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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
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"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"
Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica.

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo.


Agostinho da Silva

terça-feira, 3 de maio de 2016

A Carta ao futuro (de Vergílio Ferreira) – mais de meio século depois

I
Datada de Dezembro de 1957, Carta ao futuro (Lisboa, Bertrand, 1981, 3ª) é um extenso texto dedicado a um “amigo” indeterminado, escrito, segundo o próprio Vergílio Ferreira, “pelo prazer de comunicar” – recordemos aqui o início da missiva: “Meu amigo: Escrevo-te para daqui a um século, cinco séculos, para daqui a mil anos… É quase certo que esta carta te não chegará às mãos ou que, chegando, a não lerás. Pouco importa. Escrevo pelo prazer de comunicar” (p. 9).
Não será tanto assim – ao definir, logo de seguida, a epistolografia como “a forma de comunicação mais directa que suporta uma larga margem de silêncio” e, mais ainda, como “a forma mais concreta de diálogo que não anula inteiramente o monólogo”, compreende-se que o interlocutor desta carta é, em última instância, o próprio Vergílio Ferreira. Daí o sentimento de solidão que ressalta das primeiras páginas desta carta, onde o autor descreve, num tom marcadamente melancólico, a sua vivência da cidade de Évora (pp. 10-13).
Sente, porém, que “há outra coisa à minha [sua] espera” (p. 15), a “hora da sua verdade”, em última instância, o antecipado momento da sua própria morte – ainda nas suas palavras: “Toda a vida que se cumpre esgota a comunicabilidade onde quer que se anuncie. Assim, a hora da sua verdade não é uma hora de comício, mas de solidão final (…). Ah, estar só é terrível (…). Por isso me ocorre muitas vezes que para um homem saber que voz última lhe fala, deveria ao menos ver-se flagrantemente à hora de uma morte abandonada, numa ilha deserta e perdida. Pascal: On mourra seul… Sim. Mas a mentira conhece todos os caminhos, mesmo os que nós ignoramos.” (pp. 16-17).
E continua: “Todo o homem morre só; mas nem todos o sabem. Recuperar em cada acto a solidão original de uma morte verdadeira é o profundo acto humano de quem se não quiser perder, se quem deseja eliminar essa zona que se interpõe entre a mentira de tudo e a verdade iluminada de nós próprios” (p. 18). Acrescenta que “a realidade imediata reconforta, nem que seja a realidade de uma pedra que nos atirem”, mas, no fundo, sabe bem que essa é outra mentira, que se contrapõe ao que “não tem face nem nome”, à “forma oca de um limiar indistinto, pura anunciação de presença, obscuro alarme de uma aparição” (p. 19).
E continua ainda, terminando assim, neste tom, a primeira parte desta sua Carta: “Num longe imaginado, passam os ventos em linha, massas de névoa deslizam sobre a terra abandonada, uma voz de espaço ressoa à minha atenção suspensa. O que é certo e imediato, o que me vem à boca e tem nome, o que é exacto e mensurável, refugia-se na timidez da penumbra e do silêncio, porque a voz obscura que me fala transcende o passado e o futuro, vibra verticalmente desde as minhas raízes até aos limites do universo, aí onde a lembrança é só pura expectativa despojada do seu contorno, é só pura interrogação. Nesta hora absoluta, conheço a vertigem da infinitude, o halo mais distante da minha presença no mundo…” (pp. 19-20).
II
Nas restantes cinco partes da sua Carta ao Futuro, mantém, Vergílio Ferreira, este seu tom tão caracteristicamente existencialista, dissertando, de forma sucessiva, sobre a “angústia” e a “alegria final nos limites da nossa condição” (II, p. 34), sobre a alegada “morte de Deus” (III, pp. 40 e segs.), sobre “os limites da condição humana” (IV, pp. 59 e segs.), sobre a “redenção pela arte” (V, pp. 81 e segs.) e, finalmente, sobre o conforto do “sentimento estético”: “Porque é dentro da emotividade que o mundo tem sentido, e a verdade humana, e a orientação fundamental de tudo o que nos orienta. Porque o sentimento estético é uma comunicação original com a essencialidade da vida (…)” (VI, p. 97).
