*É um Lusófono com L grande? Então adira ao MIL: vamos criar a Comunidade Lusófona!*

MIL: Movimento Internacional Lusófono | Nova Águia


Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de uma centena de milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por mais de meia centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia. Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.
SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
NIB: 0036 0283 99100034521 85; NIF: 509 580 432
Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).

Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Desde 2008"a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

Colecção Nova Águia: https://www.zefiro.pt/category/zefiro-nova-aguia

Outras obras promovidas pelo MIL: https://millivros.webnode.com/

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Foi há 49 anos...

Da Memória... José Lança-Coelho

O ‘SANTA MARIA’ E UM DIA DE AULAS A MAIS

Quem é que, quando era estudante, não lhe sabia bem, uma falta dada por um professor? Creio que ninguém. Pelo menos a mim, saía-me a sorte grande! Então, e se em vez de uma aula, fosse uma tarde inteira? Bem, isso era o paraíso! Parafraseando o filósofo Agostinho da Silva, «O Homem não foi feito para trabalhar».
Serve esta introdução para falar de um episódio da minha longa vida de estudante que, me ficou atravessado como uma enorme espinha na minha garganta.
Andava eu no meu 2º ano (o actual 6º de escolaridade), estávamos em 1961, quando Henrique Galvão e o seu comando se apoderaram do navio ‘Santa Maria’, com o objectivo de chamar a atenção do mundo para a ditadura existente em Portugal.
Henrique Galvão, um antigo membro das forças armadas portuguesas de que fora expulso em 1952, depois de ocupar altos cargos no regime, preso pela PIDE em 1958 e que conseguira fugir no ano seguinte, acabara de entrar em rota de colisão com o ditador Salazar, tomou o navio ‘Santa Maria’ e, durante dias, aquele espaço a boiar sobre as águas do oceano foi uma dor de cabeça para o chefe do Estado Novo que, parece ter pedido a ajuda da marinha norte-americana para afundar o barco.
Os americanos acabaram por não se meter e, Galvão por entregar o ‘Santa Maria’, uma vez que já cumprira os objectivos a que se propusera.
Salazar fez, então, uma hipócrita operação de charme apoiada nos ‘medias’, e assim, apareceu numa televisão tão cinzentona como o regime, a proclamar aos quatro ventos, com a sua execrável voz de seminarista falso: “Portugueses, o ‘Santa Maria’ está connosco!”
O que me interessava a mim, que tinha dez para onze anos, e a milhares de portugueses, que o ditador tivesse recuperado o navio? Absolutamente nada! No entanto, a chegada do ‘Santa Maria’ a Lisboa, dias depois, já teve imenso interesse, porque o Estado Novo, continuando a sua campanha de cosmética e de propaganda, autorizou que todos os estabelecimentos de ensino encerrassem de tarde, para que alunos, professores e contínuos pudessem visitar o pedaço de Portugal que tinha sido raptado.
Claro que todos os meus amigos de Paço de Arcos que frequentavam o Liceu de Oeiras, tiveram uma tarde de férias. E se fazia sol!, lembro-me bem. E essa recordação inesquecível vem-me do facto, de eu, ter de ‘gramar’ uma tarde de aulas, ainda mais chata que o habitual, pois sabia que todos os meus amigos estavam à boa vida.
Daqui conclui-se que, neste ano, eu não frequentava um estabelecimento de ensino oficial, mas sim um colégio particular, mais precisamente os Salesianos no Estoril, onde não havia feriados para ninguém.
E ainda dizem que a Igreja Católica estava de mãos dadas com o Estado Novo! Aldrabões! Pelo menos neste caso não esteve.
Os ‘padrecas’ roubaram-me um dia de férias! Nem ‘Santa Maria’ me valeu!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O regicídio

