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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
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Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"
Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica.

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo.


Agostinho da Silva

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Repensar o iberismo no século XXI


A questão do iberismo – ou seja, grosso modo, da união política dos povos ibéricos – tem sido pendular na nossa história, sendo que, como é sabido, o açoriano Joaquim Maria da Silva, nascido em Angra, em 1830, e falecido em Lisboa, em 1913, teve nela um papel proeminente, sobretudo com a publicação da obra Federação Ibérica ou Ideias Gerais Sobre o que Convém ao Futuro da Península. Por um Português (Porto, Livraria e Typ. de F. G. da Fonseca, 1854), que termina neste tom profético: «Felizes os que então viverem! Beneméritos da humanidade os que concorrerem com os seus esforços e vontades para o alcance e realização dessa idade de ouro, de paz, de fraternidade».

A obra tem, decerto, aspectos datados – desde logo porque foi escrita em reacção às teses fusionistas d’A Ibéria, de Sinibaldo de Mas –, mas merece ser recordada como um exemplo eloquente do ambiente em parte pró-iberista que se viveu em Portugal por essa altura e que se veio a estender e a amplificar nas décadas seguintes, tendo tido decerto no também açoriano Antero de Quental um dos seus maiores expoentes, como é, em particular, apreensível na obra Portugal Perante a Revolução de Espanha. Conside­rações sobre o Futuro da Política Portuguesa no Ponto de Vista da Democracia Ibérica (Lisboa, Tipografia Portuguesa, 1868).

Talvez tenha sido, de resto, a Geração de 70 a última geração mais resolutamente pró-iberista da nossa história político-cultural – atente-se, a este respeito no jornal A República, claramente pró-iberista, onde pontificaram, ainda que de forma breve (o jornal durou escassos meses, entre Maio e Julho de 1870), para além de Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queirós e Batalha Reis. O que, à partida, se compreende: tendo sido essa uma Geração profundamente desencantada com os destinos de Portugal, o federalismo ibérico surgiu-lhe como uma espécie de panaceia, ou, pelo menos, como a resposta possível para superar a questão da pequenez paralisante do país. Numa visão crítica, poderíamos dizer que foi uma resposta errada mas uma resposta errada a uma questão certa: Portugal, de facto, não tinha escala para sobreviver sozinho, sem estar integrado numa plataforma maior.

Houve, depois, nas décadas seguintes, alguns ressurgimentos pró-iberistas, mas sem grande expressão: depois da implantação da República em Portugal e durante a breve vigência da República em Espanha. Essa foi, de resto, uma marca maior do iberismo: essa marca republicana, nalguns casos assumidamente socialista (como aconteceu, de forma mais evidente, em Antero de Quental). Com os regimes encabeçados por Salazar e Franco, o projecto iberista foi-se tornando uma miragem cada vez mais longínqua. Havia ainda essa consciência de que Portugal não tinha escala para sobreviver sozinho, sem estar integrado numa plataforma maior. Mas a resposta a isso foi a aposta no Império, que soçobrou em Abril de 1974.

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Com a derrocada do Império, Portugal apostou, como se sabe, na integração europeia – tendo ingressado, a par de Espanha, na então CEE: Comunidade Económica Europeia em 1986. Com essa integração comum, que entretanto se foi aprofundando, o horizonte iberista foi deixando, cada vez mais, de fazer sentido. Tanto quanto nos recordamos, José Saramago foi o último intelectual português a manifestar essa paixão, sendo que, no seu caso, a motivação terá sido especialmente (e excessivamente) pessoal: casou com uma cidadã espanhola; foi viver para Espanha; com alguma ironia, diríamos que a União Ibérica seria a forma de Saramago resolver o seu drama pessoal.

Se, no final do século XX, o federalismo ibérico pareceu tornar-se um cenário completamente ultrapassado, ele pode agora ressurgir, já em pleno século XXI, com a cada vez mais evidente desagregação do Estado Espanhol. Durante muitos anos, a grande fissura foi o País Basco – mas a questão do terrorismo deslegitimou, nos planos nacional e internacional, a causa. A fissura catalã, que agora emerge de forma aparentemente irreversível, parece ser uma ameaça bem maior ao Estado Espanhol. Sendo que, se a Catalunha se tornar independente, o País Basco sê-lo-á também, agora que a questão do terrorismo foi eliminada de vez. E a série não terminará decerto aí – mesmo pondo de parte por agora o caso da Galiza, um caso especialmente singular, pela sua ligação histórica a Portugal e, por extensão, a todo o restante espaço lusófono.

Face a este cenário de eminente desagregação do Estado Espanhol, cabe perguntar, desde logo, se ele é desejável para Portugal, ainda que a pergunta seja em grande parte ociosa. Mesmo que concluíssemos que o ideal para Portugal seria que o Estado Espanhol se mantivesse uno, não temos o direito de sacrificar o povo catalão e os demais povos ibéricos que aspirem à auto-determinação aos nossos interesses nacionais. Isso não seria, de todo, ético, tal como, por exemplo, não era de todo ética a posição daqueles que consideravam que a União Soviética deveria ter-se mantido apenas porque isso seria benéfico para a Europa Ocidental – nos planos social e político. Mesmo que isso fosse verdade, que direito tínhamos nós de sacrificar os vários povos da antiga União Soviética aos nossos interesses domésticos? Nenhum, a nosso ver.
 
Regressando à Ibéria e retomando esse cenário de desagregação do Estado Espanhol, acrescentamos apenas que ele não seria, previsivelmente, um fim em si mesmo. Recuperando essa lógica pendular da história a que já aludimos, previsivelmente o que aconteceria, no limite-limiar desse cenário, seria uma re-ligação das várias partes ibéricas, necessariamente agora em bases diferentes, já sem a hegemonia político-cultural de Castela. A este respeito, não podemos deixar de convocar Agostinho da Silva, dado que, em vários textos seus, ele prefigurou, em grande parte, esse cenário. A uma escala, de resto, não já estritamente ibérica. Tendo prefigurando igualmente, num texto publicado no jornal brasileiro O Estado de São Paulo, com a data de 27 de Outubro de 1957, “uma Confederação dos povos de língua portuguesa”, ele não deixou de equacionar igualmente uma (re-)aproximação, à escala global, desse bloco geo-cultural e linguístico lusófono com o bloco geo-cultural e linguístico de matriz castelhana.

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