*É um Lusófono com L grande? Então adira ao MIL: vamos criar a Comunidade Lusófona!*

MIL: Movimento Internacional Lusófono | Nova Águia


Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de uma centena de milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por mais de meia centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia. Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.
SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
NIB: 0036 0283 99100034521 85; NIF: 509 580 432
Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).

Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Desde 2008"a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

Colecção Nova Águia: https://www.zefiro.pt/category/zefiro-nova-aguia

Outras obras promovidas pelo MIL: https://millivros.webnode.com/

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
Mostrar mensagens com a etiqueta MIL-Textos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta MIL-Textos. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 12 de março de 2025

Brasil - Preservando a cultura portuguesa: um legado de memórias e oportunidades para o sector privado

 



A ligação entre Brasil e Portugal vai muito além dos livros de história. É uma herança viva, presente no dia a dia de milhares de brasileiros, expressa na música, na gastronomia, nas festas populares e, principalmente, nas memórias e tradições das comunidades portuguesas espalhadas pelo país. Preservar essa cultura é mais do que um ato de saudosismo; é um investimento no futuro, um reconhecimento da contribuição dos imigrantes portugueses e de seus descendentes para a formação da identidade brasileira. E nesse cenário, o setor privado tem um papel fundamental a desempenhar.

Não se trata apenas de filantropia. Investir na cultura portuguesa é uma oportunidade estratégica para empresas que buscam se conectar com um público engajado, fortalecer sua marca e construir uma imagem positiva. Centros culturais, como a Casa de Portugal ou o Clube Português em São Paulo, ou o Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, são exemplos de instituições que preservam e difundem a cultura portuguesa, mas que precisam de apoio para ampliar seu alcance e impacto.

Os centros culturais, guardiões da memória luso-brasileira, são um terreno fértil para o investimento privado, indo além do apoio a eventos. Eles podem ser centros de pesquisa viva, onde a história da imigração é resgatada e celebrada. Imagine exposições interativas que combinem tecnologia e acervos históricos – cartas, fotografias, objetos – narrando a saga dos imigrantes. Empresas podem patrocinar espaços literários, com bibliotecas digitais, clubes de leitura e oficinas, que celebrem a riqueza e a diversidade da literatura em língua portuguesa, com um olhar especial para as conexões entre Brasil e Portugal, promovendo o diálogo entre autores e leitores dos dois países. Ou investir em estúdios para músicos de fado e outras expressões, fomentando a produção artística.

Sei que, para alguns, isso pode soar como um sonho distante, mas resgatar e valorizar nossa cultura, nossa história, é um investimento no presente e no futuro. Apoiar esses centros, com foco no legado e na produção artística, fortalece a identidade luso-brasileira e gera um impacto duradouro.

E por falar em memória, permitam-me uma breve lembrança pessoal. Como tantos de vocês, também carrego em mim a herança de Portugal. Meus avós vieram de Celorico da Beira, na região da Beira Alta, e, como muitos imigrantes, trouxeram consigo a alma da nossa cultura, ensinando aos filhos e netos o amor pela música, pela culinária e pela língua portuguesa. Essa história, que se repete em tantas famílias luso-brasileiras, é um patrimônio que nos une e que merece ser preservado. Ao apoiar projetos que registram e divulgam essas memórias, as empresas ajudam a manter viva a chama da nossa identidade, fortalecendo os laços que unem a comunidade portuguesa no Brasil.

A colaboração entre o setor privado, o governo e as comunidades portuguesas é a chave para criar um ecossistema vibrante de preservação e promoção da nossa cultura. Para além das tradicionais bolsas de estudo para intercâmbio – que são sempre bem-vindas –, as empresas podem ir muito além. Que tal, por exemplo, patrocinar um concurso que premie jovens luso-descendentes que apresentem projetos inovadores para a preservação da cultura portuguesa, seja através da arte, da tecnologia, da gastronomia ou de outras áreas? Ou, quem sabe, criar um aplicativo que use realidade aumentada para transportar os usuários para dentro de um azulejo português, revelando seus segredos e histórias?

O convite está feito. Empresas que desejam se conectar com um público apaixonado por suas raízes, construir uma imagem de responsabilidade social e contribuir para a preservação de um legado cultural valioso, têm na cultura portuguesa um campo fértil de oportunidades. Entre em contato com um centro cultural português, participe de um evento da comunidade, converse com descendentes de portugueses. Descubra como sua empresa pode fazer parte dessa história e ajudar a construir um futuro onde a cultura portuguesa continue a brilhar no Brasil. Luiz Filho – Brasil in “Mundo Lusíada”

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Jorge Miranda no dia de Portugal

Braga, 10 de junho de 2022. Decorreram as Comemorações do Dia de Portugal. Com dois discursos fundamentais.  O do Professor Jorge Miranda, Constitucionalista, Presidente da Comissão Organizadora do evento, e o de Presidente da República, Prof . Marcelo Rebelo de Sousa.

Os dois discursos combateram o Nacionalismo, e exaltaram o papel da "arraia miúda" na continuidade da existência dum Portugal independente, alimentando o patriotismo. Notáveis, qualquer deles.

Uma coisa passou quase despercebida na parte inicial da intervenção de Jorge Miranda: a referência a um preceito constitucional que ele, melhor que ninguém, conhece; trata-se do artigo 5, alínea 3 (e citemos: "  O Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de soberania que sobre ele exerce, sem prejuízo da retificação de fronteiras"). Jorge Miranda concretizou mesmo, na sua alocução:«...Dia de Portugal, Portugal com território historicamente delimitado no Continente Europeu, como se  lê no artigo 6.º da Constituição, para incluir Olivença e os arquipélagos Atlânticos dos Açores e da Madeira...»

É verdade que Jorge Miranda se queria referir ao artigo 5º, e não 6.º, como se demonstra pelo contexto. Um erro desculpável.

O importante, aqui, é que se referiu Olivença. Onde decorria  uma comemoração específica, com a participação de algumas individualidades de destaque, evento amplamente divulgado, mas também amplamente ignorado..Onde se liam textos em Português, e onde se cantava em Português . Num momento de profunda intimidade lusófona.

O Professor Jorge Miranda foi a voz que quebrou este inexplicável silêncio. Só por isso, merece aplausos.


Estremoz, 11 de junho de 2022
Carlos Eduardo da Cruz Luna

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

O barranquenho já tem suporte legal, mas o português de olivença não...porquê?

Haja alegria por mais um passo dado no reconhecimento de culturas locais como um valor a preservar! O barranquenho foi reconhecido, na Assembleia da República, por unanimidade, como um dialeto que "deve ser conservado.". Desta forma, passa a ser considerado como um bem de interesse cultural com o direito a ser cultivado e a promovido. Estabelecem-se memo medidas para o proteger, promover e valorizar. Qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade cultural verá nesta novidade algo de positivo. E, todavia... Todavia, uma contradição salta à vista. Numa região bem definida, que a seguir se identificará mas que não fica longe de Barrancos, subsiste um falar português alentejano, com algumas marcas próprias. Teimosamente. Numa resistência de duzentos anos. Ou resiliência, como está na moda dizer-se- As autoridade locais buscam atualmente promovê-lo Há mesmo, o que é mais controverso, quem defenda ser esse português algo de razoavelmente diferenciado, e não faltou uma empresa portuguesa, de Campo Maior, que se ofereceu pata o divulgar. Não é muito difícil perceber que se está a falar da região de Olivença (incluindo o novo concelho de Táliga). O que será preciso para órgãos de soberania portugueses, incluindo a Assembleia da República, deram alguma atenção a esta realidade? Note-se, como curiosidade, que, a nível de Estado, Portugal considera haver ali um problema de definição de soberania. Então… porquê tanto silêncio? Olivença precisa, pelo menos culturalmente, que o Estado português lhe dê a mão. E, já agora, que a comunicação social não silencie tudo o que por lá se passa. Que critérios se podem aferir? Viva, pois, o barranquenho. Mas viva o Português de Olivença! 
 Carlos Eduardo da Cruz Luna

quinta-feira, 13 de maio de 2021

A ÚLTIMA GERAÇÃO DO PORTUGUÊS OLIVENTINO

 «Sebastiana tem 93 anos e fala aquela língua dos idosos que mistura o português materno com o espanhol na escola. Para que não se perca, Olivença quer que seja declarada BIC  »