Ao sinalizarmos aqui esse “tom tão marcadamente existencialista”, estamos a fazer um mero juízo de facto – não de valor –, para nós tão evidente e pacífico que nem sequer nos daremos ao trabalho de recordar as posições assumidas pelo próprio. Sim, sabemos que ele se sentia mais próximo de alguns existencialistas – como Jaspers – do que de outros – como Sartre –, mas, passados já mais de cinquenta anos, essas pequenas querelas são para nós quase que inteiramente irrelevantes. O que para nós aqui mais importa é apurar o que, nos tempos de hoje, se mantém de realmente actual do pensamento de Vergílio Ferreira.
A nosso ver, há desde logo algo que se mantém realmente actual, mais do que isso, algo que nos tempos de hoje é particularmente pertinente. E não falamos aqui de nenhum sentimento de “angústia”, nem sequer de “drama”, muito menos de “náusea”. E também não nos estamos aqui a referir ao mais do que estafado tópico da “morte de Deus”. Para além de toda essa “ganga existencialista” – que nos seja permitida a expressão –, há, reiteramo-lo, algo que se mantém realmente actual, mais do que isso, algo que nos tempos de hoje é particularmente pertinente e, por isso, operativo. Falamos da sua paixão pelo humano, da sua aposta pelo humanismo, a nosso ver, com efeito, algo que nos tempos de hoje é particularmente pertinente e, por isso, operativo.
III
Uma das marcas maiores do pensamento filosófico contemporâneo, em particular no Ocidente, tem sido a erosão do conceito de humanidade. Para algum pensamento dito “pós-moderno”, isso chega mesmo a ser um expresso desiderato – fazendo, pois, do conceito de humanidade um alvo a abater.
No universo mais alargado do discurso mediático, se não chega a haver esse expresso desiderato, nota-se, pelo menos, essa erosão do conceito de humanidade, como se já ninguém sentisse a motivação necessária para o defender.
Razões para tal, há decerto muitas. De forma expressa ou tácita, o conceito de humanidade foi-se tornando cada vez mais responsável, ou co-responsável, por um modelo civilizacional que também cada vez menos gente defende – o dito modelo civilizacional europeu e ocidental, alegadamente responsável por todos os males no mundo, nos mais diversos planos: social, económico, político e ecológico.
No plano político, de resto, é particularmente significativa a emergência de partidos ditos animalistas, que, mais do que defenderem os “direitos dos animais”, se caracterizam por um discurso assumidamente “anti-especista”, leia-se, anti-espécie humana. Como se, de facto, não existisse, ou não devesse existir, a espécie humana, como se, de facto, não existisse, ou não devesse existir, o conceito de humanidade.
Nalguns casos, chega-se mesmo a suspirar por um mundo sem humanidade, como se o planeta Terra fosse realmente o paraíso celeste antes da emergência do humano. Essa visão angelical da natureza – substantivamente falsa e grosseira – articula-se, amiúde, com uma rejeição, mais ou menos assumida, de tudo aquilo que caracteriza a emergência do humano: a linguagem, o pensamento, a própria cultura. Como se a cultura fosse algo de “contra-natura”, algo que só se pode afirmar contra a natureza. Como se o conceito de humanidade fosse, por si só, algo de negativo, senão mesmo um sinónimo de destruição.
Impõe-se, por tudo isso, neste século XXI, um pensamento assumidamente neo-humanista. Um pensamento que, fazendo a devida crítica de todos os males de que historicamente fomos responsáveis enquanto humanos – não só contra a natureza, mas, desde logo, contra nós próprios –, não chegue ao extremo de negar o próprio conceito de humanidade. Será isso impossível? Como diria Agostinho da Silva: “só há homem, quando se faz o impossível; o possível todos os bichos fazem”.
A tarefa, porém, não é fácil: para tanto, importa desconstruir toda uma mundividência que se desdobra entre um discurso mediático cada vez mais hegemónico e algum discurso filosófico aparentemente muito sofisticado, mas que, no essencial, se funda no mesmo equívoco. Tudo isto em prol de uma visão cosmológica em que o humano terá de ter, de novo, o seu lugar. Ao contrário do que alguns pretendem, uma visão holística do mundo não é necessariamente anti-humanista, sendo que, contrapolarmente, importa não confundir humanismo com antropocentrismo. A nosso ver, no século XXI, esse é um dos maiores equívocos que, filosoficamente, importa desfazer.

Intróito da Conferência a apresentar no Colóquio Internacional “Escrever e Pensar ou O Apelo Invencível da Arte. Centenário do Nascimento de Vergílio Ferreira”. Organização: Instituto de Filosofia da Universidade do Porto e Câmara Municipal de Gouveia, 18-21 de Maio de 2016.

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