*É um Lusófono com L grande? Então adira ao MIL: vamos criar a Comunidade Lusófona!*

MIL: Movimento Internacional Lusófono | Nova Águia


Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de uma centena de milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por mais de meia centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia. Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.
SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
NIB: 0036 0283 99100034521 85; NIF: 509 580 432
Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).

Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

Colecção Nova Águia: https://www.zefiro.pt/category/zefiro-nova-aguia

Outras obras promovidas pelo MIL: https://millivros.webnode.com/

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Para entender o Brasil de hoje

Adelto Gonçalves (*) I
Costuma-se dizer, especialmente na academia, que foi o historiador português António Manuel Hespanha quem, ao publicar As vésperas do Leviathan: instituições e poder político, Portugal, século XVII (Coimbra, Livraria Almedina, 1994), trabalho de arqueologia do poder judiciário no Portugal seiscentista, abriu a senda para esse tipo de estudos da estrutura administrativo-judiciária do império português.
De fato, na esteira de Hespanha vieram O Antigo Regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII), de João Fragoso, Maria Fernanda Bicalho e Maria de Fátima Gouvêa, orgs. (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001), Direito e Justiça no Brasil colonial: o Tribunal da Relação do Rio de Janeiro – 1751-1808 (Rio de Janeiro, Editora Renovar, 2004), de Arno e Maria José Wehling, que procuraram mostrar como funcionava a máquina judiciária no Brasil setecentista, Modos de governar: idéias e práticas no Império português séculos XVI a XIX, de Maria Fernanda Bicalho e Vera Lúcia Amaral Ferlini, orgs. (São Paulo, Alameda, 2005) e O governo dos povos, de Laura Mello e Souza, Junia Ferreira Furtado e Maria Fernanda Bicalho, orgs. (São Paulo, Alameda, 2009), entre outros trabalhos que estudam a organização judiciária a uma época, a do Antigo Regime, em que o Estado era um amálgama de funções em torno do rei e não havia a divisão de poderes e funções, ao estilo de Montesquieu (1689-1755).
Portanto, a assertiva é verdadeira. Mas não se pode deixar de reconhecer que, muito antes desse tipo de estudo entrar em moda, o historiador norte-americano Stuart B. Schwartz escreveu Burocracia e sociedade no Brasil colonial: a suprema corte da Bahia e seus juízes (1609-1751), pesquisa desenvolvida entre a segunda metade da década de 1960 e início da de 1970, publicada em inglês em 1973 e no Brasil em 1979 pela Editora Perspectiva, de São Paulo. Agora, a Companhia das Letras acaba de publicar Burocracia e sociedade no Brasil colonial: o Tribunal Superior da Bahia e seus desembargadores, 1609-1751, nova tradução, de Berilo Vargas, com título ligeiramente modificado, novo prefácio do autor e apresentação da professora Laura de Mello e Souza, além de algumas notas de rodapé que foram acrescidas e um novo apêndice documental.
II
No novo prefácio, Schwartz lembra que, à época em que escreveu o livro, ainda ao tempo da ditadura salazarista, a história administrativa de Portugal e seu império não estava bem desenvolvida. Mas, de qualquer modo, o trabalho de Schwartz não perdeu o viço, sendo citação obrigatória em qualquer tipo de estudo sobre o tema, ao lado do de Arno e Maria José Wehling. Ao contrário do que defendia Raymundo Faoro, em Os donos do poder (Porto Alegre, Editora Globo, 1ª ed., 1958), livro igualmente ainda importante na análise do tema, Schwartz mostrou que a história do Brasil nunca foi produto de uma luta entre a sociedade e o Estado português e seus funcionários que seriam indiferentes e exploradores. Era uma visão um tanto idílica e excessivamente patrioteira, que procurava construir uma idéia de Nação brasileira. Schwartz mostrou --- e os estudos posteriores só confirmaram essa posição – que grupos sociais – aqueles que, de um modo ou de outro, haviam assumido o controle das terras e haviam se tornado proprietários, graças a toda a sorte de falcatruas e violência contra os menos afortunados – haviam usado a máquina administrativa e judiciária para tornar “legais” as suas ações. Nunca tiveram em conta nenhum antagonismo entre o Reino e a colônia, preferindo, ao contrário, levar o Estado a favorecê-los, sempre tirando proveito de sua força para subjugar os que estavam por baixo.
Aliás, essa relação pouco mudou porque, no século XXI, o que se pratica especialmente no chamado Brasil profundo é um Direito às avessas em que o Judiciário, muitas vezes, atua de maneira célere quando se trata de beneficiar os grandes proprietários e os endinheirados que podem contratar os melhores advogados e usar de suas influências para arrancar sentenças à medida de seus interesses.
Schwartz mostrou ainda como a classe proprietária tratou de incorporar os juízes da Relação da Bahia -- e aqueles que estavam mais abaixo na escala hierárquica, nas demais capitanias – em suas relações, fosse pelo casamento desses magistrados com moças da terra – obviamente, suas descendentes –, fosse por outras formas. Em outras palavras: a velha aristocracia latifundiária e militar sempre serviu a Coroa portuguesa em várias posições. E nunca pensou em rebelar-se contra isso.
