*É um Lusófono com L grande? Então adira ao MIL: vamos criar a Comunidade Lusófona!*

MIL: Movimento Internacional Lusófono | Nova Águia


Apoiado por muitas das mais relevantes personalidades da nossa sociedade civil, o MIL é um movimento cultural e cívico registado notarialmente no dia quinze de Outubro de 2010, que conta já com mais de uma centena de milhares de adesões de todos os países e regiões do espaço lusófono. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por mais de meia centena de pessoas, representando todo o espaço da lusofonia. Defendemos o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.
SEDE: Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa)
NIB: 0036 0283 99100034521 85; NIF: 509 580 432
Caso pretenda aderir ao MIL, envie-nos um e-mail: adesao@movimentolusofono.org (indicar nome e área de residência). Para outros assuntos: info@movimentolusofono.org. Contacto por telefone: 967044286.

NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).

Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

Colecção Nova Águia: https://www.zefiro.pt/category/zefiro-nova-aguia

Outras obras promovidas pelo MIL: https://millivros.webnode.com/

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

"Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa"

Nenhuma direita se salvará se não for de esquerda no social e no económico; o mesmo para a esquerda, se não for de direita no histórico e no metafísico (in Caderno Três, inédito)

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo (in Cortina 1, inédito)

Agostinho da Silva
Mostrar mensagens com a etiqueta Olivença. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Olivença. Mostrar todas as mensagens

domingo, 10 de abril de 2022

Foral Manuelino de Olivença...

Mereceu um grande acolhimento a apresentação duma edição moderna do Foral Manuelino de Olivença de 1510. A igreja do Convento de São João de Deus, em Olivença, estava cheia.

A edição, com 756 páginas, dum extremo rigor histórico, e com aspetos artísticos assinaláveis, divide-se em dois volumes. Foi por volta das doze horas que neste memorável dia 26 de março de 2022 foi dada a conhecer a obra, após um labor exaustivo de seis anos.
Trata-se da primeira obra deste género lançada fora do território sob administração portuguesa , e (citando uma nota camarária)"reflete temas como as tarifas e impostos no século XVI, quando a cidade oliventina viveu a sua maior época de esplendo r nesse século porque tornou-se a ‘Muito Nobre e Notável’; além de aumentar em população e na qual foram construídas Ponte Ajuda, a Santa Casa de Misericórdia ou a Igreja Madalena, entre outros edifícios religiosos, civis ou militares.".
Continuando a citar:"Ao ato de apresentação, além dos autores da obra, Saul António Gomes, Mário Rui Simões Rodrigues e José Antonio González Carrillo, assistiram o Presidente da Câmara Municipal de Olivença, Manuel J. González Andrade; o Deputado da Cultura de Diputación de Badajoz, Francisco Martos; o historiador e medievalista espanhol e professor da Universidade de Extremadura, Francisco Garcia Fitz. "
No final, assistiu-se a um breve momento musical, a cargo de três estudantes da Universidade de Coimbra, envergando capa e batina.
Entre alguns presentes, manifestava-se alguma estranheza pela falta de notícias do evento na imprensa portuguesa, quando, pelo sua importância, seria de esperar outra atitude. Talvez não vez fosse clara a dimensão e o significado do ocorrido....

Carlos Eduardo da Cruz Luna

quinta-feira, 13 de maio de 2021

A ÚLTIMA GERAÇÃO DO PORTUGUÊS OLIVENTINO

 «Sebastiana tem 93 anos e fala aquela língua dos idosos que mistura o português materno com o espanhol na escola. Para que não se perca, Olivença quer que seja declarada BIC  »

Míriam F. Rua
9 de maio de 2021,

[ [NOTA: Muito do que se pensa ser castelhano no Português de Olivença não o é. São formas alentejanas que eram comuns até há pouco tempo] 

