Prestes a completar trinta anos de existência, importa reconhecer que a CPLP continua muito aquém – cada vez mais aquém, é caso para dizê-lo, com genuína amargura – do projecto idealizado por, entre outros, José Aparecido de Oliveira e Agostinho da Silva.
Há, decerto, razões mais estruturais e mais conjunturais para esse facto. Conjunturalmente, o realinhamento geopolítico provocado, em particular, pela guerra na Ucrânia levou a um evidente deslaçamento da CPLP enquanto tal: basta verificar as votações que se têm realizado na ONU a esse respeito, em que Portugal e o Brasil têm estado, recorrentemente, nos dois lados opostos da barricada.
Nos países africanos de língua oficial portuguesa também se verificou, em geral, uma indisfarçável regressão aos tempos da “Guerra Fria”, em que as ex-colónias portuguesas estiveram em grande medida alinhadas com a União Soviética, resultado da forma como o processo da descolonização foi conduzido, inclusivamente a partir de Portugal.
Timor-Leste tem sido mais compreensivo com a posição da Ucrânia – dado o paralelo com a invasão que sofreu por parte da Indonésia (outro evidente resultado da forma como o processo da descolonização foi conduzido, inclusivamente a partir de Portugal), mas, para os timorenses, a guerra na Ucrânia é uma questão demasiado distante, um assunto intestino entre os europeus, o que se compreende. Para mais, as boas relações com a China, aliado estratégico da Rússia nestes tempos, são, cada vez mais, um imperativo em toda a Ásia.
Com o Brasil a apostar cada vez mais nos chamados BRICs, não se antecipam, no imediato, horizontes mais auspiciosos para este projecto prestes a completar trinta anos de existência. Em Portugal, quem ainda aposta neste projecto divide-se também: se há quem proponha uma refundação da própria CPLP, outros há que, provavelmente de forma mais realista, defendem que Portugal deve sobretudo apostar no reforço das relações bilaterais com os países da CPLP que mais se mostrem disponíveis para esse comum desiderato.
Dito isto, importa igualmente reconhecer que, apesar de tudo, há algumas áreas em que a cooperação lusófona tem funcionado – por vezes, até à margem da CPLP. A par da área da Educação (basta verificar o número, felizmente bastante elevado, de jovens provenientes de outros países da CPLP a estudar em Portugal), a área da Saúde é decerto uma delas – talvez mesmo a mais flagrante. Por tudo isso, e como sinal da nossa não desistência no projecto da CPLP, iremos atribuir o Prémio MIL Personalidade Lusófona de 2025 ao Professor Doutor Óscar Dias, como símbolo de excelência dessa cooperação lusófona da área da Saúde, enquanto Médico e Professor.
Post Scriptum: A cerimónia de entrega deste Prémio decorrerá na sede da SEDES, em Lisboa, no dia 20 de Novembro, ao final da tarde, no termo do 4º Encontro do Observatório SEDES da CPLP/ XI Congresso MIL da Cidadania Lusófona, uma vez mais em parceria com a PASC: Plataforma de Associações da Sociedade Civil/ Casa da Cidadania.
Renato Epifânio
Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono
Coordenador do Observatório SEDES da CPLP
Presidente da PASC: Plataforma de Associações da Sociedade Civil/ Casa da Cidadania



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