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Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

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"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

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Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

NOVA ÁGUIA e MIL em destaque no Jornal de Angola...

A Casa de Angola, em Lisboa, acolheu, no fim-de-semana, o lançamento da vigésima segunda edição da revista portuguesa “Nova Águia”, apresentada pelo Movimento Internacional Lusófono (MIL).
Fotografia: DR
A revista, que vai para as bancas semestralmente, aborda questões culturais dos países lusófonos e tem assumido o propósito de sem qualquer complexo histórico  dar voz às várias culturas.
Em declarações à Angop, o director da revista “Nova Águia”, Renato Epifânio, disse que na presente edição estão em destaque vários temas, dentre os quais trabalhos da artista plástica angolana  Márcia Dias, que tem dado um contributo à divulgação e reconhecimento da cultura de Angola.   
Renato Epifânio acrescentou ainda na abertura da revista que está publicada uma selecção de textos apresentados no V Congresso da Cidadania Lusófona, promovido pelo MIL, em 2017.
Renato Epifânio acrescentou  que a “Nova Águia” pretende obter o contributo das mais relevantes figuras da cultura lusófona.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Próximas sessões de apresentação da NOVA ÁGUIA...


16.01.19 – 18h30: Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva (Braga)

18.01.19 – 18h30: Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa (Lisboa)

25.01.19 – 18h30: Casa de Angola (Lisboa)

08.02.19 – 18h30: Associação Caboverdeana de Lisboa

domingo, 25 de novembro de 2018

Os primeiros em Holanda


Recebeu uma especial atenção – e mereceu um considerável apoio académico e institucional (note-se, neste aspecto, a existência de três comissões, de honra, científica e executiva) – a realização do congresso internacional «Francisco de Holanda (1517/18-1584) – Arte e Teoria no Renascimento Europeu», realizado em Lisboa no final desta semana que passou, a 22 e 23 de Novembro n(a sala polivalente do Centro de Arte Moderna d)a Fundação Calouste Gulbenkian, e a 24 n(o anfiteatro d)a Biblioteca Nacional de Portugal…
… Embora tenham sido os membros e os convidados do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e do Movimento Internacional Lusófono, após proposta minha, os que primeiro celebraram, no ano passado, a vida e a obra daquele grande artista português do século XVI, e, em especial e mais concretamente, o 500º aniversário do seu nascimento, através do colóquio «Francisco de Holanda (1517-2017) – Pintura e Pensamento», decorrido a 4 de Dezembro também na BNP. O «atraso» da outra iniciativa deve-se, aparentemente, à convicção da sua principal responsável de que o autor de «Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa» nasceu em 1518 e não no ano anterior – uma convicção que, pelo menos até ao momento, não encontra qualquer confirmação nas fontes documentais disponíveis.        
É de salientar que a(maioria da)s comunicações apresentadas no nosso colóquio já estão publicadas - no Nº 22 da revista Nova Águia, correspondente ao segundo semestre de 2018.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Autores e Temas em destaque para a NOVA ÁGUIA 23...


Quer propor-nos Autores e Temas em destaque para a NOVA ÁGUIA 23 (1º semestre de 2019)?
Caso queira, deixe-nos as suas sugestões na caixa de comentários ou envie-nos por e-mail: novaaguia@gmail.com

segunda-feira, 26 de março de 2018

Lançamento da NOVA ÁGUIA nº 21...


Iniciamos este número por dar mais um Abraço a José Rodrigues, publicando mais uma série de textos (mais de uma dúzia) que nos chegaram, conjuntamente com algumas ilustrações e poemas, nomeadamente de Fernando Guimarães.

A secção seguinte é dedicada a Fidelino de Figueiredo. Em 2017 assinalaram-se os 50 anos de seu falecimento e o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira promoveu um Colóquio sobre a sua Obra. Alguns dos textos então apresentados são aqui publicados, associando-se assim a NOVA ÁGUIA a esta Homenagem a uma grande figura da cultura lusófona, tais as pontes que criou: entre Portugal e o Brasil, entre Filosofia, História e Literatura.

De seguida, na esteira do número anterior, em que assinalámos os 150 anos do nascimento de Raul Brandão, publicamos mais alguns textos sobre o autor de Húmus, bem como sobre António Nobre, nascido no mesmo ano de 1867. Em “Outras Evo(o)cações”, estendemos o nosso olhar a uma extensa série de outras figuras relevantes da cultura lusófona: de Afonso Botelho e Agostinho da Silva a Vergílio Ferreira e Vicente Ferreira da Silva.

Em “Outros Voos”, como igualmente é já um clássico, abordamos as mais diversas temáticas, a começar, guiados por Adriano Moreira, pela questão do “sagrado”, tema do II Festival Literário TABULA RASA, que decorreu em Novembro de 2017, co-organizado pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono e pela NOVA ÁGUIA. Em “Extravoo”, publicamos, uma vez mais, alguns inéditos: nomeadamente, de Agostinho da Silva e José Enes. Nesta secção, publicamos ainda um inédito de Dalila Pereira da Costa, uma das figuras em destaque no próximo número, por ocasião dos 100 anos do seu nascimento.

