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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
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Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"
Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica.

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo.


Agostinho da Silva

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Repensando o ateísmo


Há um vício tipicamente filosófico que consiste em procurar um sentido para tudo, mesmo quando não há sentido algum. É o que acontece, por exemplo, com alguns críticos de arte contemporânea. Perante o “vazio”, nalguns casos assumido pelos próprios criadores, conseguem sempre encontrar grandes sentidos ocultos, num delírio sobre-interpretativo sem fim. Se esse é um vício que importa combater, pior ainda é, porém, o vício anti-filosófico de não procurar compreender, condenando à partida... Vem a esta breve provocação/ reflexão preambular a propósito do pensamento do galego Andrés Torres Queiruga, que, precisamente, na sua obra procura compreender, não condenando à partida o que, enquanto teólogo, teria, dir-se-ia, todo o direito a condenar: o ateísmo. Atentemos, por exemplo, na sua obra “Creio Em Deus Pai” (Paulus Editora, 2014), desde logo nesta passagem: “O Ateísmo está unido, sem dúvida, a uma grande crise da cultura ocidental. Crise de que a religião não está ausente. Há até quem pretenda ver no abandono de Deus a causa quase única e total da crise do Ocidente. Visão claramente exagerada, porque para o surgimento do mundo moderno confluem, com toda a evidência, muitos e muito profundos factores. Isto não significa que se deva chegar à posição contrária: a de vulgarizar o facto religioso, como se Deus fosse um factor maior ou menos adjectivo que, simplesmente, se evaporou com o progresso da história ou o avanço da cultura. É óbvio que entre o todo e o nada está a evidência de que se trata de um factor muito sério a ser levado em conta, porque, para o bem e para o mal, o religioso influi de modo mais profundo na configuração da pessoa e da sociedade humana.” (p. 13).
Muito para além de pensar o ateísmo enquanto expressão da modernidade, Torres Queiruga pensa-o enquanto expressão maior do próprio cristianismo: “Não é casual que o ateísmo irreligioso seja um fenómeno tipicamente ocidental, no âmbito preciso do cristianismo. Foi este que o tornou possível. E o fez não por seus defeitos, mas por suas virtudes: exactamente por suas ideias de criação e encarnação. A criação, ao marcar a diferença radical entre Deus e o mundo, possibilitou uma progressiva e consequente dessacralização (…). A encarnação, por sua vez, nos ensinou que tudo tem valor positivo: a realidade mundana e o trabalho humano nela valem também em si mesmos e possuem densidade específica. Definitivamente, o cristianismo criou condições de possibilidade de uma concepção verdadeiramente mundana do mundo. O homem chega a descobrir-se tão autónomo e tão dono de si mesmo e de seu destino que até pode – confundindo os planos – acabar negando Deus” (pp. 19-20). De tal modo assim é que, em última instância, Torres Queiruga, reafirmando a sua condição cristã, consegue mesmo antecipar um “terreno estritamente comum em que podemos encontrar-nos com a busca mais profunda dos não-crentes” – atentemos, uma vez mais, nas suas palavras: “As reflexões anteriores não serviram unicamente para compreender melhor o ateísmo; também saiu ganhando a nossa compreensão do cristianismo (…). Se nós, cristãos, conseguirmos demonstrar, com nossa teoria e prática, que Deus é a máxima negação de toda a negação do homem, então se abrirá um terreno estritamente comum em que podemos encontrar-nos com a busca mais profunda dos não-crentes. Porque coincidimos no fundamental: a defesa do homem e de suas possibilidades (…). A modernidade é relativamente nova, e o grande mal-entendido histórico pelo qual, para muitos, Deus apareceu como inimigo do homem não vai ser eterno. Pessoalmente, não renuncio a esperar que (…) a sensibilidade moderna acabará fazendo a experiência – ou aproximando-se mais dela – de que Deus não nega o homem, mas o afirma” (pp. 38-39).
Numa carta remetida a Álvaro Ribeiro, datada de 5 de Maio de 1937, escreveu José Marinho o seguinte: “Cumpre não ignorar o sentido e o valor do ateísmo. A grandeza da civilização moderna está em permitir o desenvolvimento do ateísmo.”. Vinda de alguém como José Marinho, que reiteradamente afirmou “Deus” como “alfa e ómega de todo o ser, alfa e ómega de todo saber”, inclusivamente do saber filosófico, e que chegou mesmo, de resto, a afirmar o “problema de Deus” como o “problema central da filosofia portuguesa contemporânea”, esta afirmação parecerá, como deve ter parecido a Álvaro Ribeiro, assaz estranha. No entanto, esse ateísmo que José Marinho valoriza não é o ateísmo vulgar, o ateísmo a-filosófico ou “sem filosofia”. De modo algum. O próprio Marinho reconheceu, aliás, de forma expressa, que “sem filosofia o ateísmo facilmente degenera nas almas de pouco anseio e ideal”.
O ateísmo que José Marinho valoriza é, antes, um ateísmo filosófico, maximamente filosófico, a ponto de se confundir com o próprio “movimento da filosofia”. Nas palavras de Marinho, com efeito, “o movimento da filosofia é desabsolutizar o que não é autenticamente absoluto”, na “negação de Deus e de todo o divino enquanto é para nós”, e assim reconhecer “o autêntico”, e assim antecipar “o único verdadeiro”. É, aliás, por isso, que o “movimento da filosofia” se confunde com o que José Marinho qualifica de “ateísmo iniciático”: pois que nega, tudo nega – toda a delimitação objectual, toda a configuração ideativa, que sobre “Deus” possamos realizar ao intentarmos apreendê-lo – para mais profundamente poder afirmar: “Deus”, em si próprio, na sua absoluteidade. Eis, precisamente, o processo que Marinho descreveu em diversas passagens da sua obra.

