essas ideias. Pareceu-me que era um pronunciamento militar sem grande largueza política” (in Vida Conversável, Lisboa, Assírio & Alvim, 1994, p. 53). Face a uma posição como esta, como poderia, de facto, Agostinho da Silva não ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”? A nosso ver, não poderia. Vamos até mais longe. Se for apenas por esta razão, melhor será que Agostinho da Silva continue a ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”. Prova de que, no essencial, continua a ter razão, já mais de vinte anos após a sua partida.
 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Agostinho da Silva e a Galiza


A visão agostiniana da Galiza emerge no âmbito da sua reflexão sobre Portugal, sobre o seu sentido histórico. Desenvolveu Agostinho da Silva essa reflexão em diversas obras, desde logo, na sua Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa, obra publicada no Brasil, em 1957. Nessa obra, logo no primeiro capítulo, Portugal e Galiza aparecem a par, “como dois noivos que a vida separou”. Separação que Agostinho lamenta, por Portugal sobretudo, dado que, como nos diz, se ela não tivesse ocorrido, “talvez o ouro da Índia e Brasil tivesse dado maior proveito e se não tivesse, em plena época de afluxo de riquezas, de fazer aportar ao Tejo frotas de cereal e pão”.

Separado da Galiza, Portugal perdeu pois, à luz desta visão, as suas raízes mais profundas, o seu Norte. Eis, dir-se-ia, o “pecado original” da formação de Portugal e das futuras Descobertas. Nesta visão da História, não é, contudo, essa separação, essa cisão, um horizonte inultrapassável. Eis o que o próprio Agostinho da Silva, de resto, nos havia já antecipado no seguimento da passagem da sua Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa que há pouco transcrevemos, essa em que lamentava a nossa separação, a nossa cisão, com a Galiza – como aí escreveu: “Mas tempo vem atrás de tempo; se há ‘talvez’ para o passado da História, há ‘talvez’ igualmente para o futuro da História; pode ser que um dia a reintegração da Península em si mesma, na sua liberdade essencial, se faça através da reunião de Portugal e da Galiza. Dos dois noivos que a vida separou.”.

Talvez que, contudo, sob uma perspectiva outra, essa separação, essa cisão, tenha sido historicamente necessária. Eis o que, pelo menos, o que o autor de Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa sugere numa outra sua obra – Um Fernando Pessoa, publicada dois anos depois, em 1959 –, quando aí desenvolve uma visão triádica de Portugal, à luz da qual “o primeiro Portugal foi – nas suas palavras – o Portugal da velha unidade galaico-portuguesa, o Portugal lírico e guerreiro das antigas de amigo e das velhas trovas do cancioneiro popular; nele estiveram – como acrescenta ainda – as raízes mais profundas da nacionalidade e nele sempre residiram as inabaláveis bases daquele religioso amor da liberdade que caracteriza Portugal como grei política”.

Para que Portugal pudesse barcar, talvez que, contudo, tivesse que se cindir da sua arca... Eis, com efeito, o que, no seguimento desta passagem, Agostinho da Silva implícita senão mesmo expressamente defende ao afirmar que esse “Portugal da velha unidade galaico-portuguesa” era “demasiado rígido para as aventuras da miscigenação, da tessitura económica e do nomadismo que não reconheceria limites”. A ser assim, essa cisão foi, pois, genesíaca – dado que dela resultou toda a demanda das Descobertas! Poderia, como expressamente salvaguarda o próprio Agostinho da Silva, no segundo capítulo da sua Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa, não ter sido assim – nas suas palavras: “O Português podia ter resistido ao apelo do longe, Portugal podia ter-se recusado à acção.”. Contudo, como se questiona ainda o próprio Agostinho da Silva: “…se Portugal não tivesse embarcado, quem teria embarcado?”.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

De Agostinho da Silva: a última entrevista, o primeiro de novos livros?



Ao contrário da Revista NOVA ÁGUIA, que foi programada para funcionar como um relógio suíço – e assim tem acontecido, em cada semestre, com cada novo número a sair na data prevista –, a Colecção NOVA ÁGUIA tem crescido de forma mais errática. Ainda assim, desde 2008, foram publicados, contando já com este título, mais de meia centena de volumes.