Fazendo ainda referência a essas três outras secções já clássicas – “Bibliáguio”, Poemáguio” e “Memoriáguio” –, salientamos enfim os autores em destaque no próximo número: para além de Dalila Pereira da Costa, iremos igualmente evocar Francisco de Holanda, publicando uma série de textos apresentados num Colóquio que decorreu em Dezembro de 2017, por ocasião dos 500 anos do seu nascimento, uma vez mais por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-brasileira.

De igual modo, publicaremos no próximo número da NOVA ÁGUIA os textos apresentados no V Congresso da Cidadania Lusófona, coordenado pelo MIL, que decorreu em Novembro de 2017 e que, uma vez mais, juntou representantes de Associações da Sociedade Civil de todos os países e regiões do amplo e plural espaço de língua portuguesa. Número após número, a NOVA ÁGUIA vai, pois, cimentando pontes: entre a cultura portuguesa e as demais culturas lusófonas (antecipamos, a esse respeito, a publicação, no próximo número, de mais um fundamental ensaio de António Braz Teixeira, sobre a “expressão e sentido da saudade na poesia angolana e moçambicana”).

Post Sciptum: Dedicamos este número a Pinharanda Gomes, que, depois de ter recebido o “Prémio Vida e Obra” do II Festival Literário TABULA RASA, foi homenageado pela Universidade Portuguesa, que, curvando-se igualmente (e finalmente) perante a sua monumental Vida e Obra, lhe atribuiu, em Março deste ano, o mais do que justo “Doutoramento Honoris Causa”.

Lançamento: Sociedade de Geografia de Lisboa, 28 de Março, 16h30.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

15-18 de Novembro: Programa final do 2º Festival TABULA RASA

 
O Programa foi publicamente apresentado no dia 24 de Fevereiro de 2017, data em que lançámos igualmente o volume que resultou da primeira edição deste Festival.


Conforme o publicitado no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Fátima, entidade promotora do evento, no dia 24 de Fevereiro, e, mais recentemente, no dia 9 de Março, no Palácio da Independência, sede do MIL: Movimento Internacional Lusófono e da NOVA ÁGUIA: Revista de Cultura para o Século XXI, entidades organizadoras, está já acessível o Programa do II Festival TABULA RASA, que irá decorrer entre os dias 15 e 18 de Novembro. Assim, no primeiro dia, teremos, da parte da tarde, o Anúncio dos Prémios “Obras TABULA RASA 2016-2017”, a serem entregues no última dia, bem como as Conferências de Abertura, a serem proferidas por Adriano Moreira e Guilherme d’Oliveira Martins. Depois do jantar, teremos a apresentação da Revista NOVA ÁGUIA Nº 20 e de outras obras.
No dia seguinte, inicia-se uma série de quatro painéis, que se estendem pelo terceiro dia, sobre “A Literatura e o Sagrado” (tema geral deste II Festival – recordamos que o tema geral do I Festival, que decorreu em 2015, foi “A Literatura e a Filosofia”) nos diversos países e regiões do espaço de língua portuguesa: em Portugal, por Annabela Rita; em Angola, por Carlos Mariano Manuel; no Brasil, por Mariene Hildebrando; em Cabo Verde, por Elter Manuel Carlos; na Galiza, por Maria Dovigo; em Goa, por Henrique Machado Jorge; na Guiné-Bissau, por Pequi Mpuló; em Malaca, por Luísa Timóteo; em Macau, por Jorge Rangel; em Moçambique, por Delmar Maia Gonçalves; em São Tomé e Príncipe, por Orlando Piedade; e, finalmente, em Timor-Leste, por Luís Cardoso.
Para além desta dimensão lusófona, este Festival terá ainda uma dimensão ecuménica, com um painel, no dia 16, sobre “O sagrado nas várias tradições religiosas”: na tradição católica, por Samuel Dimas e Joaquim Domingues; na tradição islâmica, por Fabrizio Boscaglia; na tradição judaica, por Pedro Martins; na tradição druídica, por Joaquim Pinto; na tradição oriental, por Rui Lopo. No dia seguinte, teremos um outro painel sobre “O sagrado no pensamento, na poesia, na música e nas artes plásticas”; no pensamento, por Manuel Cândido Pimentel; na poesia, por Luísa Malato e Celeste Natário; na música, por Edward Luiz Ayres d'Abreu; nas artes plásticas, por José Carlos Pereira. Nas noites de 16 e 17, teremos ainda dois painéis-tertúlia onde alguns escritores falarão sobre a sua experiência de escrita: Fernando Pinto do Amaral, Maria João Cantinho e Isabel Alves de Sousa (16); João de Melo, Alexandre Honrado e Risoleta Pinto Pedro (17).
Na manhã de dia 18, finalmente, no Hotel de Sta. Maria, onde decorrerão muitas das sessões (a par das instituições de ensino locais), entregar-se-ão os Prémios “Obras TABULA RASA 2016-2017”, nas diversas categorias: literatura infanto-juvenil (justificação: Pedro Teixeira Neves); poesia (justificação: António José Borges); ficção (justificação: António Ganhão); filosofia (justificação: Luís Lóia). Depois, conforme o já anunciado, Miguel Real irá justificar a entrega do Grande Prémio “TABULA RASA Vida e Obra” a Pinharanda Gomes, que fará depois também uma intervenção. Por fim, ainda antes do almoço, far-se-á o encerramento formal do II Festival, sendo certo que, pela tarde fora, bem como nos três dias anteriores, teremos alguns momentos culturais surpresa. Não é, de facto, por acaso que os Festivais TABULA RASA assumiram o lema: “Muito mais do que um Festival Literário…”.
Co-organização MIL/ NOVA ÁGUIA - para mais informações:

Iniciativas do MIL em destaque no Público...