Eis, em suma, porque valorizou José Marinho tanto o ateísmo, tendo chegado inclusivamente a considerar que “o autêntico ateísmo [precisamente este: o ‘ateísmo iniciático’] equivale à teologia mística dos últimos cumes” – daí ainda o ter-nos dito que “há ateus que não podem saber como estão perto de Deus, assim como há muitos teólogos que não podem saber quanto dele se vão distanciando”, ou que “o sério ateu é para o metafísico afirmativo o primeiro entre os seus irmãos”, daí ainda, enfim, a sua referência, fugaz mas nem por isso sem significado, à “religião do além”, à “filosofia da última cumeada”. A este respeito, atentemos ainda nestas suas palavras, particularmente sugestivas: “Situar o absoluto fora de tudo quanto existe, situá-lo, mais do que isso, fora de tudo quanto é. Pois o absoluto como insubstancial, e como substante no profundo seio e para além de tudo quanto dizemos ser, é o que nos escapa quando dizemos que é e mais profundamente confirmamos quando lhe recusamos ser.”.
Daí ainda, de resto, a valorização que José Marinho faz do ateísmo enquanto fenómeno histórico – a par do antropocentrismo e do niilismo, quais vértices de um mesmo triângulo –, o mais marcante da nossa proclamada “Modernidade”. Na medida em que – palavras suas – “a crença em Deus degenerou, arrastando consigo o próprio Deus”, o ateísmo contemporâneo acaba por ser – por poder ser – a via através da qual a humanidade purificará a sua relação com “Deus”, expurgando-a da perversa lógica antropomórfica, antropocêntrica. Eis, aliás, a “hipótese” que José Marinho equaciona, de forma expressa, em diversas passagens da sua obra – a título de exemplo, atentemos nestas: “Tudo se passa como se Deus preferisse ser negado a ser minorado em qualquer forma de antropomorfismo.”; “Deus, desde sempre, não confia na fé e no saber dos homens. Ser negado estava também nos seus desígnios.”; “Deus está mais interessado em revelar-se e ser aceite na sua Revelação do que em ser objecto de crença.” .
A ser assim, todo o trânsito da História não é senão o mesmo trânsito através do qual o homem vem a apreender “Deus” da forma mais depurada, mais próxima, “responsavelmente mais próxima”. Eis, igualmente, a “hipótese” que Marinho equacionou – ainda nas suas palavras: “...porque se tornou Deus o mais remoto para mim? A resposta é: para que eu me torne dele responsavelmente mais próximo.”. Daí, em suma, a razão da advertência de José Marinho ao seu “irmão” Álvaro Ribeiro – recordemos as suas palavras: “Cumpre não ignorar o sentido e o valor do ateísmo. A grandeza da civilização moderna está em permitir o desenvolvimento do ateísmo.”. Ainda que por ínvios caminhos, ou seja, ainda que através do ateísmo, do niilismo e do antropocentrismo, “toda a evolução do pensamento filosófico moderno – nas palavras do próprio Marinho – nos encaminha justamente para precisar de nova maneira a essencialidade do conhecimento filosófico, estabelecendo de nova maneira a relação entre filosofia e ciência, filosofia e vida, conhecer e ser”.  E eis aqui, neste repensar do ateísmo, o grande ponto de convergência que encontramos entre o teólogo galego Andrés Torres Queiruga e o filósofo português José Marinho.

