*É um Lusófono com L grande? Então adira ao MIL: vamos criar a Comunidade Lusófona!*

MIL: Movimento Internacional Lusófono | Nova Águia


Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de uma centena de milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por mais de meia centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia. Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.
SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
NIB: 0036 0283 99100034521 85; NIF: 509 580 432
Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).

Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Desde 2008"a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

Colecção Nova Águia: https://www.zefiro.pt/category/zefiro-nova-aguia

Outras obras promovidas pelo MIL: https://millivros.webnode.com/

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
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segunda-feira, 5 de julho de 2021

Se ainda fosse vivo...


… António de Macedo completaria hoje, 5 de Julho de 2021, 90 anos de idade. Porém, infelizmente, não é, tendo nos deixado 
a 5 de Outubro de 2017… mas apenas fisicamente. Porque mentalmente, espiritualmente, nas memórias dos que tiveram o privilégio de o conhecer pessoalmente e de com ele conviver, continua bem presente. Curiosa e algo melancolicamente, em 2016, que eu considerei ter sido como que «O ano de António», também pela sua inesquecível – para todos os que, como eu, a testemunharam – participação no MoteLx, havia ainda talvez como que uma ténue esperança de que mais maravilhas, e durante mais tempo, iríamos receber dele; de que, depois dos seus 85º e 86º aniversários, bastantes outros teríamos a possibilidade de festejar. Pelo que, agora, pode-se matar as saudades lendo os seus livros, dos quais há que destacar «Lovesenda, ou o Enigma das Oito Portas de Cristal», o seu grande e último romance, também a sua derradeira obra a ser publicada ainda com ele partilhando connosco este nível de existência. Também é possível recordá-lo voltando a vê-lo e ouvi-lo em apresentações, conversas, debates, entrevistas, intervenções diversas, das quais existem felizmente vários registos. E, enfim, e sem dúvida o mais importante, há que evocá-lo – e invocá-lo – (re)vendo os seus filmes, que merecem sem dúvida uma maior e melhor divulgação do que ocasionais, raras, exibições na Cinemateca Portuguesa e na Rádio e Televisão de Portugal. Seria óptimo, pois, que aquando da celebração do centésimo aniversário do seu nascimento – ou até, de preferência, mais cedo – estivesse já disponível em disco (DVD e/ou Blu-Ray) a sua filmografia, se possível em versões restauradas e com materiais adicionais.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Sobre música e o MPMP, na Glosas

Desde o dia 23 de Maio, no sítio na Internet da revista Glosas, está (juntamente com outros nove... o meu é o oitavo) o meu artigo-depoimento «Eu “voto” no MPMP!»; trata-se de um texto que Edward d’Abreu, Presidente da Direcção do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa e Director daquela revista, me pediu (tal como a várias outras individualidades) que escrevesse e enviasse para ser publicado como forma de assinalar os dez anos da fundação do MPMP; é o meu segundo contributo para a Glosas, depois de «Estrela cadente – Recordando e recriando a Ópera do Tejo», publicado em 2013 no Nº 8 da revista. Um excerto: «É necessário muito mais do que boas intenções por parte de amadores como eu: exige-se um trabalho colectivo e criativo constante de recuperação, execução e difusão realizado preferencialmente por equipas de profissionais com capacidades, competências, conhecimentos, e que em simultâneo sintam a paixão indispensável que os motive em permanência para a (re)descoberta de uma componente fundamental da cultura nacional. Num contexto em que o Estado continua a desiludir e o sector empresarial se revela, infelizmente, frequentemente indiferente, é óptimo que organizações emanadas da sociedade civil façam o trabalho indispensável, nesta área como em outras.» (Adenda - O Nº 20 da revista Glosas, edição especial comemorativa do décimo aniversário do MPMP, foi publicado em papel no mês de  Setembro, e o meu texto está nas páginas 70, 80 e 81.)