Da memória… José Lança-Coelho

A 1 de Fevereiro de 1908, em Lisboa, o rei de Portugal, D. Carlos I, foi assassinado, juntamente com o seu filho D. Luís Filipe, príncipe herdeiro do trono.
Nascido em Lisboa, a 28 de Setembro de 1863, filho de D. Luís I e de D. Maria Pia de Sabóia, casado em 1886 com D, Maria Amélia de Orleães, filha dos condes de Paris, e eleito rei de Portugal desde 1889.
A sua personalidade era multifacetada. Assim, como cientista, colaborou em investigações oceanográficas, enquanto que, como pintor, conquistou prémios em competições internacionais com as suas aguarelas e pastéis. Durante o reinado de D. Carlos I (1889-1908) normalizaram-se as relações com a Inglaterra e reataram-se as relações com o Brasil. Também se pacificaram os territórios ultramarinos, desde a Guiné a Timor, tendo sido notáveis os feitos de armas em Moçambique e Angola.
A política exterior implementada no reinado de D. Carlos I, fez com que Portugal reconquistasse o seu prestígio europeu com as visitas do rei ao estrangeiro, bem como com as vindas ao nosso país de chefes de estado das maiores potências europeias.
A ousadia crescente dos republicanos, dispostos a conquistar o trono português através das armas, provocando campanhas violentíssimas, culminaram no regicídio de D. Carlos.
No dia 1 de Fevereiro de 1908, quando regressava de uma estadia em Vila Viçosa, o rei D. Carlos I, apesar de ter sido avisado que os Republicanos preparavam uma sublevação, insistiu em sair da estação num coche descoberto, fazendo-se acompanhar da família real.
Dois carbonários, Buiça e Costa, aproximaram-se do coche real e disparam, matando o rei e o príncipe à queima-roupa. No entanto, os dois matadores não sobreviveram ao regicídio, tendo sido eliminados pela guarda real.
A D. Carlos I, sucedeu-lhe o seu filho D. Manuel II, que reinaria apenas dois anos, entre 1908 e 1910, já que a 5 de Outubro deste último ano, o regime republicano passaria a vigorar em Portugal.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

26 de Janeiro...

Da memória… José Lança-Coelho

26 de Janeiro de 1949 : as primeiras eleições em Israel

No dia 26 de Janeiro de 1949 realizaram-se em Israel, as primeiras eleições para a Assembleia Constituinte.
Depois de 70% dos votos contados, deu as seguintes percentagens:
Mapai (Partido de Ben Gurion) – 35%
Mapam (Partido Trabalhista Unificado da Esquerda) – 14%
Bloco Religioso Unificado – 14,1%
Ala Direita do Heruth – 9,2%
Partido Democrata Progressista – 4,6%
Partido Comunista – 2,6%
Esclareça-se que o Partido Mapai, a que pertencem Bem Gurion, chefe do Governo Provisório, e Moshe Shertock, ministro dos Estrangeiros se caracteriza por um trabalhismo construtivo.
Relativamente ao Partido Mapam, politicamente mais para a esquerda, é formado por intelectuais e por pioneiros que criaram as famosas colónias israelitas da Palestina.
Os grandes vencidos destas eleições são os partidos extremistas, já que o Partido Comunista, por exemplo, não terá mais do que quatro ou cinco representantes entre os 120 parlamentares, e Friedman Yellini, que se encontra actualmente na prisão à espera de comparecer perante o tribunal, como chefe do Stern, será provavelmente o representante deste grupo no Parlamento.
Estes resultados apenas indicavam as percentagens, uma vez que, por razões de segurança, o Governo israelita não queria, indicando o número de votantes, revelar a importância das Forças Armadas.
Entretanto, um informador do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Itália, informou que este país reconheceu «de facto» o novo Estado de Israel, passando assim para 24 os países que o fizeram.
O reconhecimento de Israel por os citados 24 países fez-se do seguinte modo: oito reconheceram-no de «facto», quatro «de jure» e os restantes de forma indefinida.