III
Como observa o autor em suas conclusões, a integração da magistratura e sociedade ligou a elite econômica à elite governamental num casamento de riqueza e poder. Dessa maneira, segundo Schwartz, a corrupção da burocracia, fosse por laços de família, fosse por dinheiro, deixou a ampla maioria dos moradores da colônia impossibilitada de tomar parte no controle do próprio destino. O que equivale a dizer que a separação em 1822 em nada alterou esse estado de coisas, tendo sido mais um movimento com o objetivo de preservar os interesses da Casa de Bragança.
Para o escravo, para o vaqueiro, para o sapateiro, enfim, para os “nacionais”, ou seja, aquela maioria de pessoas luso-brasileiras, brancos pobres, mulatos, carijós, caboclos, cabras ou cafuzos, tanto fazia se a opressão vinha de Lisboa, da Bahia ou do Rio de Janeiro, dos funcionários formados em Lisboa, ou juízes de fora ou ouvidores, ou mesmo dos juízes ordinários das Câmaras ou dos potentados locais – que quase sempre eram as mesmas pessoas.
IV
Segundo Schwartz, quando o Brasil passou do governo dos donatários das capitanias para o controle direto pela Coroa, os funcionários judiciais – primeiro o ouvidor-geral e depois os desembargadores da Relação, os ouvidores de capitania e os juízes de fora – assumiram papéis administrativos e políticos extremamente importantes. Como ganharam poder e prestígio cada vez maiores, a elite colonial se sentiu propensa a fazer alianças com eles, muitas vezes, estimulando seus rebentos a que também estudassem em Coimbra e voltassem nomeados juízes de fora ou ouvidores. Com isso, obviamente, procuravam preservar seus próprios interesses e garantir futuras facilidades no trato com o Estado.
Seja como for, não há dúvida que a magistratura letrada alcançou à época do Brasil colonial uma importância capital. Se a presença do juiz togado foi um elemento de enfraquecimento das estruturas locais que, se jogou indiretamente a favor da Coroa, reverteu imediatamente em prol do fortalecimento da rede burocrática de que juízes de fora, corregedores e provedores faziam parte, ao lado dos ouvidores de comarca. Se nos primeiros tempos a imensa maioria dos conflitos era resolvida nos tribunais locais, por meios formais ou informais, levando-se em conta costumes e tradição, com a presença da magistratura letrada, boa parte das questões passou a ser analisada sob a ótica e o rigor das leis que eram estudadas em Coimbra, reduzindo assim a autonomia local.
No entanto, se os juízes ordinários perderam poderes para ouvidores, juízes de fora, corregedores e provedores, por outro lado, não deixaram de acumular muitas atribuições e incumbências, ao lado dos demais camaristas, especialmente na questão da arrematação dos contratos – na cidade de São Paulo, na década de 1740, por exemplo, os principais contratos que iam à arrematação em dezembro pelo Senado da Câmara eram os da carne, aferição e estanques –, que, a rigor, era o que atraía os interesses de uma elite formada quase exclusivamente por comerciantes. Portanto, se magistrados nos mais altos escalões podiam ser subornados por razões de parentesco ou propina, a arraia-miúda do funcionalismo se sentia estimulada ao mesmo procedimento. E essa cultura se disseminou a tal ponto que nem mesmo as classes subservientes entendiam esse procedimento como impróprio ou antiético. O normal é que, quando alguém galgasse um posto de mando no governo, favorecesse parentes e apaniguados. E tratasse de usar a coisa pública em favor de interesses privados.
Essa mentalidade fincou raízes profundas no subconsciente do povo brasileiro, como mostra o uso disseminado do “pistolão” – ou da “cunha”, como se diz em Portugal – no Brasil contemporâneo tanto nos rincões como em Brasília, hoje a cidade que, se não for a que apresenta o maior índice de corruptos por metro quadrado, está perto desse desiderato. Portanto, para quem procura entender o Brasil de hoje, a leitura desta obra de Schwartz é fundamental. V
Doutor pela Universidade de Columbia, Schwartz é professor titular de História na Universidade Yale e editor da Cambridge History of Native People of Americas e da Hispanic American Historical Review. Entre vários estudos, publicou Segredos internos - engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835 (Companhia das Letras, 1988), Escravos, roceiros e rebeldes (Edusc, 2001), As excelências do governador (co-organizador, Companhia das Letras, 2002) e Cada um na sua lei - tolerância religiosa e salvação no mundo atlântico ibérico (Companhia das Letras, 2009).
BUROCRACIA E SOCIEDADE NO BRASIL COLONIAL: O TRIBUNAL SUPERIOR DA BAHIA E SEUS DESEMBARGADORES, 1609-1751, de Stuart B. Schwartz, com tradução de Berilo Vargas e apresentação de Laura de Mello e Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 414 págs., 2011, R$ 59,50.Site: companhiadasletras.com.br

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br

sábado, 3 de abril de 2010

Texto que nos chegou...