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Entrevista sobre a NOVA ÁGUIA e o MIL (I-IV)

1: Na tua opinião, a Nova Águia, passados 9 anos desde a sua criação (2008), conseguiu de facto ser uma digna herdeira do espírito da revista A Águia cujos princípios editoriais no início do século XX eram o debate de ideias e a reflexão sobre o pensamento português?
A Revista Nova Águia procura honrar o espírito da Revista A Águia (1910-1932), órgão do movimento da "Renascença Portuguesa", que reuniu a elite cultural da sua época (falo de nomes como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva). À semelhança da revista A Águia, que procurou dar uma orientação maior à República (lembramos que ela foi lançada a 1 de Dezembro de 1910), a Nova Águia, procura, com o mesmo espírito, repensar a nossa situação no começo do século XXI. Ela foi lançada em 2008 para, sobretudo, promover o conhecimento da nossa tradição filosófica e cultural numa perspectiva futurante - na premissa de que nenhum povo que despreze a sua tradição poderá ter real futuro. Não havia nenhuma revista que, a nosso ver, cumprisse essa missão. Continua a não haver, sendo que a Nova Águia tem conseguido ter um horizonte ainda mais amplo do que teve a revista A Águia, ao estabelecer, em todos números, pontes com todos os restantes países e regiões do espaço de língua portuguesa.
2: Tens sido o porta-voz deste projecto, uma vez que és uma presença activa nas apresentações que fazes da revista pelo país. Como tem sido a receptividade do público?
Não temos tido razões de queixa. A Nova Águia é verdadeiramente um "case study" - e como tal tem sido vista (inclusive em Universidades): uma revista sem relevantes apoios, completamente independente, que se debruça sobre temas "difíceis", sem qualquer concessão à "facilidade" (como acontece com a maior das revistas), que, de número para número, cresce em número de leitores. Para mais, chamo a atenção de que a Nova Águia, para além do nome de uma revista semestral, é também o título de uma Colecção de Livros, que já vai em mais de cinco dezenas de volumes, para além de outros títulos que o MIL tem editado. Temos, porém, a consciência que esta é uma corrida (ou um “voo”) de fundo. Costumamos até dizer, nas múltiplas sessões que promovemos por todo o país, que este é um caminho para maratonistas, não para velocistas…
3: Temos leitores em Portugal para acompanhar, intervir e discutir os temas específicos que a revista Nova Águia propõe nas suas edições?
Até ao momento, sim, sendo que os sinais que vamos tendo vão no bom sentido. Há um grupo de leitores cada vez maior e mais interessado nas temáticas da cultura lusófona. E, quanto a colaborações, elas têm sido sempre mais do que suficientes para compor cada novo número. De tal modo que, em geral, nem sequer fazemos convites. Os textos vão sempre aparecendo, naturalmente, inclusive das figuras maiores do nosso universo cultural – falo, entre outros, de Adriano Moreira, António Braz Teixeira, Eduardo Lourenço, Manuel Ferreira Patrício e Pinharanda Gomes, não esquecendo aqueles que já faleceram mas que ainda acompanharam os primeiros passos da Nova Águia, como António Telmo, António José de Brito e Dalila Pereira da Costa.
 
4: De que modo a Nova Águia chega ao espaço lusófono?
Essa tem sido a nossa maior dificuldade. Como a Nova Águia não quer estar dependente de apoios externos (para não ficar condicionada por eles), não tem tido ainda a pujança financeira para chegar, de forma mais constante, a todo o espaço lusófono. Mas, ainda assim, temo-lo conseguido, desde logo através de Congressos Internacionais para onde temos sido convidados e onde aproveitamos sempre a oportunidade para publicitarmos este projecto – em Março deste ano, estivemos em Macau; recentemente, estivemos ainda no Brasil e em Cabo Verde. E, à Galiza, vamos sempre todos os semestres para apresentar cada novo número da Nova Águia
5: Qual é a relação entre o MIL – Movimento Internacional Lusófono e a revista Nova Águia?
A Revista Nova Águia é o órgão do MIL, tal como A Águia foi o órgão do Movimento da Renascença Portuguesa. Mas não propriamente um órgão de propaganda, até porque o MIL não é um partido político, ou algo que se pareça. É, simplesmente, uma revista que reflecte os nossos valores e o nosso objectivo: promover uma cada maior convergência entre os países e regiões do espaço de língua portuguesa.
6: Na revista também dão voz aos poetas (secção “Poemáguio”). A poesia como reflexão e consciência de um Portugal Novo é um desafio para esta geração de poetas?
Sim, a Nova Águia é essencialmente uma revista de ensaio, de pensamento livre, mas tem também sido, em todos os números, uma revista de poesia, até em reconhecimento da importância da poesia não apenas na cultura portuguesa, mas em toda a cultura lusófona, em geral.
7: A par do MIL – Movimento Internacional Lusófono e da Nova Águia – Revista de Cultura para o Século XXI, está a CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Em conjunto, encenam acções culturais que visam uma certa realização espiritual e filosófica do mundo lusófono, num campo congregador de ideias e atitudes enquanto valores próprios de sociedades mais conscientes, livres e justas, nas suas dimensões cultural, social, cívica e política e numa perspectiva pedagógica. Que conceitos filosóficos de Agostinho da Silva estão na base deste grande objectivo?
Quando lançámos o MIL, em 2008, ainda na esteira das Comemorações do Centenário do Nascimento de Agostinho da Silva, que decorreram em 2006 e por boa parte do ano de 2007, houve um amigo brasileiro que disse que o MIL era a “criação da CPLP por baixo” – ou seja, ao nível da sociedade civil. Cada vez mais, parece-nos ser esse o caminho: quando a sociedade civil tiver peso suficiente para influenciar os diversos Partidos e Governos no bom sentido, ou seja, no sentido da Convergência Lusófona, tudo o mais virá por arrasto. A própria CPLP terá outra dinâmica, conforme o MIL tem igualmente reclamado. Entretanto, reconhecemos que a CPLP está muito aquém do sonho de Agostinho da Silva, que, ainda nos anos 50, prefigurava uma “Confederação dos povos de língua portuguesa”, tendo mesmo chegado a falar de um mesmo “Povo não realizado que actualmente habita Portugal, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, o Brasil, Angola, Moçambique, Macau, Timor, e vive, como emigrante ou exilado, da Rússia ao Chile, do Canadá à Austrália” (“Proposição”, 1974).

