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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
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"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"
Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica.

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo.


Agostinho da Silva

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Repensando o ateísmo


Há um vício tipicamente filosófico que consiste em procurar um sentido para tudo, mesmo quando não há sentido algum. É o que acontece, por exemplo, com alguns críticos de arte contemporânea. Perante o “vazio”, nalguns casos assumido pelos próprios criadores, conseguem sempre encontrar grandes sentidos ocultos, num delírio sobre-interpretativo sem fim. Se esse é um vício que importa combater, pior ainda é, porém, o vício anti-filosófico de não procurar compreender, condenando à partida... Vem a esta breve provocação/ reflexão preambular a propósito do pensamento do galego Andrés Torres Queiruga, que, precisamente, na sua obra procura compreender, não condenando à partida o que, enquanto teólogo, teria, dir-se-ia, todo o direito a condenar: o ateísmo. Atentemos, por exemplo, na sua obra “Creio Em Deus Pai” (Paulus Editora, 2014), desde logo nesta passagem: “O Ateísmo está unido, sem dúvida, a uma grande crise da cultura ocidental. Crise de que a religião não está ausente. Há até quem pretenda ver no abandono de Deus a causa quase única e total da crise do Ocidente. Visão claramente exagerada, porque para o surgimento do mundo moderno confluem, com toda a evidência, muitos e muito profundos factores. Isto não significa que se deva chegar à posição contrária: a de vulgarizar o facto religioso, como se Deus fosse um factor maior ou menos adjectivo que, simplesmente, se evaporou com o progresso da história ou o avanço da cultura. É óbvio que entre o todo e o nada está a evidência de que se trata de um factor muito sério a ser levado em conta, porque, para o bem e para o mal, o religioso influi de modo mais profundo na configuração da pessoa e da sociedade humana.” (p. 13).
Muito para além de pensar o ateísmo enquanto expressão da modernidade, Torres Queiruga pensa-o enquanto expressão maior do próprio cristianismo: “Não é casual que o ateísmo irreligioso seja um fenómeno tipicamente ocidental, no âmbito preciso do cristianismo. Foi este que o tornou possível. E o fez não por seus defeitos, mas por suas virtudes: exactamente por suas ideias de criação e encarnação. A criação, ao marcar a diferença radical entre Deus e o mundo, possibilitou uma progressiva e consequente dessacralização (…). A encarnação, por sua vez, nos ensinou que tudo tem valor positivo: a realidade mundana e o trabalho humano nela valem também em si mesmos e possuem densidade específica. Definitivamente, o cristianismo criou condições de possibilidade de uma concepção verdadeiramente mundana do mundo. O homem chega a descobrir-se tão autónomo e tão dono de si mesmo e de seu destino que até pode – confundindo os planos – acabar negando Deus” (pp. 19-20). De tal modo assim é que, em última instância, Torres Queiruga, reafirmando a sua condição cristã, consegue mesmo antecipar um “terreno estritamente comum em que podemos encontrar-nos com a busca mais profunda dos não-crentes” – atentemos, uma vez mais, nas suas palavras: “As reflexões anteriores não serviram unicamente para compreender melhor o ateísmo; também saiu ganhando a nossa compreensão do cristianismo (…). Se nós, cristãos, conseguirmos demonstrar, com nossa teoria e prática, que Deus é a máxima negação de toda a negação do homem, então se abrirá um terreno estritamente comum em que podemos encontrar-nos com a busca mais profunda dos não-crentes. Porque coincidimos no fundamental: a defesa do homem e de suas possibilidades (…). A modernidade é relativamente nova, e o grande mal-entendido histórico pelo qual, para muitos, Deus apareceu como inimigo do homem não vai ser eterno. Pessoalmente, não renuncio a esperar que (…) a sensibilidade moderna acabará fazendo a experiência – ou aproximando-se mais dela – de que Deus não nega o homem, mas o afirma” (pp. 38-39).
Numa carta remetida a Álvaro Ribeiro, datada de 5 de Maio de 1937, escreveu José Marinho o seguinte: “Cumpre não ignorar o sentido e o valor do ateísmo. A grandeza da civilização moderna está em permitir o desenvolvimento do ateísmo.”. Vinda de alguém como José Marinho, que reiteradamente afirmou “Deus” como “alfa e ómega de todo o ser, alfa e ómega de todo saber”, inclusivamente do saber filosófico, e que chegou mesmo, de resto, a afirmar o “problema de Deus” como o “problema central da filosofia portuguesa contemporânea”, esta afirmação parecerá, como deve ter parecido a Álvaro Ribeiro, assaz estranha. No entanto, esse ateísmo que José Marinho valoriza não é o ateísmo vulgar, o ateísmo a-filosófico ou “sem filosofia”. De modo algum. O próprio Marinho reconheceu, aliás, de forma expressa, que “sem filosofia o ateísmo facilmente degenera nas almas de pouco anseio e ideal”.
O ateísmo que José Marinho valoriza é, antes, um ateísmo filosófico, maximamente filosófico, a ponto de se confundir com o próprio “movimento da filosofia”. Nas palavras de Marinho, com efeito, “o movimento da filosofia é desabsolutizar o que não é autenticamente absoluto”, na “negação de Deus e de todo o divino enquanto é para nós”, e assim reconhecer “o autêntico”, e assim antecipar “o único verdadeiro”. É, aliás, por isso, que o “movimento da filosofia” se confunde com o que José Marinho qualifica de “ateísmo iniciático”: pois que nega, tudo nega – toda a delimitação objectual, toda a configuração ideativa, que sobre “Deus” possamos realizar ao intentarmos apreendê-lo – para mais profundamente poder afirmar: “Deus”, em si próprio, na sua absoluteidade. Eis, precisamente, o processo que Marinho descreveu em diversas passagens da sua obra.