Míriam F. Rua
9 de maio de 2021,

[ [NOTA: Muito do que se pensa ser castelhano no Português de Olivença não o é. São formas alentejanas que eram comuns até há pouco tempo] 

 Sebastiana Martínez Rodríguez aprendeu português em casa. Nessa língua herdada dos avós, falava com a mãe, com os irmãos e ensinou-o também a todos os seus filhos, menos à mais nova. Aprendeu castelhano na escola e foi esta língua  que, das paredes de sua casa para fora,  em São Bento da Contenda [San Benito de la Contienda], foi imposta ao longo dos anos. Fruto desse bilinguismo, português familiar e espanhol/castelhano oficial, a geração de Sebastiana é a última a falar o português oliventino, uma espécie de portuñol nativo da cidade de Tecula Mecula [famoso doce regional português oliventino]
. Aos 93 anos, essa mulher É a história viva do século XX. Ela lembra-se de que tinha 9 anos quando estourou a Guerra Civil e que no conflito o seu pai foi morto, e que nunca foi encontrado o corpo. Lembra-se também dos anos de fome e de mercado negro. Comprava o café português aos contrabandistas, que abrigava no "casão" [barracão ferramentas] que tinham no campo. Ela ficou viúva há quarenta anos, « viúva, diz ela, e sossegada» e criou seus filhos colhendo azeitonas, nozes, amanhando a terra e costurando para si própria e para a família, e para fora   
    Há doze anos vive na Casa de la Misericordia de Olivença, onde se viciou no crochê porque não lhe agrada passar horas de braços Cruzados sentada numa poltrona. Há dois meses, venceu a covid-19., o cobiçado foi vencido. E tudo isso é contado em espanhol com sotaque português e usando refrões. “Há goteiras [buracos no telhado], mas não faz mal porque não está a chover”, respondeu quando questionado sobre seu estado de saúde. 

   «UM DOS ERROS QUE COMETEMOS FOI FALAR COM OS NOSSOS FILHOS EM ESPANHOL»

   [Para divulgar o idioma, a Delta lançará envelopes de açúcar com expressões do português de Olivença]

  Até  aos dias de hoje, continua a falar português quando agarra no telefone para conversar com os filhos que tem e que moram em Toledo e na Catalunha. Ele sempre o faz num contexto de intimidade, se houver mais pessoas, ele passa a usar do espanhol .  Na língua de Cervantes, ele também fala com suas netas. Ela queixa-se de  os jovens não terem aprendido o português, língua que ela reconhece "que a ajudou muito".

"Ay, Mai"

     Entre estes jovens, o português Oliventino sobrevive em algumas expressões como "Ay, mai", que se utiliza como exclamação de surpresa, susto ou exagero ou como as netas de Sebastiana a chamam e que se pronuncia mais expontaneamente do que em qualquer outro lugar de Extremadura. Este termo ilustra perfeitamente a singularidade de sua linguagem. Essa 'mai' não é a "madre" do espanhol nem a "mãe" do português. Mas há mais exemplos de português oliventino, em português; presunto é "jimão", chaminé é "chuné" e desalinhado socialmente é "maltês". “É uma língua, um substrato do português que com o tempo foi contaminado pela a língua castelhana/espanhola e que se fala com naturalidade na faixa etária dos 70 anos”, explica Eduardo Naharro Macías-Machado, professor de Língua e Cultura Portuguesas, na Universidade Popular de Olivença .Na língua de Cervantes, ele também fala com suas netas. 
  
«Em Olivença a língua materna dos mais velhos é o português, mas chega um momento, por volta dos anos 50 e 60, em que a elite mais poderosa da sociedade é constituída pela administração, pela Igreja e pela escola, elite que usava/falava o espanhol. No mundo rural começou-se a considerar que o português não era uma língua do futuro e que a língua "rica" era o espanhol. Por isso, um dos erros que cometemos foi falar espanhol com os nossos filhos, porque se tivéssemos guardado o português, [mesmo que só] em casa, agora todos [em Olivença[ falaríamos as duas línguas ”,
Esta circunstância fez com que entre os jovens se perdesse o português Oliventino. Perante esta realidade, a Câmara Municipal [de Olivença] está decidida a evitar a sua extinção e para isso lançou uma campanha promocional que tem como objetivo último fazer com que a Junta de Extremadura reconheça e proteja a sua língua como Bem de Interesse Cultural (BIC).
   Em lojas e bares aparecem cartazes com expressões populares do português olivense, que descrevem como a língua de identidade e expressão de culturas. “É absolutamente único, fruto da convivência das duas línguas durante dois séculos”, defende Manuel J. González Andrade, Presidente da Câmara Municipal de Olivença, que revela que após um encontro com Rui Nabeiro, dono do Delta Café, a fala de Olivença será promovido nos envelopes de  açúcar da empresa de Campo Maior. 
   É este o impulso que Olivença pretende dar à sua linguagem, antes de apresentar este ano a sua candidatura a Bem de Interesse Cultural. “Acreditamos ter argumentos suficientes para concretizar a declaração, que entendemos como uma forma de preservação da linguagem”. Naharro Macías-Machado acrescenta a este propósito: “Seria um reconhecimento da nossa memória, que nos permitiria tomar consciência de que esta língua é um veículo de cultura e diversidade que nos diferencia e isso  ajudaria/ajudará a revitalizá-la para que não se perca.
    A candidatura/pretensão do português Oliventino a (ser declatado) BIC [Bem de Interesse Cultural] é mais um passo no esforço de Olivença para não ostracizar os seus cinco séculos como cidade portuguesa, sobre os quais o seu património, as suas casas, os nomes das suas ruas ou o duplo DNI [Cartão de Cidadão] que muitos habitantes têm . A língua é o aspecto mais imaterial desse cruzamento de culturas Raya de que Olivença se orgulha. "

https://www.hoy.es/badajoz/ultima-generacion-portugues-20210509001541-ntvo.html?fbclid=IwAR1ANjNxCH0Q0dZKzBQKL5KqcrmAX

A VIRADA

Eugênio Giovenardi 

Sou sociólogo.

Cinquenta anos de minha vida profissional foram e são dedicados a acompanhar o desenvolvimento de associações rurais de produção de alimentos, o aprimoramento da consciência ambiental dos produtores rurais e alertar sobre o impacto dessa atividade nos ecossistemas em algumas regiões do país.

Estas considerações expressam minhas convicções, críticas e desejos propositivos para uma necessária virada de atitudes e comportamentos, baseada no conhecimento das leis da natureza e da auto-organização dos ecossistemas. Trata-se de uma nova atitude cultural orientada à bioeconomia, para buscar meios adequados à sobrevivência da espécie humana, em interação e interdependência com todos os seres vivos do planeta e assegurar a regeneração dos ecossistemas hospedeiros.

A organização social e política do Brasil, em harmonia com todos os demais países, independentemente de ideologias e em respeito às diferenças culturais, diante de uma vertiginosa pandemia, poderá aproveitar o momento para promover uma virada humana.

O cenário político brasileiro se apresenta confuso, conflitante e com indecisas perspectivas de mudanças sensatas nos próximos anos. Um generoso pacto de diálogo institucional e comunitário poderá encontrar os caminhos da virada.

Grupos políticos, no Brasil de hoje, atuam nas esferas da justiça contra a corrupção seletiva, com menos rigor contra os que detêm cargos da administração pública, congressistas, grandes empresários sustentados pelos favores da máquina do governo.

