MIL: Movimento Internacional Lusófono | Nova Águia
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
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Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
Colecção Nova Águia: https://www.zefiro.pt/category/zefiro-nova-aguia
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"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"
Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)
A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)
Agostinho da Silvasexta-feira, 6 de janeiro de 2023
Faleceu Alfredo Campos Matos, a ser homenageado no próximo Congresso MIL "Eça de Queiroz, 150 anos"
quinta-feira, 18 de março de 2021
Queiroz «cancelado»?
Não é novidade que os novos «inquisidores» adeptos do «politicamente (in)correcto» e que praticam o revisionismo histórico-cultural-literário podem fazer «alvos» de tudo e de todos. Assim, não é de surpreender que também José Maria Eça de Queiroz tenha sido, e recentemente, colocado na «mira» deles, para um eventual, próximo, «cancelamento», parcial ou mesmo total.
segunda-feira, 4 de novembro de 2019
Evocar Eça de Queiroz, de 15 a 18
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
Celebrar Eça em 2019
sábado, 15 de maio de 2010
O nosso progresso...
Eça de Queirós, em 1872, escreveu nas Farpas:"Nós estamos num estado comparável sómente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá... vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal".
sexta-feira, 5 de março de 2010
O Milhafre
Então o homem sentiu que aquele seio constelado, e aquela boca donde saiu a revelação do amor, do perdão, e da alma, tinham o pó, a podridão, a caliça e os bichos; e que, se um dia Cristo, vendo o homem aflito e miserável, lhe tinha arrancado da alma o mal, não era muito que o homem, encontrando Cristo abandonado, profanado e roído, lhe limpasse da cabeça as aranhas. Mas, quando ia a limpar a imagem, viu, sobre a cruz, junto da mão pregada, um milhafre enorme. O homem, com as mãos, quis arredar o milhafre.
E a ave, então, com a antiga voz dos animais da Bíblia, do Apocalipse e dos livros dos profetas, disse surdamente: "Homem, deixa a cruz sossegada!"
Através das fendas viam-se os astros sagrados. E o milhafre, batendo as asas, dizia:
"Deixa a cruz, deixa! Não tenhas medo que apodreça. Lá em cima luzem agora estrelas, sóis, planetas, cintilações, carbúnculos. É o pó dos Deuses mortos. Todos se finaram, histriões ensanguentados, e a sua farsa acabou em desterros.
"Morreram velhos, expulsos, esfomeados e nus.
"Este ficou, solitário, alumiando. Ele perdoou enquanto os outros lutaram, ele amou enquanto os outros choraram: por isso fica enquanto os outros passam. Deixa. Esta cruz, que é de madeira, vale tanto como as que lá em cima fazem os raios dos astros, ou no silêncio dos mirtos dois olhares bem-amados.
"Deixa as aranhas, o pó, a caliça, os bichos, a neve, a geada, o apodrecimento. Ele pode bem dar às aranhas o seu corpo de madeira, pois que vos deu a vós o seu corpo de carne – a vós, que pregais com o mesmo riso e o mesmo esquecimento os morcegos no alto das janelas e o Cristo no alto dos montes; a vós, que lhe vindes limpar os cabelos de madeira, depois de lhe ter arrancado os cabelos vivos; a vós, que quereis lavar as nódoas que ele tem no peito, e não vedes as imundícies que tendes na alma. Tudo o que ele criou, o amor, o ideal, o perdão, a fé, o pudor, a religião, Deus, todo aquele evangelho da vida nova anda pelo mundo, tão degradado, tão coberto de bichos, tão imundo como o seio desta imagem antiga. A matéria, o impudor, o apetite rude, o ódio, o aviltamento, o tráfico, a miséria e a penalidade, andam sujando a tua alma, ó homem! como as aranhas andam sujando a cabeça deste Cristo! E não reparais, e não vedes, sobre os espíritos, sobre os corações, sobre as consciências, o pó, a caliça, o caruncho, os ratos e os vermes!
"Sim, é verdade: tudo é magnífico e são, e banhado de sol. As cidades são cheias e caiadas, só as consciências é que têm nódoas; as praças estão limpas de iluminações, só os corações é que estão escuros; os cais estão arejados, só os espíritos é que sufocam; os corpos estão sãos, cobertos de estofos, frescos e resplandecentes, só as almas é que andam nuas, miseráveis e leprosas. De resto, tendes o riso, a farsa, os paraísos artificiais, as arcas venais, e também o esfriamento do túmulo! Oh! amigos íntimos dos vermes, como vós cuidais do corpo, e o lavais, e o amaciais, e o engordais – para a pastagem escura das covas!
"Homem, que fizeste tu da alma? Ao princípio não era conhecida, depois foi vendida, depois foi apupada; tu, modernamente, julgaste melhor matá-la – mas não certamente de cansaço com viagens a Deus! Deste-la a despedaçar à negra matilha do mal. Em compensação, guardaste o corpo: para esse uma religião, um asilo forte como o Sol, os sete selos da lei e a escolta dos regimentos. Esse é o sagrado, o imaculado, o pontifical, o vitorioso. Proibição a Deus de lhe tocar. Para ele palácios, cortejos, serralhos, estofos, pedrarias, o sol e a iluminação dos astros. Para ele a inviolabilidade: Não matarás!