***

DIÁRIO DO ESCRITOR

26 de Janeiro de 1949 – Está provado que não nasci para falar a doutores. Um dos meus professores viu direito quando, no meu exame de admissão ao estágio, lamentou que a minha linguagem nem sempre fosse a mais conveniente. O princípio do mal está em mim, que sou saloio por dentro; saloio, não: cabreiro. E depois deu asas a isto o facto de eu me ter feito homem entre camponeses e pescadores e ter tido sempre o cuidado de falar como eles, para estarmos todos à vontade. Ao par do que aí fica, acontece que venho de lavradores, jardineiros e comerciantes; tudo gente de cepa honrada mas agreste. O que não quer dizer que a cepa seja de não dar flor: tenho um primo que guarda ovelhas e as beija e as trata como a suas irmãs; um São Francisco em bruto. (…)

Sebastião da Gama, Diário, Lisboa, s/d, pp. 43-44.

sábado, 23 de janeiro de 2010

António Maria de Fontes Pereira de Melo

Da Memória... José Lança-Coelho

MORTE DE FONTES PEREIRA DE MELO

António Maria de Fontes Pereira de Melo nasceu, em Lisboa, a 8 de Setembro de 1819 e, faleceu, na mesma cidade, a 22 de Janeiro de 1887.
Em 1834, com quinze anos, Fontes Pereira de Melo, assentou praça na armada. Mais tarde, concluiu o curso na Academia da Marinha e o de Engenharia na Escola do Exército, chegando a atingir o posto de general.
Deputado desde 1848, tornou-se um dos maiores políticos portugueses do seu tempo, tendo gerido as pastas da Marinha e do Ultramar, das Obras Públicas (esta por ele criado), da Fazenda, do Reino e da Guerra.
Mais tarde, presidiu ao conselho de ministros por três vezes, de 1870 a 1877, de 1878 a 1879, e, finalmente, de 1881 a 1886.
Chefe do Partido Regenerador e principal promotor da política das obras de fomento, que ficou conhecida na História de Portugal, pela designação de “Fontismo”, a sua acção destaca-se, sobretudo, em duas vertentes, a das vias de comunicação e a educação.
No concernente à primeira, Fontes Pereira de Melo notabilizou-se pela construção de estradas e vias-férreas, ao mesmo tempo que, edificou pontes e edifícios públicos. Relativamente à educação, foi, em 1852, o criador do ensino industrial, e, sete anos depois, organizou o ensino agrícola.
Um pouco mais tarde, em 1884, Fontes reorganizou o exército português.
O “Diário de Notícias”de 22 de Janeiro de 1887 fazia assim a descrição dos passos do óbito do grande estadista:
“Quinta-feira (…) foi assistir ao jantar no palácio do sr. Ministro da Rússia, onde sentiu breve indisposição gástrica, e ao regressar a casa foi surpreendido por um resfriamento, que a noite estava fria e agreste, e uma constipação, que se buscou debelar pelos meios ordinários.
Sexta-feira, às 5 horas da manhã, declarou-se-lhe, porém, uma pneumonia dupla, que o seu assistente, o sr. dr. Ayres de Ornelas, quis activamente combater, mas ontem de tarde sobreveio-lhe uma questão pulmonar que prostrou, pode dizer-se, subitamente, aquele vulto, que fora verdadeiramente colossal na nossa política, na segunda metade do século actual.”
A 22 de Janeiro de 1987, quando do centenário da morte de Fontes Pereira de Melo, a Câmara Municipal de Lisboa inaugurou uma lápide comemorativa no edifício municipal, sito no Pátio do Tijolo nº25, onde nasceu o estadista, e levou a cabo uma exposição iconográfica e documental no Palácio Galveias, sobre a figura e a obra deste grande português do século XIX.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Louco, sim, louco, porque quis grandeza...

