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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
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"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"
Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica.

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo.


Agostinho da Silva

domingo, 15 de novembro de 2015

CONTRA UM GENOCÍDIO: A NOVA GUINÉ OCIDENTAL

1) A APATIA PERANTE UM DRAMA
   Vivemos numa época de contradições. As informações circulam a uma velocidade estonteante. Nada parece passível de ser escondido. A toda a hora surgem vagas de indignação contra atentados as Direitos Humanos. Manifestações. Vigílias.
   O terrorismo islâmico, então, está na ordem do dia. Os massacres insanos entram na casa de cada um, pela televisão e pela "internet" (basta um "clique"). É verdade que a opinião pública tende a valorizar mais a ações de terror na Europa ou no Estado Unidos do que em África ou na Ásia, por exemplo. Os sofrimentos dos curdos do Médio Oriente ou dos africanos do Ruanda e do Burundi dizem pouco aos europeus. A 2 000 vítimas do fundamentalismo na Nigéria nestes meados de novembro de 2015 têm apenas um pequeno impacto. Mesmo assim, lá vão sendo notícia.
   Menos sorte têm outros, de que quase ninguém ouviu falar. É um desses casos que aqui se aborda. O de um povo remoto, com costumes e culturas bizarros. E que, para além de estar a ser vítima de um genocídio diário, ainda teve o azar de sempre ter sido vítima de inúmeras decisões erradas de instituições internacionais.
   Vou falar dos Papuas da Nova Guiné Ocidental, sob administração indonésia. Meio milhão de mortos desde 1969. Sempre lutando, principalmente contra a indiferença e o esquecimento. Mas de que se começa a falar um pouco mais, aqui e ali. Como neste texto.
   Não se pode compreender a real dimensão da tragédia sem História. Que, até certa altura, é a História duma enorme ilha, sem metades ocidental e oriental.
 2) A HISTÓRIA DA NOVA GUINÉ E DOS POVOS PAPUAS
   A ilha da Nova Guiné, a Norte da Austrália, é habitada por quase 8 milhões de pessoas. É uma ilha bem grande, com 786 000 quilómetros quadrados (mais do dobro da Alemanha), e caracteriza-se por um relevo muito acentuado e uma beleza natural única, nomeadamente ao nível de espécies de aves, algumas das mais belas e exóticas do mundo. O nome "Nova Guiné" terá sido dado pelos navegadores portugueses no século XVI, perante a luxuriante cobertura vegetal e a cor negra dos seus naturais, semelhantes em muito à Guiné, em África.
   Os seus habitantes, segundos estudos recentes, terão origem africana, tal como os aborígenes australianos (os "australóides"), e terão chegado ao atual território há cerca de 50 000 anos. A Nova Guiné e a Austrália estiveram ligadas por terra, ou pelo menos muito próximas, mas, após o último degelo. há mais de 10 000 anos, ficaram mais longe. E os povos da Nova Guiné, parte, tudo indica, de um grupo genericamente designado por Melanésios, isolados, desenvolveram as chamadas "Línguas Papuas".
   Mas... a designação "Línguas Papuas" refere-se a um agrupamento muito mais geográfico que verdadeiramente linguístico de línguas do Pacífico Ocidental. As línguas papuas (cerca de 780) não parecem ser uma família linguística na verdadeira aceção do termo; são agrupadas em várias famílias e macrofamílias cuja classificação precisa de ser mais estudada. Torna-se difícil compreender uma tal diversidade linguística em menos de oito milhões de habitantes, mas o relevo montanhoso da grande ilha, por vezes quase intransponível, deve ser a causa principal deste facto. É incrível como os locais quase não se entendem entre si.
   Alguns destes Papuas vivem em tribos tecnologicamente muito pouco avançadas, mas muito ricas em termos folclóricos e mitológicos. Tudo indica que pouco terão evoluído nos últimos milhares de anos, permanecendo num neolítico mais ou menos avançado. A agricultura é, muitas vezes, bastante primitiva. E, todavia, há sinais de ligações comerciais, principalmente a Oeste e um pouco a Norte, com povos malaios-indonésios, e eventualmente com chineses. Alguns estados hoje integrados na Indonésia tiveram feitorias em zonas costeiras, ainda que pouco habitadas. Os portugueses, primeiro, e os espanhóis, depois, foram os primeiros europeus a chegar a tão remotas paragens (século XVI) , logo comerciando com as populações (ferramentas de osso, de madeira e de pedra, e, claro, algumas de metal). O explorador português Jorge de Menezes foi mesmo o primeiro a chamar "papuas" aos habitantes, ao que parece segundo uma denominação de um povo local.
3) O COLONIALISMO
   Os contactos comerciais foram-se mantendo, em especial, depois do século XVII, com holandeses, mas também com ingleses, franceses, e até alemães. Espantava a todos a diversidade de costumes, bem como muitas originalidades, algumas pouco aceitáveis, como a prática de canibalismo ritual por alguns grupos. No final do século XIX, como sucedeu noutras partes do mundo, a ilha, após conversações um tanto complexas, ficou dividida em três partes: uma holandesa, a ocidente, outra alemã, a nordeste, e uma britânica, a sudeste, transferida em 1902 para o Domínio da Austrália. Após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha perdeu a sua parte para a Grã-Bretanha, fixando-se uma divisão bipartida. já que em breve a parte cedida pelos alemães era entregue à Austrália também, ainda que alguns aspetos administrativos permanecessem distintos.