BACALHAU COM HISTÓRIA

Patrimônio Nacional e Mundial
Páscoa sem Bacalhau
É como almoço sem sal

J. Jorge Peralta


I - BACALHAU
Deliciosa Marca da Lusofonia

1. O Bacalhau na História

Devemos aos portugueses a entronização do bacalhau como um dos pratos mais saborosos da gastronomia ocidental.
O bacalhau é considerado, pelos lusos, o “príncipe das mares” e o “fiel amigo”.
Os portugueses desempenharam, por força do destino e por missão histórica, alguns papéis únicos e de personagem principal, no teatro do mundo, na história universal.
A eles se deve a Grande Epopéia dos Descobrimentos Marítimos, que fizeram a unificação do globo terrestre. Descobriram dois terços (2/3) do território global.
E aqui acrescentamos o Bacalhau, à grande contribuição dos portugueses à humanidade.
Os portugueses deram ao bacalhau o destaque que desfruta na gastronomia dos povos. Onde foram, levaram consigo o bacalhau, como um manjar sadio e de primeira qualidade.
Além disto, o bacalhau, seco e salgado, conserva-se por muito tempo, sem se deteriorar.
O bacalhau foi então apelidado de “fiel amigo”, pois garantia alimentação sadia, nas demoradas viagens marítimas, que duravam meses. O nome carinhoso de “Fiel Amigo” vem do fato de estar sempre presente, por toda a parte, e nunca faltar, por não se deteriorar.

2. A Pesca do Bacalhau-Escola Náutica

Há algo que nos intriga positivamente: O Bacalhau vem das águas geladas polares, longe de Portugal. Ir pescá-lo é outra grande aventura, muito penosa. Isto vai ter um “sub”-produto admirável: virou escola de marinheiros.
D. Pedro I de Portugal, (1303) deu início a pesca de Bacalhau, em terras longínquas.
O Rei D. Dinis (1279-1325) também apoiou a pesca do Bacalhau, em terras longínquas e frias. A mão de obra da pesca, em águas longínquas e frias, exigiu preparação adequada: a pesca de bacalhau foi uma eficiente escola de náutica para a formação de marinheiros.
Estes, mais tarde, no reinado de D. Afonso V, (1438-1481), iriam dar o impulso decisivo à era dos descobrimentos, sob comando do Infante D. Henrique.

3. Era dos Descobrimentos e o Bacalhau, o “príncipe das mares”, foram dois parceiros inseparáveis. Sem o bacalhau, isto é, sem os equipamentos engendrados para a pesca do bacalhau, em mares longínquos, região dos Povos do Norte, a Epopéia dos Descobrimentos dificilmente teria tido o alcance que teve, por falta de gente preparada.
A frota dos Corte-Real, que descobriu a Terra Nova, (Canadá), antes de 1424. Estava procurando bacalhau e o encontrou aí, em quantidade. Terra Nova foi chamada Terra Nova do Bacalhau. Até ao século XX os portugueses iam pescar bacalhau na Terra Nova.

4. Padroado dos Descobrimentos

Foi uma ação de tal monta que o Papa Eugênio IV atribuiu o Padroado dos Descobrimentos a Portugal, em exclusivo. O Papa Nicolau V, por bula de 08.01.1454, concede aos monarcas portugueses as conquistas da África e das Ilhas dos Mares.
A Espanha entra então na disputa por espaço e consegue nova divisão do mundo das descobertas, com o Tratado de Tordesilhas, com o apoio do Papa espanhol, Alexandre VI.
Enfim, na rota do Bacalhau e em outras rotas, os portugueses deram ao mundo Novos Mundos.

II – BACALHAU, PRESENTE DOS DEUSES

5. Por todas as terras onde se instalaram, levaram junto o “fiel amigo”, o nobre bacalhau.

Foi assim, que o bacalhau passou a fazer parte da culinária de todos os povos da civilização lusófona.
Hoje, que o bacalhau se tornou alimento caro, ele é usado como prato nobre e especial e nas grandes festas e reuniões familiares, em dias festivos, principalmente em datas familiares como o Natal, Páscoa, Dia dos Pais e Dia das Mães, Dias de Aniversário, etc.
Em muitas famílias, as sextas-feiras do ano são dia de pratos de peixe, onde o Bacalhau tem lugar especial.

6. Os portugueses tornaram-se os maiores consumidores de Bacalhau do mundo. Ir a Portugal e não comer bacalhau é como ir a Lisboa e não ver a Torre de Belém.

Entre as grandes e variadas tradições da culinária portuguesa, o Bacalhau ocupa lugar privilegiado.
O Bacalhau é um presente dos deuses: Uma iguaria muito especial.
Efetivamente, o bacalhau é uma comida muita rica em substâncias alimentícias e não é gordurosa.

7. O hábito de comer bacalhau, no Brasil, é muito antigo, desde o início da colonização. A partir da vinda da Corte Portuguesa, para o país, difundiu-se mais ainda o uso deste peixe especial.

O bacalhau está plenamente integrado à culinária brasileira. Em quase todo o país, os melhores restaurantes, sempre oferecem pratos de bacalhau.
Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, etc., têm diversas casas especializadas em Bacalhau.
No Rio de Janeiro, no final do século XIX, Machado de Assis, reunia-se todas as sextas-feiras, com os amigos para comer o autêntico “Bacalhau do Porto” e discutir o momento nacional.
Os Bolinhos de Bacalhau são um petisco especial, de preferência nacional, em bares e restaurantes.
Aqui, como em Portugal, o Bacalhau é preferência Nacional.
O Bacalhau foi uma das obras primas do “gênio português”. Enriqueceu a gastronomia portuguesa e mundial.