Grupos políticos da chamada ala direita que se denominam liberais, mesclam capitalismo selvagem, liberalismo e neoliberalismo, orientados pelo dedo invisível do mercado, de bolsas de valores, moedas fortes, taxas de juro, inflação, rumo à conquista de um PIB exuberante. O adversário político mais próximo é o grupo de esquerda.

Grupos políticos de esquerda congregam trabalhadores, sindicalistas, socialistas, comunistas, anarquistas, libertários, autogestionários, ambientalistas, feministas, diversos grupos contra a discriminação racial, de culto e de gênero. Cada subgrupo atua com metodologia própria de ação política local ou regional, com programa maleável. Por vezes, alguns grupos alimentam relações ambíguas, com ênfase em operações sociais, voltadas para os marginais da economia, também ditos desfavorecidos.

Grupo denominado Centro, participa, por conveniência e interesse eleitoral, de programas e políticas de direita e de esquerda, e operam como sanguessugas da administração pública. Negociam cargos, junto a empresas do Estado, em troca de apoios ao presidente de turno, independentemente de políticas públicas.

 

Esses três grupos se caracterizam por uma qualidade ou virtude comum: a conquista, a apropriação do poder político, sacrificando ideias e ideologia, promessas, prioridades, com abandono de seus projetos outrora tidos como essenciais. A preocupação em busca de objetivos relativos às funções do Estado, na prática, se manifesta menos nítida e, por vezes, ignorada. O poder político partidário exercido pelo grupo dirigente eleito se sobrepõe ao conceito de Estado, cuja função maior é dar atenção às necessidades vitais e culturais da totalidade da população em seu espaço geográfico.

Os erros e acertos da atuação desses grupos que, por tempos definidos, administram a burocracia pública, são deixados em herança aos sucessores democraticamente eleitos. Os erros, por vezes monstruosos, continuam ativos e alguns se perpetuam no tempo.

 

O PONTO DE PARTIDA

Os líderes e representantes de todos os grupos políticos que concorrem para os cargos eletivos se formaram em nossas escolas e universidades sob a orientação de teorias econômicas clássicas tendo como eixos conceituais a produção e o consumo de bens, a oferta e a procura, a acumulação financeira, sujeitos ao humor do mercado, sensível a inúmeros fatores previsíveis e imprevisíveis que o torna neurótico e esquizofrênico. A neurastenia e a esquizofrenia contagiam os próprios administradores econômicos.

O discurso político de todos os representantes dos grupos pretendentes ao poder, além da retórica da comunicação e do tom demagógico das promessas, aponta planos e programas de crescimento econômico, desenvolvimento sustentável, geração de empregos, melhoria da renda e atenção especial à educação, saúde, segurança.

A maior parte dos líderes políticos que pretendem assumir o comando do país e administrar os planos de produção e consumo, demonstra escasso conhecimento sobre as leis da natureza, expressas no funcionamento dos ecossistemas onde a biodiversidade se reproduz. Por ignorância, agravada por interesses pessoais ou locais, esses representantes de partidos políticos exploram e esgotam os ecossistemas no afã de conquistar e se apropriar de bens que, pela natureza das coisas, são comuns a todas as espécies vivas.

Uma das falhas de grande parte das lideranças políticas é a escassa familiaridade com o funcionamento dos ecossistemas onde se alimentam e se reproduzem milhões de espécies vivas que compõem a biodiversidade. Todas as espécies são sociáveis, interacionam, são interdependentes e convivem num processo contínuo de reprodução. O homo economicus é parte dessa biodiversidade no mesmo ecossistema e dele retira o sustento, disponível na mesa comum a todos os seres vivos. Os ecossistemas não discriminam nem privilegiam ou concedem direitos especiais às inumeráveis espécies da biodiversidade que nela se hospedam.

Dada a peculiaridade cerebral da espécie humana, capaz de intervir no funcionamento e na vida de outras espécies da biodiversidade, o homo economicus, sem ser por elas juridicamente incriminado, se assenhora de todos os bens da natureza oferecidos pelo planeta e lhes dá o destino que melhor lhe convém.

A evolução da espécie humana, desde os longínquos milênios de sua aparição, dotou-a de energias e capacidades para aproveitar de forma diversificada os bens utilizáveis para alimentação, defesa e reprodução, estabelecendo, instintiva e gradualmente, as bases de sua organização frente à complexa ordem da natureza. A superioridade cerebral o induziu a criar um ambiente ofensivo diante das forças naturais e, se possível, sufocar a energia dos ecossistemas que resistissem à sua passagem.

Alio-me ao entendimento de que o aparecimento de vírus controladores de espécies frágeis como a humana, aves e suínos, e fenômenos climáticos intensos e incontroláveis, possam gerar um surto de racionalidade reprodutiva, no qual o princípio da precaução se imponha, dignificando ainda mais a espécie humana. 

Mudar! As mudanças climáticas que afetam todos os seres vivos, ao longo de bilhões de anos, são fenômenos que determinam também os comportamentos do homo sapiens e despertam nele ímpetos de mudança para sobreviver e se reproduzir. A virada histórica não se fez de forma abrupta, mas ao longo de milênios. O homo sapiente, entre ensaios e erros concluiu que a natureza aceitava sua interferência e lhe dava certezas de que podia dominá-la sem riscos de ser autuado em flagrante delito contra a constituição das leis naturais.

 

POPULAÇÃO

A capacidade de se adaptar em todas as regiões do planeta, as mais inóspitas, de coletar, caçar e, depois, produzir, acumular alimentos e agrupar-se em abrigos seguros para se reproduzir, a população humana passou dos milhares aos milhões e, hoje, aos bilhões. A expansão demográfica se fez com o sacrifício dos ecossistemas e da extinção gradativa da biodiversidade. Florestas foram abatidas, o solo fértil tornou-se árido (a aridez cobre três quartos das terras emersas do planeta – Atlas Mundial de la desertificación, EU - 2020), a escassez de água potável, em consequência, atinge países ricos e pobres. Dois bilhões de pessoas não têm água em suas casas e a busca a grandes distâncias. (PNUD/FAO).

A produção de alimentos, a intensa urbanização, a industrialização crescente, a poluição de rios, lagos e mares por produtos químicos, o aparecimento de doenças infecciosas, bactérias e vírus compõem um quadro de alerta a exigir mudanças de rumo urgente e constante. Como nunca, o princípio da precaução se impõe para o restabelecimento dos ecossistemas, da interdependência de todos os seres vivos e da sobrevivência da frágil espécie humana.

Para os interesses econômicos do sistema de produção e consumo de nossa época, uma grande população significa imensas possibilidades de diversificação de interesses, de iniciativas, de criatividade, de arte e especialmente de consumo da quase infinita variedade de bens úteis e supérfluos.

Nos modelos econômicos estabelecidos nos últimos 200 anos, uma das estratégias econômicas para manter o suprimento de bens de forma constante é garantir estoques reguladores de alimentos e outros bens de uso diário ou temporário diante da incerteza e medo do futuro. A espécie humana, entre todos os seres vivos, é a única que se preocupa com essa incerteza do amanhã. Esta prática e estas reservas armazenadas constituem um dos empecilhos estruturais à regeneração dos ecossistemas. A virada em direção à novas atitudes e comportamentos, de sorte a preservar os ecossistemas, necessariamente se beneficiará com a mudança cultural da espécie humana. Os “estoques reguladores” pesam sobre as atividades orgânicas da regeneração dos ecossistemas e estão relacionados ao aumento constante da população e do consumo diversificado e estimulado, sem atentar para o desperdício de bens produzidos com sacrifício da natureza, isto é, da própria espécie humana. Por ironia dos sistemas produtivos, estoca-se em câmaras frigorífica e grandes silos água evaporada. Armazenam-se erros técnicos e estratégicos para decisões futuras.

A população é, ao mesmo tempo, fator e causa do enriquecimento de uma parte dos agentes econômicos, mas também da indizível pobreza, miséria e fome de bilhões de pessoas, vítimas da desigualdade, garantida pela ineficiente organização social e cultural da espécie humana. Ainda não se deu a devida importância para uma política de respeito às diferenças. Não é nas semelhanças nem nas desigualdades, mas é nas diferenças que está nossa igualdade humana.