Eis, em suma, porque valorizou José Marinho tanto o ateísmo, tendo chegado inclusivamente a considerar que “o autêntico ateísmo [precisamente este: o ‘ateísmo iniciático’] equivale à teologia mística dos últimos cumes” – daí ainda o ter-nos dito que “há ateus que não podem saber como estão perto de Deus, assim como há muitos teólogos que não podem saber quanto dele se vão distanciando”, ou que “o sério ateu é para o metafísico afirmativo o primeiro entre os seus irmãos”, daí ainda, enfim, a sua referência, fugaz mas nem por isso sem significado, à “religião do além”, à “filosofia da última cumeada”. A este respeito, atentemos ainda nestas suas palavras, particularmente sugestivas: “Situar o absoluto fora de tudo quanto existe, situá-lo, mais do que isso, fora de tudo quanto é. Pois o absoluto como insubstancial, e como substante no profundo seio e para além de tudo quanto dizemos ser, é o que nos escapa quando dizemos que é e mais profundamente confirmamos quando lhe recusamos ser.”.
Daí ainda, de resto, a valorização que José Marinho faz do ateísmo enquanto fenómeno histórico – a par do antropocentrismo e do niilismo, quais vértices de um mesmo triângulo –, o mais marcante da nossa proclamada “Modernidade”. Na medida em que – palavras suas – “a crença em Deus degenerou, arrastando consigo o próprio Deus”, o ateísmo contemporâneo acaba por ser – por poder ser – a via através da qual a humanidade purificará a sua relação com “Deus”, expurgando-a da perversa lógica antropomórfica, antropocêntrica. Eis, aliás, a “hipótese” que José Marinho equaciona, de forma expressa, em diversas passagens da sua obra – a título de exemplo, atentemos nestas: “Tudo se passa como se Deus preferisse ser negado a ser minorado em qualquer forma de antropomorfismo.”; “Deus, desde sempre, não confia na fé e no saber dos homens. Ser negado estava também nos seus desígnios.”; “Deus está mais interessado em revelar-se e ser aceite na sua Revelação do que em ser objecto de crença.” .
A ser assim, todo o trânsito da História não é senão o mesmo trânsito através do qual o homem vem a apreender “Deus” da forma mais depurada, mais próxima, “responsavelmente mais próxima”. Eis, igualmente, a “hipótese” que Marinho equacionou – ainda nas suas palavras: “...porque se tornou Deus o mais remoto para mim? A resposta é: para que eu me torne dele responsavelmente mais próximo.”. Daí, em suma, a razão da advertência de José Marinho ao seu “irmão” Álvaro Ribeiro – recordemos as suas palavras: “Cumpre não ignorar o sentido e o valor do ateísmo. A grandeza da civilização moderna está em permitir o desenvolvimento do ateísmo.”. Ainda que por ínvios caminhos, ou seja, ainda que através do ateísmo, do niilismo e do antropocentrismo, “toda a evolução do pensamento filosófico moderno – nas palavras do próprio Marinho – nos encaminha justamente para precisar de nova maneira a essencialidade do conhecimento filosófico, estabelecendo de nova maneira a relação entre filosofia e ciência, filosofia e vida, conhecer e ser”.  E eis aqui, neste repensar do ateísmo, o grande ponto de convergência que encontramos entre o teólogo galego Andrés Torres Queiruga e o filósofo português José Marinho.

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