
A 16 de Março de 1825, nasce, em Lisboa, Camilo Castelo Branco, autor de uma vasta obra de literatura «confessional». Entre as suas mais conhecidas produções textuais poder-se-ão citar Amor de Perdição (1862) e Eusébio Macário (1879).
Fonte: O LemeSede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
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Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)
A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)
Agostinho da Silva
Na imagem, caro António Trabulo, está a estátua do "guerreiro templário" concebida por João Cutileiro, assente no honrado solo da Chamusca por iniciativa da respectiva Câmara Municipal. É, sem dúvida, uma homenagem; é, sem dúvida, a expressão maior da nossa arte contemporãnea; é, por fim, irrelevante - embora quase irresistível - perguntar que pensariam os barbudos monges de tal estafermo, uma vez que, ao que sabemos, se não aninham nas suas entranhas os ossos respeitáveis de um deles. Coisas que cada época faz às passadas, na vã tentativa de que as vindouras lhe não façam o mesmo.Tudo isto vem a propósito da homenagem de cada época, da dificuldade em eleger uns maiores que o sejam efectivamente e da belíssima referência ao templo da eternidade - em cujos nichos, aliás, Camilo andará bem mais à larga do que a modéstia ou a esperança no futuro o fizeram supor.
Eu não vejo nada de mal nas homenagens; e gostei de ler a sua lembrança dos pedaços de lata do Imperador, pela simples razão de que se tratava aí de dar a quem antes já tinha dado: no meu texto de ontem, já admiti a excepção dos guerreiros. Nem vejo grande mal no Panteão, que aliás ninguém visita; vejo principalmente muito mal numa outra coisa.
O Panteão, é claro, já existe - em Portugal desde 1916, em França desde 1791: nos dois casos, após uma Revolução - cujos méritos não é aqui ocasião de apreciar - ter consagrado uma reinvenção da Pátria, e desconfio de que por iniciativa empenhada de alguns dos seus denodados reinventores; aprendi agora mesmo que a subtileza de algum governante elevou (?) também a esse estatuto, em 2003, o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, o que significará, atrevo-me a supor, que alguém entende que Afonso Henriques está agora, ao fim de oito obscuros séculos, merecidamente panteonizado - não gostamos talvez de pensar que ele preferisse repousar num simples templo cristão, e sempre fica aberta a possibilidade de, sem de lá retirar o homem, transformar aquilo num espaço polivalente, tão mais a gosto dos nossos dias.
Existe o Panteão, portanto; mas existe, da mesma forma, o cemitério da Lapa - onde, pela mão do acaso, ou pela do destino, Camilo repousa mesmo defronte do túmulo do marido de Ana Plácido: nocturnas malhas que o Mistério tece.
E é aqui que, como disse, vejo grande mal: não é a entrada no Panteão, mas a saída da Lapa que me impressiona, e pela mesmíssima razão que me impressionaria ver São Miguel de Seide ou a Samardã ou a Rua da Rosa rebaptizadas com o nome de Camilo: nós, modernos, mexemos demais no que devagarinho se foi fazendo, e se foi fazendo sem ninguém querer. Os inventores franceses do Panteão foram os mesmos que tentaram reinventar os nomes dos meses: mas por mais bonito que seja o Floreal, não nos compensa da perda do Maio. Quando todas as histórias forem só a história da Pátria, a Pátria não nos poderá mais contar história nenhuma. E quando se organiza demasiado o mundo, o mundo transforma-se num espectáculo, ou na coisa insípida que são agora as maçãs iguaizinhas dos supermercados: simulacro da vida simples, simulacro da morte constante. E nada disto tem que ver com a razão: a explicação para o nome "Samardã", ou para o nome "Seide", parecer-nos-ia agora fútil, se a conhecêssemos - dizem que Guadiana quer apenas dizer "o rio rio": será razão para lhe chamarem um dia rio Casimiro Ceivães? Espero bem que não.
Por fim, confirmemos que é só de homenagem que se trata. No Panteão, meu caro, estão os restos mortais de alguns maiores; mas estão também memoriais fúnebres, ou cenotáfios, de alguns outros que se não quis para lá levar, ou que se ignora onde repousam. E grandes, grandes são eles: o Gama, o Albuquerque, o Infante, o Camões, Cabral, Nuno Álvares. Não poderemos deixar Camilo nas sombras graníticas da Lapa, para descanso dele e dos que ainda gostam de um mundo indomesticado, e cenotafiá-lo, para descanso da Pátria?