   Durante a Segunda Guerra Mundial, os japoneses ocuparam quase toda a Nova Guiné holandesa, e partes das regiões australianas/britânicas, sendo rechaçados, após duros combates, só em 1944/45.
   A grande ilha assistiu, nas décadas de 1950 e 1960, ao aparecimento de movimentos independentistas e anticolonialistas, nas duas regiões (holandesa/ocidental e australiana/britânica/oriental), principalmente nas cidades que as administrações europeias tinham desenvolvido, como sempre, nestes casos, no seu próprio interesse. Os grupos tribais mantinham-se bastante à margem dos novos tempos.
   Na década de 1960, já a Indonésia era independente desde os finais da década de 1940, o general Sukarno renovou as reivindicações de Jakarta sobre a região ocidental holandesa da ilha, argumentando que ela fizera parte das Índias (Orientais) holandesas, como a Indonésia, e que sempre tinha havido contactos comerciais, já antes da presença europeia, entre as civilizações da Insulíndia e o território . Já antes Jacarta tinha tentado que a Holanda discutisse a administração da região, mesmo porque a  O.N.U., através da sua Comissão de Descolonização, protestava cada vez mais contra a presença europeia naquela parte do mundo.  Em 1961, alguma autonomia foi concedida, e  foi criado um governo local com alguns poderes, que adotou bandeira própria (partida verticalmente, um parte menor vermelha, à esquerda, com um estrela branca, e um parte maior, à direita com sete listas azuis e seis brancas, alternadas, dispostas horizontalmente).
4) A TRISTE ATUAÇÃO DAS INSTÂNCIAS INTERNACIONAIS
  O capítulo seguinte é um dos mais tristes da História das Nações Unidas, que, sob pressão indonésia, tomaram conta da administração da colónia holandesa (1962), acabando, em 1963, por a ceder a Jacarta, com a condição de ser promovido um referendo.
  A Indonésia tinha então uma grande influência nas Nações Unidas, como um dos países que primeiro e libertara do colonialismo, e o general Sukarno tinha todo o apoio do bloco soviético, enquanto os Estados Unidos procuravam não hostilizar o regime, considerando os seus interesses geoestratégicos e a sua intervenção no Vietnam.
   Assim se compreende o quase silêncio com que foi acolhida a "farsa" de 1969, quando Jacarta, em vez do prometido referendo, convocou os chefes tribais da Nova Guiné Ocidental (Papua Ocidental a partir de então) para decidirem o futuro do território. Foi possível averiguar que a maioria desses chefes não tinha qualquer noção do que estava em causa, e que aceitaram a proposta de integração na Indonésia a de forma vaga, e até a troco de presentes. Nascia uma nova província indonésia, dotada, em teoria, de alguma autonomia: Papua, depois chamada Irian Jaya e Irian Barat.
   Na região oriental da ilha, a administração australiana dava lugar a um estado independente em 1975, com o nome de Papua Nova Guiné, englobando alguns arquipélagos vizinhos (462 840 Km.2 ; um pouco mais de 7 milhões de habitantes em 2013). Este estado tem vindo a ser cuidadosamente vigiado pela Indonésia, dado ser naturalmente um aliado dos movimentos independentistas papuas.
5) SALVEM OS PAPUAS NA NOVA GUINÉ OCIDENTAL...ANTES QUE SEJA TARDE!!
   Logo após a instalação das autoridades indonésias, surgiram revoltas e guerrilhas na Nova Guiné ocidental. A repressão foi violenta, e mostrou-se de duas formas: repressão direta (mortes, prisão, tortura, falta de liberdade de expressão) e indireta (destruição das culturas locais, imigração de inúmeros indonésios, principalmente da ilha de Java, para alterar a composição étnica da população local. A separação de Timor foi vista 
   A separação de Timor (1999-2002) foi vista por muitos locais como um sinal de esperança. Em vão. Há poucos anos, o território foi subdividido em duas províncias: Papua ocidental, e Papua. Dividir para reinar continua a ser o lema dos opressores.
   Nos nossos dias, vivem nos 421 981 Km.2 da antiga colónia holandesa quase 2 milhões de pessoas, contra pouco mais de oitocentos mil em 1969. Todavia, quase metade são imigrantes vindos de toda a Indonésia, desde então. A repressão contra os naturais terá feito um pouco mais de meio milhão de mortos. É quase impossível entrar no território, isolado do mundo em termos de informação. As populações, oprimidas, têm dificuldades até em movimentarem-se de um lado para o outro. Recentemente, as torturas, assassinatos, intimidações, parecem estar a aumentar. Em proporção, têm crescido os protestos internacionais, não só nos países vizinhos, mas na Europa e América. Refugiados papuas e amigos dos Direitos Humanos excedem-se em protestos e ações simbólicas. Alguns ecos se fazem sentir, aqui e ali. Entretanto, todo um povo se arrisca a ser eliminado, perante uma apatia que começa a ser criminosa. Será que ter a pele escura e uma cultura materialmente primitiva os condena ao desprezo? É triste ousar exprimir esta reflexão, mas, perante outras reações tão diferentes diante de violências e genocídios noutras partes do mundo, é-se levado a equacionar a razão do desprezo pela sorte destes povos papuas que parece predominar nos "media" de todo o planeta!
Estremoz, Portugal, 15 de novembro de 2015
Carlos Eduardo da Cruz Luna 

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