 Sebastiana Martínez Rodríguez aprendeu português em casa. Nessa língua herdada dos avós, falava com a mãe, com os irmãos e ensinou-o também a todos os seus filhos, menos à mais nova. Aprendeu castelhano na escola e foi esta língua  que, das paredes de sua casa para fora,  em São Bento da Contenda [San Benito de la Contienda], foi imposta ao longo dos anos. Fruto desse bilinguismo, português familiar e espanhol/castelhano oficial, a geração de Sebastiana é a última a falar o português oliventino, uma espécie de portuñol nativo da cidade de Tecula Mecula [famoso doce regional português oliventino]
. Aos 93 anos, essa mulher É a história viva do século XX. Ela lembra-se de que tinha 9 anos quando estourou a Guerra Civil e que no conflito o seu pai foi morto, e que nunca foi encontrado o corpo. Lembra-se também dos anos de fome e de mercado negro. Comprava o café português aos contrabandistas, que abrigava no "casão" [barracão ferramentas] que tinham no campo. Ela ficou viúva há quarenta anos, « viúva, diz ela, e sossegada» e criou seus filhos colhendo azeitonas, nozes, amanhando a terra e costurando para si própria e para a família, e para fora   
    Há doze anos vive na Casa de la Misericordia de Olivença, onde se viciou no crochê porque não lhe agrada passar horas de braços Cruzados sentada numa poltrona. Há dois meses, venceu a covid-19., o cobiçado foi vencido. E tudo isso é contado em espanhol com sotaque português e usando refrões. “Há goteiras [buracos no telhado], mas não faz mal porque não está a chover”, respondeu quando questionado sobre seu estado de saúde. 

   «UM DOS ERROS QUE COMETEMOS FOI FALAR COM OS NOSSOS FILHOS EM ESPANHOL»

   [Para divulgar o idioma, a Delta lançará envelopes de açúcar com expressões do português de Olivença]

  Até  aos dias de hoje, continua a falar português quando agarra no telefone para conversar com os filhos que tem e que moram em Toledo e na Catalunha. Ele sempre o faz num contexto de intimidade, se houver mais pessoas, ele passa a usar do espanhol .  Na língua de Cervantes, ele também fala com suas netas. Ela queixa-se de  os jovens não terem aprendido o português, língua que ela reconhece "que a ajudou muito".

"Ay, Mai"

     Entre estes jovens, o português Oliventino sobrevive em algumas expressões como "Ay, mai", que se utiliza como exclamação de surpresa, susto ou exagero ou como as netas de Sebastiana a chamam e que se pronuncia mais expontaneamente do que em qualquer outro lugar de Extremadura. Este termo ilustra perfeitamente a singularidade de sua linguagem. Essa 'mai' não é a "madre" do espanhol nem a "mãe" do português. Mas há mais exemplos de português oliventino, em português; presunto é "jimão", chaminé é "chuné" e desalinhado socialmente é "maltês". “É uma língua, um substrato do português que com o tempo foi contaminado pela a língua castelhana/espanhola e que se fala com naturalidade na faixa etária dos 70 anos”, explica Eduardo Naharro Macías-Machado, professor de Língua e Cultura Portuguesas, na Universidade Popular de Olivença .Na língua de Cervantes, ele também fala com suas netas. 
  
«Em Olivença a língua materna dos mais velhos é o português, mas chega um momento, por volta dos anos 50 e 60, em que a elite mais poderosa da sociedade é constituída pela administração, pela Igreja e pela escola, elite que usava/falava o espanhol. No mundo rural começou-se a considerar que o português não era uma língua do futuro e que a língua "rica" era o espanhol. Por isso, um dos erros que cometemos foi falar espanhol com os nossos filhos, porque se tivéssemos guardado o português, [mesmo que só] em casa, agora todos [em Olivença[ falaríamos as duas línguas ”,
Esta circunstância fez com que entre os jovens se perdesse o português Oliventino. Perante esta realidade, a Câmara Municipal [de Olivença] está decidida a evitar a sua extinção e para isso lançou uma campanha promocional que tem como objetivo último fazer com que a Junta de Extremadura reconheça e proteja a sua língua como Bem de Interesse Cultural (BIC).
   Em lojas e bares aparecem cartazes com expressões populares do português olivense, que descrevem como a língua de identidade e expressão de culturas. “É absolutamente único, fruto da convivência das duas línguas durante dois séculos”, defende Manuel J. González Andrade, Presidente da Câmara Municipal de Olivença, que revela que após um encontro com Rui Nabeiro, dono do Delta Café, a fala de Olivença será promovido nos envelopes de  açúcar da empresa de Campo Maior. 
   É este o impulso que Olivença pretende dar à sua linguagem, antes de apresentar este ano a sua candidatura a Bem de Interesse Cultural. “Acreditamos ter argumentos suficientes para concretizar a declaração, que entendemos como uma forma de preservação da linguagem”. Naharro Macías-Machado acrescenta a este propósito: “Seria um reconhecimento da nossa memória, que nos permitiria tomar consciência de que esta língua é um veículo de cultura e diversidade que nos diferencia e isso  ajudaria/ajudará a revitalizá-la para que não se perca.
    A candidatura/pretensão do português Oliventino a (ser declatado) BIC [Bem de Interesse Cultural] é mais um passo no esforço de Olivença para não ostracizar os seus cinco séculos como cidade portuguesa, sobre os quais o seu património, as suas casas, os nomes das suas ruas ou o duplo DNI [Cartão de Cidadão] que muitos habitantes têm . A língua é o aspecto mais imaterial desse cruzamento de culturas Raya de que Olivença se orgulha. "