"Começaram então as cruzes a ficar desertas, os cepos a encher-se de musgo, as forcas a apodrecer nos caminhos. Nós, os milhafres, e os nossos camaradas, os abutres, para quem já não havia corpos nos despenhadeiros, ladrões arroxeados pela corda, afogados disformes, deixámos os grandes montes e os rios, as vastas tradições do sangue, e viemos, para viver, aceitar, com os capões, a domesticidade nos parques resplandecentes, ou andámo-nos mostrando aos imbecis, pelas feiras, numa gaiola! E as aves da noite, depois de terem visto a natureza imensa, as aflições do vento, as núpcias do mar, de terem lutado nas tempestades e insultado as estrelas, vêm, modestamente, comer bichinhos no saguão dos burgueses! Eu, que tinha estado entre a força, quis, ao menos, ficar entre a graça; e, depois de ter vivido na noite de Deus, quis, ao menos, morrer na madrugada de Jesus! E, entretanto, a alma morre esmagada e solitária, e a grande vida moderna, a vida do sol, da música, dos metais, vai, entre fulgurações, pisando e cuspindo naquela coisa miserável. E ainda está quente o sangue de Jesus!
"Homem, que fizeste tu do pensamento?
"Anda expulso, perseguido e sublime, como um Deus antigo. Cravaste-lhe no seio as sete dores. Coube-lhe a dor e o escárnio. É necessário que, nas cidades, os pensadores e os artistas extáticos sofram e sangrem: os triunfos dos homens da matéria são como os dos antigos imperadores – só são completos, quando passam entre torturas. E quem havia de soluçar sobre a cena moderna da paixão, senão os que têm alma?
"Amam, sufocam, caem, agonizam, e, entretanto, vai passando a coorte dos vitoriosos e dos reluzentes, e as suas bolsas riem-se daqueles corações, como os botões de ouro das suas camisas apupam a luz dos astros.
"E os que quiserem viver e tiverem a alma grande, bela e heróica, têm de se baixar à estatura burguesa e mercantil dos cérebros modernos. Os deuses olímpicos, se não se deixassem ajuizadamente finar nas florestas antigas, teriam de se empregar nas secretarias. O soberbo pavão de Juno viveria num pomar dos arrabaldes. Homero seria localista. Os cavaleiros andantes roubariam lenços nos ajuntamentos, e o trágico São Jerónimo seria presidente duma junta de paróquia. Deste modo tu aceitas a arte, o pensamento, a alma. Não, arte, não te vás; a vida moderna dar-te-á uma libré resplandecente; vem, música, tu que criaste a Alemanha, far-me-ás uma contradança; vem, arquitectura, tu que deste hospitalidade a Deus, far-me-ás uma estufa; vem, escultura, tu que fizeste o povo dos deuses, o bela escultura! vem fazer-me um gavetão. Oh! tristes domesticidades do ideal!"
Houve um silêncio. Havia na sala um ar místico, como para concepção dum deus.
O milhafre esvoaçava. Ouvia-se o chorar duma flauta. E o olhar do Cristo errava, contemplativo e atento, entre as estrelas inumeráveis, enquanto na escuridão, aos seus pés, os ratos lhe roíam a cruz.
"Vai-te, disse o milhafre. Os ratos roem a cruz, eu estou velho: a antiga geração das aves da noite vai-se. Os pregos já se despregam, a cruz apodrece. E quando ela se desfizer, atirarei o seu pó à grande natureza, ao elevar da Lua, que vale o elevar da hóstia. Irei, oh meu Deus! para além dos sóis e dos caminhos lácteos, onde as constelações são gotas de sombra, certo – eu que sou da vasta terra, o selvagem dos prados, a respiração dos antros, eu que sou a palpitação dos montes – certo de que, se os homens não deram a cruz aos Cristos, não lha dará também a natureza. E eu, que roi as ossadas verdes, tendo visto sempre Este que fez o bem, que amou, que perdoou, pregado numa cruz, irei também, entre os sóis meio doidos, eu, que devastei, e matei, e escorri de sangue, crucificar-me num astro!"
Assim falou, lentamente, aquele milhafre filosófico e letrado, enquanto as violas gemiam, e os pobres tremiam de frio; assim falava, de cima duma cruz, numa sala legendária, longe das maravilhas dos Cains burgueses, nestes tempos livres, sensatos, verdadeiros, magníficos, em que, como se não podem pôr certas verdades na boca dos homens, têm de se dependurar do bico dos milhafres.
Eça de Queiroz, O Milhafre, Gazeta de Portugal, 6 de Outubro de 1867
Foto: José Maria de Eça de Queiroz (Póvoa de Varzim, 25 de Novembro de 1845 — Paris, 16 de Agosto de 1900)
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Eça
Surge agora, editado em Paris, da autoria de A. Campos Matos, pela mão das "Editions de la Différence", com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, o livro "Vie et Oeuvre d'Eça de Queiroz". Trata-se não apenas da primeira das (até agora) oito biografia existentes do escritor que surge em língua francesa mas, igualmente, da primeira cuja edição original é aqui publicada.
Os interessados em adquirir o livro devem ter alguma calma. É que, segundo a Amazon, ele só estará disponível no dia 4 de Março. Perdoarão, no entanto, que este "colega" mais novo do antigo cônsul português em Paris usufrua o privilégio de já dispor de um exemplar...
Na impossibilidade de mostrar uma imagem razoável da capa do livro, fica, pelo menos, a clássica fotografia que a ilustra, onde o nosso Eça figura no seu jardim em Neuilly.
Francisco Seixas da Costa in Blog “Duas ou três coisas – Notas pouco diárias do Embaixador Português em França”: http://www.duas-ou-tres.blogspot.com/ (publicado a 25 de Fevereiro de 2010)