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

31 de Outubro, em Alverca: «Noite das Bruxas»

O conceito e a prática do «Halloween» está, tal como outras características marcantes da cultura anglo-americana, e em especial dos EUA, cada vez mais presente no panorama social dos países europeus… e também em Portugal. Para o comprovar basta ver os espaços especiais criados nesta época por algumas grandes superfícies comerciais com roupas e outros acessórios alusivos à noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro, em que a abóbora com «rosto» e devidamente iluminada por dentro – a chamada «Jack O’ Lantern» - é habitualmente a imagem mais dominante. Porém, não seria preciso proceder à «importação» de histórias do outro lado do Atlântico para pregar alguns sustos – grandes, médios e pequenos – aos portugueses na véspera do Dia de Todos os Santos…
… Porque no nosso país existe uma longa tradição de narrativas fantásticas adequadas a serem recordadas e relatadas não só nesta data mas também durante todo o ano. E, de hoje a uma semana, isso vai acontecer em Alverca do Ribatejo, mais concretamente no Núcleo Museológico local (extensão, naquela freguesia, do Museu Municipal de Vila Franca de Xira), com uma iniciativa denominada «Noite das Bruxas, Lendas e Mistérios». Anabela Ferreira, coordenadora daquele Núcleo, enunciou e explicou o objectivo do evento: «Esta acção, destinada ao público em geral, nomeadamente às famílias, visa divulgar aspectos da tradição oral de Alverca do Ribatejo, em larga escala desconhecida das gerações mais novas e daquelas pessoas que, embora residentes na freguesia, não conhecem o seu património imaterial. Para além das lendas conhecidas, como a da moura encantada da mina do castelo e a da moura/santa que fez brotar a água da fonte do Choupal, nesta acção é possível falar de outros mitos, cuja recolha oral temos vindo a realizar ao longo de vários anos e cuja investigação nos tem permitido conhecer melhor a importância da tradição oral e da recolha da mesma, de um modo lúdico e cativante para as várias gerações que pretendemos receber.»
O início da «Noite das Bruxas, Lendas e Mistérios» está marcado para as 21 horas. A entrada é livre, embora sujeita a marcação prévia – mínimo de 10 e máximo de 30 participantes.

domingo, 12 de maio de 2013

Sobre a Ópera do Tejo, na Glosas

Na edição de Maio de 2013 (Nº 8) da revista Glosas, apresentada ontem em Lisboa no Conservatório Nacional durante uma cerimónia que incluiu um concerto, está, nas páginas 64 a 67, o meu artigo «Estrela cadente – Recordando e recriando a Ópera do Tejo».
Um excerto: «Recordar e recriar a Ópera do Tejo não passa apenas pela sua reconstrução virtual, digital; também pode e deve fazer-se pela evocação musical, por tocar, gravar e divulgar as obras dos artistas contemporâneos daquela. Carlos Seixas e João Rodrigues Esteves morreram antes de ela ser construída, mas David Perez (de certeza), Pedro António Avondano, Francisco António de Almeida e António Teixeira (quase de certeza) conheceram-na e frequentaram-na. Já não tiveram esse privilégio, e entre outros, João de Sousa Carvalho, António Leal Moreira, Marcos Portugal e João Domingos Bomtempo – e isto só para referir os que nasceram no século XVIII. No entanto, todos merecem ser resgatados ao esquecimento em que (uns mais, outros menos) caíram e em que continuam; já é mais do que tempo que mais portugueses – e estrangeiros – saibam que houve compositores portugueses que atingiram a excelência – e, em alguns casos, a fama (raramente o proveito) – nas suas épocas. Em Portugal existe um passado musical magnífico que deve ser divulgado, aquém e além-fronteiras, e de que nos devemos orgulhar. E é uma valiosa herança que pode servir de caução a um presente musical que se pretende cada vez mais desenvolvido e relevante.»
A Glosas é uma das várias iniciativas desenvolvidas pelo Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa. Uma e outro têm direcção de Edward d’Abreu, a quem devo, e agradeço, o convite para escrever sobre um projecto que eu iniciei e que outras pessoas fizeram, e têm feito, por concretizar. 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Sobre o AN e a BN, n’O Sul