https://www.hoy.es/badajoz/ultima-generacion-portugues-20210509001541-ntvo.html?fbclid=IwAR1ANjNxCH0Q0dZKzBQKL5KqcrmAX

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

“De Olivença vê-se o mar”



Por ocasião da apresentação da proposta do município de Olivença para se tornar associado da UCCLA, vai ter lugar amanhã, dia 19 de fevereiro, a partir das 10 horas, na sede da organização, um importante evento de intercâmbio empresarial “De Olivença vê-se o mar”.

É um evento carregado de simbolismo e significado tendo em atenção as relações históricas existentes entre Portugal e a cidade de Olivença, que sempre aproximaram os oliventinos e os portugueses, com mais de um milhar de oliventinos a terem hoje uma dupla nacionalidade, a portuguesa e a espanhola, porque a legislação espanhola o permite aos que a requeiram.

À semelhança do que sucede com outras cidades ou regiões de outros países, como Macau ou Santiago de Compostela, há muito associadas da UCCLA e que os estatutos desta permitem, é com muita honra e reconhecimento que vemos agora Olivença propor a sua adesão.

A proximidade das relações existentes, a todos os níveis, e as referências históricas de Portugal, que a cidade de Olivença ostenta em muitos dos seus monumentos, ruas e instituições públicas e privadas, são elementos que, com a adesão do município à UCCLA, reforçarão ainda mais a proximidade, incentivando os fluxos turísticos e criando condições para o intercâmbio de Olivença com os países de língua oficial portuguesa. UCCLA





sábado, 30 de junho de 2018

OLIVENÇA QUER ESTAR PRESENTE NO FUTURO DO ALENTEJO

O AMAlentejo procura, entre outras coisas, defender o espaço cultural alentejano em todas as suas vertentes.História, etnografia, expressão falada e vocabulário específico, direito à autonomia administrativa, tradições. É nesse sentido que vai a minha intervenção.
O Alentejo não está completo sem ter em conta uma área de cerca de 450 quilómetros quadrados, constituída por dois concelhos. Olivença e Táliga. Não, não se trata de algum tipo de proclamação nacionalista no mau sentido do termo, nem duma reivindicação de soberania. Isso não só compete ao Estado central, evidentemente!
Trata-se apenas duma região que, culturalmente sempre foi alentejana...pelo menos desde o século XIII, quando se começaram a definir, ainda de forma vaga, características regionais em Portugal. E essa região mantém essas características, embora um tanto diluídas, já que desde 1801 muito foi feito para as destruir. Mas, contra a expetativa de muitos, elas sobreviveram. O "Português de Olivença", falado por cerca de 1 500 pessoas e entendido por cerca de 3 500, é claramente uma variante do Português alentejano.
A sua poesia tradicional, ainda viva,não deixa margem para dúvidas.Vale a pena ver alguns exemplos:
-Ó Vila Real dos coxos,/
São Bento dos aleijados,/
São Domingos dos bons moços,/
São Jorge dos mal talhados///


O meu coração é teu,/
o teu é de quem tu queres./
Uma troca faria eu,/
lindo amor, se tu quiseres.///


-Azeitona pequenina/
também vai ao lagar;/
eu também sou pequenina/
mas sou firme no amar.///


Saudades, tenho saudades,/
saudades das feiticeiras./
Lembrança das amizades/
da "Terra das Oliveiras".///


-Na vila de Olivença/
não se pode namorar!/
As velhas saem ao Sol/
e põem-se a criticar!///


