http://dre.pt/pdf1sdip/2009/07/13400/0446704467.pdf
MIL: Movimento Internacional Lusófono | Nova Águia
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).
Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
Colecção Nova Águia: https://www.zefiro.pt/category/zefiro-nova-aguia
Outras obras promovidas pelo MIL: https://millivros.webnode.com/
"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"
Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)
A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)
Agostinho da Silvasegunda-feira, 23 de novembro de 2009
Porque neste país de nome Portugal temos de ser nós a buscar a informação toda, uma vez que raramente nos é fornecida devidamente
http://dre.pt/pdf1sdip/2009/07/13400/0446704467.pdf
Uma aberração…
A classe política portuguesa é particularmente inculta. E isso vê-se, também, no respeito (leia-se: subserviência) que tem em relação aos “artistas”. Sobretudo no poder local: e daí a multiplicação de aberrações que têm conspurcado a nossa paisagem…Agostinho da Silva: in "Um Fernando Pessoa"
“O primeiro Portugal foi o Portugal continental, o da defesa contra a Espanha, ou melhor, contra Castela, e, porventura, sobretudo, o Portugal da velha unidade galaico-portuguesa, o Portugal lírico e guerreiro das cantigas de amigo e das velhas trovas do cancioneiro popular; nele estiveram as raízes mais profundas da nacionalidade e nele sempre residiram as inabaláveis bases daquele religioso amor da liberdade que caracteriza Portugal como grei política (…).”.
“Terminada, porém, a fase de expansão, outro Portugal entrou em jogo e muito mais adaptado à sua tarefa do que o Portugal do Norte, demasiado rígido para as aventuras da miscigenação, da tessitura económica e do nomadismo que não conhece limites, e, no entanto, firmaria fronteiras (…).”
“[Finalmente, o terceiro Portugal] É um Portugal que não tem seu centro em parte alguma e cuja periferia será marcada pela expansão de sua língua e da sua cultura de Pax in excelsis que ela levar consigo (…): [é] o Portugal da Hora, o Portugal de Bandarra, de Vieira e da Mensagem (…).”
Milhafre – apontamentos do corvo
1. Visita diária ao Milhafre: coisas novas lá estão, tanta coisa a dizer. Tanta coisa a fazer. Releio o texto de Pessoa, lembro-me dessa edição de 1979 do Sobre Portugal - li-a na altura, tanto tempo parece ter passado. Se calhar tanto tempo passou: "... o português que o não é (...) é o que governa o país. Está completamente divorciado do país que governa (...)". Era decerto assim em 1920, ainda era um pouco assim quando pela primeira vez li essas linhas. Hoje, o português que o não é refez o país à sua imagem. Por isso já nem sequer governa, e pouca gente dá por isso. O deserto basta-se a si próprio.
2. Só, incessante, um som de flauta chora... se nos não guiar a voz dos poetas, a voz funda e nocturna dos poetas, quem nos dirá de caminhos a andar? E no entanto - ou por isso mesmo - o nosso trabalho passa e depende das coisas pequenas. Assim a viagem grande das naus, que se ergue dos marujos e da firmeza simples das cordas.
3. África (Bahia?) uma imagem e um anúncio breve da Miriam. A imagem, forte, fica por detrás do texto que o Clavis aqui deixou: economia de serviços, agricultura, falsa riqueza, destruição de um país. Tenho que voltar a isto. Questão fundamental, por detrás também de todas as outras: como orientar a viragem? Os nossos primeiros marinheiros aprenderam que regressar não é apenas voltar para trás. Soubemos, ou souberam os europeus por nós, acumular montanhas de oiro que se transformaram em fábricas que se transformam agora em coisa nenhuma. E é verdade que o interior está deserto, que a terra é precisa, que o artesão dá às coisas um sabor que é feito de vida e água. Mas quantos de nós quererão mesmo embarcar? Dizem-me que a D. João II não faltavam capitães - como arranjavam eles os grumetes e os remadores? Talvez em cada um de nós haja um Gama, um Nicolau Coelho: ai de nós se não houver, ai dos marinheiros do mar. Pois já não estamos no princípio do mundo.