8. Na grande proeza do bacalhau, Aveiro foi o motor e o centro irradiador desta atividade. Daí se espalhou pelo mundo.
A tempo de D. Afonso V, Aveiro centralizava a pesca do Bacalhau, nos Mares do Norte (Noruega) e depois na Terra Nova e na Groenlândia.
Aveiro produzia sal de qualidade, em suas salinas e ainda oferecia o bom vinho da Bairrada.

III- TRANSTORNOS À PESCA DO BACALHAU

9. Felipe II de Espanha trouxe a primeira dificuldade, quase intransponível à continuidade da pesca do bacalhau.

Uma atividade em tão alto processo de desenvolvimento, sofreu um grande impacto negativo na frustrada guerra que Felipe II da Espanha contra a Inglaterra. Como Reino de Portugal estava unido à Espanha, Felipe II convocou toda a marítima portuguesa para compor a Armada Invencível. Navios de Guerra, naus de pesca e navios mercantes, todos se dirigiram ao Canal da Mancha para atacar Londres e conquistar o país.

10. Por um acidente da natureza fora do combinado, uma grande tempestade no Canal da Mancha, já em frente a Londres, afundou quase toda a imensa esquadra de guerra (29.06.1588). Foi ao fundo a Invencível Armada. Os navios, o grande poderio naval português aí afundaram com seus homens. Afundaram junto com a esquadra da Espanha, num dos maiores desastres da história. A tempestade foi um acaso desastroso.

O nosso Grande Vieira, olhando ao longe, diria:
“Quem me disse a mim, ou a vós se debaixo deste acaso se ocultava algum Grande Conselho da Divina Providência?”
No desastre, desapareceram os homens e os navios.
Sem barcos e sem homens experientes a pesca do bacalhau foi suspensa até cerca de 1835. Definhou a frota pesqueira. A apatia da pesca não se reanimou nem pelas facilidades dadas pelos ingleses na Terra Nova.

11. Recuperação da Pesca

Em 1930, o lugre “Santa Mafalda” da Empresa de Pesca de Aveiro EPA, zarpa rumo a Groenlândia.
A pesca bacalhoeira retoma seu vigor na Terra Nova.
Hoje, o desmantelamento da frota bacalhoeira é um fato.
A história é um desastre para a nossa pesca.

12. A pesca do bacalhau foi descontinuada (?!), com a “Revolução dos Cravos”, e os acordos da União Européia, como ocorreu com muitos outros centros de alta produtividade que eram o orgulho do país. Esta descontinuidade diz-se ter sido obra deplorável de entreguistas apátridas. Sem dúvida, o empresariado português passou maus momentos naquele momento...

A pesca de Bacalhau termina, melancolicamente, nas negociatas das “novas” políticas...
Hoje, quase todo o Bacalhau consumido em Portugal, ou pelo país distribuído, é importado. Mas continua como um prato símbolo da Lusofonia, independente de quem o pesca.

domingo, 21 de março de 2010

Presença de Yvonne Jean

por Bruno Borges

“A mulher que escreve sente demais tais transes e presságios! Como se bicicletas e crianças e ilhas não bastassem;
como se carpideiras e faladeiras e legumes não bastassem nunca.
Ela julga que pode alertar estrelas.
Uma escritora é essencialmente uma espiã”.
(Anne Sexton, A magia negra)