-Eu já vi um valentão/
à briga com uma cidade;/
logo ao primeiro encontrão/
derrubou mais de metade!///


-Quem me dera, dera, dera,/
quem me dera, dera, dar,/
beijinhos até morrer,/
abraços até cansar.///


-Toda a vida fui pastor,/
toda a vida guardei gado;/
tenho uma chago no peito/
de me encostar ao cajado///


-Não esmoreças, cão carocho,/
que amanhã tens "fartadela" (=abundância);/
já morreu o filho mocho,/
filho da cabra amarela.///


-És branca como o leite,/
corada como a cebola;/
amores, quantos quiseres,/
casar contigo,... xó rola!///


-Se tu souberas bem ler/
nos meus olhos o feitiço,/
verias como se quer/
a paixão ao seu derriço.(=namorado)///


-Anda cá para os meus braços/
se tu vida queres ter,/
que os meus braços dão saúde/
a quem está para morrer!///


-As mocinhas lá em São Bento,/
todo o seu traje é um:/
sapatos de cinco bicos,/
e as meias da cor do cu. (ouvida em São Jorge, 1991, a Eduardo Godinho)///


-Toda a mulher que é bonita/
não devia de nascer./
É como a pera madura,/
todos a querem comer! (ouvida em San Jorge, 1992, a Severiano Nunes)///


-Meu coração chora sempre/
as lágrimas de uma santa;
são queixumes portugueses/
que se ouvem na barranca.///


Poderia continuar a dar exemplos de poesia, mas estes chegam, penso eu, para se ficar com uma ideia da tradição popular oliventina. Algumas quadras são conhecidas em todo o Alentejo,
Houve alguém, em Olivença, que foi um exemplo de preservação da língua do povo. Tratou-se de uma senhora, falecida muito recentemente, que não admitia que pusessem em causa o seu amor a uma Olivença espanhola. Todavia, e para honra e Espanha, esta incansável senhora, Rita Ascensio Rodríguez, dedicou a sua vida a escrever livros e mais livros, onde descrevia os velhos costumes oliventinos, e, o que mais nos interessa aqui, a sua maneira de falar. Muitas vezes ela opina que se trata de formas únicas no mundo, pois desconhecia o "alentejano". Todavia, ela fez recolha após recolha, e era uma das pessoas que mais sabia sobre a fala popular oliventina. O seu último trabalho ("Apuntes para una História Popular de Olivenza", 2007), para além de descrever inúmeras tradições populares, algumas já desaparecidas, tem no fim uma espécie de "pequeno "dicionário" de oliventino-espanhol.
Citar alguns exemplos é a melhor forma de justificar o tema da minha comunicação.
Começo por termos que não foram alterados, e que são comuns ao Português -Padrão:
Alcofa; (A)trapalhado; Abóbora; Agriões; Alfazema; Bacorinho; Brincos; Bicas; Bazófia; Costas; Carocha; Chapéu; Coentro; Calças; Coelho; Courela; Espalhafato; Escaravelho; Esquecer; Ferro (de engomar); Fornalha; Grãos; Gargalo; Garfo; Ervilhas; Lenço; Maluco; Melão; Minhocas; Osga; Pousio; Picha; Pintassilgo; Peúgas; Poleiro; Panela; Rola; Roseira; Ranho; Saudade; Salsa; Turra; Tacões; Ventas (nariz); Vespa.
Sigo com termos alentejanos,ou que considerei como tais para melhor explicar,na sua forma original, na sua forma actual usada em Olivença, e traduzidos, se necessário:
Azevia/Açubia(-); Alguidári; Alface/Alfaça; Azêtona; Arrecadas/Arcadas (grandes brincos); Andorinha/Andrurinha; Alarvices; Paleio/Apaleo; Asnêras; Amanhado (arranjado, preparado); Alicati; Alentar/Alantar (crescer); Aventar (deitar fora, derrubar); Vasculho/Basculho (vassoura); Melancia/B´lancia; Barbulha (borbulha); Brócolos/Broquis; Bebedêra/Bebedela; Biquêra; Badana (mulher velha); Baldi; Bandalho (mal vestido); Barranhola/Barranhali (Banheira); Púcaro/Búcaro; Boleta (Bolota); Caliche (Caliça); Cuitadinho; Descarada/Cascarada (!); Corremaça (correria); Cueiros/Culêros; Chico (Francisco); Descasqueado (Limpo); Dôtorice (jactância); Embatucado (sem palavras); Escandalêra; Engadanhado (impedido de usar os dedos por causa do frio); Empolêrar-se; Esturricar; Escancarar(abrir totalmente); Ajoelhar-se/Esvoelhar-se; Escavacada/Escavada (!); Entrudo; Enciêradas (gretadas de frio); Janela/Esnela; Centopeia/Entopeia; Falhupas (chiapas de lume); Esfregão/Fregón; Fartadela; Feijão-frade/Fradinho; Fanhoso; Fedorento/Fudurento; Fêtecêra; Farinhêra mole; Ferrugento/Furrugento; Fatêxa; Garganêro (açambarcador, egoísta); Galiquêra ou Caliquêra (doença venérea); Libória (tonta); Lençoli/Lançoli; Leque/Lecre; Mangação/Mangaçón (troça); Melhoras (Boas melhoras); Monte/Monti (Herdade); Mexeriquêra/Mixiriquêra; Mascarra (Sujidade, Amorenado); Mondar (actividade agrícola); Nódoas/Nodas; Pantanêro/Patamêro (lama); Cair de Pantanas (cair de costas); Pelintra/Pilintra; Passarola/Passarinha/Passarilha (Púbis e vulva); Piali (Poial); Reboliço/Raboliço; Remela/Ramela; Repesa (arrependida); Ralhar/Rayari; Rabujento/Rabulhento; Ceroulas/Cirôlas; Chocalhos/Sacayos; Surrelfa; Saboria (Sensaboria); Cenoura/Cinôra; Sabola (Cebola); Tanjarina; Devagarinho/Vagarito; Velhici; Varais dos òculos/Varales dos ócalus; Sarrabulho (confusão, desorganização)
Lamento ter-me alongado, mas talvez assim tenha transmitido algo de concreto que de outra forma não seria possível. Ouviram falar "alentejano", ou oliventino... como queiram; e esta senhora, Rita Asencio Rodríguez, editou mais três ou quatro livros mais antigos publicados desde há trinta anos.
Como se pode deixar perder tudo isto? A História não nos perdoaria.
Mas .. .a Língua Portuguesa, e, neste caso concreto, a sua forma alentejana, correu ( e ainda corre) riscos, e sérios, de extinção, num espaço geográfico onde era "rei e senhor". Nesta região,que fica junto da sua matriz natural. A História da sobrevivência da Língua Portuguesa em Olivença terá que ser feita um dia. Mais do que sobrevivência, é uma História de Resistência, dados a pressão e os condicionalismos vários, ainda muito mal estudados.