4. A mesma questão no manifesto do vale do Tua que o António José Borges nos traz. E preferirei sempre as coisas concretas, eu que não sou um activista, um engagé (como se dirá isto em Novi-americano?). Deveríamos talvez ser a rede de todas as redes, o lugar de todos os lugares. Hoje no Público, o Ribeiro Telles falava nas árvores - uma a uma. Há um texto magnífico do Saint-Exupéry sobre a concentração do carpinteiro na sua tábua - lugar e fundamento do navio.
5. Não conheci o Agostinho da Silva. Mas conheci alguns "proscritos desta merda toda". Como o lobo das estepes do Herman Hesse, são eles que guardam as portas da cidade adormecida. Sim, Klatuu, os efeitos da palavra e da viagem e da aliança são incomensuráveis.
6. A Europa é provisória, o Ocidente é eterno. O lugar de Portugal na Europa - e o lugar da Europa em Portugal - serão ainda um pretexto para MIL conversas. Aqui o nómada serei eu, exílio voluntário e companhia ao rei encoberto. Mas fica-me uma questão mais ou menos colocada num comentário, "o que é ser Europeu?". Pela minha janela olho a noite lisboeta. Europeu é aquele cuja pátria é feita de pedra e de madeira, e da lei que é a pedra e o fundamento e que não é palavra eterna de um deus nem capricho fácil de um homem. Aquele cuja pátria está nas palavras deixa-me triste o Outono, ou era uma vez uma princesinha, ou partiu à aventura, e o mar. Ser europeu é sentir o vazio da Europa-das-coisas.
Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal
Dom Sebastião, Cristovão de Morais, 1571, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa. A representação do Rei vestido com armadura e acompanhado por um galgo retomam simbolicamente a imagética imperial do seu bisavô Dom Manuel I e do seu avô Carlos V da Alemanha.
Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também.
Outro é o português que o não é. Começou com a invasão mental estrangeira, que data, com verdade possível, do tempo do Marquês de Pombal. Esta invasão agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a República. Este português (que é o que forma grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) é o que governa o país. Está completamente divorciado do país que governa. É, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido.
Há um terceiro português, que começou a existir quando Portugal, por alturas de El-Rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas, criou a civilização transoceânica moderna, e depois foi-se embora. Foi-se embora em Alcácer Quibir, mas deixou alguns parentes, que têm estado sempre, e continuam estando, à espera dele. Como o último verdadeiro Rei de Portugal foi aquele D. Sebastião que caiu em Alcácer Quibir, e presumivelmente ali morreu, é no símbolo do regresso de El-Rei D. Sebastião que os portugueses da saudade imperial projectam a sua fé de que a família se não extinguisse.
Estes três tipos do português têm uma mentalidade comum, pois são todos portugueses mas o uso que fazem dessa mentalidade diferencia-os entre si. O português, no seu fundo psíquico, define-se, com razoável aproximação, por três característicos: (1) o predomínio da imaginação sobre a inteligência; (2) o predomínio da emoção sobre a paixão; (3) a adaptabilidade instintiva. Pelo primeiro característico distingue-se, por contraste, do ego antigo, com quem se parece muito na rapidez da adaptação e na consequente inconstância e mobilidade. Pelo segundo característico distingue-se, por contraste, do espanhol médio, com quem se parece na intensidade e tipo do sentimento. Pelo terceiro distingue-se do alemão médio; parece-se com ele na adaptabilidade, mas a do alemão é racional e firme, a do português instintiva e instável.
A cada um destes tipos de português corresponde um tipo de literatura.
O português do primeiro tipo é exactamente isto, pois é ele o português normal e típico. O português do tipo oficial é a mesma coisa com água; a imaginação continuará a predominar sobre a inteligência, mas não existe; a emoção continua a predominar sobre a paixão, mas não tem força para predominar sobre coisa nenhuma; a adaptabilidade mantém-se, mas é puramente superficial – de assimilador, o português, neste caso, torna-se simplesmente mimético.
