A ausência visita a clausura numa asa de luz e a sua brancura é a morte, uma mortalha sem peso sobre o pó, que deixa rosas numa laje.
O que me foi confiado vestiu-se de sombras, os espectros moram nas paredes. O amor é um lamento da pedra, cresce água dentro da jóia, fala em silêncio e sem corpo no escuro denso.
O vento uiva nos alaúdes e nas trompas. Nenhum profeta falou do canibalismo dos anjos, de como os altares são brancos, emparedados na treva, e pela manhã vermelhos.
Toda a abóbada é um ventre do abismo, os olhos procuram o alto e a vertigem é para baixo, para o profundo sem vitrais.
A palavra calou-se, o vento uiva lá fora. Deus está sempre vestido de treva e resta-nos este fogo roubado.
Ardo, sou o meu Alfa e o meu Omega. Em mim começa e termina a pele da noite que fecha as janelas, o trabalho da luz e da cinza.
Antes de ter a vida tive a morte e depois de ter a morte tive a vida. Deus atirou o meu nome para onde as serpentes cantam.
K. N.
Fotografia: Palmela, Vidigueira, Cucufate, 2007
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