População é um tema eivado de melindres econômicos, morais, religiosos e políticos. Uma forma de tratar o assunto é equilibrar o número de bocas com a quantidade de pão disponível. O instinto animal faz isso pela lei orgânica implícita na sobrevivência da espécie. (A fêmea do louva-deus come o macho depois da fecundação. As cobras não se reproduzem se não encontrarem comida.) O cérebro humano, diante da escassez e da limitação de bens do planeta pode encontrar alternativas para o uso racional dos itens disponíveis. Mas há limites na oferta do planeta. Minha posição ecológica é a de que uma população humana só pode aumentar até o ponto de equilíbrio. Segundo cálculos da década de 1970 (population bomb), o ponto de equilíbrio estaria em 3 bilhões de pessoas. O processo de regeneração dos ecossistemas seria mais eficaz para repor a oferta utilizada.

Hoje, estima-se que existam mais de 2 bilhões de pessoas em estado desumano e não há perspectivas de que sejam atendidas convenientemente, nos próximos 50 anos, pelos modelos atuais da economia.

Por vezes, decisões antiambientais, destruidoras de vastos ecossistemas, como o Cerrado e a Amazônia, demonstram desconhecimento, ausência de propostas racionais, falta de coragem, de compromisso e solidariedade para proteger a biodiversidade. O menosprezo da ética e do espírito público alimenta privilégios que deixam no abandono grande parte da população.

O conjunto de políticos, de partidos, líderes e congressistas representam uma estupenda mediocridade de pensamento político que o momento de nossa história humana requer. A postura mental de grande parte da atual classe política, em relação ao diálogo com a natureza, para estimular a boa convivência da população com os ecossistemas, cuja função múltipla é preservar a vida em todas as suas formas, é incompreensível. O alvo generalizado da classe política é a conquista do poder e a demonstração explícita da autoridade e das leis em seu favor.

Os interesses pessoais de grupos políticos se confundem com a ideologia, os planos e os programas de seus representantes e do próprio grupo. Os ajustes, as críticas, as estratégias, os resultados, os erros são criteriosamente apontados por renomados especialistas econômicos e analistas políticos de todos os matizes com o objetivo de preservar os conceitos e as práticas de cada programa partidário. Essas análises, constantemente veiculadas, são tão precisas quanto às de comentaristas esportivos.

Frente ao atual e grave conflito entre a organização social da espécie humana e a auto-organização dos ecossistemas há que se impulsionar a formação de uma consciência de mudança que se proponha a pacificar a economia, base das relações humanas com a natureza, com os ecossistemas locais, regionais, nacionais e planetários. Um dos aspectos importantes dessa mudança será reconhecer e aceitar a contenção rigorosa do crescimento da população mundial, em face das limitações de oferta de bens do planeta e o risco de extorquir dele o que ele não poderá dar, mesmo com a utilização da decantada tecnologia possível de ser empregada.

“Ao mesmo tempo, bilhões de seres vivos modificam a nebulosidade, a insolação, a temperatura, a composição química do ar. As árvores fazem baixar as temperaturas e subir as mínimas; diminuem a velocidade e a turbulência do vento; aumentam a umidade do ar e conformam solos que retêm mais umidade”. (Edgar Morin, O método: a natureza da natureza)

 

A MÃE NATUREZA

Ao longo de milênios, a espécie humana tornou-se insensível e, por vezes, torturadora da mãe terra. O homo sapiens tem formas, ideias e aparelhos eficientes para torturar a Terra e fazê-la responder o que não estava escrito em sua estrutura orgânica. A este sistema de tortura, os analistas, cientistas e economistas denominam produtividade. Qual é o resultado desse sistema de tortura produtiva da Terra, tão elogiado por seus atores? Essa terra, dizem os estatísticos, produzia 1.000 kg de trigo/ha, há dez anos. Com dez anos de extorsão, de desmatamento, de agrotóxicos, de mutação de sementes, de inseticidas, de uso de máquinas inclementes, a Terra respondeu com gritos de horror e terror com decantados cinco mil kg do cereal. Assim, ao lado da suposta fartura para todos, criaram-se desertos.

Interrompa-se, por 40 ou 50 anos, a tortura sobre uma área exaurida e o campo, hoje modificado pela produtividade impiedosa da soja ou da bovinocultura, se tornará o bosque antigo. O olho d’água voltará a chorar. Os pássaros virão cantar. As árvores limparão o ar. A alegria de viver iluminará as casas de nossos netos e bisnetos.

Quarenta anos é um tempo de pousio extraído da experiência pessoal no acompanhamento da regeneração do ecossistema de uma área degradada de Cerrado, no Distrito Federal. O ponto de não retorno foi superado entre 30 e 40 anos de pousio e das ajudas à mãe natureza, especialmente, e principalmente, com a captação e detenção das águas da chuva por meio da proteção vegetal e de barreiras de pedra e material ecológico. Alcançou-se deter três quartos do volume de chuva na área em regeneração. 

Para esta pequena área de 700.000 metros quadrados, o tempo se revelou adequado para evitar o ponto de não retorno. Cada ecossistema, e em cada bioma, diante dos efeitos da longa e intensa exploração, o tempo será diferente. Carlos Nobre (Amazônia) afirma que, nesse bioma, o ponto de não retorno já foi superado. Precisaria fechar a Amazônia para os invasores econômicos e usá-la com a prudência milenar dos nativos. O tempo de regeneração para o planeta, agora, se estima em séculos.

 

O RUMO

O rumo da virada política na busca da paz econômica com os ecossistemas é aprofundar o conhecimento da natureza, de suas leis, de seu funcionamento, de sua capacidade de regeneração no tempo, para repor as energias gastas na sustentação da biodiversidade. O tempo da natureza não é o tempo da economia exploradora dos bens disponíveis.

Há que se aprimorar de forma contínua a percepção da dialética dos ecossistemas, de sua necessidade de descanso, de restauração e dar tempo à regeneração orgânica e repor os bens requeridos pelas espécies vivas. O segredo da regeneração e da oferta de bens está no inteligente equilíbrio diante da intensidade do uso que a biodiversidade requer.

O conjunto de vidas dos ecossistemas a ser preservado é imprescindível para todas as espécies e, de modo especial, para a espécie humana. O controle das decisões será determinado pelo desenho global da regeneração dos ecossistemas. Não apenas por leis humanas e jurídicas da organização social, mas por comportamento cultural advindo do conhecimento e do instinto de sobrevivência de cada espécie.

Quando se menciona o processo imanente de regeneração da natureza, inclui-se a globalidade dos seres vivos que sugam as fontes de vida de forma interativa e interdependente, bem como as individualidades de cada espécie vegetal e animal. Portanto, nesse processo de regeneração global está incluído o homem, o ser humano, o homo sapiens. É a única individualidade que precisa se comprometer conscientemente na regeneração cultural frente às vicissitudes de sua organização social. Todos os seres vivos, a natureza viva, os ecossistemas têm como elementos físicos essenciais da regeneração a água e o oxigênio.

Não serão o capitalismo, nem o liberalismo, nem o socialismo, com suas políticas econômicas temporárias, que hão de determinar as condições de uso e as formas de comportamento cultural para a apropriação das riquezas comuns do planeta. A principal riqueza do planeta é a vida. E a manutenção da vida engloba a pluralidade das diferentes espécies: a biodiversidade. É a natureza, geradora da vida, que dará os limites da sobrevivência e da reprodução dos seres vivos. A espécie humana não está excluída desses limites.

