
Encontram-se facilmente argumentos contraditórios que
se assemelham, de um lado contra ou a favor da unidade europeia, por outro a favor e contra o movimento lusófono. De facto, o problema da unidade europeia, que
talvez deva preceder o exame da questão da lusofonia, pela razão de que tem
séculos a vocação de organizar a primeira, sendo que a vocação se mantém para
além do fracasso da organização ao longo dos tempos, e o mesmo acontece agora
com a vocação de afirmar a segunda, parcela que é do europeísmo, deparando-se
também com os acidentes da organização. Quanto ao europeísmo, e para evitar
enumerar a longa teoria de projectistas
da paz europeístas, lembremos todavia que vai da proposta de um tribunal arbitral (Pierre Dubois, século
XVI) entre soberanias, a uma espécie de Senado (Podiёbrad, 1464) a tender para
o federalismo (William Penn, 1718), para realizar uma partilha interna de
impérios findos com a guerra de 1914-1918 a favor dos Estados-Nações
convergentes globalmente na Sociedade das Nações, e acabando, neste século XXI sem
bússola, e pelo que toca à Europa, num regionalismo,
que é a União Europeia, sem conceito estratégico para enfrentar o globalismo,
cuja estrutura interna é mal conhecida, quanto às redes múltiplas,
interdependências, e até centros de decisão. Porque as gerações vivas procuram
naturalmente responder a esta circunstância nova, as correntes de resposta são
múltiplas, ou acentuando a perda-recuperação do nacionalismo ou a compensação da soberania individual com a regionalização da nova invenção, ou com
tendências para aceitar a terra casa
comum dos homens cuja governança falta. Por tudo, as subsistentes memórias
plurais do passado entram frequentemente em conflito com os próprios
normativismos contratuais ou organizações como a ONU, e, sem surpresas com os
regionalismos menores, como é a União Europeia. Acontece que se podemos não
esquecer a visão de Camões de uma unidade (cristandade) em que Portugal seria a
cabeça da Europa toda, e por isso merece ser citado entre os crentes da unidade
europeia, é também o defensor da identidade singular da Pátria em que um fraco
Rei faz fraca a forte gente, na época em que, depois da guerra de 1939-1945, a
Europa deixou de poder considerar-se “a luz do mundo”, perdeu o Império
Euromundista de que Portugal teve parte até 1974, não acertou na governança da
plataforma da União, dividiu-a entre ricos e pobres, fez crescer o desamor
europeu, viu reaparecer as ambições das pequenas
pátrias, e renascer a inquietação dos Estados-Nações, a cuidar de novo das
suas raízes, do seu novo isolado futuro, do bem estar dos seus cidadãos, da sua
dignidade na comunidade global. É neste clima que o tema do milagre português,
que tem a memória camoniana da unidade europeia congregada com a memória da
unidade não perdida, assumiu a lusofonia
com a importância que sustenta o autor deste livro oportuno, e que não ignora o
vigor com que analistas atentos, multiplicam os avisos e críticas contra a
forma como a unidade europeia vai perdendo vigor, com falta de conceito
estratégico, com tendência para reviver o directório de má história, tudo
agravando a circunstância da lusofonia e do luso-tropicalismo, que devia ser a
bandeira do enfraquecido Estado português, que é a do nosso autor, que não pode
ser diminuída, porque é um alicerce nosso. O facto de Portugal sempre ter
necessitado de um apoio externo, e, findo o Império Euromundista, ter
racionalmente seguido a União da frente marítima atlântica na decisão de
abandonar as responsabilidades coloniais, isso não impede querer fortalecer
outras parcelas de liberdade nacional, nem ignorar ter obrigações para com
outras organizações, como a ONU e o BIT, o que parece ter sido esquecido no
regime da troika e sequelas vigentes.
Ora, de todos os países que partilharam o Império Euromundista findo com a
guerra de 1939-1945, e a filosofia da ONU, foi Portugal o único que, depois de
uma guerra longa, ao lado das guerras pesadas que todos os outros sustentaram
(França, Holanda, Inglaterra, Bélgica), conseguiu inspirar a organização da
CPLP e do Instituto Internacional de Língua Portuguesa, lançando as ideias a
que o Brasil deu força e organização. Ignorar que a língua portuguesa é uma
janela de liberdade, é por exemplo não meditar na importância universitária que
lhe dá a Universidade Católica de Tóquio, ou o interesse que em 2005 levou o
governo de Pequim a delegar no governo de Macau o estudo da língua, “para
aproveitar a herança portuguesa”: deixámos em Macau uma escola portuguesa,
julgo que nesta data a China tem catorze, e aqui começa a ser
institucionalizado o ensino do Mandarim. O erro, creio, é não admitir que a
“língua portuguesa não é nossa, também é nossa”. Isto porque em cada latitude
onde se fala absorve valores diferentes que nos outros não acolhe, a começar
com o português do Brasil com os seus valores dos nativos, africanos, alemães,
portugueses, italianos, tendo uma música específica. É este erro que tem
expressão no querer submeter a língua a tratados, ignorando que é um organismo
vivo, cuja vida não é neutra em relação à circunstância. Por outro lado, depois
do fim do império Euromundista, a CPLP é uma expressão de “maneira portuguesa
de estar no mundo”, o que implica, para além dos erros cometidos, como a
inquisição, o transporte de escravos, a expulsão dos judeus, o estatuto
jurídico diferenciado das populações, ter conseguido, pela intervenção
universitária e missionária da já intitulada Escola Ibérica da Paz, onde o padre António Vieira tem parte
actual, dar uma contribuição notável para o património imaterial da Humanidade,
usando a comunidade de afectos que permitiu a organização da CPLP e do
Instituto Internacional da Língua Portuguesa. Por vezes é citada a Comunidade
Britânica, anterior à segunda guerra mundial, mas vistas as diferenças em
relação aos países que não são de origem anglo-saxónica, a semelhança não
existe. O cimento dessa nossa afinidade parece ser, como foi na formação
demorada das Nações, a comunidade de afectos entre as etnias encontradas e os
colonizadores finalmente encaminhados não para a tolerância, mas para o
respeito das diferenças. A unidade europeia não é incompatível com isto,
falta-lhe o culto acentuado da comunidade de afectos, acima das memórias
imperiais, que sobreviveram a duas guerras mundiais. Por isso, é um serviço,
não apenas aos interesses de Portugal, mas aos do património imaterial comum da
humanidade, a defesa dos valores lusófonos, a que se dedicou o MIL.