O português do tipo imperial absorve a inteligência com a imaginação – a imaginação é tão forte que, por assim dizer, integra a inteligência em si, formando uma espécie de nova qualidade mental. Daí os Descobrimentos, que são um emprego intelectual, até prático, da imaginação. Daí a falta de grande literatura nesse tempo (pois Camões, conquanto grande, não está, nas letras, à altura em que estão nos feitos o Infante D. Henrique e o imperador Afonso de Albuquerque, criadores respectivamente do mundo moderno e do imperialismo moderno) (?). E esta nova espécie de mentalidade influi nas outras duas qualidades mentais do português: por influência dela a adaptabilidade torna-se activa, em vez de passiva, e o que era habilidade para fazer tudo torna-se habilidade para ser tudo.
Fernando Pessoa, Sobre Portugal – Introdução ao Problema Nacional, recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão, introdução organizada por Joel Serrão, Lisboa, Ática, 1979, p. 6.
Carta que nos chegou...
Gostaria de parabenizar pelo novo, bem organizado blog. A riqueza do conteúdo também é estimável.
Já tivemos um primeiro contato com o MIL através do Blog Nova Águia, onde divulgamos o nosso trabalho também em defesa a Língua Portuguesa e todos os países que falam a nossa Língua. O Blog www.revistalusofonia.wordpress.com conta com colaboradores de diversos paises e diferentes formações. Doutores de renomes, como o Advogado Ives Gandra da Silva Martins, o Jornalista e Prof. Universitário João Alves das Neves, Drª. Regina Anacleto, Drª Maria Beatriz Alcântara entre outros. Nesse sentido colocamos o conteúdo do nosso blog a disposição do MIL e contamos com futuros intercâmbios.
Abraços.
Fabiola Nese
O Imperador
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
– Perdida voz que de entre as mais se exila,
– Festões de som dissimulando a hora.
Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.
E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?
Só, incessante, um som de flauta chora...
Camilo Pessanha
É a meio da noite amarelada, húmida e miasmática, a coberto de olhares, que os jovens aprendizes de advocacia chinas se dirigem a casa do branco de barba comprida a pedir-lhe esclarecimento, quiçá convívio; para os orientais a desgraça, ainda por mais a do ópio, é um opróbio social pior que a lepra, mas aquele senhor é uma inteligência admirável, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, poucos no território de Macau sabem tanto das leis do colonizador como ele, e não menos fundo é o seu conhecimento da sociedade macaense. Este acabado professor de filosofia do Liceu de Macau, ex juíz de comarca, que escreve versos incompreensíveis, vive agora os seus dias sem sair do leito, o veneno sempre ao lado, numa bandeja, debaixo da cama, onde a sua governanta e concubina chinesa lhe prepara o ópio diário e nocturno. Quem o procura, chega e assiste ao ritual. Como é estranho este Português vencido pelo inferno das ásias, o seu intelecto é rápido na resposta, mas evolui segundo as regras dos países oníricos, agarra num pau de fósforo que molha no tinteiro e assim escreve o que precisa, ou assina aquilo que as exigências de ainda estar vivo o obrigam. Há muito que já só usa o pau de fósforo, magro, distante, bisonho que se abria num sorriso luminoso cada vez que o interpelavam, era visto pelos seus alunos como uma criatura de outro mundo, um mundo impossível chamado Império Português do Sonho.
Morreu discretamente em Macau, no dia 1 de Março de 1926, em silêncio, devorado pelo ópio. Viveu como uma sombra e morreu como uma sombra. Escreveu os poemas mais originais e belos de toda a literatura de língua portuguesa. Escreveu pouco. Nada fez para que a sua obra fosse publicada, escrevia em folhas soltas, que perdia, que oferecia aos amigos e amigas, não guardava cópias, mas sabia todos os seus poemas de memória. Viveu num tempo ido, coberto hoje de vã glória e ressentimento estúpido, num tempo ido chamado Portugal.
K. N.
«Lembro-me de o ver chegar de Coimbra. Não sei agora se já estava formado ou não. Suponho que nessa altura andava a rondar a casa dos 30. Era bem apessoado. Tinha um ar triste mas era alegre. À noite passava muito tempo junto à lareira. Era onde a família se reunia. Ele deitava-se no chão e recitava versos. Fazia-o tão bem! Por essas alturas escreveu alguns mas logo os rasgava. Parece que os escrevia só para os decorar e depois fazia o papel em pedaços.»
