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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
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Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"
Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica.

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo.


Agostinho da Silva

segunda-feira, 6 de março de 2017

Vamireh Chacon e “O futuro político da Lusofonia”


Nascido a 1 de Fevereiro de 1934, na cidade do Recife, Vamireh Chacon é um insigne pensador brasileiro com um distinto currículo: bacharel e doutorado pela Faculdade de Direito da Universidade do Recife, depois Universidade Federal de Pernambuco; bacharel e licenciado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Católica de Pernambuco; ex-professor assistente, adjunto e titular da Faculdade de Filosofia na mesma Universidade; desde 1975, professor titular no Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde se tornou professor emérito em 2005; professor visitante em universidades estrangeiras, principalmente da Alemanha, França, Portugal, Espanha, Grã-Bretanha e Estados Unidos; doutor honoris causa pela Universidade de Erlangen-Nuremberg, da Alemanha, e membro das mais diversas instituições.

Ao longo da sua já longa vida, é autor de mais de duas dezenas de títulos, em particular na área da Filosofia Política. Aqui, centrar-nos-emos numa sua obra publicada em Portugal (Edição Verbo, 2002), com o sugestivo título de O futuro político da lusofonia, composta pelos seguintes textos: “Lusofonia e Blocos Transnacionais”, “Blocos Internacionais, Mercosul e CPLP na viragem do século XX ao XXI”, “Lusofonia, Luso-Tropicalismo, Luso-Tropicologia”, “Roteiro”, “Portugal e o plano jesuíta para o Brasil”; “A Razão Atlântica: Mercosul, África do Sul e Comunidade Lusófona”, “O Oriente Lusitano: primeiros contactos Oriente-Ocidente”, “O Impacto de Marco Polo”, Revolução das Navegações: epopeia e autocrítica”, “Idealismo e realismo no Ultramar”, “Fernão Mendes Pinto e Companheiros”, “Diletantismo e paixão na redescoberta do Oriente”, “Descoberta do Oriente também pelo Brasil”, “Gilberto Freyre e o encantamento pela Arábia e Índia, e as suas antevisões da China” e “Luso-Tropicalismo e Luso-Tropicologia revisitados”.

Pelo título geral do volume – e dos artigos que o compõem –, compreende-se imediatamente o teor da obra: trata-se de uma reflexão sobre a Lusofonia enquanto bloco transnacional, reflexão que se faz retrospectivamente, à luz da nossa história (de Portugal e do Brasil, sobretudo), e prospectivamente, na antecipação de como se poderá realizar, no século XXI, todo o potencial desse bloco. Dos autores citados, salienta-se o nome de Gilberto Freyre: “dos primeiros, ainda hoje um dos poucos, a defender a lusofonia cultural, económica e política” (p. 139). E, conhecendo-se todos os preconceitos ideológicos relativos a este pensador – vindos, tanto em Portugal como no Brasil, das correntes da dita “esquerda” –, são particularmente significativas as seguintes palavras de Mário Soares, que Vamireh Chacon refere: “Agora, passados os anos e lendo novamente Gilberto Freyre, abstraindo Salazar e as guerras coloniais, aquilo que ele disse é verdadeiro. Aquilo que ele disso sobre luso-tropicalismo é verdadeiro, é uma cultura própria e temos que desenvolvê-la no futuro.” (p. 49).

Assim, em diálogo com Gilberto Freyre, Vamireh Chacon começa por salientar a importância da cultura – “a cultura é o que somos, a seiva do que fazemos, a civilização” (p. 40) –, no âmbito de uma reflexão particularmente lúcida sobre o fenómeno, tão contemporâneo, do multiculturalismo: “Sem eixo integrador de rotação cultural centrípeta, denominador comum, dispersam-se as contribuições multiculturalistas e fragmentam-se, recomeçando o processo de definições e agrupamento” (p. 24). Aludindo, em contraponto, às “brechas da entropia produzida por excessivo fechamento” (p. 30), Vamireh Chacon afirma pois o primado do eixo cultural sobre os eixos político, económico e social, afirmação que não poderia ser, nos dias de hoje, mais pertinente.

Daí, de resto, a sua caracterização dos grandes blocos transnacionais, que qualifica como “macroblocos geoculturais” (p. 41) e linguísticos, dado que, como expressamente defende: “mais que blocos religiosos, como pretende Samuel P. Huntington, preocupado como estado-unidense com o fundamentalismo islâmico, o mundo do século XXI tende a também, e ainda mais, a congregar-se em blocos linguísticos” (p. 133). Daí, em suma, todo o fundamento da Lusofonia enquanto macrobloco geocultural e linguístico, em que o mar não é factor de distância mas de (re)aproximação – ainda nas palavras de Vamireh Chacon: “o mar é a ponte dos Estados transnacionais” (p. 27); “todos os [países] lusófonos dispõem do mar oceano como fronteira recíproca a aproximá-los mais que a distanciá-los” (p. 81).

Referindo-se ao teor da cultura lusófona, Chacon alude a “uma razão atlântica, herdada das lusas Descobertas ultramarinas do Renascimento, quando Portugal lhe acrescentou a dimensão do coração, em vez de limitar-se ao seu frio, objectivo, racionalismo inicial. A razão atlântica luso-tropical vem revelando-se ecuménica em todos os tipos de miscigenação étnicos e culturais” (p. 81). Daí ainda o referir-se ao “ideal ou meta da miscigenação multi-étnica na morenidade lusófona prevista e defendida por Gilberto Freyre, a Onça Castanha de Ariano Suassuna” (p. 33), dado que “foi mestiçando-se, não só em carne, mas em espírito, que o português do sonho sebástico de tornou o brasileiro de hoje” (p. 137). Daí, em suma, a sua visão do Brasil: “não centralista porque respeitadora dos foros dos municípios remontando ao domínio romano, enquanto os foros de Espanha se estendiam a regiões inteiras. Daí o único vice-reinado da América Portuguesa diante dos vários da América Espanhola” (p. 32)

Uma palavra final, relativa à sua visão de Portugal – transcrevendo aqui uma obra passagem d’ O futuro político da Lusofonia: “O escritor e estadista Leopold Sedar Senghor, primeiro presidente do Senegal, ele próprio de ascendência afro-lusa, entendeu muito bem, apesar das naturais limitações da sua francofonia, como, ‘daqui para o futuro, mais consciente da sua rica singularidade, o Portugal Novo avançará numa dupla direcção; por um lado para reintegrar a Europa em construção – falo da Europa cultural – mas, por outro, para ajudar com o Brasil e elaboração de um mundo lusófono, nomeadamente ao nascimento, em África, de novos Brasis, cheios de força porque de sangue misturados e prefigurando o mundo do futuro’” (p. 85). Caso para dizer, em conclusão: lamentavelmente, Portugal não teve, nestas últimas décadas, um alto responsável político com esta visão do país e da Lusofonia.

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