5 comentários:
“Encontram-se facilmente argumentos contraditórios que se assemelham, de um lado contra ou a favor da unidade europeia, por outro a favor e contra o movimento lusófono.”
- Chega a ser inevitável a sociedade estar dividida entre as propostas de um Federalismo Europeu, de uma Alternativa Lusófona, e mesmo o “orgulhosamente sós”. O que eu percebo em relação ao Europeísmo, é que a Europa é heterogênea demais para se unir (gregos, latinos, germânicos-nórdicos, eslavos, ugro-fineses, bálticos, etc.) e talvez agrupamentos menores de países na Europa funcionassem melhor. E a UE é alinhada em demasiado aos EUA, devia ser mais voltada aos seus próprios interesses, na minha opinião.
“...a Europa deixou de poder considerar-se “a luz do mundo”, perdeu o Império Euromundista...”
- A humanidade chegou a um nível que as antigas formas de impérios já não são mais bem-vindas no mundo. As formas como as nações podem se coligar são as de federação, de confederação, megablocos... formas que a autonomia das nações seja respeitada. A não ser que a humanidade regrida.
“...ignorar que a língua portuguesa é uma janela de liberdade, é por exemplo não meditar na importância universitária que lhe dá a Universidade Católica de Tóquio, ou o interesse que em 2005 levou o governo de Pequim a delegar no governo de Macau o estudo da língua...”
- É verdade. A língua portuguesa é por si só um ativo que cada país lusófono tem. É um idioma que tem potencial de se expandir e ser ensinado em muitos países como língua estrangeira, fenômeno que acontece com o espanhol (castelhano) e com o francês. Não vai chegar ao nível de influência que o inglês tem, mas pode se destacar como língua global.
“Isto porque em cada latitude onde se fala absorve valores diferentes que nos outros não acolhe, a começar com o português do Brasil com os seus valores dos nativos, africanos, alemães, portugueses, italianos, tendo uma música específica. É este erro que tem expressão no querer submeter a língua a tratados, ignorando que é um organismo vivo, cuja vida não é neutra em relação à circunstância.”
- As diferenças entre o português falado no Brasil e o falado nos demais países e regiões não chegam a pôr em causa a unidade da língua portuguesa. O francês falado no Quebec é bem afastado do francês falado na França. O inglês falado na Austrália é bem afastado do inglês falado na Inglaterra e também do inglês falado nos EUA. O árabe falado no Marrocos é bastante distinto do falado na Arábia Saudita ou Líbano, por exemplo. O que deve haver é uma integração linguística e cultural entre os países lusófonos, através dos media, por exemplo, os brasileiros assistirem filmes feitos em Portugal e em Angola, por exemplo. Assim, as pessoas se familiarizam. Se a intenção é a aproximação e integração das nações lusófonas, então o lado cultural tem que ser trabalhado intensivamente.
Vou meditar nas palavras de este sábio ancião. Que senti como poesia.
Quem não amar a terra onde nasceu com todas as suas características, é porque precisa de curar a sua Lua natal.
Grata.
AbraçoMIL
Excellent post !
Não concordo como muitas coisas, mas está um bom artigo!
Só há uma maneira de respeitar a evolução da língua e as suas formas regionais, fazer um tratado sobre ela e um acordo da norma comum. Não o fazer é garantir várias tiranias, Lisboa impondo a sua forma de falar em Portugal, São Paulo no Brasil, etc.
Quantos portugueses estão convencidos de que no Brasil "você" é mais usado do que o "tu" e mais usado do que o "você" em Portugal. Isso é uma mentira. O "tu" no Brasil se usa muito mais do que "você" e é muito mais usado do que o "tu" em Portugal. Simplesmente que o povo por simplificação ou ignorância diz "tu vai', "nós vai'. Mas não se pense que é sempre... ao mesmo tempo dizem "Entendeste?" "Vamos?" ou seja quando não fica fácil colocar o pronome já falam correto, principalmente em frases comuns...
A maior parte dos portugueses pensa que no Brasil e fala como no RIO ou São Paulo (capital) quando essas forma são muito ínfimas no Brasil. já viajei mais de 20000 km de carro pelo Brasil de terra em terra. Porquê isso? Porque os professores das universidades de São Paulo querem que o mundo pense que o Brasil fala da maneira que eles falam. Há mil e uma razões para eles não falarem de acordo com a norma culta, mas já não há razões para os outros não falarem como eles.
Ou seja se não houver uma norma lusófona vai haver uma norma nacional, normalmente mais despótica.
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