*É um Lusófono com L grande? Então adira ao MIL: vamos criar a Comunidade Lusófona!*

MIL: Movimento Internacional Lusófono | Nova Águia


Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de uma centena de milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por mais de meia centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia. Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.
SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
NIB: 0036 0283 99100034521 85; NIF: 509 580 432
Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).

Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Desde 2008"a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

Colecção Nova Águia: https://www.zefiro.pt/category/zefiro-nova-aguia

Outras obras promovidas pelo MIL: https://millivros.webnode.com/

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Real. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Real. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Traços fundamentais da cultura portuguesa


Ainda na esteira da sua premiada obra “Portugal. Ser e Representação” (1995), Miguel Real tem, na última década, para além de outros estudos mais específicos (sobre diversos temas e autores) e de vários romances, desenvolvido uma série de visões panorâmicas sobre Portugal, sobretudo numa dimensão histórico-cultural, dignas do maior realce. Falamos, nomeadamente, de “A morte de Portugal” (2007), “O pensamento português contemporâneo 1890-2010” (2011), “Introdução à cultura portuguesa” (2011), “A vocação histórica de Portugal” (2012), “Portugal, um país parado a meio do caminho” (2015) e, mais recentemente, “Traços fundamentais da cultura portuguesa” (2017).

Sem que isso denote uma qualquer obsessão, em todas estas obras Miguel Real tem desenvolvido uma visão cada vez mais sólida sobre a nossa situação histórico-cultural. Não temos a menor dúvida, tanto quanto é possível não ter dúvidas neste plano, que, no futuro, quem quiser compreender como era a nossa situação histórico-cultural, terá, nesta série de obras de Miguel Real, um olhar de referência, que não pode, de todo, ser ignorado, por mais que, naturalmente, possamos discordar de algumas das suas teses, algumas das quais assumidamente polémicas.

A capa do livro é, desde logo, particularmente sugestiva e informativa – para além, naturalmente, do título e do nome do autor, ela traz uma série de palavras-chave que dão bem conta do teor da obra – por ordem (sendo que aqui a ordem nos parece aleatória): Saudade, Viriato, Decadência, Padre António Vieira, Lusofonia, Europa, Marranismo, Fernando Pessoa, História Mítica, Canibalismo Cultural, Estrangeirados. Sendo que a série se estende ainda à contra-capa: Quinto Império, Agostinho da Silva, Jesuítas, Declínio, Antero de Quental, Esfera Armilar, António Quadros, Eduardo Lourenço, Estado Novo, Alexandre Herculano, António José Saraiva, Sebastianismo, Marquês de Pombal, Manuel Laranjeira, Sá de Miranda. Seria, com efeito, difícil escolher uma melhor série de palavras-chave.

Não sabemos se foi por acaso, mas não podemos deixar de realçar que o termo que aparece mais próximo do nome do autor é o de “Lusofonia”, a respeito da qual começa Miguel Real por escrever o seguinte, no item “Lusofonia – história aberta do futuro da língua portuguesa”: “No século XXI nasceu uma nova teoria da cultura portuguesa derivada da queda do Império e da proposta do estabelecimento de um possível vínculo histórico com as ex-colónias, operando uma continuidade cultural sob e sobre a descontinuidade política. Trata-se da teoria da Lusofonia, cada vez mais defendida por diversos organizações institucionais da sociedade portuguesa e já provida de uma longa bibliografia de natureza positiva depois de, nos idos de 80, ter sido acusada de neo-colonialista” (p. 189). Só este parágrafo dá bem conta da actualidade do olhar de Miguel Real: muito longe de ser uma excrescência do passado, como alguns insistem, a Lusofonia é, realmente, a (maior) palavra-chave do nosso futuro.

