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Do mais seguro que temos nos tempos futuros que já
hoje se desenham é que o Brasil virá a ser guia do mundo. Católica reserva de
um catolicismo universal a ele confluíram, por milagre da história, e aqui
usamos milagre no sentido de manifestação da lei suprema, essencial e simples,
influências dos três continentes. O não existir aqui na altura dos
descobrimentos nenhuma alta civilização como as que encontraram os espanhóis
fez que se não opusesse à cultura nova que entrava nenhuma barreira de elites
interessadas em que o antigo se mantivesse; o terem vindo da África só escravos
e, como escravos, homens cujos quadros culturais já tinham sido despedaçados,
quer pelas próprias migrações africanas, quer pelos ataques dos descobridores
brancos, contribuiu igualmente para que o Brasil recebesse apenas o que era
como que instintivo no povo, como que fazendo agora parte de sua natureza, e
não como mais ou menos artificialmente elaborado por um escol; finalmente, a
permanência relativamente curta dos funcionários portugueses, não privando o
Brasil dos benefícios de uma política altamente planejada, livrou-o por outro
lado de todos os malefícios a que dá lugar o excessivo acomodamento; o que
ficou foi também povo.
Lentamente a Nação se foi elaborando e principia hoje
a aparecer como uma série de características que prenunciam o futuro. Não falo
muito neste ponto do Brasil da costa, o que é necessariamente em grande parte
de carácter europeu, embora de uma Europa já muito batida, felizmente, pelos
influxos da terra. Falo do Brasil que fica para dentro, do tal Brasil de
igarapés, chapadões e cochilas, do Brasil que tentou defender-se e afirmar-se,
quando ainda era cedo demais, nos sertões da Bahia e nas fronteiras de Santa
Catarina e ter uma voz religiosa no Juazeiro místico e ter um surto artístico
nos escultores de ex-votos, nos poetas de romance e peleja, nos teatrólogos de
Catrinetas e Bumbas. E falaria, se já tivesse estudado sob este ponto de vista,
noutro Brasil que vai ser extremamente importante quando a História se decidir
a dobrar a sua esquina: o Brasil marginal de morros e favelas.
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