Prefácio de António Braz Teixeira à "Via Lusófona III"


Na continuidade das duas anteriores colectâneas desta série, editadas em 2010 e 2015, apresenta-nos, agora, Renato Epifânio o terceiro volume de A Via Lusófona: um novo horizonte para Portugal, em que prossegue a sua persistente campanha para uma compreensão futurante do mundo de língua portuguesa e do papel que poderá desempenhar ao nível global, proposta cuja pertinência e actualidade os acontecimentos a que estamos a assistir vêm tornar mais evidentes.

Tal como os dois volumes que o precederam, este terceiro tomo de A Via Lusófona, no seu conteúdo heterogéneo – votos, breves apontamentos, reflexões, pequenos ensaios, comentários de actualidade, intervenções cívicas e culturais – e sob uma aparente ou real diversidade, vem a constituir como que uma singular forma de diário, mais cívico do que estritamente pessoal ou centrado na subjectividade do autor, ao qual se encontra subjacente uma atitude intelectual de serena e inteligente compreensão que, no entanto, não o impede de assumir, tantas vezes isoladamente ou em contra-corrente, com argumentada firmeza, as suas posições ou de expor e defender as suas teses.

Inspirado na visão de Agostinho da Silva sobre o futuro do mundo lusófono e atento à alta lição especulativa de José Marinho e ao sentido sófico da interrogação, que deve preceder e acompanhar toda a acção, Renato Epifânio, há mais de um decénio, vem dedicando, com persistente diligência e entusiasmo, a sua rara capacidade organizativa e o seu sentido de missão cívica e patriótica, ao fortalecimento dos laços espirituais, culturais, históricos e afectivos entre as diversas parcelas dispersas do mundo lusófono, da Galiza ao Brasil, do Cabo Verde a Macau, de Goa a Malaca, propugnando e agindo na via da constituição de uma futura efectiva comunidade dos povos e regiões de língua portuguesa, enriquecida, criadoramente, pela convergente e complementar diversidade das várias culturas que a integram e nela se exprimem e pensam, bem como do estabelecimento de uma cidadania lusófona que daquela seja, a um tempo, o prenúncio e o suporte.

Sabendo aliar a dimensão visionária e futurante a um lúcido sentido do real e do possível, uma invulgar capacidade de congregar inteligências e vontades e uma não menor capacidade de dar expressão literária clara e rigorosa aos seus projectos e ideias, a calma e afabilidade à convicção e firmeza, Renato Epifânio tem conseguido dividir-se, com discreta eficácia, por múltiplas iniciativas, da presidência do MIL: Movimento Internacional Lusófono à direcção e divulgação da revista NOVA ÁGUIA, da activa participação na direcção do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira – e também enquanto membro integrado do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto – à organização de colóquios, encontros e conferências e à realização e promoção de edições.

Se as condições altamente negativas que, devido a políticos tacanhos e medíocres, nos últimos anos, foram criadas à investigação no domínio das Humanidades, e, de modo particular, no da Filosofia, têm impedido Renato Epifânio de prosseguir predominantemente por essa via, de que, no presente volume, o breve ensaio Entre ser e sentido é ilustrativo exemplo, devemos congratularmo-nos por ter sabido fazer de uma situação adversa uma possibilidade de exercitar outras das suas capacidades na tarefa, em que está profundamente comprometido, de promoção e defesa da “via lusófona” que, como ele, pensamos constituir “um novo horizonte para Portugal”, que urge demandar como primeira prioridade nacional.

Torne-se Sóci@ do MIL e receba "A Via Lusófona (I e II)" como oferta...