domingo, 29 de abril de 2012

"A Vocação Histórica de Portugal", de Miguel Real

Na esteira de mais de uma dúzia de obras publicadas nesta última década sobre Portugal e a sua tradição cultural e filosófica, ora em geral ora sobre alguns autores em particular , série iniciada, auspiciosamente, com o premiado ensaio Portugal. Ser e Representação, de 1995, ofereceu-nos, Miguel Real, mais uma obra com o sugestivo título de A Vocação Histórica de Portugal. Desde logo pelo título mas, sobretudo, pelo conteúdo, esta obra retoma uma outra que, também aqui, nas páginas da NOVA ÁGUIA, no seu primeiro número, destacámos . Referimo-nos à obra A Morte de Portugal, de 2007. Nesta, diagnosticava o autor “os quatro complexos culturais por que Portugal se foi concebendo a si próprio ao longo de 800 anos de História”. O primeiro designa-o como o “complexo viriatino” – por ele se denota a alegada “origem exemplar de Portugal” . O segundo é o “complexo vieirino” – por ele se denota o alegado estatuto de Portugal como “nação superior” . Contrapolar a este é o terceiro complexo, que designa como o “complexo pombalino” – por ele, ao invés, se denota o alegado estatuto de Portugal como “nação inferior” . Resultante da contrapolaridade destes dois últimos, mas ainda em referência ao primeiro, indica o autor um quarto, que designa como o “complexo canibalista” . Por este, “não temos feito história da cultura com o pensamento, mas com o sangue, sustentando-nos antropofagicamente do corpo do adversário”. Daí, enfim, o impiedoso retrato que Miguel Real fez, nessa obra, do Portugal de hoje: “O Portugal desenhado pelos quatro complexos acima enunciados encontra-se moribundo, submerso pela avalanche de costumes liberais e americanos (…).”; “Mistura de complexo pombalino com um arreigado individualismo americano, o projecto político português caracteriza-se hoje, nos comecinhos do século XXI, pela exaltação unidimensional do homem técnico, o homem-eficiente, o homem-contabilista, o homem-robótico, desprovido de consciência histórica global (…).”; “É um novo Portugal que está nascendo, sem sublimidade, sem espiritualidade, sem projecto superior às suas forças e à sua dimensão (…), o Portugal dos pequeninos (…). ”. Em suma, somos hoje, como conclui, uma “canina imitação do pior da Europa”. 
 
