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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
NIB: 0036 0283 99100034521 85; IBAN: PT50 0036 0283 9910 0034 5218 5; BIC: MPIOPTPL; NIF: 509 580 432

Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"
Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica.

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo.


Agostinho da Silva

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O Calhau do Encanto

Cascata na Serra do Alvão, Paulo Porsche, 2006


Pátria

Serra!
E qualquer coisa dentro de mim se acalma…
Qualquer coisa profunda e dolorida,
Traída,
Feita de terra e alma.

Uma paz de falcão na sua altura
A medir as fronteiras
– Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a picar estrelas verdadeiras…


Miguel Torga



Conheci a alva Serra do Alvão, a sua altura. As estradas florestais e depois a vertical Cascata de Fisgas do Ermelo, os seus quartzitos que separam a zona xistosa da zona granítica, o desemboque de cristalinas lagoas tão aclamadas do verão boreal. E vistosa, como uma bailarina de pés de espuma, a Cascata de Agarez, símbolo de vida e refúgio, a voz da montanha, cujo alcance exige caminhos nocivos ao conforto, como o demanda o caminho da beleza. Conheci deste caminho as arvores cansadas e as agudas rochas quebradas, então o vestido verde da canção das águas correntes que vem fazer amor ao cinzento palpitante do granito. A povoação serrana, tecendo os sons das águas no sacro artesanato...

Conheci a Serra do Alvão, misteriosa, enquanto noiva, coberta na neve do Inverno e mesmo nas núpcias, de severa luz verde.

Pousei a alma no alto, na direcção da povoação de Arnal, e descansei a carga dos dorsos dos animais, com os quais tantas vezes sentia o tempo estarrecer e parar. Acima, como se coroasse o povo, um templo construído pelas mãos ardentes dos agentes da terra, dos habitantes da alma, um penedo negro, negro, uma lua em eclipse, carícia obscena e insondável, em recorte de capela. Como se um clarão sinistro, forrava a porta do templo um macio clarão verde (musgo, dir-me-iam depois).

Perturbado pela imobilidade da minha visão, segui caminho, assobiando às bestas, almejando unicamente a mercadoria da vila, embora conduzisse o caminho (e parecia-me agora sinuoso, mesmo esfíngico) ao tamanhoso fragão.

Subindo, ficava quão mais a minha alma pesada, e de mim dentro se revolvia um lamento cuja profundidade igualava a altura das serras, um lamento de mulher cuja nascente brotava dos astros mais belos e sombrios, e era como se a minha alma fossem muitas, e todas essas não fossem a minha alma mas a inominável alma da mulher. Contrariado, forcei-me aos sinais do crepúsculo, e justamente quando contornava o negrume da rocha, badalou daí o surdo ruído de um pesado portão.

Não avistei, em verdade, portão algum, mas uma menina, doce, de uma doçura incompreensível, ancorada de tristeza incomensurável. Ao sorrir, esqueci o terror, e encantei-me pela menina. Largaria as bestas, os bens, se a pudesse ter a ela apenas, porque as suas formas são todas as formas do amor nas bestas, nos homens, e nos anjos. Estremeci, como se a própria terra abalada, e, de mãos no pó da trilha, escutei as suas promessas de ouro infindo e celebre noivado.


“Da penedia triste
Pus-me a olhar aquele fundo
Dentro do qual existe
O coração do mundo.

E vi, horas a fio,
A sua angústia ser
Uma espécie de rio
Que não sabe correr.”

(Miguel Torga
)


Apartei-me até à vila, apressado, para um pão de quatro cantos, e logo libertaria a moura do amaldiçoado feitiço, se este pão inviolado lhe fosse oferta. Era o homem que corria novamente para a civilização, e cujo coração se soltaria ainda inteiro e incorrupto, era o único homem que sabia que a debalda valia a pena, que nas suas mãos de taça e archote seria céu, terra e mar. Comprei o necessário para os vizinhos, retornei a casa e, se febril, tendo comprado apenas o pão de quatro cantos e cessando o pensamento de mim mesmo, uma importante condição me levou de novo à consciência: a sede, e com a sede a fome, recordada à vista da bailarina dos pés espumados, a cascata de Agarez. Recordei-me das lendas que contam que o povo de Agarez se ergue sobre a hetacombe do povo de Aragonês, do Reino de Aragão, que na zona haviam descoberto ouro muito, escondido a medo do diabo, que logo se encheu de Mouros de Mafómedes (na promessa do oiro), e, o diabo na dianteira com as legiões de Maomé a segui-lo, os atacou, exterminando-os a todos. No desenterrar do tesouro, ergueu-se do alto da Serra um torpor que a todos soterrou, só o diabo escapando. Talvez fosse ela a Santa que soterrara, com os cristãos, os mouros? Mais provável ser o diabo, que lá para cima se escapulira. E foi ali, isolado da populaça, que escutei a fome (e a fome é tão mais fome quando estamos sozinhos) e comi um dos cantos, sem saber como me alimentar da fome (e ela, que só da fome se alimenta). Foi essa a razão pela qual, alcançando o penedo negro e ali tocando com o varapau, ela foi apressada, como a incandescência enfeitiçada do relâmpago (do qual trovão a vida que me restava seria eco), e sem sorrir me disse:


“Em cavalo de três pernas,
Contigo não posso ir.
Fecha-te, porta de pedra,
Para nunca mais te abrir.”

(Da Lenda do Calhau do Encanto)


Larguei das compras o alforge, ao vê-la sumida, deitei-me aos pés do Calhau do Encanto e lá tenho, desde então, bebido o pranto e comido o desejo.

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