Da Memória… José Lança-Coelho

O REI D. SEBASTIÃO NASCEU HÁ 456 ANOS


O malogrado rei de Portugal, D. Sebastião, nasceu há 456 anos, no dia 20 de Janeiro de 1554, dezoito dias depois da morte de seu pai, o príncipe D. João, ocorrida a 2 de Janeiro de 1554, falecido com apenas dezasseis anos e sete meses incompletos.
A mãe de D. Sebastião, a princesa D. Joana, filha de Carlos V, ausentou-se de Lisboa em 15 de Maio do mesmo ano, nunca mais voltando a Portugal, embora defendesse os direitos do filho na corte espanhola.
Órfão de pai e, tecnicamente, de mãe, D. Sebastião teve como aio, desde os cinco anos, D. Aleixo de Meneses, veterano das campanhas de África e da Índia, como mestre o padre Luís Gonçalves da Câmara, confidente de Santo Inácio de Loiola, e como professor de matemática o célebre Pedro Nunes.
Coroado rei em 1568, quando perfez os catorze anos, mostra-se determinado, apesar da difícil situação internacional. Em 1574, vamos encontrá-lo durante um mês nas praças marroquinas de Ceuta e de Tânger, onde se inteira dos ataques dos piratas berberes, tanto no norte de África como no Algarve.
Em 1577, o papa Gregório XIII concede auxílio financeiro ao rei português, para que este impeça a expansão turca em Marrocos. Ainda neste mesmo ano, D. Sebastião propõe a Filipe II o casamento com sua filha Clara Maria Eugénia, porém, o rei espanhol recusa.
No ano seguinte, a 4 de Agosto de 1578, o rei D. Sebastião morre na batalha de Alcácer Quibir, embora seja esperado com ansiedade em Portugal, devido ao perigo da independência passar para as mãos do rei espanhol Filipe I, daí que o seu cognome seja o Desejado. O facto do rei nunca ter voltado originou, por um lado, que, pelo menos, três aventureiros se tenham apresentado como sendo o verdadeiro monarca, o que lhes valeu a morte e, por outro, exacerbou uma característica da alma portuguesa, identificada desde então com o nome de Sebastianismo.
No seu livro Mensagem, Fernando Pessoa dedicou a este monarca, o seguinte poema:

D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?


segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ainda em memória de Miguel Torga...

Da Memória… José Lança Coelho
Torga – 15 anos de saudade

O grande Homem que foi o cidadão e o escritor Miguel Torga, deixou-nos no dia 17 de Janeiro de 1995, fez ontem quinze anos de saudade.

Como, em virtude do fim-de-semana, me encontrava num local onde a Internet não funciona, aqui estou hoje, 18 de Janeiro, a render-lhe a minha humilde homenagem, com a transcrição de o único poema, escrito neste dia, nos dezasseis volumes que constituem o seu fabuloso Diário.

Coimbra, 18 de Janeiro de 1949




PEQUENA HISTÓRIA DE UM MITO

O pregador da vida, quando começou,
Queria nascer também.
E o que pregou,
Pregou bem.

Porque além das quimeras que pregava,
Mostrava
Frutos e flores em cada mão.
E o povo gostava,
E acreditava nele e no sermão.

Mas o tempo passou,
O pregador cresceu,
E a sua fé murchou,
E o seu amor morreu.

O pregador da vida já não tem fiéis.
Na sua velha igreja abandonada
Não há mais nada
Senão capitéis
Onde a seiva parou petrificada.


Miguel Torga,
Diário IV, 3ª edição, Coimbra, p. 153.

Publicado na NOVA ÁGUIA:
http://novaaguia.blogspot.com/2010/01/ainda-em-memoria-de-miguel-torga.html