Nesta obra, A Vocação Histórica de Portugal, esse diagnóstico não se alterou propriamente. Mas, se na obra A Morte de Portugal esse era ou pelo menos parecia ser um diagnóstico sem esperança, aqui, ao invés, há um Horizonte que se abre, um “novo espaço histórico a criar” – como escreve Miguel Real, logo na apresentação da obra: “Assim, contra a tese de Jorge Borges de Macedo (…), considera-se não existir um destino histórico para Portugal, antes uma vocação histórica segundo a vontade das suas elites e a tendência conjuntural europeia e internacional. A vocação histórica de Portugal, hoje, à entrada do século XXI, é, incontestavelmente, a de cruzar a nova experiência europeia com a antiga provação imperial, gerando um novo e exemplar espaço político internacional de igualdade e prosperidade – a Lusofonia. Este novo espaço é, hoje, para o futuro de Portugal, mais importante do que o espaço europeu”. Eis, em suma, a tese que Miguel Real desenvolve ao longo de três capítulos. No primeiro deles, intitulado “O Espírito da Europa”, faz, Miguel Real, um tão grande quanto justo elogio ao espírito europeu, o que em nada colide com a posição de princípio pró-lusófona. É, de resto, um elogio pertinente, tanto mais porque é contra-corrente, podendo até ser, pelo menos em parte, ser visto como “politicamente incorrecto”. Com efeito, Miguel Real defende, expressamente, que “outro continente não existe com tão grandiloquente e realizador passado” – por isso, “deve a Europa respeitar e orgulhar-se dos seus feitos passados”. Como concretiza, “nenhum outro continente teve Platão e Galileu, Aristóteles e Copérnico, Leibniz e Newton, Kant e Einstein”. E daí “a grande, grande diferença entre a Europa e os restantes continentes”: “a Europa é o continente da cultura”, “o continente que transformou o animal homem no homem humano”. Como escreveu ainda Miguel Real, a fechar o ensaio inicial da primeiro capítulo: “nunca a humanidade do homem tão alto se elevou quanto na Europa, o genuíno e autêntico continente da única forma mentis que abarca a totalidade da humanidade”. Isso deve-se, desde logo, como refere a abrir um ensaio seguinte “O decálogo civilizacional da Europa”, a quatro primados: “o primado da Cidade (Polis) sobre a Horda e a Tribo”, “o primado do Direito (Jus) sobre a Tradição”, “o primado da Ética (Ethos) sobre o Interesse” e, finalmente, “o primado da Razão sobre o Mito e a Magia”. Por via desses quatro primados e de outros factores – como, em particular, “a separação entre o Estado e a Religião”, “a criação do Sistema Democrático” e a “industrialização do mundo” –, conclui Miguel Real: “Nenhum outro continente pode apresentar tão alto sistema de valores e realizações operados para o bem e o progresso humanístico da humanidade no seu conjunto. Os valores culturais asiáticos e árabes, centrados na religião, e africanos e sul-americanos, centrados no tribalismo, estatuem-se como menores (e, até, por vezes insignificantes) para a totalidade do mundo se comparados com a criação política, filosófica, religiosa, estética, científica, social e económica europeia.” Contudo, como defende no ensaio seguinte, com o título de “A Decadência da Europa”: “pela primeira vez em três mil anos, a Europa habita o panteão dos povos e territórios que não fazem História, antes a contemplam, vendo-a passar ao longe, a Oeste e a Este”; “tecnologicamente (que é o actual padrão de medida do progresso), a Europa parou na II Guerra Mundial”, passando a ser “internamente vista como um apêndice dos Estados Unidos da América”. Por tudo isso, como conclui Miguel Real: “o europeu de hoje é um cidadão conformista, acrítico, por vezes mesmo acéfalo, pasto de programa imbecis de televisão, de revistas fúteis, de campeonatos nacionalistas de futebol, adorados dos mais medíocres bezerros de ouro (políticos, futebolistas…), um cidadão movido pelo interesse, desprovido de sonho e transcendência. A Europa é hoje um continente cego guiado por políticos cegos./ Assim, nenhuma forma de vida é criticada ou asperamente excluída da cidade. Na Europa, hoje, o espírito nómada da aventura e da viagem tornou-se um modismo experimental, uma ânsia da novidade, do exótico, do insólito, do selvagem, do fantástico, num imoral cruzamento entre pornografia e misticismo, como a arte e, dentro desta, a literatura de mercado bem revela.”. Não obstante este diagnóstico, que o próprio assume como “muito cruel”, Miguel Real defende no ensaio que se segue e que encerra o primeiro capítulo, intitulado “Esperança na ressurreição da Europa”, que, precisamente, “a esperança na possibilidade de uma futura ressurreição europeia não deve ser abandonada”. E aqui assumimos a divergência maior relativamente a Miguel Real. Ao contrário dele, nós não temos a menor “esperança na ressurreição da Europa”. Falamos, em particular, da União Europeia, enquanto alegada consagração política deste continente. Com efeito, ainda que hoje isso pareça fazer parte de uma história hoje já muito distante, o grande “cimento” da construção da União Europeia foi a ameaça que o bloco soviético, que, como sabemos, se estendeu a toda a Europa de Leste, constituiu, durante quase meio século, para a Europa ocidental. Isso e a posição subalterna que a Alemanha aceitou, como expiação da sua culpa pela II Guerra Mundial – a Alemanha (falamos, obviamente, antes da reunificação, da Alemanha ocidental) não poderia afirmar-se politicamente, apenas financiar todo o projecto político da construção europeia. E deveria até mostrar entusiasmo por isso. Com o fim da ameaça soviética e com a reunificação alemã, era inevitável que também essa derradeira máscara caísse. A Alemanha reunificada voltou a ser, naturalmente, um país como os outros – não mais do que os outros, mas também não menos. Para mais, acedeu ao poder uma geração que já não carregava sobre os seus ombros esse peso histórico da “culpa alemã”. O que a Alemanha tinha a pagar, já o havia feito. Agora, defenderia simplesmente os seus interesses, tal como todos os outros países europeus. Quem a poderia impedir? E eis como inevitavelmente se encerrou o último acto da farsa da “solidariedade europeia”. Chegados aqui, e concordado de novo com Miguel Real: “existe hoje, em Portugal, uma alternativa à Europa sem que desta nos tenhamos necessariamente de desvincular, uma alternativa de futuro aos actuais valores europeus (que, verdadeiramente, já são mais os valores americanos que europeus) sem o corte radical com a Europa – o retorno à antiga comunidade de língua portuguesa: a lusofonia./ De facto, existe uma nova geração que, desejando um futuro diferente para Portugal, assume sem complexos neo-colonialistas a existência passada do Império, projectando-o no futuro da língua comum. O que tem esta nova geração para dar? Nada, a não ser a vontade e o entusiasmo de transformar o passado comum num futuro comum assente numa língua comum e num espírito comum”. Como escreve ainda Miguel Real, a finalizar o penúltimo ensaio do terceiro capítulo, sugestivamente intitulado “Morte e ressurreição de Portugal” : “Se, para Portugal, entre 1975 e 2010, a Europa esteve sempre primeiro, é hora de nos centrarmos nas infinitas possibilidades virtuais presentes na Lusofonia, tanto do ponto de vista económico como diplomático, como, sobretudo, do ponto de vista cultural e tecnológico, criando entre os seus países constituintes uma comunidade semelhante à Europeia.”. Semelhante?! O próprio Miguel Real, já no último ensaio, intitulado “O Futuro da Lusofonia”, se corrige – “A Lusofonia deve criar uma paisagem política nova” –, dado que, ainda nas palavras do autor: “Diferentemente, a Lusofonia corresponde a um genuíno programa civilizacional de fundo, unindo num vínculo único povos que a História fez encontrar e desencontrar. A Lusofonia não é uma ilusão política porque se fundamenta na história dos encontros/desencontros dos seus povos constituintes unidos actualmente por um falar comum.”. Eis, em suma, o Horizonte que Miguel Real nos abre como via de superação da “morte de Portugal” que ele próprio, como referimos, havia diagnosticado. Horizonte que, entre nós, tem sido defendido sobretudo pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono , que tem dado voz a essa “nova geração”. 