A luta pelos direitos da mulher no Brasil, especialmente em Brasília, não pode deixar passar em branco a presença da eminente jornalista belga Yvonne Jean. É urgente lembrar de Yvonne Jean. Lembrá-la como pioneira, como exímia jornalista da coluna “O ensino dia a dia”, entre tantas outras. Mas é preciso, também, lembrá-la como curadora, como professora universitária da Universidade que, após o Golpe Militar, referir-se-ia como sendo a “ex-UnB”. Intelectual de várias faces, Yvonne Jean desenvolveu inúmeras atividades em Brasília e no Brasil, atividades que tentaremos reavivar.
É fundamental lembrar de sua luta pela mulher, pela mulher escritora, pela Arte e pela vida cultural em Brasília. Por essas e outras ainda vale a pena comemorar a história dessa cidade, das suas mulheres, em uma época em que apodrecem na vergonha nacional as festividades do cinqüentenário da capital.
Algumas pesquisas indicam que Jean foi gestora de uma das primeiras galerias de Arte de Brasília, fundada no início da década de 1960 . É de se cogitar a modernidade das obras que agenciara àquela altura. Boa parte dos artistas que integram a atual coleção da Caixa Econômica Federal — coleção composta na época da Constituinte de 1988 — foram difundidos e vendidos por Yvonne Jean no final da década de 1950 e início de 1960. Em inúmeras cartas a intelectuais e artistas brasileiros da época, a também tradutora e intérprete denunciava que: na nova capital, as pessoas que tinham dinheiro não entendiam de Arte ou, quando entendiam, não tinham dinheiro para investir. As coisas não mudaram muito 50 anos depois.
É de Yvonne Jean, por exemplo, a brilhante e inédita iniciativa de reunir em algo semelhante a uma cooperativa, o máximo da produção de artesãs. Produção não apenas da recém criada capital, como também ao seu redor, proporcionando encontros, em Brasília, de artistas locais e regionais. Foi uma das primeiras a propor e praticar o deslocamento da produção artística do eixo Rio-São Paulo, cumprindo a meta de se voltar para dentro do Brasil. Olhar para dentro e dar, ao menos um pouco, as costas ao litoral monopolista da época. Yvonne Jean foi também uma das primeiras, se não a primeira, a dar visibilidade a Goiás Velho, Pirenópolis, entre outras regiões do Cerrado que até então nunca haviam sido seriamente vistas como “patrimônio”. Ainda hoje o Cerrado é bioma pormenorizado pela Constituição Federal.
É de se estudar que as próprias noções de patrimônio material e imaterial mereçam ter em Yvonne Jean, em suas propostas, nas coisas que realizou, uma referência imprescindível, referência hoje fundamental para a História dos Museus e da Arte no Brasil. Para tais pesquisas, abundam manuscritos inéditos, por ela deixados e doados por seu filho João Luis ao Arquivo Público do Distrito Federal.
Com relação à cultura popular, podemos encontrar no Fundo Yvonne Jean diversos cursos sobre o assunto, pois este era tema do seu maior interesse, assunto ao qual se dedicou diariamente. Cultura popular: eis uma discussão frequente em suas reportagens, artigos e ensaios. Vale destacar a atenção que deu, há meio século, a manifestações como o boi-de-mamão catarinense, o bumba-meu-boi do Maranhão, bem como seus inúmeros apontamentos sobre tecelagens manuais, renda de bilros e outras artes tradicionais.
Autora de quatro livros de literatura infantil, Jean estabeleceu relações com figuras muito importantes da cena cultural, tanto nacional quanto internacional. Esteve próxima a diplomatas e poetas, tanto os consagrados pelas elites, quanto os populares, ditos “menores”. Foi a primeira a valorizar, junto a Agostinho da Silva (homem pelo qual tinha profunda admiração, tendo sido responsável pelas principais e primeiras documentações a respeito do nascimento do Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, o CBEP) Teodoro Freire como pioneiro bastião da cultura maranhense na nova capital. Após cerimônias de matança do boi, quando muitas vezes se organizava uma parelha para fazer-se um tambor de crioula, Yvonne Jean e Agostinho, entre tantos outros coreiros, repitiam a inesquecível toada:

“eu vou levantar bandeira
eu vou levantar bandeira
da cultura maranhense
na capital brasileira.”

Isso há 50 anos. Dispensa comentários o seu célebre artigo intitulado “A Capoeira Angola de Mestre Pastinha na Ladeira do Pelourinho”.
Trata-se de uma guerreira que aportou no Brasil ainda na década de 1940, mulher que, em diversos jornais impressos e revistas, bem como nos programas de rádio que realizou, defendeu e afirmou a identidade feminina nas suas mais plurais maneiras de ser. Porque o Ser só pode ser no plural . Belga de nascimento e, talvez por isso, extremamente cosmopolita no espírito — assim como Brasília — Jean analisou de maneira singular e pioneira o Código Civil Brasileiro em uma época em que a mulher casada era algo análogo a loucos, selvagens, e crianças .
Na mídia impressa, entre 1940 e 1970, Jean assinou colunas em inúmeros jornais como, por exemplo, “Você quer escolher uma profissão?” e “Mulher e a profissão” , “Presença da Mulher” , “Mulher e a política” . A jornalista protagonizou a luta por diversas causas da mulher, sendo digna de nota a série de reportagens que fez em defesa de tratamentos dignos nas prisões femininas . Cabe lembrar que Clarice Lispector também escrevia e militava pelas mulheres em jornais comuns aos que Jean escrevia.
Como afirma Alves Oliveira , Yvonne Jean “(...) ao ocupar o espaço público o fazia da forma mais temida e indesejada possível: sendo uma mulher comunista, intelectual, escritora, jornalista, promotora cultural, professora. Conseguiu reunir em si todos os perseguidos pela ditadura militar.”
Demitida da Universidade de Brasília e detida em 1964, Yvonne Jean foi presa duas vezes durante a década de 1970 devido às suas relações com o comunismo. Faleceu no início da década de 1980 por causa de complicações, entre outros fatores, motivadas por uma artrite violenta.
Fica aqui a nossa homenagem a esta refinada mulher: guerreira, erudita, simples, rica e militante. Inesquecível e crucial para a cena artística e intelectual do Brasil e de sua filha — Brasília — que completa, agora, meio século de vida.
É chegada a hora de resgatar o mel da terra!