No entanto, caro António Trabulo, não me leve a mal mas não o queria no Panteão; queria-o sossegado no cemitério de pedra aonde o acaso o deixou descansar, perto das terras que os seus olhos gastos viram pela última vez. E não, não é bairrismo, embora pense muitas vezes - acontece-me passar na Rua da Rosa, em Lisboa, junto à casa decrépita que o viu nascer - como Camilo é igual ao granito escuro desse Norte que também é meu.
Não é bairrismo; é que não gosto lá muito, ou mesmo nada, da ideia de um Panteão.
Há três maneiras de servir a Pátria: uma é identificando-se com ela, que é o que justifica ou injustifica os reis; outra é oferecendo-se a ela, que é o que fazem os guerreiros; outra ainda é simplesmente vivendo, que é o que está ao alcance de todos nós.
Onde esteja o corpo morto de um rei não precisa de o ir buscar a Pátria, porque aí a Pátria está inteira e quieta; ressalvo aqueles que repousaram em terra estrangeira (mas não dizia Vieira "para nascer, Portugal; para morrer, o mundo todo..."?), e essa foi até a sina do nosso primeiro chefe o Conde Henrique talvez da Borgonha que morreu em Astorga de Leão e só depois se veio a Braga, aonde está; mas se um rei morreu em Portugal é Portugal que vai ter com ele e não o contrário: Afonso Henriques em Coimbra, Dinis em Odivelas, outros em Alcobaça ou na Batalha.
Onde esteja um guerreiro é coisa bem diferente, e por isso quando um soldado morre na guerra (ou fica cativo numa guerra) é importante ir buscá-lo porque sem ele nos incompletamos.
Mas aonde esteja o corpo de um homem - ah, e para viver não basta nascer, como para andar morto não é preciso ter morrido - deixemo-lo repousar, e vele só a Pátria que ninguém o perturbe. As voltas que a morte nos dá são quase sempre voltas bem feitas.
A ideia de um "Panteão" foi inventada na Revolução Francesa, e não por acaso dessacralizando uma igreja: estava-se em tempo de inventar uma religião sem deus, ou uma religião de estranhos deuses, como a fugidia Razão; e estava-se em tempo de confundir a Pátria, que é espiritual, com um Estado, que é a forma material - e por isso inferior - da sua manifestação. "Que o templo da Religião se torne o templo da Pátria, e que o túmulo dos grandes homens se torne o altar da Liberdade", isto dizia a Lei de 1791 que inventou esta coisa estranha. Também não por acaso, o depois Imperador dos Franceses quis remisturar as coisas, ordenando a reabertura do culto cristão em paralelo ao culto dos grandes homens.
Passou o tempo dos antigos reis, passou o tempo da deusa Razão; e temos agora uma espécie de Pátria que se compraz em evocações e homenagens; que finge cuidar dos seus mortos para disfarçar o descuido dos vivos; que já não é capaz de apontar exemplos, e por isso aponta os inimitáveis "génios": Pessoa está nos Jerónimos, mas no seu túmulo não quiseram gravar as palavras da Mensagem.
Nada, no que sabemos da vida e do coração de Camilo, nos permite supor que alguma vez tenha querido "servir a Pátria" (como adoramos essa enganadora etiqueta...), a não ser uma vaga, juvenil e irrelevante passagem pela guerrilha miguelista; nada, no que sabemos da sua alma e da sua morte, nos permite supor que tenha sido mais do que um homem que viveu e amou e magoou-se e quis coisas que não teve e que escrevia como nem o príncipe dos infernos aprendeu a escrever. O que ele escreveu, já no-lo deu a todos, e ninguém o lê; o que ficou com ele está entre ferros e anjos góticos do cemitério da Lapa; e de tudo isso, que é Pátria mas não é da Pátria, não tem o direito de se apropriar ninguém.
Não; não é Camilo que deve vir para o Panteão; é Portugal que deve ir à Lapa. Triste é a Pátria que quer ter um sítio: é porque já não sabe ser o imenso lugar para que foi feita; triste é a Pátria que se apropria dos mortos: não saberá ser apropriada aos vivos.
No mês de Junho de 1910 irão contar-se 120 anos sobre a morte de Camilo Castelo Branco. Não se poderá falar de comemoração porque os suicídios não se comemoram, mas entendo que a data deverá ser assinalada.