(a publicar no próximo número da NOVA ÁGUIA)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Pensar Portugal: entre o espaço europeu e o espaço lusófono

.
Acabou por ser esse o foco do debate do passado Sábado, na Sede de Candidatura de Fernando Nobre, entre mim e o Miguel Real, debate muito animado e participado, como muitas questões, algumas delas de difícil resposta, que se prolongou já para além da hora…

Foco inevitável, porque se não é possível pensar Portugal fora do espaço europeu, também não é possível pensá-lo fora do espaço lusófono. Nessa medida, a tarefa, ainda e sempre, é de pensar Portugal à luz da complementaridade, por vezes contraditória, desses dois espaços…

Debate interminável que, porventura, se concretizará num livro. Foi esse, pelo menos, o desafio do Miguel Real. Publicar um livro, em co-autoria, aprofundando essa reflexão…

sábado, 10 de julho de 2010

José Saramago (1922-2010), escritor de uma linguagem de ruptura com os cânones do classicismo literário

“(…) Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas. Felizmente, graças à inesgotável generosidade da imaginação, cá vamos suprindo as faltas, preenchendo as lacunas o melhor que se pode (…)”
José Saramago, A viagem do elefante, Lisboa, Ed. Caminho, 2008, p. 223

José Saramago destacou-se no panorama literário português na segunda metade do século XX desembocando o seu meritório labor na escrita com a atribuição do Prémio Camões em 1995 e do Prémio Nobel da Literatura em 1998.

Na Literatura Portuguesa contemporânea, de transição do século XIX para o XX, sobressaem como autores de excepcional qualidade, em textos de prosa, para além de José Saramago, Miguel Torga, António Lobo Antunes, Agustina Bessa-Luís, Urbano Tavares Rodrigues, Teolinda Gersão e Miguel Sousa Tavares.

José Saramago teve uma prolífera obra literária que se estendeu de 1947 a 2009 com 42 livros publicados pela Editorial Caminho. Começou com uma linguagem neo-realista no seu primeiro romance, mas a sua criatividade irá levá-lo a uma linguagem Barroca na acepção do escritor Miguel Real (afirmações proferidas na TSF). Nos seus livros mais recentes a sua linguagem rompe as regras básicas da Gramática com uma linguagem próxima da verbalização coloquial entremeada de expressões e provérbios populares.