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Mário Beirão

Da Memória... José Lança Coelho

Mário Beirão
Um Poeta Injustamente Esquecido

Nasceu em Beja, a 1 de Maio de 1892, e faleceu em Lisboa, a 19 de Fevereiro de 1965.
Licenciou-se em Direito na Universidade de Lisboa e foi Conservador do Registo Civil de Mafra.
Colaborou em diversas revistas literárias como, A Águia – tendo feito parte do grupo saudosista de que esta revista era porta-voz, Ocidente, Mundo Português, e, Portucale.
Ao lado das características saudosistas e das profundas raízes nacionalistas, Mário Beirão manifesta um tom populista precursor do telurismo de Miguel Torga e do regionalismo dos neo-realistas.
Escreveu as seguintes obras: O Último Lusíada (1913), Novas Estrelas (1940) – com a qual ganhou o Prémio Ricardo Malheiros -, Lusitânia (1917), Ausente, Pastorais (1923), A Noite Humana (1928), Mar de Cristo (Prémio ‘Diário de Notícias’, 1957), O Pão da Ceia (1964), e, Oiro e Cinza (1946).
Na perspectiva de David Mourão-Ferreira, são as seguintes, as principais tendências da obra do poeta bejense:
“ Mário Beirão mostrou-se inalteravelmente fiel à sua tríplice vocação de predestinado aedo da vasta Casa Lusitana, de cantor dos campos e das gentes do Alentejo, de lírico repartido entre a sondagem metafísica da alma e o franciscano que louvou os aspectos mais simples da natureza e da existência humana.”
Em Poesias Completas, António Cândido Franco, autor de uma «introdução à poesia de Mário Beirão», e José Carlos Seabra Pereira, que procedeu a uma exaustiva análise da obra deste autor, afirmam que a modernidade de Beirão “não está só na forma como tratou em verso, e em verso de inesperado efeito métrico e rítmico, os problemas da narrativa – recorrendo com familiar à-vontade a processos pós-naturalistas que só se vulgarizam entre nós depois da Presença -, mas na expressão subjectiva que modelou verbalmente, e que é um dos momentos líricos mais intensamente sonoros da língua portuguesa de sempre.”