Para aceder às fichas de Sóci@ do MIL:

Agostinho da Silva, primeiro inspirador da CPLP...

Cármen Maciel, "A construção da Comunidade Lusófona a partir do antigo centro", Tese de Doutoramento em Sociologia, Fac. Ciências Sociais e Humanas, Univ. Nova de Lisboa, 2010 (Tese vencedora da 4ª edição do "Prémio Fernão Mendes Pinto"), Lisboa, Instituto Camões, 2015, p. 50.

Por um Monumento ao Padre António Vieira em Cabo Verde


No dia 6 de Fevereiro de 2018, dia do aniversário do Padre António Vieira (em que faria 410 anos), lançámos uma campanha internacional de angariação de apoios para a construção de um Monumento a esta personalidade maior da cultura lusófona, a ser instalada na Cidade Velha (na Ribeira Grande de Santiago), que perpetuará a sua passagem por Cabo Verde e, em particular, a sua intervenção na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na então chamada Ribeira Grande de Santa Maria, a 22 de Dezembro de 1652, onde foi muito bem recebido – o próprio Padre António Vieira se refere à simpatia com que foi acolhido por toda a cidade” – e onde teve a oportunidade de proclamar que, na sua visão do mundo e da humanidade, não há diferença de nobreza, nem diferença de cor”.

Esta iniciativa, acolhida com entusiasmo pela Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago, tem o Alto Patrocínio da Embaixada de Cabo Verde em Portugal e envolve uma série de entidades que promovem a ligação fraterna entre os países lusófonos – nomeadamente: o MIL: Movimento Internacional Lusófono, a UCCLA: União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa e a Sphaera Mundi. Depois de ter sido recentemente inaugurada uma estátua do Padre António Vieira em Lisboa, é com o maior regozijo que estas entidades se empenham na perpetuação da memória viva desta personalidade maior da cultura lusófona em Cabo Verde. Um país, qualquer país, terá tanto mais futuro quanto mais perpetuar a memória viva dos seus maiores. O Padre António Vieira nunca foi apenas um cidadão português. Foi sempre um cidadão do mundo, um cidadão lusófono – por isso, também, um cidadão de Cabo Verde. Saudamos, por isso, todos os cidadãos cabo-verdianos por esta iniciativa.

Renato Epifânio
Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono
Para mais informações: info@movimentolusofono.org

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Também no jornal Público: "Por um Museu da Lusofonia"