 

PACTO SOLIDÁRIO

O candidato eleito para representar o povo na administração do Estado poderá ser escolhido entre os componentes do grupo à direita, à esquerda ou ao centro. Sua liderança teria a força de propor aos apoiadores, antes de obter a maioria dos votos, um pacto de solidariedade para conceber uma proposta de governo capaz de interessar medianamente os dirigentes de todos os estados da federação. Escolhido pelo colégio eleitoral, o eleito proporia um pacto de solidariedade com governadores, associação de municípios, organizações associativas, comunitárias, ambientais, empresas econômicas de diferentes áreas produtivas com o fim de tomar decisões previstas na plataforma de governo.

Previamente, a plataforma deve ter despertado o interesse de muitos países e, com certeza, a crítica de outros. A força da plataforma, com apoio de outros países, deveria dar ao novo presidente do Brasil a coragem de ir a Davos para dizer, com convicção, aos chefes dos países reunidos, diante da calamidade econômica do planeta: SENHORES, ESTAMOS ERRADOS!

O ponto, o alvo desse grito, respeitadas as diferenças culturais, será a desigualdade entre países e, em todos os países, entre regiões e grupos que enfrentam a pobreza, a miséria, a exclusão.

A decisão sobre os primeiros passos na direção de uma nova economia ecológica – a bioeconomia – será baseada, fundamentalmente, no conhecimento mais amplo e profundo das leis básicas dos ecossistemas nas diferentes regiões de cada país. As estratégias de ação devem dirigir-se diretamente, e com sua participação, aos que vivem e usam diretamente os benefícios desses ambientes: na agricultura (controle das águas e florestas), na urbanização (habitação, mobilidade, controle do lixo seco e líquido), na industrialização, transformação e distribuição dos bens produzidos. O estímulo à geração de novos empreendimentos apontaria para aprofundar os conhecimentos científicos sobre a natureza, a saúde ambiental para todos os seres vivos, e o uso ecológico dos bens disponíveis e escassos do planeta.

Um dos esteios essenciais desta plataforma é a educação para a virada econômica, desde a creche até a pós-graduação, orientada para o conhecimento dos ecossistemas, o uso dos bens limitados e o tempo necessário à regeneração das áreas ocupadas, trabalhadas e habitadas.

----------------------------------------------------------------

FONTES DE APOIO

Abramovay, Ricardo, Amazônia – Por uma economia do conhecimento da natureza, 2020.

Morello,T. Desmatamento e desenvolvimento, Brasília, 2019.

Nobre, Carlos, Land-use & climate change risks, 2019.

Reinach, F. Engenharia ecológica chinesa, SP, 2018.

Porto Gonçálves, Carlos W. Os (des)caminhos do meio ambiente, Contexto, 1998.

Wahl, Daniel C. Design de culturas regenerativas. Bambual, Brasília, 2019.

Morin, Edgar, O enigma do Homem, Zahar, Rio de Janeiro, 1979.

SANTOS, M. O Espaço dividido, edusp, São Pualo, 2008

sábado, 25 de julho de 2020

Três Opções e Mais Uma


Os portugueses entendem que os 80 a 90 mil milhões de euros de que a Europa precisará para amenizar as circunstâncias provocadas pelo Covid19 terão de ser obtidos financeiramente com reformulação relativamente às dívidas já existentes, seja através da mutualização da dívida, por eurobonds, ou por outro mecanismo qualquer, desde que o reembolso dos empréstimos anteriormente tomados não se venham a somar cumulativamente a esta nossa realidade da dívida, tornando impossível cobrir os gastos correntes dos juros com mais receitas fiscais.

O Ministro das Finanças e o Primeiro-Ministro preocuparam-se em pagar as dívidas de juro mais elevado com dívidas de juro menos elevado. Todavia, a dívida aumentou. Não questionamos, aqui, porque aumentou a dívida, mas que aumentou é facto. Se a cura para mais dívida é ainda mais dívida, mesmo com preços favoráveis, tal não passaria de maior dívida acumulada e de menor índice de segurança económica e financeira para o País, o que nos atrapalharia até ao momento em que pudéssemos pagar aos credores, de modo estável com os recursos internos, mercado interno e exportações, o que sempre levaria muitas décadas a realizar. Continuaríamos com o ascensor social invertido, os filhos a ganharem cada vez menos do que os pais, mesmo com idêntica ou maior instrução formal. O nosso elevador social não está apenas avariado como “repete”, e bem, o historiador José Pacheco Pereira; o elevador está, em nosso entender, em movimento descendente - aumentem-se 10 ou 5 euros as pensões, atualizem-se ou não salários…

Alguns dos mais fortes credores de Portugal são europeus, são países da área do euro, e que, sem coesão ou mutualização perante as novas dívidas devido ao Covid19, só poderão adiar e dilatar um problema gigantesco, num desfinanciamento, numa massa de investimentos sem hipóteses de incentivar a economia a crescer de modo sustentável e, sobretudo, onde se poderão efetivamente criar mais empregos, pela renovação nas novas Economias Azul e Verde. Não nos faltam tecnologia e aplicações, falta-nos decisão política, “aparato” legal e talvez mesmo uma burocracia ad hoc. Falta-nos, pois, trabalho político. E não vemos isso em nenhum lugar da barricada, como tão bem explicita a análise de Gonçalo Magalhães Collaço, na obra que acaba de ser impressa pela Editora Naútica Nacional «O Mar. Exaltação de Portugal».

As mudanças não acontecem de um dia para o outro, antes requerem pelo menos um ciclo político de dez anos. Como os salários aumentaram seis vezes mais rapidamente que a produtividade na última década, os custos de mão-de-obra, altos apenas para a produtividade atual (mas não altos para manter a mínima dignidade das condições de vida das pessoas e famílias na UE) fazem com que a regra geral da pequena escala de nossa indústria seja, a curto prazo, a falência. Resultando na difícil integração no mercado global dos produtos portugueses, por não haver escala e quantidade suficiente na sofisticação (I&D).

O Banco Central Europeu, que responde a preocupações como a inflação, para manter um euro forte, parece agora ter em consideração a necessidade de estímulo à economia, contudo, não poderá aumentar as taxas de juro – no interesse de todos os membros. Tampouco interessará ao BCE discriminar positivamente as democracias liberais e aqueles que melhor credibilidade têm internacionalmente em todos os domínios como é o caso de Portugal.

Um aumento na taxa de juros é a última coisa necessária para as economias com um sistema de problemas, uma problemática...não apenas a portuguesa. Mas muitos não desejam assumir que, cada um dos 27 países, poderia confortavelmente convergir numa taxa de juro única. E, sem isto, a eurocracia vence a coesão e até as democracias nacionais. As consequências já se fazem sentir com os fortes movimentos de extrema-direita e de extrema esquerda a crescer e a dominar muitos aspetos do Legislativo e Executivo. O absurdo começa a entrever-se em vários aspectos das decisões europeias. E parece-me que ainda não há consciência das nefastas consequências, especialmente a longo prazo, disto. A anarquia vem aproximando-se cada vez mais. Leia-se o última obra de Soromenho-Marques «A Queda da Europa».

Mais dívidas, taxas de juros mais altas, política fiscal ainda mais rígida, será uma combinação que não produzirá nada, a não ser alguma rápida recuperação económica, retórica.

Reestruturações brutais à vista (absurdas como em caso nacional com a TAP?) são displicências... sem estratégia holisticamente desenhada, talvez derrubando mais bancos ainda sub-capitalizados, cujo fundo de coesão bancária é pouco mais que fictício, por ser, além de minúsculo, apenas um empréstimo do próprio Estado...

As dores que vêm chegando estão sem estratégia e muito menos sem algum final à vista. Obviamente, não se pretende uma volta ao escudo e o consequente baixar durante uma década muito significativamente o poder de compra e, a curto prazo, a competitividade  portuguesa. Ninguém pretenderá tal de ânimo leve. Mas a hipótese corrente é a estagnação por décadas sem final.

A falta de coesão europeia continua permanentemente a repetir erros políticos clamorosos. Os que se dedicam a incensar o euro e o projeto europeu preferem manter a ficção de que Portugal está sofrendo uma crise de liquidez temporária, e que a UE, o que precisa fazer é passar por cima de um pequeno espaço-tempo. Infelizmente, para esses mais otimistas, mais cedo ou mais tarde a realidade morde e morde com força.