O seu livro mais exemplar foi o “Memorial do Convento” que se tornou um livro de leitura obrigatória no ensino secundário e os seus livros mais polémicos pelo tom de provocante ateísmo foram “O Evangelho segundo Jesus Cristo” e “Caim”. A leitura que fiz da sua obra literária incidiu nos seus livros mais recentes: “O Homem duplicado”, 2002; “Ensaio sobre a lucidez”, 2004; e “A viagem do Elefante”, 2008 . Os dois primeiros livros abordaram duas temáticas fracturantes das nossas sociedades contemporâneas: a clonagem humana e a votação em branco como forma de protesto colectivo face ao desfasamento entre os políticos e os eleitores.

O livro “A viagem do elefante” é um texto fascinante, numa incursão pelo romance histórico, que parte de um facto verídico da nossa História Diplomática: a oferta de um elefante do rei D. João III ao arquiduque Maximiliano da Áustria em meados do século XVI. O enredo do texto trata com muita imaginação o percurso do elefante entre Lisboa e Viena, ao mesmo tempo que o narrador vai fazendo algumas ilações sobre a Humanidade e os seus descaminhos. Toda esta textura nos é transmitida com uma sagacidade de um escritor de uma genialidade madura que aborda a sua história com ironia, imaginação e uma suprema lucidez na análise da condição humana. É, pois, uma bem conseguida obra-prima, que Saramago nos legou neste seu livro de sublime leitura que recomendo vivamente a quem não o conheça!

Os seus textos fluentes com poucos parágrafos obrigam o leitor a deixar-se levar na maré de palavras calorosas que nos deixam encantados e absorvidos com o fio da meada. A sua linguagem Barroca, acessível ao grande público, pejada de tiradas populares torna a sua comunicação atraente pela espectacularidade dos sons inebriantes que saem da palavra muda que emerge do livro, porque estes seus livros são para serem saboreados em voz alta.

Deste género de linguagem literária próxima do estilo coloquial há dois autores portugueses que se aproximam mais: António Lobo Antunes e Teolinda Gersão, não obstante as suas especificidades literárias. Esta característica inovadora comum a José Saramago aproximou o leitor do escritor naquilo que era o objectivo central da filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein. Este progresso da literatura significou a conquista de novos leitores que possibilitou às suas tiragens em Portugal chegarem a várias dezenas de milhares.

José Saramago foi, com efeito, um “self-made man” que exercendo múltiplas profissões caminhou com muito mérito para concretizar os seus sonhos de criação literária. Criou, no fim dos seus dias, a Fundação José Saramago com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa para impulsionar a cultura e os jovens criadores literários e foi um cidadão politicamente interventivo que assumiu com clareza os seus ideais marxistas em busca de um mundo melhor.

Presto aqui a minha pequena homenagem a este escritor de dimensão universalista que os portugueses guardarão no panteão das nossas emoções! Vale a pena ler o testemunho que dele nos concedeu o Professor José Medeiros Ferreira na altura da atribuição do Prémio Nobel a José Saramago intitulado “Saramago: saber renascer” reproduzido no blogue Córtex Frontal.

Nuno Sotto Mayor Ferrão
Publicado originalmente e com notas no blogue: Crónicas do Professor Ferrão

sábado, 22 de maio de 2010

Lançamento hoje, às 18h, na Sociedade de Língua Portuguesa (Lisboa, Rua Mouzinho da Silveira, 23; junto ao Marquês de Pombal)

O Renato Epifânio faz parte de uma geração espiritual e filosófica que escapou ao absoluto domínio totalitário da Europa no pensamento português, postulando uma nova alternativa para Portugal. A Europa não satisfaz hoje esta nova geração, ou melhor, não a satisfaz em absoluto, legando à nossa consciência crítica o imenso vazio das civilizações decadentes, aquelas que já não fazem História mas ainda não saíram da História.
Desde a II Guerra Mundial, o aparelho de Estado, privilegiando exclusivamente um sector da sociedade – a economia –, desprezando fundo os valores morais e espirituais próprios da cultura europeia, tem gerado na mente dos europeus uma representação parcial de si próprios, que, incapaz de se elevar à unidade de uma ideologia estruturada e consolidada, se caracteriza pela passividade cívica, compensada por uma hipervalorização do individualismo, assente na fórmula amoral do “salve-se quem puder”. Mistura de complexo de superioridade com um arreigado individualismo americano, o projecto político europeu caracteriza-se hoje, nos começos do século XXI, pela exaltação unidimensional do homem técnico, o homem-eficiente, o homem-contabilista, o homem-robótico, desprovido de consciência histórica global, funcionando exclusivamente segundo o duplo horizonte de raciocínios técnicos quantitativos e consequentes objectivos. Não são políticos os nossos governantes de hoje, mas técnicos, robots substituíveis uns pelos outros, possuindo o mesmo vocabulário, aplicando invariavelmente o argumentário da eficiência de custos e proveitos, totalmente desacompanhados de uma dimensão cultural e espiritual para a sociedade.
É contra esta Europa que o Renato combate, não contra o legado humanista e a herança espiritual europeias. O combate do Renato, que lhe alimenta um pensamento pessoal, bem como a sua acção pública, desdobra-se em quatro vertentes:

1. Exemplo determinante da sua personalidade tem sido a sua acção na Associação Agostinho da Silva, onde, junto com as restantes direcções, tem pugnado para que não desapareçam da sociedade portuguesa os valores privilegiados pelo seu patrono: os valores do sentimento e da comoção, os valores do gregarismo e da generosidade, os valores da partilha e da solidariedade, unidos e vinculados a um sentido transcendente orientador dos povos na busca da justiça, da abastança e do amor. É uma associação onde o Renato se sente bem porque defendem ambos ser a razão menos importante que a paixão, o calculismo na vida menos importante que a fruição lúdica da vida, o interesse económico menos importante que uma vida desinteressada de bens materiais. Não há, em Portugal, outra Associação tão desprendida de interesses políticos e materiais e tão aberta à pluralidade das manifestações da existência.

2. - Numa outra vertente da sua acção cívica, o Renato foi um dos criadores do MIL: Movimento Internacional Lusófono, que começou por ser uma extensão dos valores da AAS aplicados aos países da Lusofonia e hoje possui uma independência própria. Aqui o Renato está em casa, defendendo uma nova forma de organização entre os povos, fundada na absoluta igualdade institucional e vivencial, a contínua partilha de recursos e actividades entre todos, obviando à inexistência de países super-pobres (Guiné-Bissau, São Tomé e Timor), uma diplomacia de paz e de justiça (o passaporte lusófono), todos unidos numa concórdia sem ressentimentos, criando uma zona territorial geográfica de união fraterna (escolas e empregos de um país abertos a todos os cidadãos lusófonos, que entre estes países circulariam livremente) que constituísse uma espécie de “choque cultural” para o mundo.

3. - A terceira vertente da sua acção cívica prende-se com a direcção da Nova Águia, partilhada com o Paulo Borges e a Celeste Natário. Aqui, em conformidade com a sua participação na AAS e no MIL, o Renato estabeleceu como horizonte da sua acção espiritual e filosófica a renovação dos valores permanentes da “Renascença Portuguesa”. O que significa intentar reavivar os valores da “Renascença Portuguesa” no início do século XXI? Significa, obedecendo aos ditames filosóficos de Teixeira de Pascoais, uma única coisa, mas tão imensa que se estabelece como horizonte teórico e prático de vida: que o pensamento é superior à matéria e o espírito ao corpo; ou, ainda, que sem transcendência espiritual de valores ligados à beleza, ao bem e ao sagrado (mesmo à natureza como sagrado) Portugal se transformará numa mera região geográfica da Comunidade Europeia, cheia de sol, de turistas e de euros, mas coarctada do essencial da vida que realiza os povos e os cidadãos. Não seremos já analfabetos e pobres, mas cidadãos culturalmente ignorantes, ileteratos, robôs movidos a dinheiro, tão alegres exteriormente quanto vazios e infelizes interiormente. Significa isto, igualmente, que o homem europeu tem de ser redimido de um capitalismo consumista acéfalo, que produz máquinas económicas e corpos esbeltos, e orientado para um comunitarismo moderno e urbano em que a arte e a cultura tanto se tornem acontecimentos festivos e diários como a compaixão pelo que sofre ou necessita se torne dominante. O presente alimenta-se da mutilação do homem, unidimensionaliza-o numa estreita visão economicista; o futuro consiste na libertação deste homem-máquina e na assumpção de um homem pluridimensional, aberto a todos os valores, vivenciando uma realização quotidiana assente na união entre o corpo e o espírito – pensar, amar, trabalhar serão fundidos num único verbo: viver em plenitude. Esta era a mensagem de T. de Pascoais, esta a mensagem da Nova Águia, esta a compreensão geral da acção do Renato em prol do MIL – a necessária pluridimensionalidade de valores forço-a a resgatar a Europa juntando-lhe o sabor Lusófono, os valores Lusófonos