8. Que sentido e destino para a Comunidade Lusófona na contemporaneidade, tendo em conta a crise política e económica que se vive em Portugal e que parece esgotar o nosso país num espaço de mera sobrevivência no dia-a-dia?
É preciso ter uma perspectiva de médio-longo prazo. Por isso, temos procurado defender e difundir o conceito da cidadania lusófona, nos Congressos da Cidadania Lusófona (já se realizaram quatro, até ao momento), no âmbito dos quais temos sedimentado uma Plataforma de Associações da Sociedade Civil. Quanto mais a sociedade civil se afirmar à escala lusófona, mas próximo estará esse Horizonte. Mas não temos pressa. Acreditamos que temos a dinâmica da própria história do nosso lado…
9. Há ainda lugar para uma utopia criadora no espaço lusófono, apesar da pobreza e das fracas perspectivas de futuro para os jovens?
Temos consciência de que por vezes o quotidiano, por ser tão adverso, não permite a consideração dessas visões mais de médio-longo prazo. Mas os sinais que vamos recebendo, em particular por parte dos jovens, são positivos. Até porque, em geral, estes já não carregam em si alguns ressentimentos históricos que, no passado, dificultaram esse caminho de convergência entre os países e regiões do espaço de língua portuguesa.
10. Numa perspectiva geográfica, o mapa do mundo lusófono apresenta regiões muito distantes umas das outras. Também a nível dos valores culturais, sociais, cívicos e políticos consolidados nas diferentes comunidades se verifica o mesmo distanciamento?
Essa dispersão geográfica é, em si mesma, uma dificuldade e uma mais-valia, até em termos comparativos (com o espaço de língua castelhana, por exemplo, com muito menor projecção global). Com as novas tecnologias de comunicação, essa dificuldade é cada vez menor, porém. Falamos pela nossa experiência no MIL. Temos, por exemplo, um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, de todos os países e regiões de língua portuguesa. Recorrendo a essas novas tecnologias de comunicação, tem sido possível recolher, em tempo útil, os contributos de todas essas pessoas do nosso Conselho Consultivo.
11. Portugal é um pequeno país que integra uma comunidade europeia desde 1986, com ideais, dependências e políticas europeias. Tendo em atenção tudo o que essa adesão acarreta, e do ponto de vista cultural, o Portugal contemporâneo já é um país europeu ou ainda é um país lusófono?
Esse é, a nosso ver, um falso dilema. Na visão do MIL, a plataforma lusófona não tem que se afirmar contra ninguém, nem por exclusão. Pelo contrário, se Portugal não tivesse desprezado tanto a plataforma lusófona estaria hoje numa posição bem mais fortalecida na plataforma europeia. E o inverso também sucede: uma das mais-valias de Portugal na plataforma lusófona é a sua integração na plataforma europeia. Elas não são pois excludentes entre si – ao invés, reforçam-se mutuamente. E o mesmo diremos do Brasil – na sua integração na plataforma sul-americana (Mercosul) –, de Timor-Leste – na sua integração na plataforma extremo-asiática (ASEAN) – e dos vários países africanos, que estão também, muito naturalmente, integrados em diversas plataformas político-económicas desse continente.

 

12. Como investigador na área da “Filosofia em Portugal” tens dezenas de estudos publicados. Na tua opinião, e a partir de uma visão crítica muito pessoal, qual foi a obra mais exigente em termos de pesquisa e validação científica?

Decerto, a obra mais exigente em termos de pesquisa e validação científica foi a minha dissertação de Doutoramento em Filosofia, Fundamentos e Firmamentos do pensamento português contemporâneo: uma perspectiva a partir da visão de José Marinho, defendida em 2004 na Universidade de Lisboa. Isto sem desprimor para qualquer das outras obras que entretanto lançámos: Visões de Agostinho da Silva (2006), Repertório da Bibliografia Filosófica Portuguesa (2007), Perspectivas sobre Agostinho da Silva (2008), Via aberta: de Marinho a Pessoa, da Finisterra ao Oriente (2009), A Via Lusófona: um novo horizonte para Portugal (2010), Convergência Lusófona (2012/ 2014/ 2016), A Via Lusófona II (2015) e A Via Lusófona III (2017).