Sem desvalorizarmos nenhum dos outros títulos – alguns dos quais da nossa própria autoria – não podemos deixar de destacar este: Agostinho da Silva - A Última Entrevista de Imprensa (Zéfiro, 2016). Por ser de quem é e, não menos relevante, pela circunstância em que sai.

Com efeito, após 2006, ano do centenário do nascimento de Agostinho da Silva, em que se publicaram vários títulos de e sobre este pensador que para nós é o mestre maior da Lusofonia, nos últimos anos esse fluxo que parecia emergente estagnou quase que por inteiro, o que é tanto mais estranho porquanto ainda há bastantes inéditos de Agostinho da Silva por publicar e havia um grupo de pessoas dispostas a trabalhar na publicação desses inéditos.

Com a enfermidade que tem vindo a vitimar Pedro Agostinho da Silva, o seu filho mais velho e representante dos restantes herdeiros, uma espécie de maldição veio a vitimar igualmente todo esse trabalho, pondo inclusive em causa o que havia sido já feito. Sabemos do que falamos, ainda que, por enquanto, não queiramos falar de tudo o que sabemos. Mas chegará o dia em que diremos tudo – fica aqui a promessa. E quem nos conhece sabe que assim será.

Por enquanto, falamos apenas, por exemplo, de uma “exigência” feita à Associação Agostinho da Silva para que retirasse do seu portal a digitalização, que nós próprios realizámos, da série Iniciação: Cadernos de Informação Cultural, promovidos por Agostinho da Silva nos primeiros anos da década de 40 – algo sem, no presente, qualquer valor comercial, mas relevante para todos aqueles que pretendam estudar a Obra de Agostinho da Silva. Essa “exigência” não foi, pelo menos até ao momento, aceite, e não acreditamos que venha a sê-lo. Mas o simples facto de ter sido feita denota bem a situação absurda – passe o eufemismo – a que chegámos.

Por tudo isso, saudamos pois, efusivamente, a edição deste livro, em que se publica a última entrevista concedida à imprensa por Agostinho da Silva e que só conhecíamos numa pequena parte – aquela que foi na altura publicada no jornal “Raio de Luz” e que referimos no nosso estudo Perspectivas sobre Agostinho da Silva na imprensa portuguesa (Zéfiro, 2008). Que esta última entrevista seja o primeiro de uma série de novos livros de Agostinho da Silva, eis o voto que aqui formulamos. Não era ele, Agostinho, que acreditava no imprevisível?

Agenda MIL – esta semana, mais duas sessões de apresentação da NOVA ÁGUIA: 1 de Julho - 16h: Biblioteca Municipal do Sabugal | 2 de Julho - 17h: Casa das Histórias Paula Rego (Cascais)

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Uma Biografia de Agostinho da Silva


