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Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de 40 milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por uma centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
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"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"
Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica.

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo.


Agostinho da Silva

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Que duro esforço o de fundar-se Roma. Notas à margem do II congresso da cidadania lusófona...

A ciência da cartografia tem as suas limitações. Representar em plano a terra física, onde nascemos, lembramos e morremos, é tarefa sempre inacabada. Não sinto a ciência cartográfica fora desse esforço na beleza e no ir mais além que caracteriza tudo o que está vivo e procura caminho, seja semente de árvore, rio ou homem. E mais: este esforço de fórmulas incertas de amar o próximo. Não sei se foi isso o que animou o geógrafo galego Domingos Fontão quando concebeu a ideia de fazer a carta geométrica da Galiza nos inícios do século XIX, utilizando o método da triangulação geodésica, sistema de medição com o que já se desenhara o mapa de França, e que só se utilizaria para o conjunto do estado espanhol cento e trinta anos depois. Desde a primeira medição astronómica e geométrica da torre Berenguela da catedral de Santiago de Compostela em 1817, Domingos percorreu o pais durante dezassete anos, realizando quase todo o seu trabalho no seu tempo de folga, enquanto era diretor do observatório astronómico de Madrid, e mesmo depois teve grandes dificuldades para o poder imprimir com a escala certa, cousa que só conseguiu em Paris em 1845. A beleza do mapa de Fontão deixou uma longa esteira na literatura galega. Exemplo é a imagem de Adrião Solóvio, o protagonista do romance Arredor de si, passando a vela à frente do mapa de Fontão para alumiar os nomes da terra que ia lendo o seu tio D. Bernaldo, que, moribundo, quis assim ver por última vez a Galiza à que tinha dedicado a sua vida e o seu saber. Quando Outeiro Pedralho levou consigo o mapa aos exilados galegos no Buenos Aires dos anos 40 do século XX, quase cem anos depois, disse que sentia que levava com ele a Galiza toda. 
 E é que a beleza é esforço que pede a harmonia dos saberes e não deixa de fora nem o catedrático de Matemática Sublime que chegou a ser Fontão nem o velho narrador das glórias humanas, aquele que algum dia cantou as armas e os homens que fundaram Roma e outro a calada epopeia de amor das solitárias mulheres galegas. Na Sociedade de Geografia de Lisboa onde se realizou o congresso que motiva estas notas marginais também há um mapa que representa as viagens dos descobrimentos portugueses. A sala está rodeada das estátuas dos heróis que nem se sabe se voltaram do mar. E ali nos juntamos, novamente, gentes da chamada lusofonia, com as nossas heranças, as nossas narrativas e as nossas carências de homens entre a vida e a história, procurando manter no discurso aquilo que vibra em nós e de cuja continuidade nos sentimos responsáveis, porque o coração manda e nós obedecemos e o demais é ir fazendo com o que temos ou sabemos. 
 E ali fui eu, também, como a outros encontros à volta da lusofonia em que a Galiza é convocada, cheia das esperanças e perdas duma galega em trânsito, com a convicção de que quem anda em movimento tem de escolher muito bem o que carrega no seu fardel e com a pungente necessidade de comunicação que é sinal dos viajantes. No meu fardel, a impressão da terra física que me deu o clarão primeiro, o horizonte do mar em que nasci, a ligação à minha família, que me deu o norte do amor e o sentido da casa, o meu ofício de interpretar, relacionar e transmitir que aprendi nas aulas de filologia, e a esperança de liberdade para todos os poetas que procuram esse frágil fio da história que a todo nos ligue, intuição de cousas bem dispostas por uma ordem que nos foge mas cujo sentido, de vez em quando, conseguimos agarrar. 
O mote do congresso era “Que prioridades na cooperação lusófona?”. Poderia chamar-se também como encontrar fórmulas novas para problemas velhos. Ouvi lógicas, narrativas e símbolos de estruturas estatais, de estruturas institucionais, de estruturas académicas, de estruturas associativas, e, enfim, só vi homens que procuram viver com dignidade, neste mundo nosso em que nunca encaixam as fronteiras dos territórios e as nossas múltiplas pertenças. A medida para cartografar tão extenso mundo oxalá fosse cada vida humana concreta, tão carregada de ouro como as daquelas idades que só os mitos lembram. E oxalá também estivessem os saberes ligados ao centro único do coração que se emociona e se expande, tão naturalmente como as ondas do mar ou as folhas das árvores na primavera. 
Todo o discurso sobre a alteridade é, em essência, definir onde está o centro: se o centro é um nós, chamemo-lo poder, se o centro é o outro, chamemo-lo amor. Mas homem não ama sem esforço, ainda que seja o amor a sua natureza primeira. E nesse esforço está descobrir o método para chegar mais além que espero seja nesta alegoria da cidadania lusófona metáfora viageira para o simples amarás o próximo como a ti próprio. Depois de todos os discursos que ouço à volta do termo lusofonia pergunto-me o que é que permite a comunicação e não vejo que seja a língua nem a história. É antes de mais, como bem sabemos os que ensinamos línguas estrangeiras, a pura necessidade de comunicar e o conhecimento de sermos parte de um todo. E o demais são pontes para salvar obstáculos. 
É condição física do viajante a consciência do peso e a sua escala mítica a procura do paraíso. É condição física do cidadão a necessidade do muro e a sua dimensão mítica a defesa. Toda construção linguística nasce dessa semente primeira. Como se constrói cidade e muros, leis e ágora, com quem se define pela viagem, não tenho a certeza. Dou em pensar que algo tem a ver com isso que se passou na história entre o peregrino que andava per agros e a construção da cidade de Compostela ou essa transformação que vai das árvores às canoas, que é a voz com que se designa as naus pelas bandas de São Tomé e Príncipe, segundo me conta o meu irmão das ilhas Mário Lopes. O conhecimento que vou tendo faz-me desconfiar de mundos perfeitos, mas se posso dar uma ajudinha aos que vou encontrando na minha vida, dou. Com tanto peso de saber que não serve os meus afetos nem a minha sede de irmandade, tomo a medida da vida humana concreta e sobre ela espero que se assente o muro da cidade que defendo. Espero um espaço não territorial que compreenda e ame os muitos territórios que em nós e com nós transitam. Necessária é a emoção, o afeto e o conhecimento positivo, a medida da nova triangulação geodésica que transforme em cartografia um território que se diz afetivo. Políticas de saúde e políticas de ensino que deem verticalidade à vida dos homens que a perderam neste mundo abrangido pela lusofonia. E espero, como Eneias perdido no mar, que as fadas venham ao encontro dos meus caminhos. 

Maria Dovigo
Coordenadora do MIL_Galiza

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