domingo, 24 de janeiro de 2010

A Difícil Vida no Séc. XVI

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Chegados e instalados, cabia aos portugueses “tomar assento”, como se dizia na época. Fixar-se na terra.
Um meio simples e muito usado por quem tinha dinheiro e coragem era a concessão de sesmarias. Esta era a maneira mais fácil de enriquecer e conquistar o poder, sonho de todos os reinóis.
Martim Afonso de Souza, um homem de larga visão, a primeira coisa que fez foi distribuir sesmarias,através de um documento concessório. Elas seriam a garantia da governabilidade.
Todos nós conhecemos o nome dos primeiros sesmeiros: Brás Cubas, João Ramalho, Pero de Góes.
O governo cedia largas extensões de terra, no prazo de dois anos, sob a condição de que o sesmeiro fizesse benfeitorias: erguesse casas, algumas fortificadas, abrisse caminho, plantasse e colhesse, quando possível, criasse uma família; em suma, se estabelecesse, consolidando a posição real, nestas terras.
Caso fracassasse dentro do prazo,as terras doadas voltavam para a Coroa.
Esse sistema foi usado por Portugal em todos os países colonizados,mas,floresceu melhor,no Brasil.
Muitas sesmarias deram com os burros n’água, outras,o dono nem chegou a assumir.Mas,muitas floresceram,viraram núcleos de povoamento,graças ao trabalho e ao capital do sesmeiro,que arcava com todas as despesas;a alguns,o rei até exigia que construíssem casa-forte ou fortins armados;essa ordem arruinou alguns sesmeiros,mas,foi assim que nasceram as principais cidades brasileiras.
Nem sempre o lugarejo mais povoado virava cidade;interesses econômicos(sempre eles),políticos,militares,determinavam onde se construir o forte que daria lugar ao ajuntamento.
O processo era simples:erguia-se uma cruz num lugar visível,fazia-se uns traçados,escolhia-se os melhores sítios para erguer a Câmara,a capela,o hospital;câmara e cadeia ficavam num edifício só;seria uma antevisão do futuro?
A cadeia,dividida por sexo,ficava embaixo.Em cima,a Administração,o Paço do Concelho.
Nomeava-se um juiz,um comandante de armas e um alcaide,misto de prefeito e delegado.
A vila seria batizada com o nome do santo do dia,logo convocado como protetor.Mas,podia ser também o nome da devoção do fundador.
Assim tivemos S. Vicente, S. Sebastião,S. Paulo,Santo André,Todos os Santos,Espírito Santo...
As ruas ou arruados não tinham nome;”era a rua da igreja,ou a rua que dá no Trapiche ou ainda a rua onde mora o comandante.”Na verdade,eram trilhos,mais freqüentados por animais que por gente;sujos,esburacados,sem a proteção das calçadas,inexistentes.
Quem não fosse militar,religioso ou funcionário teria muita dificuldade em arrumar ocupação;mas,como sobreviver era preciso, as pessoas iam trabalhar nas fazendas, plantando, criando, colhendo. Só apareciam nas vilas nos dias santos ou se soasse o alarme indicando,entre outras coisas,ataques de índios.
O comércio só apareceu no final do século; como o dinheiro era escasso,o sistema de trocas ou escambo, era o favorito; chamava-se “dinheiro da terra”; trocava-se mantimentos, carnes, couro, ceras, bois, vacas, porcos.
A primeira venda em S. Paulo chegou em 1599 e só vendia coisas de comer,chamada “munição de boca”.
Interessante é que o cliente não entrava, como em certas farmácias dos dias atuais;recebia a mercadoria por uma portinhola aberta na porta e muito bem trancada.
A população vivia amedrontada, insegura e armada,pronta para tudo.A violência campeava.
Naquela época já havia os vereadores,palavra originada do latim verea (administrador),cargo exercido pelos “homens bons”,ou seja,os nobres,os ricos,os proprietários.Sua função era,como até hoje,ajudar na administração da cidade e fazer as leis.
Mesmo os comerciantes ricos só puderam votar e ser votados no sec.XVIII, principalmente em Olinda e outras ricas freguesias; em S. Paulo, de população muito pobre, os ferreiros, alfaiates, pedreiros, foram eleitos sob as mais diversas justificativas;deve vir daí as origens do PT,partido dos trabalhadores.(não levem isto a sério,só estou me divertindo um pouco).

A casa
Os primeiros colonos,que não eram luxentos,começaram morando nas malocas indígenas.Levantadas com varas,cobertas de palha,circulares,eram frescas e abrigavam centenas de pessoas.
Mas,a maioria não estava satisfeita;o português queria conforto,privacidade e segurança.Para isso ergueu paredes sólidas,mesmo de taipas,(barro,cal e areia socada entre armações de madeira),ou de sebe,caniços cobertos com barro.
Por serem muito caras, as telhas e tijolos só apareciam nas casas dos ricos,que também alicerçavam suas casas com argila.A capela e os quartos eram assoalhados e forrados com tábua,tipo canela-preta,a madeira favorita,por ter muita durabilidade. Entre o forro e as telhas guardava-se os tesouros da família,objetos de ouro e prata,pólvora e sal.
Já o altar da capela domestica era feito de cedro.
Branco era a cor das casas,pintadas de tabatinga.
Como se dava muita importância à segurança,quase não havia janelas;cortinas de encerado ou oleado eram defesa contra os ventos e a luz forte.
A cozinha era quase sempre ao ar livre,pois,as primeiras cozinheiras eram índias,avessas a apertos e paredes.Sem contar que fogo dentro de casa era incêndio certo,com tanto material inflamável.
No inverno, a família se reunia num salão com um forte braseiro,para fugir do frio.
Feito à maneira índia, o fogão era três pedras dispostas em triângulos;isto obrigava a cozinheira a trabalhar de cócoras,como ainda se vê em alguma parte do sertão.
Só quando as mulheres brancas assumiram a cozinha,adaptaram uma trempe de ferro,a um murinho de mais de um metro.
Os mais abonados tinham duas casas,a da cidade,onde passava os dias santos e a da roça,onde realmente vivia;geralmente,por questões defensivas,erguidas nas encostas,o que nos dias de hoje,está dando muito problema com desabamentos .
A casa tinha que ser perto da água,pois,não havia serviço de esgoto nem água encanada.
Rodeando a moradia,o monjolo para pilar o milho,um moinho para moer o trigo e o engenho de açúcar,para fazer o mel,a rapadura e a aguardente.
Toda casa que se prezasse era rodeada de varanda,onde os donos tomavam a fresca da tarde.