Os líderes da zona euro não admitem, têm outra argumentação, que estão administrando um sindicato de transferências, em que mais um pouco de “ajuda” para os amigos é a característica permanente. Ajuda essa que sempre tem resultado em lucro para outros. Fazer com que os Estados, hoje em maior dificuldade, se preparem para viver mais solitariamente, e que concordem com essa “ajuda”, fará com que os mercados de crédito duvidem de sua sustentabilidade. Os juros voltarão a subir, a austeridade volta outra vez em força – os pequenos orgulhos ou teimosias pagam-se caro, sejam os de Passos Coelho, sejam os de António Costa.

A zona do euro não é nem tem a incumbência de ser uma união de transferências. Mas isso foi e é agora. Todavia, os formuladores de políticas para a zona do euro nunca foram delicados ao adotar as suas abordagens aos problemas como em 2008. Não nos preocupamos demasiadamente com questões como o déficit democrático, pois o Conselho é um órgão donde esse contrapeso democrático se impõe, quando se pode impor… tal não é a discrepância de poderes de influência entre os países membros. Alguns dependem em quase 50% dos outros para suas exportações. As exportações da França e do RU para a China correspondem a 7,5% e a 5,6% de seus respectivos PIB, e estarão a pensar numa reestruturação com a China e, ao mesmo tempo, na reestruturação de uma NATO Global com todas as democracias liberais, como propôs o Senador McCain dos EUA há cerca de uma década. Imagine-se agora a amplitude de soberania ao depender-se em cerca de 50% das exportações para um outro país dentro da zona euro. O absurdo também aqui espreita. Já se pode elaborar uma lista de absurdos que se vão acumulando pelo menos a cada trimestre.

Os portugueses têm, assim, várias escolhas. Primeira opção: a menos que um sindicato de transferências seja estabelecido, em condições de decência moral, sim, de decência, pode ser que se entre novamente de acordo em que os contribuintes, trabalhadores, pequenos comerciantes, detentores de hipotecas, e outros, arcarão com o custo das dívidas ​​realizadas, mas talvez como antes, com riscos mal avaliados a bem dos credores, escolhendo uma dívida eterna que nos apoucará durante todo este século. Segunda opção: desafiar os europeus, todos, à coesão social. Terceira opção: começar a escrever num quadro fora do euro – nos vectores de compensação, como está já acontecendo claramente com vários países a começar pela vizinha Espanha e pela Itália. Claro que a consumarem-se os vectores de compensação fora do espaço euro, põe-se uma saída cordial do euro, mas tal só virá depois de permanecermos com o elevador social em movimento descendente (oportunidades em diminuendo) durante mais alguma década, como se tem vindo a verificar na última década.

Pedro F. Correia

sábado, 25 de abril de 2020

Três Opções e uma Saída Cordial


Os portugueses entendem que os 80 a 90 mil milhões de euros de que a Europa precisará para amenizar as circunstâncias provocadas pelo Covid19 terão de ser obtidos financeiramente numa reformulação relativamente às dívidas já existentes, seja através da mutualização da dívida, por eurobonds, ou por outro mecanismo qualquer, desde que o reembolso dos empréstimos anteriormente tomados não se venham a somar cumulativamente a esta nossa realidade da dívida, tornando impossível cobrir os gastos correntes dos juros com mais receitas fiscais.
O Ministro das Finanças e o Primeiro-Ministro preocuparam-se em pagar as dívidas de juro mais elevado com dívidas de juro menos elevado. Todavia, a dívida aumentou. Não questionamos, aqui, porque aumentou a dívida, mas que aumentou é facto.
Se a cura para mais dívida é ainda mais dívida, mesmo com preços favoráveis, tal não passaria de maior dívida acumulada e de menor índice de segurança económica e financeira para o País, o que nos atrapalharia até ao momento em que pudéssemos pagar aos credores, de modo estável com os recursos internos, mercado interno e exportações, o que sempre levaria muitas décadas a realizar. Continuaríamos com o ascensor social invertido, os filhos a ganharem cada vez menos do que os pais, mesmo com idêntica ou maior instrução formal. O nosso elevador social não está apenas avariado como “repete”, e bem, o historiador José Pacheco Pereira; o elevador está, em nosso entender, em movimento descendente - aumentem-se 10 ou 5 euros as pensões, atualizem-se ou não salários...
Alguns dos mais fortes credores de Portugal são europeus, são países da área do euro, e que, sem coesão ou mutualização perante as novas dívidas devido ao Covid19, só poderão adiar e dilatar um problema gigantesco, num desfinanciamento, numa massa de investimentos sem hipóteses de incentivar a economia a crescer de modo sustentável e, sobretudo, onde se poderão efetivamente criar mais empregos, pela renovação nas novas Economias Azul e Verde. Não nos faltam tecnologia e aplicações, falta-nos decisão política, “aparato” legal e uma burocracia ad hoc. Falta-nos, pois, trabalho político. E não vemos isso em nenhum lugar da barricada, como tão bem explicita a análise de Gonçalo Magalhães Collaço, na sua obra acabada de imprimir pela Editora Naútica Nacional.
As mudanças não acontecem de um dia para o outro, antes requerem pelo menos um ciclo político de dez anos. Como os salários aumentaram seis vezes mais rapidamente que a produtividade na última década, os custos de mão-de-obra, altos apenas para a produtividade atual (mas não altos para manter a mínima dignidade das condições de vida das pessoas e famílias na UE), fazem com que a regra geral da pequena escala de nossa indústria seja, a curto prazo, a falência. Resultando na difícil integração no mercado global dos produtos portugueses, por não haver escala e suficientemente sofisticação (I&D) na maior parte deles.
O Banco Central Europeu, que responde a preocupações como a inflação, e bem, parece agora ter em consideração a necessidade de estímulo à Economia, contudo, não poderá aumentar as taxas de juro no interesse de todos os membros. Tampouco interessará ao BCE discriminar positivamente as democracias liberais e aqueles que melhor credibilidade têm internacionalmente em todos os domínios como é o caso de Portugal.
Um aumento na taxa de juros é a última coisa necessária para as economias problemáticas, que não apenas a portuguesa. Mas muitos não desejam assumir que, cada um dos 17 países, poderia confortavelmente convergir numa taxa de juro única. E, sem isto, a eurocracia vence a coesão e até as democracias nacionais. As consequências já se fazem sentir com os fortes movimentos de extrema-direita e de extrema esquerda a crescer e a dominar muitos aspetos do Legislativo e Executivo.
Mais dívidas, taxas de juros mais altas, política fiscal ainda mais rígida, será uma combinação que não produzirá nada, a não ser alguma rápida recuperação económica, retórica e utópica.
Uma displicência francesa, italiana, grega, irlandesa, portuguesa, etc., daria certamente origem a reestruturações brutais, derrubando mais bancos ainda subcapitalizados, cujo fundo de coesão bancária é pouco mais que fictício, por ser, além de minúscula, apenas um empréstimo do próprio Estado... As dores que vêem chegando estão sem estratégia e muito menos sem algum final à vista.
Obviamente, não se pretende uma volta ao escudo e ao abaixar muito significativamente do nível de vida dos portugueses. Ninguém pretende tal. Mas a hipótese corrente é a estagnação por décadas sem final. A falta de coesão europeia continua permanentemente a repetir erros políticos clamorosos.
Os que se dedicam ao euro e ao projeto europeu preferem manter a ficção de que Portugal está sofrendo uma crise de liquidez temporária, e que todos os amigos europeus, a UE, o que precisam de fazer é passar por cima de um ponto temporário. Infelizmente, para esses mais otimistas, mais cedo ou mais tarde a realidade morde e morde com força.
Os líderes da zona euro tal não admitem, têm outra argumentação, que estão administrando um sindicato de transferências, em que mais um pouco de “ajuda” para os amigos é a característica permanente. Fazer com que os Estados, hoje em dificuldade, se preparem para viver mais solitariamente, e que concordem com essa “ajuda”, fará com que os mercados de crédito duvidem de sua sustentabilidade. Os juros voltarão a subir, a austeridade volta outra vez em força. Os pequenos orgulhos pagam-se caro, sejam os de Passos Coelho, sejam os de António Costa.
A zona do euro não é nem tem a incumbência de ser uma união de transferências. Mas isso foi e é agora. Todavia, os formuladores de políticas para a zona do euro nunca foram delicados ao adotar as suas abordagens aos problemas como em 2008. Não nos preocupamos demasiadamente com questões como o déficit democrático, pois o Conselho é um órgão donde esse contrapeso democrático se impõe, quando se pode impor… tal não é a discrepância de poderes de influência entre os países membros.
Os portugueses têm, assim, várias escolhas. Primeira opção: a menos que um sindicato de transferências seja estabelecido, em condições de decência moral, sim, moral, pode ser que se entre novamente de acordo em que os contribuintes, trabalhadores, pequenos comerciantes, detentores de hipotecas, e outros, arcarão com o custo das dívidas, ​​feitas, talvez como antes, de riscos mal avaliados a bem dos credores, escolhendo uma dívida eterna que nos apoucará durante todo este século. Segunda opção: desafiar os amigos europeus, todos, a reestruturar as suas dívidas. Terceira opção: começar a escrever num quadro limpo, fora do euro. Claro que esta última opção só se poria depois de permanecermos com um elevador social em movimento descendente durante mais alguns anos.
Pedro F. Correia
Maria Fernanda Carvalho Afonso