Germano Silva, Jornal de Notícias, 14 de Setembro de 1967 – in Homenagem a Camilo Pessanha, org., prefácio e notas de Daniel Pires, IPOR, Instituto Cultural de Macau, 1990, pág. 88.
Mamma África!
Sobre a metade de azeite que importamos e da reorientação da economia
http://www.saudelar.com/Portugal tem desde a Idade Média como exportação tradicional o azeite. Certo? Errado. Quase metade do azeite consumido em Espanha é importado de Espanha. Com efeito, a cada ano quase 50 mil toneladas de azeite espanhol atravessam a fronteira, totalizando mais de 285 milhões de euros à nosso crónico défice comercial. A produção tem subido mas a federação de produtores FENAZEITE diz que ao ritmo atual ainda faltam uns bons quatro anos para atingir a auto-suficiência. É claro que este é um "wishful thinking", supondo que nada se radical se altera no mercado, que os espanhóis não incrementam ainda mais a sua conhecida táctica de "dumping" comercial e que o governo não decide vender a Bruxelas a troco de subsídios como os que premiaram a destruição da nossa frota pesqueira (a favor da espanhola) ou o arranque de vinha (a favor da produção francesa). Portugal tem que regressar aos princípios fisiocráticos que determinavam que era na riqueza produzida nos campos que residia a riqueza e prosperidade das nações, e nas produções em que os nossos solos são especialmente favoráveis, como os frutos secos, as hortaliças, os vegetais, a vinha, o azeite ou a madeira, devem acontecer uma verdadeira aposta estratégica, desviando o país do rumo para uma estéril e improdutiva "economia de Serviços" delineada no apogeu do funesto "Cavaquismo" dos anos 90 e que nos custou a evaporação da maioria da malha industrial e a secundarização do setor agrícola.
Há atualmente uma alta dos preços da maioria dos bens alimentares. Esta tendência, com a continuada explosão demográfica, é para ficar e num país que importa dois terços dos alimentos que consome, pode representar a bancarrota ou a prosperidade, consoante nos tornemos em importadores ou exportadores. Ao contrário do que é propalado, temos bons solos, mas estão hoje selvaticamente ocupados por construções imobiliárias de baixa ou nula qualidade. Redesenhemos a esquadria da nossa geografia humana, redistribuindo a população pelo interior quase ermado e economicamente desertificado, priorizaremos a agricultura sobre o setor terciário, dominado pela Banca e pelos Seguros, que nada produzem além de escândalos financeiros, honorários faraónicos e lucros babilónicos. Tornemo-nos auto-suficientes onde tal for economicamente possível, exportemos aquilo que for exportável (como o azeite, cuja metade do consumo hoje importamos) e importemos de nações amigas - como o Brasil - aquilo que não é rentável produzir internamente.
Em suma, reorientemos o país para a Produção e deixemos o Consumo a quem o pode pagar, aderindo aos princípios da frugalidade e da razoabilidade da "pegada de consumo" que a Banca nos fez crer como essenciais a uma "vida feliz", mas que na verdade apenas serviu para criar défices externos cumulativos e incomportáveis em torno de um crescimento não-sustentado para o setor financeiro, que a prazo, e pela via do crédito malparado o há também fazer sucumbir.
Fonte: http://aeiou.expresso.pt/azeite-metade-do-que-portugal-consome-vem-de-espanha=f546293
Uma boa causa
URL: www.peticao.com.pt/vale-do-tua
O Nordeste Transmontano tem vindo a perder população a um ritmo assustador. Uma situação que decorre do abandono ao qual a região tem sido votado pelo Poder Central e para a qual também contribuiu a decisão de encerrar, nos últimos 20 anos, cerca de 300 Km de via férrea, com promessas de desenvolvimento através de estradas como o IP4. O resultado ruinoso significou a atrofia das trocas comerciais, agravamento nos custos de transporte, obrigando pessoas e serviços a abandonarem a região.