Na mesa
Naqueles tempos,toda a alimentação do rico e do pobre,do plebeu ou do nobre,era indígena.O selvagem caçava,pescava,colhia frutos,apanhava raízes e mel na floresta,colhia os legumes e verduras da horta e ainda servia aos europeus.
Do mar,vinham os peixes e mariscos.Tudo acompanhado pela farinha de mandioca,o pão da terra,para os beijus,as farofas,o moquém,os mingaus que matavam a fome dos pequeninos e lhes davam sustança.
Alguns portugueses plantavam uva, cevada e trigo.Essas culturas raramente vingavam,neste século,mas,matavam a saudade da terra.
Talvez por causa disto, alguns capitães-mores plantavam cidra,laranja,limão,nas suas capitanias.As laranjas baianas plantadas por Tomé de Souza ficaram famosas.
Da Ilha de Cabo Verde veio, com o tempo, as mudas de cana de açúcar,árvores frutíferas e os coqueiros.
Chegou,também,o gado vacum que em pouco tempo se transformou em grandes rebanhos que forneciam o leite,a carne e os queijos.
Por volta de 1597,segundo o inventário de João do Prado,a mesa dispunha de feijão,sal do reino e milho;nos cercados,galinhas,leitões e nos pomares,muitas frutas.A marmelada era o doce preferido.Para beber,vinho feito em casa e refresco de frutas.
Assim,a culinária luso-afro-tupi,harmônicas entre si,criaram a fabulosa cozinha brasileira.

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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Como foi proclamada a República no Brasil!

Muitas vezes, na história do mundo, pequenos fatos podem desencadear acontecimentos notáveis. É claro, que, minúsculos acontecimentos não detectados no dia a dia vão se acumulando como mágoas até que explodem aos borbotões sem que a gente espere ou perceba, mudando o “establishment” de uma hora para outra.
Assim aconteceu com a queda da Monarquia brasileira e a proclamação da República.
Uma questão militar, seguida de um levante geral das tropas de terra e mar foi a causa imediata dessas mudanças no tecido político brasileiro. Mas, os acontecimentos de 15 de novembro de 1889 foram apenas a gota d’água que transbordou o copo da insatisfação social vigente.
Herdamos a Monarquia de Portugal, regime comum aos Estados europeus em que a uma pessoa bastava ter sangue real para ter o direito de administrar um país; para isso, desde pequenininho era preparado e educado para aquela função.
Nosso imperador Pedro II, homem de extremo saber, era amado pelo seu povo, mas, a sucessão preocupava a todos, já que o nosso imperador já era um homem idoso e planejava abdicar em nome de sua filha, Isabel e descansar em Paris para fazer o que mais gostava: estudar, fotografar e conviver com a sociedade científica, longe dos problemas do poder.
Acontece, que o marido de Isabel, o Conde D’Eu era "persona non grata" aos brasileiros e a princesa não contava com a confiança do povo.
Apesar de ter assinado a Lei Áurea que extinguia a escravidão, ou por causa desse fato que irritou os grandes fazendeiros de S. Paulo e Minas, o povo não apoiava a princesa.
Conta-se que, assinada a Lei Áurea, o Visconde de Ouro Preto lhe disse:
– A senhora libertou um povo, mas, perdeu o trono.
Então, veio a questão militar; há muito os quartéis mostravam sinais de inquietação influenciados pela maçonaria e pelo positivismo em voga na época e alguns atos monarquistas punindo oficiais só acirrou os ânimos.
Entre eles estava o Marechal Deodoro da Fonseca, militar respeitado e admirado pela tropa, mas, também respeitador da lei e amigo pessoal do Imperador. Graças a essa posição, seus colegas de farda o incumbiram de ir ao Palácio pedir à D. Pedro a revogação das punições.
O Governo cedeu face às pressões, inclusive, do Senado. Mas, as relações entre o Governo e o Exército não melhoraram.
A propaganda republicana antes confinada a clubes fechados e ti-ti-tis caseiros ganhou as ruas. Quintino Bocaiúva, Silva Jardim, Lopes Trovão, Nilo Peçanha escreviam artigos magistrais; Campos Sales, Prudente de Morais pregavam abertamente a República, em S. Paulo, Benjamim Constant, positivista emérito fazia inflamados discursos na Escola Militar.
E, acima de todos, impressionando o espírito público e conquistando as classes armadas, o baiano Rui Barbosa, a “Águia de Haia”, escrevia artigos disputadíssimos no Diário de Notícias, lidos pela elite brasileira.
No decorrer do ano de 1889, o Gabinete presidido pelo Visconde de Ouro Preto começou a tomar certas medidas que preocuparam o Exército. Ele aumentou o corpo de polícia e organizou a Guarda Nacional além de remover da Capital todo um corpo da Infantaria; além disso, trocou os comandos e excluiu vários oficiais importantes das solenidades públicas; ficou patente que o Gabinete queria desestabilizar o Exército.
A Conspiração Militar ganhou força e foi para as ruas.
A República foi feita, sem a menor resistência.
O Império Brasileiro que durou 65 anos vinha desgastado pela sucessão de governos imperiais desacreditados e pelos partidos políticos sem mensagens novas que se eternizavam no poder: o Partido Liberal e o Partido Conservador. Este último há tempos no poder não oferecia solução para os graves problemas do país.
O Imperador deposto foi para a Europa e os principais nomes que apoiaram o movimento tomaram o poder.
Para mim, tudo não passou de um golpe. Melhor, uma quartelada tão ao gosto dos políticos latino americanos.
A palavra república vem do latim e significa (res) coisa (publica) do povo.
Uma convulsão social de proporções acompanhou a chegada deste movimento, sendo o mais importante a Guerra de Canudos.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Dia da Consciência Negra: Zumbi dos Palmares