Na edição de Abril (Nº 21) de 2012 do jornal O Sul (só a partir de hoje disponível digitalmente), e na página 6, está o meu artigo «De “A” a “B”: ABN/TT». Um excerto: «Pelo que se justificaria inteiramente proceder-se à integração, à fusão, do Arquivo Nacional/Torre do Tombo com a Biblioteca Nacional, criando-se assim… o Arquivo e Biblioteca Nacional/Torre do Tombo. Seria uma união institucional com evidentes vantagens em termos de eficiência e de eficácia, de eventual aumento de capacidades e de racionalização de custos. Mas não só: dadas as actuais localizações de ambas, em Lisboa, a pouca distância uma da outra, poder-se-ia pensar seriamente em também uni-las fisicamente.» Na mesma edição está também o artigo «O fim da farsa da “solidariedade europeia”», de Renato Epifânio.  

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Tomás Alcaide (1901-1967), breves considerações biográficas sobre este magistral tenor lusófono








Estátua de Tomás Alcaide
(Estremoz, autoria Domingos Soares Branco)



Tomás de Aquino Carmelo Alcaide foi um extraordinário cantor lírico português de renome internacional, nascido em Estremoz a 16 de Fevereiro de 1901 e falecido em Lisboa a 9 de Novembro de 1967. Nesta fotografia observa-se a sua estátua da autoria do escultor Domingos Soares Branco , inaugurada por Mário Alberto Nobre Lopes Soares como Presidente da República em 1987. Nesta obra escultórica aparece-nos representado com um traje Renascentista pela mão deste mestre da escultura portuguesa, num cânone de figuração clássica.

Nos seus primeiros passos de madura aprendizagem frequentou o curso de Medicina da Universidade de Coimbra , mas tendo descoberto a sua expressiva voz nas serenatas académicas decide, por influência do seu círculo de convívio, desistir destes estudos para seguir uma carreira musical. Entretanto, recebeu lições de importantes professores de canto e cedo começou a granjear um imenso prestígio ao interpretar o “Rigoletto” de Giuseppe Verdi, no Teatro Nacional de S. Carlos, em Lisboa, no início dos anos 20.

Em 1925 deslocou-se para Itália onde inicia uma fulgurante carreira lírica que lhe irá proporcionar actuar no Teatro Scala de Milão e brilhar sob as luzes da ribalta de outros palcos famosos do Teatro de Ópera. Foi, assim, que de 1925 a 1948 actuou nos principais palcos líricos internacionais da Europa e da América (Roma, Nápoles, Veneza, Paris, Viena, Zurique, Helsínquia, Boston, Chicago, Nova Iorque, Buenos Aires, Rio de Janeiro, etc). No transcorrer da 2ª guerra mundial foi impelido a actuar no Brasil e na Argentina.

Em Portugal irá cantar em programas da emissora nacional e ter uma aparição marcante no filme “Bocage” em 1936 numa realização do cineasta José Leitão de Barros. Em 1943 foi operado a uma hérnia do hiato que lhe diminuiu, substancialmente, a sua capacidade acústica. Esta razão explica, em parte, a sua ligeira inflexão profissional, pois nos anos de 1948 a 1961 irá dirigir a Escola de Canto do Teatro da Trindade e ainda exercer os cargos de mestre de canto e encenador da Companhia Portuguesa de Ópera. No fim da sua vida escreveu as suas memórias autobiográficas .

A cidade de Estremoz soube homenagear, condignamente este seu filho pródigo, ao colocar uma placa evocativa no Teatro Bernardim Ribeiro, ao atribuir o seu nome ao Orfeão, a uma Avenida, ao erigir a referida estátua em sua memória no centro da cidade e ao atribuir-lhe postumamente o título de cidadão honorário e a medalha de ouro do município. Em 2001, a culminar este longo tributo de homenagem, esta cidade Alentejana celebrou o 1º Centenário do seu Nascimento (1901-2001).