13. Na obra Tabula Rasa (2017) reflectiste sobre o 1º Festival Literário de Fátima – A Literatura e a Filosofia. Se os festivais literários tendem a impressionar pela “espuma” evanescente do desfile de personalidades mais ou menos importantes ou mediáticas, este 1º FLF foi, tendencialmente, um Festival de Ideias, ao privilegiar a “espessura” e a “profundidade” na reflexão dos participantes. Quais os aspectos positivos que realças desse evento literário e filosófico?
De facto, mais do que um Festival Literário, esta iniciativa co-organizada pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono e pela Revista NOVA ÁGUIA foi sobretudo um Festival de Ideias – por isso, não por acaso, o tema foi a “Relação entre a Literatura e a Filosofia”. Para tanto, convidámos um amplo leque de personalidades que fizeram essa ponte – não apenas entre Literatura e Filosofia, como entre as diversas culturas de língua portuguesa. Daí a estrutura do Festival: que alternou nove painéis “Entre Literatura e Filosofia” com quatro mesas-redondas que se debruçaram sobre o panorama cultural de cada um dos países e regiões do amplo e plural espaço lusófono, série iniciada logo no primeiro dia, em que destacamos a participação de Carlos Ximenes Belo e a extensa assistência que se foi alargando ainda mais ao longo do Festival, nomeadamente com a presença de muitos jovens. No segundo dia, tivemos mais alguns convidados internacionais – nomeadamente, Maria Amélia Barros Dalomba, da Liga Africana (Angola), Elter Manuel Carlos, um dos mais promissores investigadores de Cabo Verde, e Constança Marcondes César, uma das mais consagradas filósofas brasileiras. Estes dois autores, de resto, apresentaram no terceiro dia as suas mais recentes obras: “Filosofia, Arte e Literatura” e “Olhares Luso-Brasileiros” (edições MIL). No quarto dia, destacamos a apresentação de mais um número da Revista “Nova Águia”. No último dia, finalmente, realizou-se a entrega dos prémios “Obras Tabula Rasa” – nas seguintes quatro categorias: Literatura infanto-juvenil (Maria da Conceição Vicente e Catarina Pinto), Poesia (Nuno Júdice), Ficção (Gonçalo M. Tavares) e Filosofia (Joaquim Cerqueira Gonçalves) –, tendo-se encerrando o Festival com a entrega do Grande Prémio “Tabula Rasa - Vida e Obra” a Eduardo Lourenço. Uma vez mais, perante uma muito extensa assistência.
 
 

Entrevista de Adília César e Fernando Esteves Pinto a Renato Epifânio

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O contributo de António Braz Teixeira na Revista NOVA ÁGUIA