Como era fácil de adivinhar, a proposta da Câmara Municipal de Lisboa de criar um “Museu das Descobertas” (ou “da Descoberta”) fez ressurgir uma série de lugares-comuns relativos à história da colonização portuguesa, que parecem resistir a toda a crítica, por mais que se comprove a sua falta de fundamento. De forma mais ou menos expressa, parte-se sempre desta premissa: antes dos portugueses chegarem a África ou à América, esses territórios eram uma espécie de paraíso terrestre, que, obviamente, os portugueses tornaram num inferno. Nesta visão tão grosseira quanto falsa, de um lado temos pois os portugueses (por extensão, todos os europeus) como “ontologicamente agressores” e, do outro, os africanos e os americanos como “ontologicamente vítimas”. Sendo que quem questiona esta visão só pode ter, claro está, um olhar eurocêntrico.
“Impedidos” que estamos de citar um historiador europeu, citemos então um historiador brasileiro, assumidamente “de esquerda” e particularmente insuspeito de qualquer espécie de “eurocentrismo”, que reencontrámos em Maio deste ano num Congresso decorrido no Brasil, na cidade de Mariana: Paulo Margutti, autor da monumental obra “História da Filosofia no Brasil” (São Paulo, Ed. Loyola, 2013). O que nos diz ele de África antes da chegada dos portugueses e do alegado início do inferno da escravatura? Literalmente, isto: “De um modo geral, os costumes dos negros facilitavam grandemente a escravidão, uma vez que essa constituía a penalidade imposta entre eles para diversos delitos. Além disso, os pais podiam vender os filhos, o rei podia escravizar os seus súditos e grande parte dos membros de uma tribo derrotada em guerra estavam submetidos ao cativeiro” (p. 191).
E quanto ao alegado paraíso que era a América do Sul antes da chegada de Pedro Álvares Cabral? Ouçamos uma vez mais o insigne académico brasileiro: “Cada tribo tupi vivia em guerra permanente com os vizinhos, qualquer que fosse a sua matriz cultural. Quando essa matriz era diferente, as lutas eram motivadas por disputas territoriais. Quando a matriz era a mesma, as lutas eram motivadas por uma visão de mundo culturalmente condicionada, que envolvia expedições guerreiras com o objetivo de capturar prisioneiros para a realização de rituais antropofágicos (…). A fama de um homem dependia de quantos inimigos já tinha capturado ou executado, acumulando assim novos nomes. Isso está ligado à ideia de que só os corajosos tinham acesso ao paraíso, ficando as almas dos covardes condenadas a vagar pela terra, acompanhadas pelos demônios. Uma vida de valor caracterizava-se fundamentalmente pela vingança obtida graças à execução dos inimigos, fosse em combate, fosse em rituais antropofágicos” (pp. 180-181).
*
Bem sabemos que estas evidências históricas em nada põem em causa as certezas de quem insiste que, “de facto”, antes dos portugueses chegarem a África ou à América, esses territórios eram uma espécie de paraíso terrestre, que, obviamente, os portugueses tornaram num inferno. Como “certezas metafísicas”, elas são absolutamente intangíveis a todo e qualquer argumento.
Esperamos, porém, que o futuro “Museu das Descobertas” (ou “da Descoberta”) não seja estruturado a partir dessa visão completamente enviesada do colonialismo e da escravatura. Caso se queira salientar esta questão, então que se conte a história toda: quanto à escravatura, os povos europeus não foram apenas agressores, foram também vítimas (pois que a história da Europa foi, também ela, violenta); e os restantes povos do mundo não foram apenas vítimas, foram também agressores. Infelizmente, a escravatura foi uma constante na história da humanidade até há poucos séculos, em todos os continentes, sem excepção.
Mais do que o nome do futuro Museu, o que nos preocupa são pois os conteúdos que serão apresentados e a forma como tais conteúdos serão apresentados. Se prevalecer essa visão completamente enviesada do colonialismo e da escravatura, então o melhor, no limite, é que não se faça o Museu. Assim, pelo menos, essa visão completamente enviesada do colonialismo e da escravatura não terá a caução do Estado Português, ainda que por via da Câmara Municipal de Lisboa.
Esperamos, ainda assim, que o bom senso prevaleça e que o Museu se faça. Com o nome de “Museu das Descobertas”, “da Descoberta”, ou, como preferiríamos, “da Lusofonia”. No século XXI, este é, a nosso ver, o nome que mais sentido faz, porque é isso o que, no século XXI, resultou de toda essa história: a Lusofonia. Por mais controversa e traumática que continue a ser essa história, sobre o que dela resultou não nos parece haver espaço para contestação. Mesmo aqueles que consideram que, no essencial, a história da expansão marítima portuguesa foi uma história de pilhagem e devastação, não podem deixar de reconhecer a difusão da nossa língua à escala global.
Difusão que permanece e que se acentuará, neste século XXI. Como tem sido antecipado, o número de falantes da língua portuguesa irá continuar a crescer de forma significativa (excepto, ironia das ironias, em Portugal). O nome de “Museu da Lusofonia” teria pois essa vantagem: mais do que nos reenviar para o passado, projecta-nos no nosso futuro comum. Sem escamotearmos esse passado e todos os crimes, à luz dos valores de hoje, que então se cometeram, olhemos pois sobretudo para o futuro. O “Museu da Lusofonia” deveria ter esse enfoque, assim promovendo, hoje (felizmente) numa base de liberdade e de fraternidade, a relação entre todos os povos de língua portuguesa.

Renato Epifânio
Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono
www.movimentolusofono.org

Fotos da Sessão MIL-NOVA ÁGUIA na Sociedade de Geografia (28.03.2018)


Fotos de Luís de Barreiros Tavares

O Livro do MIL, já na sua terceira edição...

Edição revista e aumentada - para encomendar:
info@movimentolusofono.org

O MIL, a(s) Esquerda(s) e a(s) Direitas(s)...



José Pedro Zuquete, in Ideias e Percursos das Direitas Portuguesas, coord. de Riccardo Marchi, Lisboa, Texto Editora, 2014, p. 420.