A construção da Barragem na Foz do Tua irá agravar esta situação de isolamento, cortando a ligação desta região à rede ferroviária nacional e será mais um atentado ás potencialidades da região. A Barragem inundará uma vasta área do Vale do Tua e cerca de 17 km da Linha Férrea do Tua, obra prima do património ferroviário português e peças inseparáveis da memoria colectiva e da identidade do povo transmontano e parte integrante do Património da Humanidade do Alto Douro Vinhateiro classificado pela UNESCO.
*A - Quais as razões para dizer não à construção da barragem de Foz-Tua e sim à requalificação da linha ferroviária do Tua?*
1- A Barragem de Foz-Tua irá aumentar a produção de energia eléctrica do País em 0,5%, um contributo irrelevante ao nível nacional, quando apenas 23% da energia consumida é electricidade.
2- No total, as 12 novas barragens, apenas vão produzir entre 2% a 3% do total de consumos energéticos. A mesma percentagem seria obtida se houvesse um plano de poupança e eficiência energética.
3- O Ministério do Ambiente não fala no CO2 e óxido nitroso que as barragens produzem nas águas paradas com decomposição de matéria orgânica e na produção de metano 20 vezes pior do que o CO2 para o efeito de estufa e que terão consequências directas na qualidade da água.
4- As compensações financeiras que a EDP propõe não se podem substituir às inúmeras actividades ribeirinhas, à identidade e unicidade dos vales do Douro e Tua que se perdem e às extensas áreas demarcadas de Classe A e B de Vinho do Porto, que em zona classificada de Património Mundial desaparecem para sempre.
5- Acena-se às populações e aos autarcas com promessas de criação de emprego e de grande desenvolvimento, designadamente turístico, mas a verdade é que após o período inicial da construção da barragem, em que são criados postos de trabalho, muitas vezes precários e fora da região, segue-se um período estagnação económica e social.
6- Os concelhos transmontanos que já viram território seu inundado, estão entre aqueles que conheceram maior processo de despovoamento e desertificação. Miranda do Douro, concelho com duas barragens, não recebe em contrapartidas o suficiente para pagar a própria iluminação pública do concelho.
7- O turismo e a agricultura são duas actividades não deslocalizáveis e de alto valor acrescentado, que a região não pode perder; caso contrário, toda a aquela zona do país ficará mais pobre.
*B - Propostas para um Futuro Sustentável do Vale e Linha do Tua*
1- Levantamento total da via: reforço da plataforma e das suas condições de drenagem, introdução de mecanismos activos e passivos de detecção/prevenção de deslizamento de terras para a via.
2 – Introduzir comboios turísticos com carruagens mistas (abertas ao ar livre e fechadas com ar condicionado), recorrendo às carruagens históricas “Napolitanas” de Via Estreita e demais material ainda em posse da CP em articulação com os actuais comboios turísticos da Linha do Douro.
3 – Implementação de vagões especialmente adaptados ao transporte de bicicletas e embarcações para a prática de desportos de águas bravas. Ex: praticantes de canoagem fazem a descida rio Tua e depois as canoas seriam transportadas para Mirandela nos vagões do comboio e vice-versa.
4 – Aproveitamento de espaços das estações para áreas comerciais/culturais, espaços esses, onde os produtos regionais fossem vendidos aos passageiros, com ganhos imediatos para freguesias e populações locais.
5 – Concepção de um projecto multi-municipal e transfronteiriço de reabertura do troço Carvalhais – Bragança e prolongamento da Linha do Tua de Bragança a Puebla de Sanábria, candidatável a fundos comunitários, para conexão ferroviária entre a futura rede transeuropeia de Alta Velocidade.
6 - Integrar o turismo ferroviário do Tua na plataforma de sucesso do turismo fluvial do Rio Douro. Ex: Saída dos turistas do Porto no sábado de manhã de barco pelo Rio Douro. Transbordo em Foz Tua para o comboio até Mirandela. Pernoita na região do vale do Tua. Regresso no dia seguinte. Todos ganham, mas mais importante, ganha a região.
7– Candidatar a da Linha do Tua a Património Mundial.