1. Comecemos por falar sobre o autor desta obra colossal (O Estranhíssimo Colosso. Uma Biografia de Agostinho da Silva, Quetzal, 2015, 735 pp.): António Cândido Franco. Não tanto para salientar a sua já vasta obra – recordamos aqui alguns títulos: Memória de Inês de Castro (1990), Eleonor na Serra de Pascoaes (1992), Vida de Sebastião, Rei de Portugal (1993), A literatura de Teixeira de Pascoaes (2000), Os Descobrimentos Portugueses e a Demanda do Preste João (2001), A Rainha Morta e o Rei Saudade (2003), Viagem a Pascoaes (2006), A saga do Rei Menino (2007), A herança de D. Carlos (2008), Vida Ignorada de Leonor Teles (2009), Os pecados da Rainha Santa Isabel (2010) e Notas para a Compreensão do Surrealismo em Portugal (2013) –, ou sobre a sua carreira académica na Universidade de Évora – onde é professor há já bastantes anos –, mas sobre o seu carácter, mais precisamente, sobre um traço do seu carácter que valorizamos em particular.
Ao contrário do que é hábito – sobretudo, arriscamos dizê-lo, em Portugal –, António Cândido Franco lida bem com o diferente, ou seja, consegue dialogar com quem tem posições muito diversas das suas, conseguindo até, nalguns casos, admirar essas pessoas, sem que isso implique qualquer abdicação da sua posição de partida. Dou um exemplo recente: a recensão que António Cândido Franco publicou no nº 15 da Revista NOVA ÁGUIA (1º semestre de 2015) da obra O Puto – Autópsia dos Ventos da Liberdade, de Ricardo Saavedra. Esta obra, para quem não o tenha presente, é ela própria uma biografia, no caso de alguém que, nas palavras de António Cândido Franco, “viveu o lado errado e em geral esquecido da Revolução dos Cravos” – acrescentando: “Este homem não viveu, como tantos de nós, o 25 de Abril mas apenas a descolonização. Em vez de alegria, sentiu medo; em lugar de euforia, a depressão; em vez duma libertação, o pânico de perder casa e vida. É de pasmar que o herói deste livro, já encarcerado, no feriado do 25 de Abril traje de luto pela pátria morta? Não cremos. Está na lógica do livro e da personagem.”.
Não conhecemos muitas pessoas que, comungando o mesmo ideário de António Cândido Franco, tenham igual grandeza de carácter para escreverem o que acabei de citar – de imediato, lembro-me de Raul Proença, que salienta a “belíssima alma” de Teixeira de Pascoaes no mesmo gesto em que assume a dissidência em relação à “Renascença Portuguesa”. A regra entre nós é a contrária: as divergências acabam (quase) sempre em desqualificações: se alguém não concorda connosco é porque, em última instância, padece de alguma falha de carácter ou de inteligência. É bem mais complicado, com efeito, admitir, para mais de forma expressa, que os nossos adversários – ou mesmo os nossos inimigos – sejam pessoas no mínimo tão bem-intencionadas quanto nós, por mais que, objectivamente, consideremos que estejam do “lado errado”. Daí, de resto, o erro absoluto daqueles que reduzem os diferendos ideológicos a divergências éticas – da extrema-esquerda à extrema-direita, passando decerto por todas as variantes do centro, há pessoas bem-intencionadas. A diferença não está pois aí.
 
2. Mas regressemos a este colossal livro, não tanto pelo seu tamanho (mais de setecentas páginas), como, sobretudo, pela sua ousadia: fazer uma Biografia de Agostinho da Silva. Sabemos bem que esta era uma tarefa tão desejada por muitos quanto ciclópica, dados os muitos “buracos negros” que existiam na vida de Agostinho da Silva. António Cândido Franco, desde já o dizemos, não traz à luz todos esses “buracos negros”. Mas conseguiu realizar uma obra que merece, na íntegra, esse subtítulo: “Uma Biografia de Agostinho da Silva”. E sublinhamos aqui o artigo, que parece ter escapado a alguns comentadores mais apressados: trata-se aqui de “Uma Biografia de Agostinho da Silva”, não de “A Biografia de Agostinho da Silva”.
Isso é desde logo relevante porque toda esta Biografia se desenvolve a partir de uma perspectiva: a de António Cândido Franco, necessariamente. Assim, tal como o próprio Agostinho da Silva nos deu, numa das suas mais conhecidas obras, “Um Fernando Pessoa” e não “O Fernando Pessoa”, assim também António Cândido Franco” nos dá “Um Agostinho da Silva” e não “O Agostinho da Silva”. Tanto mais porque, ao longo da obra, António Cândido Franco parece-nos enaltecer mais as dimensões da vida e obra de Agostinho da Silva em que mais se reconhece – e ao dizermos isto não estamos a fazer, como alguns poderão pensar, um juízo negativo.
Temos aqui bem presente a lição daquele cuja obra, a par de Agostinho da Silva, mais estudámos no âmbito do pensamento português contemporâneo – falamos de José Marinho. Escreveu ele que “quando expomos um pensador devemos dar toda a força ao seu pensamento” – defendendo ainda, citando Schopenhauer, “tal atitude é, em relação a eles, a mais adequada e é, para o nosso próprio pensamento, a mais proveitosa”. Ou seja: António Cândido Franco, ao ter – como escrevemos – enaltecido mais as dimensões da vida e obra de Agostinho da Silva em que mais se reconhece, procurou dar (e bem) “toda a força ao pensamento” agostiniano. Nós, decerto, faríamos diferente – mas com o mesmo objectivo. Também nós, com efeito, tendemos a enaltecer mais as dimensões da vida e obra de Agostinho da Silva em que mais nos reconhecemos.