Para uma análise do contributo de António Braz Teixeira para a sedimentação do que poderemos definir como a Filosofia Lusófona, tomaremos como universo textual os seus ensaios publicados, até ao momento, na Revista NOVA ÁGUIA – apenas os seus ensaios, não outros contributos seus, como recensões. De igual modo, não iremos aqui ter em conta outro tipo de contributos que António Braz Teixeira tem prestado à Revista NOVA ÁGUIA – falamos, em particular, de alguns gestos seus de apoio à Revista, alguns deles muito importantes, senão mesmo decisivos, para a sua continuidade (foi, por exemplo, António Braz Teixeira quem sugeriu que Miguel Real integrasse a Direcção da Revista, num determinada fase mais conturbada, o que teve um efeito muito positivo de pacificação interna).
Fazemo-lo por duas razões fundamentais – em primeiro lugar, porque a Revista NOVA ÁGUIA é inequivocamente, no panorama nacional, a publicação que mais tem defendido e difundido esse conceito de uma Filosofia Lusófona, no universo mais vasto de uma Cultura Lusófona, ou, se preferirem, de uma Cultura de Língua Portuguesa; em segundo lugar, porque o contributo ensaístico de António Braz Teixeira para a Revista NOVA ÁGUIA tem sido uma amostra maior da amplitude e profundidade dos seus interesses filosóficos e culturais, que denotam uma curiosidade que assumimos invejar. Tendo o privilégio de conversar frequentemente com António Braz Teixeira, ficamos, com efeito, muitas vezes impressionados com a curiosidade dir-se-ia “juvenil” de António Braz Teixeira. Nas mais diversas áreas da cultura – da filosofia à poesia, do romance ao cinema, do teatro à música, da pintura à arquitectura –, António Braz Teixeira parece andar sempre à procura de “coisas novas”.
Isso não o faz, porém, escamotear o cultivo da nossa memória filosófico-cultural – bem pelo contrário. Quando não é próprio a fazê-lo, nos seus ensaios, tem sido António Braz Teixeira, mais do que qualquer outra pessoa, a propor-nos, para a Revista NOVA ÁGUIA, o tratamento de algumas figuras (não apenas da cultura portuguesa, mas lusófona em geral), algumas delas, confessamo-lo, para nós à partida quase que inteiramente desconhecidas. Quase sempre, o pretexto é o assinalar de uma efeméride (seja do nascimento, seja da morte). Temos até em nossa posse uma lista, elaborada por António Braz Teixeira, que se estende até 2030, com as figuras que, em cada ano, mais importará recordar. Como pretendemos continuar muito para além de 2030, ficaremos pois à espera que, até lá, António Braz Teixeira estenda essa listagem por, pelo menos, mais três décadas…
Mas centremo-nos então no nosso definido universo textual, verificando em que medida António Braz Teixeira tem estabelecido pontes: entre Portugal e o Brasil, desde logo, mas também com outros lugares do amplo e plural espaço lusófono; entre a Filosofia e outras áreas da ampla e plural cultura de língua portuguesa. O primeiro desses ensaios intitula-se “Breve nota sobre Agostinho da Silva e a ‘Escola de São Paulo’” e foi publicado a abrir o número dedicado a Agostinho da Silva, por ocasião dos 15 anos da sua morte (NOVA ÁGUIA nº 3, 1º semestre de 2009). O ensaio não é muito extenso mas é muito mais do que uma “Breve nota”, sobretudo porque, sem escamotear as suas origens, que passaram também pela inicial Faculdade de Letras do Porto – verdadeiro berço de ouro de toda a posterior Filosofia Portuguesa –, integra Agostinho da Silva na realidade filosófica brasileira da sua época, em particular, na “Escola de São Paulo”, conceito que, como é sabido, foi por António Braz Teixeira consagrado, a ponto de ter sido o título de um dos seus mais recentes livros (MIL/ DG Edições, 2016).
Esse interesse particular pela ponte luso-brasileira é igualmente evidente noutros ensaios – a título de exemplo: “Miguel Reale, Historiador das Ideias” (NOVA ÁGUIA nº 6, 2º semestre de 2010); “Nos duzentos anos de Domingos Gonçalves de Magalhães” (NOVA ÁGUIA nº 8, 2º semestre de 2011); “Na morte de Milton Vargas” (NOVA ÁGUIA nº 10, 2º semestre de 2012); “A filosofia do ‘senso comum’ de Heraldo Barbuy (1913-1979)” (NOVA ÁGUIA nº 12, 2º semestre de 2013); “A ética neo-tomista na filosofia luso-brasileira contemporânea” (NOVA ÁGUIA nº 17, 1º semestre de 2016); “O teatro de Ariano Suassuna” (NOVA ÁGUIA nº 18, 2º semestre de 2016). Noutros ensaios, tem ampliado ainda mais a extensão dessas pontes filosófico-culturais – falamos, em particular, dos ensaios “A saudade na poesia da ‘Claridade’” (NOVA ÁGUIA nº 19, 1º semestre de 2012); “Breve nota sobre a poesia de Rui de Noronha” (NOVA ÁGUIA nº 14, 2º semestre de 2014); “A saudade na poesia de Rui Knopfli” (NOVA ÁGUIA nº 16, 2º semestre de 2015).
Tudo isto sem nunca perder de vista a sua matriz – António Braz Teixeira é, como se sabe, alguém que se insere na linhagem mais nobre da Filosofia Portuguesa –, que ressurge, de forma mais ou menos directa, nos seguintes ensaios: “Breve nota sobre a saudade no Livro do Desassossego” (NOVA ÁGUIA nº 7, 1º semestre de 2011); “Álvaro Ribeiro: Filósofo Criacionista” (NOVA ÁGUIA nº 8, 2º semestre de 2011); “O diálogo crítico de Leonardo Coimbra com Bruno, Junqueiro e Pascoaes” (NOVA ÁGUIA nº 11, 1º semestre de 2013); “O liberalismo de Orlando Vitorino: nos 10 anos da sua morte” (NOVA ÁGUIA nº 12, 2º semestre de 2013); “A Ética dialéctica de António José de Brito” (NOVA ÁGUIA nº 13, 1º semestre de 2014); “’O Penitente’, uma biografia metafísica de Camilo” (NOVA ÁGUIA nº 15, 1º semestre de 2015); “A reflexão estética de Vergílio Ferreira” (NOVA ÁGUIA nº 19, 1º semestre de 2017); “Em torno do teatro de Raul Brandão” e “Francisco Manuel de Melo, Moralista” (NOVA ÁGUIA nº 20, 2º semestre de 2017). Sem esquecer ainda o seu lucidíssimo ensaio, este mais político, “O estado da República” (NOVA ÁGUIA nº 6, 2º semestre de 2010), resta-nos concluir, dizendo apenas: “Por tudo isto, Gratos, Professor Braz Teixeira!”.  
 

terça-feira, 18 de julho de 2017

Texto de Guilherme d’Oliveira Martins para a NOVA ÁGUIA 20...


A última vez que fui à Cooperativa Árvore senti a falta do meu amigo José Rodrigues – mas felizmente encontrei outro querido amigo, Albano Martins, e lembrei-me da extraordinária versão de «O Cântico dos Cânticos de Salomão», a partir do grego, com dez litografias originais do inesquecível escultor, gravadas em pedra de Baviera. É uma obra única, editada pela Cooperativa Árvore por ocasião dos seus 25 anos (Porto, 1988), integrada na coleção «Moinho de Vento», dirigida com a qualidade inconfundível do nosso primeiro editor, José da Cruz Santos. E se é certo que, como habitualmente, este se limitou a enviar um belo texto, a verdade é que todos recordámos, como memória viva, o querido José Rodrigues. A obra é raríssima e está há muito esgotada, sendo disputada nos alfarrabistas. Hoje merece uma referência muito especial, ao homenagearmos o escultor e o amigo, e ao invocarmos também a Cooperativa Árvore e o talento e a sensibilidade do editor fantástico da Oiro do Dia ou da Modo de Ler.