*Conclusão*
Trás-os-Montes está perante três novas realidades estruturantes: a futura rede ferroviária espanhola, o futuro aeroporto de Bragança, e o turismo no Douro. Nos próximos anos, Madrid vai estar a 1 hora e 40 minutos da Puebla de Sanábria, a apenas 30km de Bragança. Está também previsto o reatamento da ligação ferroviária do Porto a Salamanca via Linha do Douro, a qual abrirá uma porta directa do Douro à Espanha, aumentando de forma exponencial o potencial de atracção de visitantes. Desta forma, a Linha do Tua poderia estruturar o território ao unir a Alta Velocidade em Puebla de Sanábria à Linha do Douro, efectuando o transporte de passageiros e mercadorias e promovendo o turismo ferroviário. Se for cortado o acesso à Linha do Douro, devido à barragem, todas estas potencialidades serão perdidas.
É inaceitável condenar a região transmontana a prescindir da sua riqueza em nome de um negócio de bens não transaccionáveis – a energia eléctrica - bom para a empresa e para a faixa litoral mas mau para a região interior transmontana.
O país deve dar aos transmontanos oportunidades de desenvolvimento do seu próprio território e de articulação de interesse mutuo com outras regiões. Não percamos a esperança.
*Destinatário:* Este Manifesto seguirá para o Ministério do Ambiente, Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Ministério da Economia e Primeiro-Ministro de Portugal.
Memória de nada estar separado...
As almas que Agostinho da Silva tocou são incontáveis – e os efeitos desse toque, incomensuráveis...
(Não lerás isto, não tens computador, os sites são os amigos que te os fazem – não tens nem queres ter muitas outras coisas do ter; nem ser o grande pintor que és tens querido ser – mas) um grande, grande abraço, Pedro.

Auto-retrato, Pedro Feijão, s/d

Woodstock, Pedro Feijão, Nova Iorque, 1999
domingo, 22 de novembro de 2009
Europa versus União Europeia
A Europa existe enquanto espaço civilizacional e todos nós portugueses somos, para o bem e para o mal, europeus. Tenhamos ou não consciência disso. Eu, pessoalmente, tive a aguda consciência disso quando, há uns anos, estive no Brasil. Aí percebi que a minha condição lusófona é inevitavelmente compatível com a minha condição de europeu…
A União Europeia é outra história. Foi fundada ainda no rescaldo da II Guerra Mundial, com claros vencedores e vencidos – em particular, a Alemanha, condenada à pena perpétua de nunca mais defender os seus interesses…
Durante décadas, assim foi. E por isso foi a União Europeia generosamente financiada pela Alemanha, que suportou até, resignadamente, a suprema humilhação de se manter dividida. Sabe-se hoje, de resto, que, na véspera da queda do Muro de Berlim, a França (Miterrand) e a Grã-Bretanha (Teatcher) tudo fizeram para que o Muro não caísse. E não foi, decerto, por militância comunista, apesar, no caso de Miterrand, do seu gosto pelas frentes populares…
Na História, pelo menos, não há penas perpétuas. E por isso naturalmente a Alemanha começou a pôr de novo os seus interesses nacionais à frente dos alegados interesses europeus. Foi já assim com Schroeder, é ainda mais claramente assim com Merkel…
Fá-lo, para escândalo do sempre hipócrita politicamente correcto, com toda a legitimidade. Os governos são eleitos, antes de mais, para defenderem os interesses da sua nação. E por isso sorrio sempre quando, nalguns noticiários, se diz, com ar de denúncia, que “x esteve sobretudo preocupado a defender os seus interesses nacionais”. E é claro que “x” nunca é português. Antes fosse. Talvez estivéssemos agora um pouco menos mal…
Também a isto se assistiu na recente eleição do Presidente permanente do Conselho Europeu. Com toda a naturalidade. No dia em que quiser, de facto, acabar com os interesses nacionais, a União Europeia acaba de vez. O resto é mera retórica para entreter palermas…
Vê-se isso, em particular, na política externa de cada país. Em muito casos, é efectivamente impossível falar de uma política externa europeia. Há quem o lamente. Eu, ao invés, penso que essa é a grande força da Europa…
Da Europa. Não da União Europeia…
Faz hoje 512 anos...