É de salientar que, ainda, no meio de tanta boa vontade, há a lamentar algumas omissões. Recentemente, o Estado espanhol esqueceu-se de incluir o Português de Olivença na lista de línguas minoritárias a proteger, o que deu origem a um manifesto de indignação, e disso dava conta o "El Periódico Extremadura", de 18 de junho de 2018. Citemo-lo:«O presidente do grupo de Olivença, Eduardo Naharro, explicou que no fórum de discussão na CELROM realizada no ano passado em Santiago de Compostela se encontraram, pela primeira vez, representantes de todas as línguas oficiais e não-oficiais das comunidades autónomas [espanholas], e nela participaram, , portanto, representantes da "Fala" e do português oliventino. Embora nesse fórum "se tenha chegado a acordo para enviar as conclusões ao Governo da Espanha a fim de as enviar ao Conselho Europeu", o executivo central "ignorou-nos nos relatórios emitidos periodicamente respeitantes ao cumprimento do tratado, preparado pelo Ministério da Presidência ". e para as Administrações Territoriais, uma vez que a riqueza linguística da Extremadura não se reflecte neles ". "Não sabemos as razões pelas quais tanto a "Fala" de Val de Xálima", declarado de Interesse Cultural (BIC) "como o Português oliventino, em vias de reconhecimento como BIC, não foram incluídos apesar dos vários relatórios", expressa-se no manifesto.»
A ver vamos como se desenrolará este processo, em que o Alentejo poderá (ou deverá?) ter algo a dizer!


