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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
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"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"
Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica.

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo.


Agostinho da Silva

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Entre Ariano Suassuna e Agostinho da Silva: uma certa Visão do Brasil


No primeiro número da Revista NOVA ÁGUIA, presenteou-nos Ariano Suassuna com um breve mas resplandecente depoimento, onde nos começa por dizer: “Eu tenho uma alegria enorme em falar sobre Agostinho da Silva, pessoa que admirava e admiro muito. Eu o conheci na Baía, creio que em 1961, e ele me seduziu imediatamente. Vi logo que tinha nele um irmão, um irmão mais velho…E fiquei ainda mais encantado quando ele me disse que tinha chegado à conclusão de que o V Império, profetizado em Portugal, tinha como grande esperança de realização o próprio Brasil. Esta era, na altura, a tese fundamental dele”.
Centrar-nos-emos aqui nessa visão do Brasil enquanto “grande esperança de realização” do Quinto Império – que, com efeito, emerge em várias obras de Agostinho da Silva, desde logo na sua Reflexão à margem da literatura portuguesa, datada de 1957 – onde nos deixou a seguinte exortação: “…que tome o Brasil inteiramente sobre si, como parte de seu destino histórico, a tarefa de, guardando o que Portugal teve de melhor e não pôde plenamente realizar e juntando-lhe todos os outros elementos universais que entraram em sua grande síntese, oferecer ao mundo um modelo de vida em que se entrelaçam numa perfeita harmonia os fundamentais impulsos humanos de produzir beleza, de amar os homens e de louvar a Deus (…).”. Eis, em suma, a visão que nos reiterará em outros textos seus, como iremos, de passagem, referir.

O primeiro desses textos intitula-se “Considerando o Quinto Império” e foi publicado no periódico Tempo Presente, em 1960. Nele, faz, uma vez mais, Agostinho da Silva, a retrospectiva da história de Portugal, desde logo, dos dois nossos maiores erros históricos: o de termos “abandonado” a Galiza e o de termos querido “conservar” Ceuta, sacrificando, para tal, o Infante D. Fernando. Eis, reitera-nos, o que nos fez desviar dos mares, dos “mares sobre que flutua o Espírito”, paras as terras, do ser para o ter… Neste texto, aparece o Brasil enquanto possibilidade de correcção desse desvio, de “começar de novo, de começar o recomeço: nunca mais abandonando noivas [como a Galiza]; nunca mais querendo terras em lugar de mares, nunca mais excluindo religiões”.

O segundo desses textos que aqui brevemente referimos intitula-se “Presença de Portugal” e foi publicado, à parte, enquanto opúsculo, em 1962. Nele, narra Agostinho da Silva a sua experiência na fundação da Universidade de Brasília, em particular, do Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, que aí criou, com o intuito, expressamente afirmado, de reatar, no Brasil, o que, em Portugal, “ficou interrompido nos séculos XV e XVI” – nas suas palavras, “aquela possibilidade de se compreender toda a gente nunca deixando de ser o que se é, ponto importante porque isso fez a grandeza de Portugal no século XV, em grande parte do século XVI e em tanto momento isolado da sua História”.