«A cidade assemelha-se a um bloco de granito onde corre sempre um raio de luz». Não conheço melhor definição desta querida cidade do Porto do que a de José Rodrigues, o escultor, o artista, o intérprete extraordinário deste lugar único. E hoje como símbolo do Porto temos o cubo da Ribeira, que se tornou uma referência adotada como sua pela gente da cidade. «Pensei numa coisa diferente dos temas a que sempre recorria – estátuas de mulheres nuas, bombeiros ou cavalos. E por que não um cubo com um jacto de água de forma a dar a ideia de que esse pequeno movimento pudesse pôr em suspenso aquelas duas toneladas de bronze». E aqui está o símbolo da vontade, da inteireza, da determinação de uma cidade invicta.

José Rodrigues é um amigo que muito continuo a admirar. Mais do que o escultor, o desenhador e o gravador talentoso, que conheci longamente, foi sobretudo um educador. Encontrei-o sempre nessa atitude sábia e aberta do artista que aprende. De facto, é essa inesgotável qualidade que sempre lhe admirei. O autêntico educador é aquele que faz da relação humana um permanente ato de troca. Um dia, estávamos juntos, e a Luísa Dacosta lembrou-o, na cooperativa Árvore, o melhor sítio possível. E que é a aprendizagem senão isso mesmo? Sendo muito generoso, encontrei-o muitas vezes na dramática situação de ter sido traído na sua capacidade de dar tudo. Em tantas circunstâncias, percebi bem o significado do dito popular «por bem fazer mal haver».

Apesar de todas as dificuldades e vicissitudes, vi sempre José Rodrigues continuar no seu caminho de coerência e de genuína entrega à arte e aos outros. Para ele não fazia sentido o conhecimento e a compreensão se não fossem partilhados, se não houvesse dom e troca. Por isso, admirei nele, para além do talento, a capacidade sábia de fazer do ato de aprender um movimento biunívoco, em que a humanidade e a dignidade se entregam e se realizam.

Era vê-lo a dialogar com os jovens, a transmitir os seus saberes, sempre com a qualidade de ouvir e de verificar as dificuldades e as virtudes. O seu olhar vivo, atento, perscrutador, como o de uma águia das montanhas que apreende a beleza natural, mas que entende, a um tempo, o conjunto e os pormenores, demonstrava essa capacidade única de perceber e de transmitir, de apreender e de responder, de olhar e de ver. Um escultor de exceção, como José Rodrigues, aprendia em tudo as formas, os espaços, as relações, as proporções, os movimentos, a tensão da vida, a agonia, o êxtase, a coerência e a contradição. Nele, de facto, sentia-se a vida como combate e como ligação íntima à terra – com um especial culto do feminino e da Mátria. E que é a escultura, desde o barro ao bronze, senão a capacidade sagrada de criar e de construir, como Deus faz no livro do Génesis? O escultor reedita esse movimento fundador de pegar no barro e de lhe dar vida. O olhar vivo e desperto liga-se ao dom divino de moldar a terra e de lhe dar um sopro de alma.

José Rodrigues nasceu em Luanda, vem de África, do lugar das origens da humanidade, e é nortenho com os pés assentes na terra, no húmus, e com a imaginação nas nuvens (no melhor sentido da imagem). Tornou-se um dos símbolos da cidade do Porto, a que me ligam raízes familiares antigas, e nunca esquecerei nas Águas Férreas, em casa que foi da minha família e hoje é do meu Amigo Conselheiro Santos Serra, a homenagem nacional a Oliveira Martins, em 1994, cuja memória ficou perpetuada por uma obra sua, baseada na ideia democrática por excelência da justiça para todos. E, de facto, é esse amor ao futuro, construído pela vontade autónoma e solidária das pessoas, que constitui o ideário de José Rodrigues, em cuja obra se sente amiúde a influência de Antero de Quental. Ele costumava dizer-me: «A vida tem de ser uma forma de poesia, senão tornámo-nos uma espécie de matraquilhos».

José Rodrigues tem uma obra vastíssima e inconfundível. Insisto em que admiro sempre, e antes de tudo, o educador e que é ele que hoje desejo homenagear. Como um dos fundadores da Cooperativa Árvore e como um dos promotores da Bienal de Vila Nova de Cerveira demonstrou, com vontade firme e solidária, que o artista não pode viver fora da relação com os outros. É a entrega, o exemplo e a aprendizagem que têm de estar sempre presentes – e isso é especialmente importante para o escultor.

E como poderemos entender a cultura portuguesa contemporânea, numa encruzilhada ente herança e inovação, se não lembrarmos o diálogo do escultor com os seus colegas artistas, como «Os Quatro Vintes», em que, com ele, Armando Alves, Ângelo de Sousa e Jorge Pinheiro representam o impulso no sentido de um renascimento cultural, em que ciclicamente a cidade do Porto é tão pródiga?