O retrato que António Cândido Franco nos dá de Agostinho da Silva é pois um seu retrato, mas é, inequivocamente, um retrato verdadeiro. Verdadeiro e generoso: mesmo que algumas passagens possam não agradar a alguns gostos mais conservadores (e isso chegou a acontecer connosco – não temos qualquer complexo em assumi-lo), António Cândido Franco procurou sempre aquele que seria, na sua perspectiva, o melhor ângulo, o ângulo mais favorável ao retratado, mesmo quando não escamoteia as dimensões mais chãs de qualquer existência humana. Em todas essas dimensões, foi, com efeito, Agostinho da Silva um homem maximamente viril, maximamente enérgico. Um colosso, numa palavra. Só acrescentaríamos “estranhíssimo” porque, nos nossos tempos, homens assim são cada vez mais raros. Verdadeiramente, Agostinho da Silva não foi um homem do nosso tempo.

 

3. Esse é, de resto, na nossa perspectiva, o maior paradoxo da existência de Agostinho da Silva – como é que alguém que não foi verdadeiramente do nosso tempo conseguiu prever, melhor do que ninguém, o Portugal pós-imperial. Antecipando a previsível catástrofe, tentou, ainda nos anos sessenta, avançar para uma verdadeira Comunidade Lusófona. O Estado Novo não lhe deu ouvidos. A Revolução em curso também não: “…a ideia geral talvez fosse, e eu próprio a defendia e procurei no princípio da guerra em Angola, junto de autoridades portuguesas, por exemplo de um embaixador no Rio, pôr-lhes essa ideia na cabeça... fazer das colónias e de Portugal uma comunidade de língua portuguesa. Ideia que expus a Franco Nogueira quando vim a Portugal, em 1962, convidado pelo Governo português para discutir o estatuto do Centro de Estudos Portugueses em Brasília. O ministro Franco Nogueira, ministro dos Estrangeiros nessa altura, recebeu-me e pudemos conversar com toda a franque­za, perguntando-me ele se eu achava que a ideia de uma comunidade luso-brasileira seria bem recebida no Brasil, respondi-lhe que não. Exactamente por causa da atitu­de que Portugal estava a tomar com as colónias, com Angola naquela ocasião, o Brasil de nenhuma maneira ia aceitar isso, pois recordava-se muito bem que tinha sido colónia. A meu ver, Portugal tratou o Brasil muito bem quando foi colónia e se não tivessem sido os portugueses, o Brasil não se teria constituído. Mas o Brasil muitas vezes achava que os portugueses tinham tido defeitos na colonização — a meus olhos esses defeitos não existiram, embora houvesse muita coisa individual de tipo geralmente conotado com a colonização rapinante dos países. Mas não me parecia que naquela altura aceitassem uma coisa dessas. Mas havia algo que achava que aceitavam e que tomava a liberdade de expor a Franco Nogueira, que de resto tinha tido relações com um grande amigo meu, o poeta Casais Monteiro, e, portan­to, eu podia falar com uma certa liberdade, por isso disse-lhe que o que me parecia que se devia fazer era uma comunidade luso-afro-brasileira com o ponto africano muito bem marcado. Quer dizer, se pudesse, eu poria o ponto central da comunida­de, embora cada um dos países tivesse a sua liberdade, a sua autonomia, em África, talvez Luanda ou no interior de Angola, no planalto, de maneira que ali se congre­gassem Portugal e o Brasil para o desenvolvimento de África e para que se firmasse no Atlântico um triângulo de fala portuguesa — Portugal, Angola, Brasil — que pudesse levar depois a outras relações ou ao oferecimento de relações de outra espé­cie aos outros países. Então Franco Nogueira disse-me que isso era completamente impossível, que Portugal não se podia dividir e que não havia nada a fazer nesse ponto. De maneira que eu continuo a pensar que, aquando da revolução em 1974, se poderia talvez ter tentado isso.” (in Vida Conversável, Lisboa, Assírio & Alvim, 1994, pp. 51-52).
Resta perguntar se, esgotada a ilusão europeísta, que, como sabemos, Agostinho da Silva igualmente antecipou, chegou a hora de tentar de novo. Nós consideramos que sim.
Renato Epifânio
Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Notícia da Agência Lusa sobre o 109º aniversário de Agostinho da Silva