segunda-feira, 20 de abril de 2020

"Covid–19 e as crianças", por Rodrigo Sobral Cunha

A doença do vírus coroado, assim designada, adquiriu um élan impossível a qualquer outra época em que fosse conhecido o simbolismo da coroa. O círculo solar da iluminação da inteligência, incompreendido há muito, foi deste modo adaptado à designação das proteicas espigas que envolvem as microesferas virais que aparecem nos microscópios e deste modo parece que o vírus foi emancipado de uma designativa obscura do tipo «peste negra», mantendo-se com elegância conceptual num quadro iluminista, aparecendo talvez como um «déspota absoluto» já que, para já, ninguém o consegue controlar.
Como de hábito, a moderna linguagem científica recorre a metáforas pertencentes a outros universos de referência, exibindo deste modo a sua própria indigência criativa (é assim que a física newtoniana fala de «inércia», ou seja «falta de arte», ou que a física einsteiniana fala, sem ironia, de «campo», ou que a biologia anglo-saxónica refere um pequeno lagarto que corre sobre as águas como «Jesus Christ lizard», ou que a psicologia alemã refere um «complexo de Édipo»).
Mas por muito que se queira colocar este «novo» (hipermoderno) vírus sob o foco emancipado das «luzes», as «trevas» teimam em reaparecer à mentalidade luminescente sob a forma obscura e ancestral do morcego portador. Bem longe dos caminhos da luz, um ente da noite descarrega sobre os humanos que tiveram a insídia de o devorar a mais terrível das vinganças: projecta em larga escala um espectro negativo do próprio homo modernus e da sociedade de consumo como mundus infernalis na versão de uma pandemia que consome os pulmões humanos à semelhança do consumo humano dos pulmões da Terra. A redondeza viva do planeta é arrasada pelo homem aos olhos de todos os viventes, ao passo que a única coisa que o Covid-19 faz (que saibamos) é replicar-se nos brônquios humanos, que oscilam entre a travessia assintomática do processo e a indescritível agonia. Como se sabe, não é apenas a esta última que entregamos, nós os homens, o destino de uma grande parte dos viventes do planeta, mas à radical extinção.
Porém, o vírus não se limita a propiciar-nos uma imagem do homo modernus em espelho negativo.
A metáfora da «guerra» («estamos em guerra contra este inimigo traiçoeiro», ouviu-se nos quatro cantos do mundo humano) torna-se insignificante e desaparece como a areia na mão e o nano-inimigo nem comparece no campo de batalha dos nossos pobres sentidos, limita-se a reproduzir-se sempre que encontra um hospedeiro (daí que se discuta se é uma forma de vida). A bem do conhecimento microbiológico, os hospedeiros do Covid-19 deslocam-se em teletransportes por todo o planeta, oferecendo-nos o espectáculo singular do primeiro televírus do mundo, tão rápido como um avião a jacto, tão imponente como um porta-aviões, tão luxuoso como um cruzeiro transatlântico. De súbito, parece que uma pandemia só se pode propagar sobre outra. A biomedicina ergue impotente as mãos ao ar: não há vacina (para já) e o facto de o vírus poupar as crianças impede o regresso das pragas veto-testamentárias (para já). Para onde nos havemos de voltar? Só resta a fuga.
Por ínvios caminhos, o sapiens sapiens (assim duas vezes!) é forçado à reclusão e à imobilidade estratégica para escapar ao alcance da invasão silenciosa. Fecha-se então nesse lugar a que chama «casa». «Reclusão» e «imobilidade», «regresso a casa», indiciarão talvez que este homem vai regressar ao essencial, talvez até ascender à vida interior, transfigurar-se no melhor de si, ou é simples estratégia de biodefesa, sem mais?
Eis que sucede o inesperado: a superfície da terra, em poucos dias liberta do mortal dióxido de carbono da respiração tecnocientífica, exibe por momentos a magnificência dos seus relevos e cromatismos, as árvores respiram em paz, nas cidades escutam-se as aves e podemos ouvir os nossos passos, por instantes voltamos a ver o fundo dos canais de Veneza e até os peixes, incrédulos, visitam a Cidade de Vénus! O mundo está vivo. A imunologia da Terra permanece por conhecer.
Covid-19 versus CO2: quem ganhará o combate mortal?
E chegados aqui devemos confessar, não sem amargura, que é muito menos o gosto de qualquer paradoxo, do que a esperança sempre por desiludir que nos moveu a este desabafo, pois esforçamo-nos por entrever na desgraça a possibilidade, nunca extinta, de uma outra graça que os homens teimam em não deixar vir. Essa mesma que podemos apreciar nos olhos brilhantes das crianças de quem somos os descendentes esquecidos. 