O terceiro desses textos intitula-se “Ensaio para uma Teoria do Brasil” e foi publicado no periódico Espiral, em 1965. Se, no anterior, o Brasil era apenas, ou, pelo menos, sobretudo, perspectivado enquanto reatamento, historicamente interrompido, de Portugal, neste o Brasil é perspectivado em si próprio, fazendo Agostinho da Silva a apologia das suas insuspeitas capacidades, nomeadamente, como refere, de forma eloquente, da sua “capacidade de [vir a] liderar o futuro humano, quando se desembaraçar de tudo quanto lhe foi útil na educação europeia e exercer, com o esplendor e a vigorosa força de criação que pode demonstrar, as suas capacidades de simpatia humana, de imaginação artística, de sincretismo religioso, de calma aceitação do destino, de inteligência psicológica, de ironia, de apetência de viver, de sentido da contemplação e do tempo”.
O quarto desses textos intitula-se “Perspectivas” e resulta da comunicação apresentada em 31 de Maio de 1968 à reunião conjunta da Academia Internacional da Cultura Portuguesa e do Conselho Geral da União das Comunidades da Cultura Portuguesa”. Nele, na esteira dos textos anteriores, chega inclusivamente, Agostinho da Silva, a prefigurar a dissolução de Portugal na República Federativa do Brasil, o que, no na sua perspectiva, “não significaria que Portugal estava alienando a sua independência, mas que estava ajudando o Brasil, que é o melhor de si mesmo, a alargar-se no mundo, dando-lhe um desembarque na Europa”. Este gesto, como salientava na altura, “poderia levar a Guiné, Moçambique e Angola a ligarem-se ao Brasil; poderia levar [ainda] a uma revisão do estatuto de Goa e a encontrar solução para o problema de Macau e Timor”.
O quinto e último desses textos, sem título, foi publicado no periódico Notícia, em 1971. Nele, reitera-nos, Agostinho, a sua peculiar visão do Brasil – nas suas palavras: “…se ainda estivéssemos em tempo de impérios se poderia, desde agora mesmo, ver Brasília como a futura capital do mundo; como não estamos, [que] a vejamos apenas como o símbolo daquela Paz que talvez Portugal pudesse ter estabelecido a partir do século XVI se não tivesse cedido a Maquiavel, apesar de tanto protesto de seus melhores homens, e não tivesse acreditado em que os meios podem ser de natureza diferente dos fins que se querem atingir: a Paz falhou porque, para a ela chegarmos, nos confiámos iludidos aos demónios da guerra. Que oxalá no Brasil, exorcismados [sic], morram.”. Uma vez mais, defende pois Agostinho que Portugal se cumprirá no Brasil. Ainda nas suas palavras, “o Brasil será o Portugal que não se realizou”. De tal forma que, como escreveu enfim, “o Brasil é Portugal, não irmão ou filho de Portugal, mas Portugal mesmo”. Eis, em suma, uma certa visão do Brasil, que Agostinho da Silva e Ariano Suassuna, no essencial, comungavam.
Ao longo de toda a sua vida, com efeito, defendeu Ariano Suassuna uma visão do mundo em que as diferenças linguísticas e culturas poderiam e deveriam ser afirmadas – como ele próprio afirmou, numa entrevista concedida a Luiz Zanin Oricchio, publicada no Jornal “O Estado de São Paulo”, no dia 12 de Julho de 1997: "A verdadeira universalidade respeita as singularidades locais. Todos entram com sua parte, compondo a vasta sinfonia da cultura. Ela é feita de contrastes, que não são contrários, mas complementares. Do jeito como está proposta, a globalização é apenas a prevalência de uma cultura única, a norte-americana, sobre todas as outras. Só não vê esse facto quem não quer".
Daí toda a sua obra, em particular no conhecido Movimento Armorial, onde procurou, sem preconceitos, valorizar a cultura popular, no que esta tinha de mais genuíno, enquanto expressão maior do próprio povo brasileiro – em assumida contra-corrente a quase a toda a chamada “arte contemporânea”, que, ao invés, tende, de forma consciente ou inconsciente, a fazer tábua rasa de todas essas diferenças linguísticas e culturais, afirmando um paradigma apenas artificialmente “universal”, como se pudesse haver uma arte linguística e culturalmente neutra.
De resto, não é por acaso que, no âmbito do Movimento Armorial, a cultura popular que mais se valorizou foi a cultura nordestina, por ser a mais genuína, a menos contaminada por esse paradigma apenas artificialmente “universal”. Na mesma referida entrevista, à pergunta se “o Nordeste teria melhores condições para resistir a uma possível pasteurização cultural”, respondeu: “É um paradoxo, mas talvez seja mais fácil engolir uma região desenvolvida, como São Paulo ou Rio [de Janeiro], do que o Nordeste. Aqui a resistência é mais forte, talvez exactamente porque a região seja comercialmente mais fraca. Marx cometia um erro grave ao dizer que os países mais potentes do ponto de vista económico produziriam uma arte mais rica. Não há relação directa entre as duas coisas…”.
Dando de novo o salto para Portugal, perguntamo-nos se o nosso país, no quadro europeu, não poderia ter um papel análogo ao que Ariano Suassuna reconhece ao Nordeste brasileiro, no quadro do nosso país irmão. Sem que isso implique condenar-nos ao subdesenvolvimento económico e social, que esse menor desenvolvimento possa, pelo menos, ser motivo de análoga resistência a essa “pasteurização cultural”. Em Portugal, como se sabe, foi também isso que Agostinho da Silva tentou, precavendo-nos, mesmo no auge da euforia europeísta – falamos dos anos oitenta – contra a dissolução das diferenças linguísticas e culturais. Já vinte anos após o seu falecimento, eis uma tarefa que não está ainda cumprida. Uma tarefa que nunca se cumprirá, plenamente.

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