Nuno Sotto Mayor Ferrão
Publicado originalmente e com notas acrescidas em:http://www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt/

domingo, 18 de abril de 2010

Cultura e liberdade, breves considerações sobre a cultura portuguesa na actualidade face aos novos desafios e constrangimentos da cidadania global

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O regime do Estado Novo, tal como os regimes autoritários seus contemporâneos, limitou os direitos e as liberdades individuais amesquinhando as virtualidades criativas dos fenómenos culturais. Houve, assim, um empobrecimento das actividades culturais que eram alvo da censura prévia: na imprensa, no teatro, no cinema, na rádio e na televisão. Neste contexto repressivo, o Secretariado de Propaganda Nacional/ Secretariado Nacional de Informação, inicialmente dirigido por António Ferro até 1949, procurou criar padrões culturais adaptados à ideologia Salazarista na designada “Política do Espírito”. Como exemplo da tentativa de refrear os ímpetos de insinuações simbólicas na Literatura podemos evocar o livro do escritor Aquilino Ribeiro “Príncipes de Portugal suas grandezas e misérias”1 publicado em 1952 e impedido pela Direcção dos Serviços de Censura de ser reeditado no ano seguinte.

Com a Revolução do 25 de Abril de 1974, que comemoramos este ano o trigésimo sexto aniversário, instaurou-se um regime de liberdade política e cultural que permitiu que as criações culturais se espraiassem pelo país. Apareceram as obras de marcada índole interventiva ( nas canções, na poesia e na “arte mural” ) que ajudaram à desestruturação das mentalidades da sociedade portuguesa. A cultura portuguesa foi, pois, bafejada por uma lufada de ar fresco que lhe permitiu renovar-se.

A revista “Nova Águia”2 , surgida em 2008, sendo inspirada na revista “A Águia” pretende recriar o vigor cultural e espiritual dos criativos agentes intelectuais do início do século XX. No “Manifesto” da “Nova Águia” evidencia-se a crise cultural em que o país vive, pretendendo-se com o concurso de várias sinergias sociais e institucionais incutir um novo vigor cultural a Portugal.

A “Nova Águia” colhe, pois, a inspiração da ínclita geração dos intelectuais portugueses do início do século XX que verteram a sua criatividade, inteligência e sensibilidade na revista “A Águia”, mas deseja responder aos prementes desafios de padronização cultural implicados pelo processo da Globalização. Deste modo, esta revista, semi-revivalista, acredita nas potencialidades do legado do património cultural português que nos define como uma identidade nacional, cujo valor é relevante para enfrentar estes imensos desafios. Daí o paradigma cultural da “Nova Águia” assentar na concepção de um universalismo lusófono, defendido por Jaime Cortesão, que permita a Portugal ajudar a edificar uma alterglobalização3. Assim, tal como a “Águia”, se constituiu como órgão de informação da “Renascença Portuguesa”, a “Nova Águia” é o veículo informativo/formativo de comunicação do Movimento Internacional Lusófono que pretende pela acção cívica e cultural dentro do espaço geográfico da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa consolidar um sentimento de pertença e de entreajuda entre os povos irmãos em afinidades afectivas e experiências históricas.

O tema do número cinco da revista “Nova Águia” resulta do entrelaçamento entre a comemoração do nascimento da revista “A Águia” em 1 de Dezembro de 1910, dado que esta foi um projecto que teve frutos espirituais muito importantes4, e da ponderação dos diversos colaboradores relativamente ao diagnóstico da situação cultural portuguesa dos nossos dias. Se nos diversos textos de qualidade e rigor, que nos são apresentados, aparecem diversas perspectivas, todas nos traduzem um labor de pesquisa, de reflexão e de inspiração em torno da articulação destas duas problemáticas. Em particular, destaco, pelo vigor conceptual, os textos dos Professores Adriano Moreira, Paulo Borges e Pinharanda Gomes.