sexta-feira, 27 de março de 2020

Carta da Zambézia


O centro da pandemia está actualmente na Europa. Chega ajuda da Rússia e da China à Itália. Sinais evidentes de que as democracias ocidentais não estão preparadas para situações críticas. Preocupadas apenas com eleições, e em dar aos eleitores aquilo que os seus egos desejam, a fim de se perpetuarem no poder, descuidam o lado coercivo da governação. Pendem para as liberdades pessoais, em detrimento do bem colectivo, bem mais complexo que o pessoal. Iludidos em falsa ideia de desenvolvimento progressivo infinito, esbarram abruptamente com a realidade. Não despendem com a prevenção, mas antes com regalias, sejam para as suas vidas pessoais, enquanto governantes, sejam para aqueles que como tal os legitimam. Endividam-se para dar o que não podem. Só vêem numa dimensão: em frente, não olham os lados; atrás, só o que lhes convém.
O Mundo chegou a um ponto crucial da sua existência. Há que parar e meditar. Parar é inevitável, meditar fica ao nosso arbítrio. Esta pandemia está a demonstrar à humanidade que, para além da liberdade individual, há a coerção. Somos livres; porém, também condicionados. Há que perceber que tudo tem limite. Que a vida individual não é eterna, que as excentricidades dos egos não são o fundamento da vida humana, que a vida colectiva é muito mais duradoura, e muito mais séria; que há limites para tudo, até para o prazer, até para a liberdade.
A «Natureza» para quem não ousa, não quer, ou não sabe, dizer «Deus», está-nos a mostrar claramente que se continuarmos nesta curva ascendente de leviandade, de despesismo, de ego-excentricidade, de ganância, iremos sofrer consequências, tanto mais graves quanto maior a curvatura. Não podemos sacrificar a industria nacional a uma industria nacionalista, a Chinesa, só porque produz mais barato e compra bancos, serviços públicos e empresas caídas em situação deficitária por sucessivas gestões partidárias despesistas e perdulárias. Não podemos sacrificar o comércio local a um comércio globalizador, o Chinês, só porque nos compra dívida pública.
Uma economia asfixiada é como um corpo que não respira, que desfalece e morre. Há que repensar os moldes da nossa democracia. Há que estabelecer padrões que garantam a vitalidade das realidades locais. Há que repensar a política bancária que favorece vilões e vilanias de apregoados génios económicos. Há que acabar com «paraísos» fiscais, cientes de que o «Paraíso» é uma realidade exclusiva de um qualquer «outro mundo» que não este. Paradoxalmente, em nome da liberdade, tornamo-nos cada vez menos livres.
Este modelo de democracia não mais pode ser plenipotenciário. Para tal, a Constituição tem de ser repensada por todos os elementos da sociedade; não só os partidos — no fundo, minorias matemáticas, se considerarmos as abstenções e os votantes dos outros partidos —, mas também as associações religiosas, corporações, associações, sindicatos, autarquias, enfim, os «cidadãos», ou melhor, o «povo», termo menos reduzido à dimensão de «cidade». Uma ampla discussão nacional. Pensar não só em nós, não só nos nossos filhos, mas nos nossos netos, bisnetos e gerações vindouras, herdeiras do bem e do mal que lhes leguemos. Pensar não só em nós, mas também nos outros, nos povos de além-pátria que, como nós, nas suas respectivas pátrias, formam a raça humana. Como se pode entregar uma economia, que deveria ser nacional, a um elemento estranho, ele próprio uma nação? Uma nação que não esconde a sua pretensão à hegemonia global? O mesmo para a agricultura, a pesca, a saúde, a tecnologia.
Esta pandemia está a coagir as pessoas a ficar em casa, em «quarentena». Ora, «quarentena» é um termo que se aplica a um qualquer número de dias, mas que deriva de algo muito mais profundo, os «quarenta» dias de isolamento de Moisés na montanha, ao fim dos quais trouxe as placas da Aliança. A «quarentena» não é para se passar por ela levianamente. É para que nada volte a ser como era! É um retiro forçado para nos levar a pensar no que somos, de onde viemos, para onde vamos, com quem estamos, e sobretudo, o que deixamos.

Vila Junqueiro (Gurué)
Zambézia, Moçambique
Mário Vieira

quinta-feira, 12 de março de 2020

O Futuro tem um Passado


Se a política requer, continuamente, à sociedade, mudanças de comportamento, fica também clara para a sociedade a necessidade de construir uma renovação dentro do próprio sistema político.
Se a iniciativa política solicita mudanças de comportamento à sociedade, a sociedade clama, por sua vez, por profundos câmbios no modo político.
Ao ganharmos perspetiva histórica sabemos que as épocas fazem prescrever, renovar ou criar diferentes entendimentos. Porém, a natureza humana não mudou muito nos últimos 2500 anos...
Mais recentemente, somos herdeiros das grandes polémicas da modernização ao longo do século XVIII e das alternativas dramáticas que então se puseram no século XIX, somos herdeiros do triunfo do positivismo na sua expressão política. Desde o século XIX ainda coexiste uma ideia mítica de Europa, a Europa de Prometeu, a Europa Cristã, a Europa Centro do Mundo.              
Necessário, pois, se torna remontar a alguns dos preconceitos políticos mais prejudiciais, que têm impedido até a própria discussão ao nível da representação política.
O primeiro preconceito é determinista e historicista. Defendem algumas ideologias que a história tem um motor independente da ação humana pessoal, e com o autoritarismo e a violência  operaram ruturas para impor uma ordem ideológica, pela força e pela demagogia, apresentando-se como síntese de um  processo histórico, última eminência da expressão social. O golpe Republicano de 5 de Outubro de 1910 em Portugal é disto exemplo, pois havia mais liberdade de expressão e uma democracia mais ampla em comparação com o novo regime republicano e, no entanto, a ideologia republicana seria o determinado futuro para a humanidade... Apesar de hoje os países que apresentam melhores índices de bem estar serem monárquicos.
O segundo preconceito está na relação que se estabelece entre a noção de progresso e modernização com uma ideologia ou com uma forma política. Sempre promoveu-se no passado político o desenvolvimento social (pelo aumento da literacia, da mobilidade social, da empregabilidade e do tratamento da doença) pelas monarquias, sem exceção, independentemente das tendências  ideológicas do seu contexto, humanista e empirista, absolutista ou liberal, como pelo regime republicano. A finalidade política centra-se no desenvolvimento social, privilegiando algumas funções sociais, mas não se pode confundir o esforço de desenvolvimento social com uma forma de regime, mas, sim, com a participação cívica que o regime permite.
Os positivistas, fossem os então republicanos e todos os progressivistas do século XIX, pensavam que o progresso seria inelutável. Nós sabemos, depois das guerras mundiais do século XX e do Holocausto, que não é assim.
Contrário ao pluralismo das ideias e à representação plural das sociedades, o progressivismo fecha a história numa única enformação ideológica, e sucede ser ele mesmo inviabilizador de novos paradigmas.
A humanidade não é um dado concreto imediato. É uma conquista dos humanos que participam no processo e na aventura de ser no tempo e nas suas comunidades e sociedades.         A modernização gerou as principais dinâmicas do mundo contemporâneo, mas não tem por que comportar a ideia radical da contenda e da rutura com o passado. Aliás, a maior parte das nossas instituições democráticas, de assistência social,  de ensino e ciência, de saúde, de cultura, ou foram fundadas durante monarquia constitucional ou assentam naquelas fundações, assim como o movimento associativo teve em vários períodos históricos desempenhos sociais e políticos imprescindíveis, sobretudo nos centros urbanos, verificando-se, em períodos de convulsões, a enorme expansão de associações de variadas tipologias.
A Constituição, o Parlamento, a Democracia, as Escolas, as Universidade, os Tribunais, os Seguros, as Misericórdias, os Hospitais, os Teatros, mas também o ensino obrigatório, as estradas, a imprensa, o telégrafo, os comboios, a luz elétrica, a livre expressão e a circulação de ideias, são acolhimentos e promoções de um regime atuante e acolhedor do sentido de desenvolvimento social, traço que sempre pode confirmar-se pelas instituições criadas tanto no antigo como no novo regime, antes e a partir de 1822, em consonância com as inquietações de época e com as dinâmicas europeias.
A introdução de novas técnicas, produções e saberes, a alteração relativa a estilos de vida com melhor saúde, higiene e projetos de vida em aberto - a mobilidade social, o aumento da literacia, são produtos da ação humana, sobretudo orientadas a partir de instituições... a mobilidade social não é uma inevitabilidade.
As ideologias que cindem o passado do futuro serviram de suporte a uma abordagem revolucionária que muitos e maus frutos deu, em sofrimento e perda de vidas humanas.
A tentação de reduzir a complexidade da nossa vivência social a uma equação simples sempre produziu enormes males. As dificuldades de representação política do presente, resultam sobretudo do discurso economicista, sempre otimista, discurso que não tem conseguido ser suportado na prática. O otimismo político gera sempre mais dívida para as famílias e, finalmente, o aniquilamento de sua autonomia e de seu potencial de desenvolvimento humano.
As circunstâncias atuais apelam a um vigor do campo do político para o primeiro plano, com especial foco num discurso com perspetiva histórica, isto é, com perspetiva temporal profunda, onde sempre podemos encontrar maior claridade sobre os objetivos, o funcionamento das instituições, com uma instância que concite e evidencie consensos democráticos e estratégicos.        
A sociedade clama forte como um grito, por um profundo câmbio político, onde se recupere a consideração e a confiança nos atores institucionais. 

Pedro Furtado Correia
Maria Fernanda Carvalho Afonso