Zumbi dos Palmares é Zumbi na noite. Êh, êh, êh, é zumbi. É Zumbi no acoite... A liberdade estava no sangue do Príncipe Zumbi, ou, Zambi, palavra quimbundo (nzumbi) que significava algo como duende, fantasma ou morto-vivo, no Brasil. O negrinho de olhos espertos era neto da princesa Aqualtune, portanto, sobrinho de Ganga Zumba (grande senhor), o todo poderoso chefe do Quilombo dos Palmares, uma aldeia auto-suficiente economicamente, situada nas terras de Alagoas e parte da Bahia, perto da Serra da Barriga, hoje, município de União dos Palmares. Ali viviam os quilombolas, negros fugidos das usinas e fazendas de Pernambuco e adjacências, onde viviam como escravos do eito, plantando cana e fazendo serviços pesados, Palmares era quase do tamanho de Portugal e lá viviam cerca de 30000 pessoas; plantavam, faziam artesanato com as folhas das palmeiras, criavam um gadinho e extraíam óleo de babaçu. Quase como na “mamma África”, tirando as grandes savanas onde reinava soberano o leão africano. Zumbi nasceu livre; em 1655 foi capturado e vendido a um missionário português, quando tinha apenas 6 anos de idade. Logo o batizaram de Francisco; muito inteligente e de raciocínio rápido, aprendeu Latim e Português e até era um bom coroinha, ajudando nas missas. Mas, a chama da liberdade estava latente no seu sangue. Em 1670 fugiu e, graças à sua astucia, coragem e destreza inatas, aos 20 anos, tornou-se um dos maiores estrategistas de que se tem noticia. Cansado de uma luta inglória com P almares, o governador de Pernambuco propôs paz a Ganga Zumba. Os escravos ganhariam a liberdade, porém, submetiam-se á autoridade da Coroa. Acreditando que liberdade não é doação, é conquista, Zumbi rejeitou a proposta e entrou em conflito com seu tio, Ganga Zumba. Passou a liderar o quilombo, mesmo porque, o tio morreu envenenado. Se fosse nos dias de hoje, seriam chamados de mercenários; o governador Melo e Castro, convocou Domingos Jorge Velho, um guerreiro paulista, sobrinho do outro Domingos, um feroz bandeirante, matador de índios e caçador de ouro. O paulista veio disposto a vencer a qualquer preço, Zumbi já liderava seu povo há exatos 15 anos, pois estávamos em 1694, e, Zumbi foi ferido numa luta de morte, porém sobreviveu. Mas, foi traído por um tal Antonio Soares e surpreendido pelo capitão Furtado de Mendonça (dele, dizia um cronista da época: nunca vi um Mendonça que não tenha Furtado, o que diz bem do caráter da família), na serra dos Dois Irmãos. Embora apunhalado, resistiu, mas, foi morto com mais vinte de seus guerreiros, em 1695. Não o apanharam vivo; diz a lenda que, vendo-se cercado, atirou-se de um despenhadeiro. Conforme os portugueses adoravam fazer com seus desafetos, teve a cabeça cortada, salgada e levada como brinde ao Melo e Castro. Como os negros acreditavam na imortalidade de Zumbi, puseram-no exposto nas estradas do Recife. Tinha 40 anos de idade. Quem cria na sua imortalidade, venceu; depois de séculos sendo um herói esquecido e pouco falado, Zumbi voltou à cena e, hoje é reverenciado como paladino da liberdade. Por ser um negro consciente da sua força, o seu aniversario foi escolhido para ser o “Dia da Consciência Negra”.


Fontes: “O quilombo dos Palmares” de Edison Carneiro; “Zumbi” de Joel Rufino dos Santos.