Como vos disse a cultura portuguesa no quadro da Globalização em curso está cada vez mais estereotipada e manietada pelos constrangimentos desta conjuntura internacional. Na verdade, a cultura surge como um bem crescentemente subalternizado, em detrimento de uma Civilização intelectual e eticamente responsável, pois a educação crescentemente tem sido submersa pela exacerbada valorização dos paradigmas tecnicistas tão ao gosto dos políticos tecnocráticos de serviço. A constatação desta realidade socioeducativa do nosso mundo, que vive numa sociedade da informação, desperta-nos para o paradoxo subsistente no facto de uma grande parte da população, apesar de alfabetizada, permanecer num estado de iliteracia que dificulta a intervenção cívica. Não espanta que os tecnocratas “esfreguem as mãos” de contentamento ao manietarem as capacidades de intervenção cívica das populações com este tipo de paradigma educativo e com a crescente complexidade da teia legislativa. Edmund Burke5, teorizador do conservadorismo no século XVIII, ficaria radiante com esta estratégia dos modernos tecnocratas que tem conduzido à prevalência das “democracias musculadas” de que os politólogos nos têm revelado.

A cultura segundo a acepção dos sociólogos6 tem uma dimensão mais lata por abranger valores, princípios, normas e costumes e, por isso, quanto mais claustrofóbica for uma cultura menos possibilidades criativas lhe são oferecidas. Reside, portanto, aqui o verdadeiro dilema das sociedades contemporâneas que se querem excessivamente competitivas e organizadas, que ao reduzirem os tempos de lazer, levam ao fechamento cultural, ao empobrecimento qualitativo da vida dos cidadãos e à pouca estimulação das capacidades criativas em benefício da domesticação tecnocrática das democracias e dos cidadãos.

Notas:
1- Aquilino Ribeiro, Príncipes de Portugal suas grandezas e misérias, Lisboa, Portugália Editora, 2008.
2- Cf. Manifesto da revista disponível em:
www.novaaguia.blogspot.com
3- Vide para uma percepção actualista o livro, ainda no prelo, de Renato Epifânio, A via lusófona – um novo horizonte para Portugal, Sintra, Edições Zéfiro, 2010 afigura-se-nos fundamental ou, para uma sistémica percepção cultural, o livro de Paulo Borges, Uma visão armilar do mundo, Lisboa, Edição Verbo, 2010.
4- Nuno Sotto Mayor Ferrão, “Leonardo Coimbra, a revista “A Águia” e o panorama cultural contemporâneo”, in Nova Águia, nº 5, Sintra, Editora Zéfiro, 2010, pp. 34-36
5- António de Sousa Lara, “Edmund Burke (1729-1797), in Da História das ideias políticas à teoria das ideologias, Rio de Mouro, Editor Pedro Ferreira, 1995, pp. 192-196.
6- Antonhy Giddens, Sociologia, Lisboa, Edição Fundação Calouste Gulbenkian, 2009, pp. 4

Nuno Sotto Mayor Ferrão
Publicado originalmente em: http://www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt/

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Fernando António Nogueira Pessoa

«…mais vale ser criança que querer compreender o mundo

Faz hoje precisamente 74 anos, que Fernando Pessoa o autor insigne do Orfeu e espírito critico admirável, faleceu deixando uma extensa obra, praticamente toda inédita, que viria a fazer dele um dos maiores símbolos da cultura lusa.

Nasceu em Lisboa a 13 de junho de 1888, cidade aonde viria a falecer a 30 de Novembro de 1935. Morreu de cirrose hepática aos 47 anos e os seus restos mortais repousam perto dos poetas Luiz Vaz de Camões e Alexandre Herculano sob um monólito de mármore no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, o mais emblemático monumento português.