"O Estranhíssimo Colosso" é o título da primeira biografia sobre Agostinho da Silva, da autoria de António Cândido Franco, e vai ser apresentada sexta-feira, dia 13, quando passam 109 anos sobre o nascimento do filósofo, no Porto.

Para assinalar a data do nascimento do portuense Agostinho da Silva, que defendeu a Lusofonia e a criação de um passaporte lusófono, o escritor e professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Évora, António Cândido Franco, apresenta "O Estranhíssimo Colosso", em Lisboa, na Livraria Bertrand Picoas Plaza, com o apoio da Associação Agostinho da Silva.
Editada pela Quetzal, é "a primeira biografia que se faz sobre este pensador português", disse hoje à Lusa Renato Epifânio, da Associação Agostinho da Silva, especialista e investigador da obra do filósofo.
Segundo Renato Epifânio, havia alguns períodos da vida de Agostinho da Silva que se podiam considerar "buracos negros", designadamente quando andou pelo Uruguai e pela Argentina, fases da vida do pensador português que dificultavam o trabalho aos biógrafos.
António Cândido Franco, que conheceu pessoalmente Agostinho da Silva, debruçou-se "a fundo" sobre a biografia do filósofo, durante três anos.
As duas últimas frases da obra "O Estranhíssimo Colosso" são: "Tenho os braços desfeitos. Escrever uma biografia de Agostinho da Silva é andar com o mundo ao colo".
George Agostinho Baptista da Silva nasceu a 13 de fevereiro de 1906, na travessa Barão de Nova Sintra, freguesia do Bonfim, no Porto, numa família da pequena burguesia originária do sul do país. Frequentou Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e concluiu a licenciatura com 20 valores.
Morreu há 20 anos, com 88 anos, a 03 de abril de 1994, em Lisboa, no Hospital de São Francisco Xavier.
Professor particular de Mário Soares, na juventude do ex-Presidente da República, visita assídua da casa do ex-ministro da Justiça Laborinho Lúcio, admirado pelo ensaísta Eduardo Lourenço, Agostinho da Silva foi "corrido do ensino", em Portugal, em plena ditadura do Estado Novo, quando se negou a assinar um documento de compromisso a não pertencer à maçonaria. Optou então pelo exílio, na década de 1930, em Madrid, até à eclosão da Guerra Civil de Espanha e, depois, na América do Sul, a partir de meados dos anos 40.
Agostinho da Silva viveu no Uruguai, em 1945, onde lecionou História e Filosofia em escolas livres de Montevideu, viveu também na Argentina, em 1946, onde organizou os cursos de Pedagogia Moderna para a Escola de Estudos Superiores de Buenos Aires e fixou-se no Rio de Janeiro, Brasil, entre 1948 e 1952, país onde fundou várias universidades.
Liberdade era algo que o filósofo portuense entendia como algo inerente ao próprio homem e, por isso, afirmava que a sociedade não tinha mais nada que fazer se não "proporcionar as condições para que essa liberdade pudesse ser exercida", disse à Lusa a responsável pelo Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Celeste Natário.
Para Agostinho da Silva, o trabalho não deve ser entendido como algo que torna a nossa vida difícil, mas como algo que devemos fazer com prazer.
Há cerca de 50 anos, Agostinho da Silva falava dos meios de comunicação e das novas tecnologias como uma forma positiva de libertar o homem de trabalhos menos interessantes e esse trabalho passaria a ser feito pelas máquinas e os humanos ficariam, sim, reservados a tudo o que tivesse a ver com a criatividade.
As civilizações clássicas foram uma fonte para Agostinho da Silva. Defendeu uma tese sobre "Teixeira de Pascoaes", autor que foi uma referência no seu percurso. Outro, que estudou e muito estimou, foi Fernando Pessoa, que chegou a conhecer em Lisboa.
A apresentação de "O Estranhíssimo Colosso" tem início pelas 18:30, na Livraria Bertrand Picoas Plaza, em Lisboa, com o apoio da Associação Agostinho da Silva.
Agência Lusa