De facto, para José Rodrigues a arte não tem sentido sem uma intensa relação humana. Em cada diálogo que se estabelece entre pessoas comuns há um fluxo criador, que no caso dos artistas torna-se mais intenso e transformador. O projeto da Fábrica Social em Santo Ildefonso é a procura do sentido humaníssimo, que na cidade do Porto tem ainda mais significado, se nos lembrarmos do que Jaime Cortesão disse que é a única cidade-Estado da nossa cultura, o lugar de onde houve nome Portugal. E, sob o olhar do escultor-sábio, a cidade assemelha-se, cada vez mais, a um bloco de granito animado por um raio de luz.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Texto de Ramalho Eanes para a NOVA ÁGUIA 20...


O ser humano é o único ser na natureza dotado de uma dupla historicidade: a herdada (cultural e política) e a pessoal (a educação que é, a um só tempo, reflexo e projecto de cultura). Todo o ser humano é, naquela perspectiva, um permanente produtor-consumidor de cultura.
Obviamente, neste ciclo de inevitável produção comum de cultura, há sempre alguns que mais se distinguem pela qualidade, pela inovação criativa – enfim, pela excelência da produção cultural. A estes chamamos «artistas», aqueles que se dedicam ao fabrico consciente de beleza.
Natural seria, pois, que a vida e a natureza – enfim, o múltiplo e permanente inter-relacionamento do homem com o Outro –, quer seja o seu semelhante, quer seja o mundo, se tornassem fontes privilegiadas de inspiração e de luminoso despertar artístico. E fonte, assim, porque apaixonadamente sedutora ela é e se manifesta, pela diversidade de seres, pela multiplicidade de formas e cores que oferece, pela beleza plural que exibe, pela sensibilização que gera.
Natural, pois, que José Rodrigues, na sua Angola natal, sentisse o apelo sensorial que a natureza lhe lançava, manifestando, desde criança, um gosto pelas artes, nomeadamente pelo barro, originado pela natureza e que esta permite recriar. Natural, pois, que a sua ânsia por mais saber e mais aprender o tivesse impulsionado para Portugal, e o levasse a frequentar o curso de Belas Artes no Porto, que, aliás, terminou com a nota máxima, e onde viria a ser professor.
Do seu valor e qualidade artística falam, com indubitável comprovação, o reconhecimento, nacional e internacional, que granjeou. Expôs, individualmente, em múltiplas geografias, onde o público se rendeu às suas poderosas esculturas, nomeadamente, de Anjos e Cristos, de um misticismo impressionante. Participou, também, em diversas exposições colectivas, tanto em Portugal como em países tão diversos como Áustria, Estados Unidos, Brasil, Índia, China e Japão, entre outros. Muita é, ainda, a arte pública, esculpida por José Rodrigues, que podemos apreciar em diversos pontos do País, como Porto, Viana do Castelo, Monção, Arcos de Valdevez, Vila Nova de Cerveira, Vila Real e Lisboa, entre outros.
Para além do seu brilhante trabalho como escultor, José Rodrigues produziu, ainda, cerâmica, medalhística e ilustrou livros de poetas e escritores de renome e seus amigos, como Eugénio de Andrade, Jorge de Sena e Vasco Graça Moura. Foi, igualmente, cenógrafo, de diversas produções no Porto, em Cascais e Lisboa. Lembro, particularmente, as suas belíssimas produções para a produção de Yerma, de Federico Garcia Lorca, em 1992, que considerou muito estimulante e provocante, por implicar encenar uma peça onde o ateísmo e a fé são tão irmãos, a alienação e a libertação tão radicais.
Não posso, nem devo, ainda, esquecer que foi um dos artistas fundadores da Árvore-Cooperativa de Actividades Artísticas, em 1963, cooperativa que fez parte da grande renovação cultural da cidade do Porto, da batalha contra a desertificação, o imobilismo e o envelhecimento das estruturas existentes. Trata-se, pois, no seu campo de actuação específico, de um projecto de mediação entre o artista plástico e o público, entre a cultura e a cidade do Porto, tendo a sua dinâmica divulgado uma nova linguagem, e criado uma nova forma de relacionamento com a cidade, tornando-a no que é hoje: uma das mais distintas e distintivas organizações da sociedade civil portuense no campo da arte e do acolhimento e mobilização de artistas plásticos.
Mas correcto não seria falar apenas do José Rodrigues Artista, cuja qualidade tantos apreciam, neles se contando nós – eu e minha mulher – e, já, também, os nossos filhos. É que José Rodrigues era, para além de artista, ou talvez por ser também artista, um homem de apurada sensibilidade, acutilante olhar para a beleza, transcendente olhar para o Homem e para Deus, e elevada lealdade como amigo.
A sua obra é, pois, uma dádiva, em primeiro lugar, à arte e à escultura e, por isso, à cultura do País e, depois, também, à família (a quem nos liga um especial carinho e admiração; à Lindinha, filhas e netos), aos seus amigos, aos seus muitos admiradores, entre os quais me incluo, naturalmente, e incluo a minha mulher.
Não posso, pois, deixar de, reconhecidamente, prestar homenagem, pública, a José Rodrigues, por toda a criatividade com que, inspiradamente, observava o mundo e recriava a sua beleza, a que o redemoinho do quotidiano da vida, tantas vezes, nos alheia.
                                                                       António Ramalho Eanes