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro

domingo, 29 de novembro de 2009

Seara Nova

Lisboa, 15 de Outubro de 1921

«revista de doutrina e crítica»

Saiu o 1º número da Seara Nova, revista literária. Entre os seus fundadores contam-se Raul Proença, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão, Câmara Reis e Augusto Casimiro.
O grupo da Seara propõe-se exercer um magistério pedagógico que reforme o pensar e se reflicta na acção política. Considera, como prioridade, formar uma elite intelectual militante, empenhada na transformação social. O seu ideário, racionalista, diverge do do Integralismo Lusitano: é a razão que deve guiar o homem e não os valores da tradição e da raça.
António Sérgio de Sousa, intelectual de relevo, foi convidado a integrar o grupo.

Cinco mandamentos da Seara Nova

- Renovar a mentalidade da elite portuguesa, tornando-a capaz de um verdadeiro movimento de salvação.
- Criar uma opinião pública nacional que exija e apoie as reformas necessárias.
- Defender os interesses supremos da Nação, opondo-se ao espírito de rapina das oligarquias dominantes e ao egoísmo dos grupos, classes e partidos.
- Protestar contra todos os movimentos revolucionários, defender e definir a grande causa da verdadeira revolução.
- Contribuir para formar, acima das pátrias, uma consciência internacional bastante forte, para não permitir novas lutas fratricidas.


In Diário da História de Portugal, de José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra, p.514.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O Integralismo Lusitano

Lisboa, 7 de Abril de 1915

Os intelectuais ligados ao movimento Integralismo Lusitano promoveram uma série de conferências na Liga Naval Portuguesa sobre o tema A Questão Ibérica. O mentor do grupo, António Sardinha, defendeu a identidade portuguesa no conjunto peninsular. Esta posição é uma das traves-mestras do ideário integralista, monárquico, católico, inspirado em Charles Maurras, Bermanos e outros escritores da Action Française.
O integralismo visa integrar valores do passado colectivo nacional na nova ordem. Procura ligar o ancestral e o moderno. Na revista do movimento, Nação Portuguesa, fundada por António Sardinha, Alberto Monsaraz e Hipólito Raposo, têm colaborado José Adriano Pequito Rebelo, Francisco Vieira de Almeida, Luís Cabral Moncada, entre outras. À filosofia positivista, subjacente ao republicanismo, contrapõem os integralistas uma reflexão prospectiva do passado para construir o futuro.
Ao «verbo maldito» de Junqueiro que esperava o renascer da Pátria com o advento da República, opõem a revalorização de arquétipos históricos e a construção de uma monarquia, vivificada pelo espírito dos novos tempos.
O integralismo é uma reacção contra a anarquia e desperta a adesão de largas camadas da juventude.


In Diário da História de Portugal, de José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra, p. 504.

«O escândalo» do Orpheu

Lisboa, 25 de Março de 1915

Está à venda o primeiro número da revista Orpheu (Janeiro-Fevereiro-Março) fundada por Luís de Montalvor, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Armando Cortes-Rodrigues, Alfredo Guisado, o brasileiro Ronald de Carvalho.
São jovens intelectuais cujas idades oscilam entre os 27 anos (Fernando Pessoa) e os 19 (António Ferro, o editor).
A revista, que nasceu nas tertúlias destes homens de letras, nos cafés Martinho e Irmãos Unidos, insere-se nas novas correntes estéticas futuristas e apresenta-se com um espírito provocatório e agressivo a que não é estranha a consciência da guerra que assola a Europa.
Santa-Rita Pintor e Mário de Sá-Carneiro têm transmitido de Paris as novidades dos meios de vanguarda literária e artística e são essas novidades, formalizadas agora em Orpheu, que escandalizam a sensibilidade e os critérios da pequena burguesia nacional e dos seus literatos tradicionalistas.

Desde a arrojada capa de J. Pacheko, aos novos signos gráficos (letras, grandes números), à distorção de ritmos, aos vocábulos insólitos, à intenção anti-saudosista, à exaltação febril das realidades que derivam da indústria e da máquina, tudo é «escandaloso».


In Diário da História de Portugal, de José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra, p. 504.