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

NOVA ÁGUIA 2014: nos 20 anos da morte de Agostinho da Silva...

Em 2014, assinalando os 20 anos da morte de Agostinho da Silva, a NOVA ÁGUIA irá publicar um conjunto de cerca de meia centena de Cartas de Agostinho Silva para António Telmo. Os nossos agradecimentos ao Círculo António Telmo, por mais esta muito generosa oferta. 

"Os portugueses hoje, coitados, acho que nem sabem que existem como portugueses; esperemos que ainda acordem no nosso tempo; dependerá de acordarmos nós plenamente primeiro, e de lhes dar depois uns bons gritos para os acordar a eles." (12 de Outubro de 1968) 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Em Julho, Agostinho da Silva na FNAC Chiado (Lisboa)




Iniciativa da Associação Agostinho da Silva

Há vinte anos atrás, prestes a falecer, Agostinho da Silva parecia, a muitos, um pensador desactualizado, ultrapassado, anacrónico. 
Portugal vivia então a sua adolescente e provinciana paixão europeísta. Virara as costas ao mar e a todo espaço lusófono, julgando que a Europa lhe bastaria. Por isso, tudo apostou na integração europeia. Na altura, Agostinho da Silva bem que nos alertou para o colossal erro que estávamos a cometer – foi ignorado por muitos e até ridicularizado por alguns. 
Vinte anos depois, a história veio dar razão a Agostinho da Silva. O colossal erro que então cometemos tornou-se entretanto evidente para (quase) todos e daí que cada vez mais se fale de “Lusofonia”. Se a palavra “troika” tem sido a palavra-chave em Portugal nestes últimos anos, a palavra “Lusofonia” será decerto, para nós, a palavra-chave do século XXI. 
Como sempre acontece, há quem o não perceba e, refém de paradigmas estrangeirados, nos fale da “Lusofonia” de forma enviesada, qualificando-a até, pasme-se, como um “projecto neo-colonialista”. Na nossa intervenção, salientaremos a actualidade de Agostinho da Silva enquanto prefigurador da convergência lusófona entre nós: “Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica”.

terça-feira, 4 de junho de 2013

“Uma tarde atlântica com Agostinho da Silva” - 8 de Junho, 15:30: Casa do Bispo, Sesimbra

“Agostinho da Silva e Sesimbra”, por Pedro Martins;

“Agostinho da Silva e a Lusofonia”, por Renato Epifânio;  
 
Apresentação do audiolivro Agostinho da Silva, Intervenção Oral no Martinho da Arcada/Grupo de Jograis U… Tópico, por Rui Lopo.
 