4. - Finalmente, uma quarta vertente do Renato, porventura a mais descuidada por evidente falta de tempo: a sua acção como investigador do Centro de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa. Ele é autor de um dos melhores estudos sobre José Marinho (Fundamentos e Firmamentos do Pensamento Português Contemporâneo), bem como de dezenas de estudos sobre ao Filosofia em Portugal, dos quais destacamos os dois livros publicados sobre Agostinho da Silva, Visões de Agostinho da Silva (2006) e Perspectivas sobre Agostinho da Silva (2008), bem como o estudo “Repertório da Bibliografia Filosófica Portuguesa”, em parte publicado na revista Philosophica, da Faculdade de Letras de Lisboa.
De qualquer modo, existe um trabalho subterrâneo, enquanto bolseiro de pós-doutoramento da FCT, sobre "as três fases do pensamento de Agostinho da Silva", que dará, talvez já no próximo ano, os seus primeiros frutos -, que esperamos ansiosamente. De referir, igualmente, a obra Via aberta: de Marinho a Pessoa, da Finisterra ao Oriente (2009), onde se encontram alguns dos seus estudos mais significativos sobre Filosofia em Portugal.
Nas suas intervenções filosóficas, o Renato tem dado um particular enfoque à valorização da língua e da cultura como eixos configuradores do pensamento português e, por acrescento civilizacional, da nova ordem política lusófona. Com efeito, se grande luta da geração de 50/60 consistiu na inscrição da Europa no pensamento português, a grande luta da geração do Renato consiste em persuadir os diversos aparelhos de Estado nacionais que, sem atropelo da necessidade da Europa, a Lusofonia deve ser inscrita com urgente prioridade nos programas políticos tanto dos partidos portugueses quanto dos partidos nacionais dos países lusófonos, a começar, evidentemente, pelo Brasil. Neste sentido, no caso da cultura portuguesa e no caminho aberto por Agostinho da Silva, a realização espiritual para que os livros do Renato apontam, e que A Via Lusófona é óptimo exemplo, consistiria na criação de uma comunidade de língua portuguesa onde todos os povos pudessem, de forma inteiramente livre, assumir, de modo pleno, a especificidade da sua cultura.

Obrigado, Renato, pela tua extrema dedicação à causa Lusófona. Com efeito, não tenho dúvida seres tu hoje o mais intrépido defensor militante da Lusofonia. Se eu tivesse algum poder, nomeava-te o “Militante Número Um” da Lusofonia.

Azenhas do Mar, 20 de Maio de 2010,
Miguel Real.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Os nossos parabéns ao Miguel Real, membro do Conselho Consultivo do MIL...

Miguel Real vence Prémio Jacinto do Prado Coelho 2008

O livro "Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa", de Miguel Real e editado pela Quidnovi, foi o vencedor do Prémio Jacinto do Prado Coelho 2008, informou esta terça-feira a Associação Portuguesa dos Críticos Literários, que atribui o galardão.
Segundo Liberto Cruz, presidente da Associação Portuguesa dos Críticos Literários e membro do júri, ao lado de Manuel Frias Martins e Carlos Jorge Figueiredo Jorge, o livro de Miguel Real foi distinguido «pelas reflexões brilhantes e pela interpretação que o autor faz da obra produzida por Eduardo Lourenço entre 1949 e 1997».

Eduardo Lourenço figura entre os anteriores galardoados com o Prémio Jacinto do Prado Coelho, que é atribuído há mais de 20 anos e já coube também a Óscar Lopes, Vergílio Ferreira, António José Saraiva, José Gil, Carlos Reis e Maria Alzira Seixo, entre outros.

O galardão, que consagra as modalidades de ensaio, crítica, história da literatura e teoria da problemática literária, tem o valor pecuniário de 5000 euros e é patrocinado pela Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas.

O Prémio Jacinto do Prado Coelho 2008 será entregue a 15 de Dezembro, na Sociedade Portuguesa de Autores.

Lusa