"Agostinho da Silva - Ele Próprio" - Filmado por António Escudeiro - Edições Zéfiro - Nova edição na íntegra num só vídeo



quarta-feira, 20 de junho de 2018

Portugal – Museu Nacional de Arqueologia celebra 125 anos

O Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, que possui o maior número de tesouros nacionais no seu acervo, num total de 940, celebra este ano 125 anos de existência com grande aumento de visitantes



Em entrevista à agência Lusa, o diretor do museu, António Carvalho, sublinhou a importância de celebrar 125 anos com um aumento "sustentado de público" nos últimos seis anos, que se vem traduzindo recentemente em mais 20 por cento de visitantes, por ano, como atestam os números da Direção-Geral do Património Cultural.

"O país está todo aqui", declarou António Carvalho, sobre as coleções que foram recolhidas desde a fundação do museu, em 1893, por todo o país, por José Leite de Vasconcelos, "grande prospetor, que procurou pelo país os vestígios do passado e do presente" português.

O Museu Nacional de Arqueologia reúne um espólio de mais de 3.100 sítios arqueológicos nacionais nas suas reservas, grande parte em resultado do interesse de Leite de Vasconcelos em "recolher os vestígios de um quotidiano" da História de Portugal, recordou o atual diretor.

O projeto do fundador do museu era "compreender a identidade nacional: de onde vínhamos, para onde íamos e o que éramos" e, por isso, teve inicialmente um caráter não só arqueológico, mas também etnográfico, que viria a perder em meados do século XX, passando a arqueologia a ser o seu foco.

"Há sítios arqueológicos que foram quase integralmente escavados e colocados aqui, como a Vila Romana de Torre de Palma, o Cabeço de Vaiamonte ou a Gruta do Escoural, no Alentejo".

A cronologia dos sítios arqueológicos diz respeito a meio milhão de anos de ocupação do homem do território português, e, na perspetiva dos especialistas, "não se podem comparar peças do período paleolítico, ou romano ou medieval" do ponto de vista da sua importância.

"A avaliação do valor das peças é dinâmica, porque vamos incorporando outros bens com o passar do tempo", ressalvou.

No entanto, do ponto de vista da lei, "é o museu que tem quase mil tesouros nacionais, registados pelos legisladores e especialistas, que selecionaram e consideraram que são bens de interesse nacional".



António Carvalho tem dificuldade em nomear os tesouros, porque são muitos, dentro das centenas de milhares de peças que o museu alberga, mas realça alguns: "O núcleo do Endovélico, cujo templo se localizava no atual concelho do Alandroal, assume um papel de grande relevo no museu".

"Também a coleção de mosaicos - sobretudo os da Vila Romana de Torre de Palma - cerâmicas do Neolítico, uma imensa coleção de placas de xisto, de báculos, as peças do santuário votivo de Garvão e a fundamental e única coleção de estelas da Escrita do Sudoeste, uma forma de escrita que existiu nos meados do primeiro milénio antes de Cristo, e que se extinguiu".

Para o diretor do museu, quer as exposições temáticas quer as coleções expostas e os tesouros nacionais são bons motivos para uma visita ao Museu Nacional de Arqueologia, que está localizado em Belém, instalado no Mosteiro dos Jerónimos, e que aproveita a grande circulação de turistas na zona.

"Mas a nossa programação também está muito virada para captar os públicos nacionais, mostrando peças de todo o país", sublinhou à Lusa.

Desde 2011, segundo os dados fornecidos por António Carvalho, o número de visitantes tem vindo a aumentar "de forma sustentada".

Em 2011, o museu recebeu quase 69 mil visitantes, número que passou para cerca de 80 mil em 2013, e 103 mil no ano seguinte.

Um grande aumento verificou-se em 2016, para cerca de 147 mil entradas, seguindo-se 167634 no ano passado, enquanto este ano, até maio, já contabiliza 77576.

A missão de um diretor de museu "é de grande responsabilidade, e passa, em primeiro lugar, pela salvaguarda e conservação das peças", salientou António Carvalho, sublinhando que se trata de valioso património nacional.

"E, ao contrário do que muitas pessoas pensam, os materiais aqui não são apenas pedras, mas de muitos suportes”, que vão, entre outros, desde madeira, vidro, metal, cerâmica e mosaicos, a papel, cestaria e ossos. In “Sapo24” - Portugal