Seguir-se-á, no momento mais aguardado da tarde, a actuação dos Jograis, que lerão textos de Agostinho.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Celebração de Agostinho da Silva no dia do seu aniversári​o | 13 de Fevereiro | 16h | CASA BOCAGE

Celebraremos Agostinho da Silva no dia do seu aniversário. Assim, no próximo dia 13 de Fevereiro (quarta-feira), pelas 16h, será feita a apresentação do audiolivro
Agostinho da Silva, Intervenção oral no Martinho da Arcada /Grupo de Jograis U…Tópico.
Trata-se do registo de uma intervenção oral de Agostinho da Silva realizada no restaurante Martinho da Arcada a 14 de Outubro de 1988, por ocasião de um encontro alusivo ao aniversário de Álvaro Campos (CD1) e de textos de Agostinho da Silva ditos pelo grupo de Jograis U...Tópico (CD2).
A apresentação do audiolivro será feita por Rui Lopoe contaremos com a actuação de elementos do grupo de Jograis U…Tópico, trovadores defensores da poesia e prosa portuguesas.
Organização: Divisão de Museus da Câmara Municipal de Setúbal e Associação Agostinho da Silva.

sábado, 1 de setembro de 2012

De Agostinho: "ciência é demasiado simples para o universo""


[o] descobrimento da causalidade estatística, que é talvez o mais importante do nosso tempo, pode apenas pôr a ideia de que a ciência é demasiado simples para o universo, de que por ela não podemos ir a nada mais do que probabilidades, o que de resto é perfeitamente bastante para a técnica; mas, como o cálculo de probabilidades é matemática, salva-se por aí tudo quanto há na ciência de coerência lógica, de nítido encadeamento do raciocínio puro, no entanto, a primazia do conhecer passa decididamente, indo além do artista e do filósofo, para os domínios da mística: a qual mística, muito ao contrário do que se tem dito, tem pouquíssimo que ver com irracionalismos e com intuições bergsónicas.[1]


[1] “Ciência e Mística”, in O Estado de S. Paulo, S. Paulo, 06/03/1947.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

De Agostinho: "Spinoza é ainda um filósofo do futuro"


Se, porém, havia razão e a fé que se abrigam no íntimo do homem, faltava o mundo que o circunda; e o mundo chegou com os descobrimentos portugueses e espanhóis, um mundo como nunca o tinham sonhado os filósofos antigos e os teólogos medievais: eram só factos o que traziam os navegadores, e os factos abriam brechas irreparáveis no edifício eclesiástico. É a segunda grande crise do pensamento ocidental: novamente aparecem os cépticos e os investigadores de minúcias e os que simplesmente descrevem, ou estão os místicos em que a religiosidade é apenas uma forma de fugirem aos problemas que a vida levanta à sua volta; os medievalistas defendem as suas posições com o ardor com que se tinham batido outrora os pagãos do tempo de Celso; mas estes lutavam pela sobrevivência da razão, ao passo que os escolásticos batalham pela sobrevivência da fé; a razão não está em perigo sério: um pouco mais tarde fará bom pacto com a realidade por intermédio de Bacon e Descartes e assegurará inteiramente a sua posição com Leibniz e Kant: para a fé abre-se uma época de apagamento; apenas na Espanha a mística floresce, ausente, porém, da razão e do mundo físico, divorciada da crítica. Só um peninsular também, mas educado em pleno centro de reflexão intelectual, pôde unir todos os elementos que pareciam discordes por sua própria natureza: a filosofia de Spinoza vai para além do seu tempo e, mesmo para nós, Spinoza é ainda um filósofo do futuro.[1]


[1] “Filosofia Nova”, in O Estado de S. Paulo, S. Paulo, 16/02/1947.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

De Agostinho: "os homens se suicidam..."


Suicidam-se exactamente nos países em que por motivos diversos mais sentem a presença da máquina e o seu tédio: suicidam-se no Japão e suicidam-se nos países escandinavos; subirá a taxa de suicídio em todos os países que se foram mecanizando, sem que a par se crie a possibilidade do risco, da aventura, da incerteza, e de todo o despojamento a que a aventura obriga: e muito mais a de espírito do que a material: muito mais do que a que tem por objectivo salvar o corpo, a que o tem no salvar da alma. Mas, de certo modo, os que se estão matando dão a vida por nós: para que aprendamos que só uma perfeita ascese se pode aguentar a abundância.[1]


[1] “Escassez, Abundância e suicídio”, in O Estado de S. Paulo, S. Paulo, 24/07/1960.

domingo, 26 de agosto de 2012

De Agostinho: "o Brasil como guia do mundo"