Europa
(e por favor não me venham falar da estabilidade financeira do Salazar. O mundo mudou entre 1971 e 1973, os tempos do 'choque petrolífero', tanto como mudou Portugal em 1974. Alguns sonhadores costumam falar do que seria Angola sob administração portuguesa, ao lado de uma África do Sul branca e invencível. Claro. Outros sonhadores não vêem diferença entre o mundo que assistiu ao Maio de 68 em Paris e o mundo que Reagan encontrou e geriu.)
Fazer parte da Europa significa, hoje, muito mais do que alguma vez historicamente significou - e fazer parte da Ibéria também. Significa, hoje, uma coisa que os políticos portugueses nunca quiseram desde os tristes tempos do liberalismo, e de que os intelectuais portugueses tendem a fugir como o diabo da cruz: responsabilidade. Responsabilidade para decidir quando é tempo de decidir sozinho, para dialogar e partilhar decisões quando é hora de decidir em conjunto. Para voar de falcão e para voar de coruja, como sabiamente recomendava D. João II, talvez o maior político que a família real portuguesa alguma vez gerou (o que não quer dizer que tenha sido o maior dos nossos reis). Responsabilidade que não seja a da conversa da treta de quem não tem lugar no governo ou o autismo de quem tem. Responsabilidade (e eficácia) que está, mal ou bem, no melhor que a tradição europeia inventou. Às vezes chama-se a isso democracia, em prejuízo do significado original desta duvidosa palavra.
Como quase sempre, o problema tem duas faces.
Por um lado, há oitocentos, há quatrocentos ou ainda há cem anos, desde que Castela nos não invadisse e a pudéssemos atravessar por terra ou costear por barco a caminho dos mares do Norte ou do Mediterrâneo, nada mais era preciso e tudo estava bem. Hoje, obviamente, não é assim. A construção de uma central nuclear em Espanha (ou em França), a preciosa água do Tejo e do Douro (que não são rios nacionais), a chegada de gás natural vinda da Argélia ou da Rússia, a posição de princípio e a actuação prática face aos imigrantes e aos refugiados, que cada vez mais são multidão, o permanente agudizar da catástrofe étnica, social, militar e política no agora chamado Médio Oriente, as redes cada vez mais complexas de dependência alimentar, económica, financeira (não confundir com a económica), a insuportável transformação mundial das relações de trabalho do último capitalismo traduzidas por um exército de trabalhadores precários ao serviço de empresas anónimas e nómadas, o colapso da estrutura industrial 'pesada' que fez nascer o século XX, as perturbações climáticas (de origem humana ou não), a mercantilização brutal de todas as esferas da vida, a inacreditável intervenção dos 'poderes públicos' na mais insignificante decisão individual, tudo isso faz com com que o desinteresse ou o cinismo (sincero ou cinico) em relação ao destino e ao lugar dos europeus - e dos portugueses entre eles - não mereça ser visto como muito mais do que traquinice infantil ou mais ou menos compreensível amuo.
Por outro lado, é certo que a Europa - a da união política - nasceu mal, e mal continua. Nasceu entre países devastados pela guerra; militar, económica e politicamente dependentes de uma potência - os Estados Unidos - e aterrorizados, e com razão, com outra - a União Soviética. Nasceu sem explicar ao que vinha, o que queria, o que arrastaria consigo. Nasceu como salvadora e guardiã de um capitalismo em que ainda era possivel acreditar, e com a confiança de quem ainda dispunha de vastas extensões do mundo como colónias abertas ou disfarçadas. Nasceu e gerou a mais inacreditável burocracia que alguma vez se viu a Oeste de Berlim, ao pé de quem Napoleão não passa de um pândego e Bismarck não passa de um folião. Nasceu, cresceu e está aí - para nosso bem e nosso mal, como o mundo todo está desde a fundação do mundo.
Deixarei para outros textos três coisas: a responsabilidade que Portugal quis ter, enquanto pôde ter, nos negócios comuns da Europa; as vias e transvias do famoso destino atlântico de Portugal; o lugar da Europa num mundo cada vez mais feito de BRIC, e de bric-a-brac.