domingo, 10 de janeiro de 2010

1º Centenário do nascimento de António Pedro

Da Memória… José Lança-Coelho

Passou no ano agora findo (2009), o primeiro centenário do nascimento do artista António Pedro (Cidade da Praia, Cabo Verde, 9.12.1909), e escrevemos artista, porque a pessoa em questão, notabilizou-se na literatura, sobretudo na vertente da poesia, nas artes plásticas, e no teatro (na encenação).
Este relacionamento entre a poesia e as artes plásticas foi de tal modo intenso que, muitos dos seus desenhos se intitulam Poema. Por outro lado, o tempo em que António Pedro viveu, foi uma época em que as revistas de letras e artes tiveram um grande desenvolvimento.
Para além da incontornável Presença (1927-40), onde dois dos seus fundadores (Régio e Gaspar Simões) se dedicaram à crítica estética, destacam-se: Fradique (1934-35), onde António Pedro publica poemas “dimensionistas”. Abra-se aqui um parêntesis para dizer o que se entende por dimensionismo, momento em que António Pedro teve o mérito de fazer, ao nível da poesia, a síntese das dimensões plástica e lírica, onde o poema ganha uma configuração gráfica que se assemelha ao caligrama. Também na matriz ficcional, A. Pedro introduz este alargamento do imaginário poético, como se constata no seu excepcional romance de 1942, Apenas Narrativa.
Voltando às revistas da época, citaremos: Sudoeste (1935) onde sobressai o nome de Almada Negreiros: Revista de Portugal (1937-40) onde Fernando Amado retoma a relação entre a arte e a natureza e o sentido da “Arte Moderna”, e Gaspar Simões escreve sobre os desenhos de Mário Eloy; Aventura (1942-44) onde A. Pedro escreve sobre o pintor brasileiro Cícero Dias; Variante revista dirigida pelo próprio A. Pedro; Litoral (1944-45); Mundo Literário (1946-48) onde A. Pedro publica em diversos números uma “História da Pintura”; de Unicórnio a Pentacórnio (1951-56) revista dirigida por José-Augusto França em que colabora A. Pedro; Cadernos de Poesia cujo fascículo 12, da 2ª série, iniciada em 1951, é dedicado a António Pedro, e Dacosta, Fernando Azevedo, Vespeira e Vieira da Silva.
O primeiro livro de poesia de António Pedro, Os Meus Sete Pecados Capitais, saiu em 1926, publicado em Coimbra, cidade onde no ano seguinte, aparece a já referida revista Presença, em que o próprio colaborará, no entanto, isso não quer dizer que ele partilhe em pleno do ideário estético do triunvirato que dirige a publicação. Aliás, José Régio, o porta-voz do citado triunvirato, condena constantemente na literatura sua contemporânea, as faltas de originalidade e sinceridade, isto é, a oposição entre estilo e personalidade. Esta questão que assenta em três grandes pilares estéticos – sinceridade, autenticidade e fingimento – relaciona-se com a intenção de salvar o mal-estar produzido pela valorização que, relativamente ao fingimento, Fernando Pessoa utiliza na sua mensagem poética.
Esta questão estética é crucial entre a segunda e a quarta década do séc. XX, e A. Pedro não se exime de se lhe referir, embora com uma matriz mais direccionada para as artes plásticas. Assim, na sua Introdução a uma História da Arte podemos encontrar pontos de vistas díspares dos de Régio, como por exemplo, na não anuência por parte de A.Pedro à oposição entre emoção estética e capacidade formal, uma vez que vê nesta oposição um processo de transformação, chegando a considerar que «a sinceridade é antiartística», no entanto, com esta tomada de posição, A. Pedro não se opõe radicalmente à ideologia estética da Presença, nem anui decididamente ao fingimento pessoano, mas situa-se numa concepção de arte como espectáculo, de que o paradigma é a expressão teatral, sendo director, figurinista e encenador do Teatro Experimental do Porto, daí que afirme que «o que a própria paixão não pode fazer, realiza-o a paixão bem imitada». Esta sua valorização do teatro é semelhante à de Almada Negreiros, direccionada para as artes plásticas.
A verdade psicológica da forma defendida por A. Pedro leva-o a não aderir ao puro automatismo do Surrealismo, embora, primeiro, o tenha apresentado em 1940, em exposição na Casa Repe, em Lisboa, com Dacosta e Pamela Boder, e sete anos mais tarde, integre o grupo surrealista de Lisboa, com o qual expõe pintura em 1949.
Recuando um pouco, diremos que, em 1938 saiu o livro de poesia Casa de Campo; no fim da 2ª Guerra Mundial, 1944-45, António Pedro foi cronista da BBC em Londres. A ele e a Tom se ficou a dever também a organização da primeira galeria moderna em Portugal, a UP ao Chiado.
De novo, em Lisboa, António Pedro participa no lançamento do jornal “Diário Popular”, na revista de dois números Variante. Uma iniciativa editorial, o Dicionário de Morais em 12 volumes.
No teatro, destaquem-se as encenações de, entre muitas, A Morte de um Caixeiro Viajante de Arthur Miller, Jornada para a Noite de O’Neill, Macbeth de Shakespeare e A Promessa de Bernardo Santareno.
Em 1950, exila-se voluntariamente na sua quinta de Moledo, Caminho, “mais valia mexer em barro quem em trampa” afirma ao sair de Lisboa, dedicando-se sobretudo à cerâmica, local onde virá a falecer com 57 anos, no dia 17 de Agosto de 1966, efeméride assinalada por todos os órgãos de informação, como “O Comércio do Porto” que lhe dedicou uma página especial, tal como “O Estado de São Paulo” do Brasil. O seu nome foi atribuído ao teatro que criara no Porto, com elogio de Óscar Lopes, historiador da Literatura Portuguesa. Após a Revolução do 25 de Abril de 1974, A. Pedro teve as suas grandes exposições retrospectivas na Fundação Gulbenkian, no Museu Soares dos Reis, em Caminha, na Biblioteca Nacional (que fará em 2010 uma exposição bibliográfica), no Museu do Chiado e no Museu de Tomar, apesar de grande parte da sua obra pictórica ter desaparecido em 1944, num incêndio ocorrido no seu atelier.