Do mais seguro que temos nos tempos futuros que já hoje se desenham é que o Brasil virá a ser guia do mundo. Católica reserva de um catolicismo universal a ele confluíram, por milagre da história, e aqui usamos milagre no sentido de manifestação da lei suprema, essencial e simples, influências dos três continentes. O não existir aqui na altura dos descobrimentos nenhuma alta civilização como as que encontraram os espanhóis fez que se não opusesse à cultura nova que entrava nenhuma barreira de elites interessadas em que o antigo se mantivesse; o terem vindo da África só escravos e, como escravos, homens cujos quadros culturais já tinham sido despedaçados, quer pelas próprias migrações africanas, quer pelos ataques dos descobridores brancos, contribuiu igualmente para que o Brasil recebesse apenas o que era como que instintivo no povo, como que fazendo agora parte de sua natureza, e não como mais ou menos artificialmente elaborado por um escol; finalmente, a permanência relativamente curta dos funcionários portugueses, não privando o Brasil dos benefícios de uma política altamente planejada, livrou-o por outro lado de todos os malefícios a que dá lugar o excessivo acomodamento; o que ficou foi também povo.
Lentamente a Nação se foi elaborando e principia hoje a aparecer como uma série de características que prenunciam o futuro. Não falo muito neste ponto do Brasil da costa, o que é necessariamente em grande parte de carácter europeu, embora de uma Europa já muito batida, felizmente, pelos influxos da terra. Falo do Brasil que fica para dentro, do tal Brasil de igarapés, chapadões e cochilas, do Brasil que tentou defender-se e afirmar-se, quando ainda era cedo demais, nos sertões da Bahia e nas fronteiras de Santa Catarina e ter uma voz religiosa no Juazeiro místico e ter um surto artístico nos escultores de ex-votos, nos poetas de romance e peleja, nos teatrólogos de Catrinetas e Bumbas. E falaria, se já tivesse estudado sob este ponto de vista, noutro Brasil que vai ser extremamente importante quando a História se decidir a dobrar a sua esquina: o Brasil marginal de morros e favelas.[1]


[1] “Brasil, Índia e China”, in O Estado de S. Paulo, S. Paulo, 05/02/1956.

sábado, 25 de agosto de 2012

De Agostinho: "Perante a carência, duas atitudes são evidentemente possíveis..."


"é impossível, em vida natural, limitar um aumento de população, embora os nossos costumes sexuais sejam também, ao contrário do que parece, um estádio de civilização. Um aumento de população traz como consequência imediata uma diminuição das áreas disponíveis, e por conseguinte a carência. Perante a carência, duas atitudes são evidentemente possíveis: a de a ela se resignar, morrendo, e é, por exemplo, o que acontece com animais de fácil reprodução abandonados a si próprios num espaço confinado; ou de se bater procurando meios de fabricação e de armazenamento. Foi esta última solução que adoptou o homem primitivo. Daí o sedentarismo; a propriedade colectiva ou particular, em que a primeira forma apenas atenua os males fatais que vêm de possuir e apenas permite formas mais amplas de técnica; todas as características sociais de um legalismo estatal; dum poder absoluto, ou quase, do pai; e de cultos religiosos, de que é tipo o romano, em que se afirma a disciplina social.
Quem principia uma batalha deve levá-la até ao fim. Nós, na realidade, herdámos uma batalha; mas temos na mesma que a levar até o fim. Isto é, até podermos considerar que o grupo humano se libertou daquilo a que poderíamos chamar as suas limitações de área. Temos que levar as técnicas às suas últimas consequências, porquanto só as técnicas poderão assegurar a nossa sobrevivência criando os recursos que se não encontram na natureza. Quaisquer que sejam os riscos que possamos enfrentar, e que são os mesmos de uma guerra, temos de manter a disciplina social, e de aproveitar as ciências e as máquinas ao máximo que elas possam produzir (...)".

“Duas idades de ouro”, in O Estado de S. Paulo, S. Paulo, 14/08/1955.