O Sobreiro, D. Carlos de Bragança, 1905
Há valor, num homem, que despiu
A sua roupagem, e vestiu a cinza
Da terra e a erva da serra
Onde as bandeiras acabam e o poeta
Começa.
E heroísmo, no homem,
Que derrubou o mundo para o deixar
À solta e navegar,
As pincelagens do Sol a pôr-se.
II
Há mais em Portugal do que Portugal estar,
Há em Portugal rumar, amar, chorar;
Há na Terra vozes e no Atlântico, bramidos ferozes,
Civilizações com sangue bárbaro e luz de vida;
Há em Portugal, Portugal ser,
Há em Portugal, espalhar-se e amanhecer,
E noite funda e cemitério de amores
E homens que olham e se aprendem
E saber que eu sou isto e isto não é nome,
É pedra de aurora, é árvore por dentro
Como árvore por fora.
Oh, malditos párias, pouco sabendo
Das portas abertas por almas incertas,
Debaixo da cova e por cima das setas,
Brasão que pende sobre a vida e sob a morte.
Portugal não está aqui, mas tanto é
Esta estátua orgulhosa que suporta
E de um só tempo em cores se derrota,
Portugal pilhado em forma de livros e,
Depois, Portugal espalhado em todas as
Ruínas, nos fantasmas das aves
Que sobrevoam as memórias do chão
E da nação. E se um dia, se revolta
A recordação, a que chamais saudade,
Os anjos caídos aqui farão
Oásis e liberdade.
Horned Wolf