Entretanto, sublinhe-se que muita coisa está a mudar em Olivença, desde que, não se esqueça, surgiu uma associação, em março de 2008, em Olivença,a lutar pela cultura portuguesa/alentejana em Olivença. Denominada "Além Guadiana". Recordo, uma vez mais, agora só algumas palavras, as que mais apelam ao Alentejo, dum membro da sua Direção, em 22 de Junho de 2015, na Casa do Alentejo

"Caros irmãos alentejanos, bom dia. Hoje, Olivença é mais possante ao estar mais próximo do Alentejo e da Portugalidade. A terra das oliveiras, Olivença, nunca esqueceu o seu passado e aproveitando o presente quer construir o futuro. Esse futuro passa, além de outras acções, pela confraternização com o espaço lusófono e principalmente com os nossos irmãos alentejanos.Ser Alentejano é ser especial, ser Oliventino é também ser Alentejano.Olivença “cheira” a Extremadura, mas também “cheira” a Alentejo e respira ar do Guadiana que não deixa de ser alentejano.(...)A associação cultural Além Guadiana, quer agradecer a nossa presença à Casa do Alentejo e a todos os presentes por nos ouvirem. Hoje não viemos a Lisboa, viemos ao Alentejo, quer seja Alto quer seja Baixo Alentejo.(...) para concluir queremos exprimir que: nem todas as pessoas que vêm a Lisboa têm a mesma sorte que os oliventinos ao poderem repousar na sua sala de sua própria casa: a sala de Olivença na Casa do Alentejo. Agradecemos à Casa do Alentejo por manter a chama viva de Olivença.(...)Caros irmãos portugueses, abraçamos-vos de lés-a-lés e especialmente aos irmãos alentejanos, em Olivença têm a vossa casa."

Na verdade, Olivença tem avançado neste caminho. Desta forma, para além de chegar já ao milhar o número de oliventinos com nacionalidade portuguesa desde 2014, e continuando a haver mais pedidos nesse sentido, Olivença integrou-se no processo de classificação da Raia abaluartada luso-espanhola como Património, integrada no lado português. Vejam-se as notícias: » A iniciativa no sentido de ser património mundial tem estado a ser "gerada" desde há dois anos. Os municípios portugueses de Valença do Minho (a norte), Almeida (no centro) e, no Alentejo, Marvão e Elvas (esta última já é Património da Humanidade a título individual) integram a candidatura que vai ser apresentada, e em relação à qual Olivença já tem uma mão estendida. Portugal já está em condições de lançar a sua candidatura, assegura Moisés Cayetano, mas a esta lista oficial de fortificações podem ir-se juntando outras, uma vez que se esteja já no caminho para o "título mundial". Nesse sentido, Olivença já leva uma vantagem, já que foi aceite pelos municípios lusos para entrar na sua lista da rede de fortificações abaluartadas da Raia.» (traduzido do "HOY", de 19 de março de 2018).

O que pede Olivença? Pede para, independentemente dos condicionalismos de Direito Internacional, se ver reconhecida como espaço de cultura alentejana/portuguesa. Exige, porque considera ser um direito seu, ver-se contemplada nos múltiplos planos de desenvolvimento do Alentejo virados para o futuro. Olivença quer recuperar o tempo perdido. Não quer fugir às razões que assistem os Estados e aos grupos de opinião e debate, mas não se quer ver limitada no seu desenvolvimento, na sua cultura e na sua identidade por considerações desse tipo.

Muito menos Olivença aceita continuar a ser ignorada. Silenciada, como tantas vezes sucede nos órgãos de comunicação. Vítima de preconceitos, que quase sempre escondem tanta e tanta ignorância!

Tenho dito,
Castelo de Vide, 30 junho 2018
Carlos Eduardo da Cruz Luna

domingo, 31 de dezembro de 2017

Plano para o português em Olivença

A Comissão Educativa para a Língua e Cultura Portuguesa, constituída por representantes dos Centros Educativos, da C.M. de Olivença, da Associação Cultural Além Guadiana e da cidadania, apresentaram, no dia 30 de dezembro de 2017, à Conselheira da Educação da Junta da Estremadura, o Plano Específico para a Língua e Cultura Portuguesa em Olivença, com o intuito de caminhar para o bilinguismo na nossa cidade.
26047321_514644425569691_5637593735878852458_n.jpg
Este projeto não se cinge só ao âmbito escolar, mas também é extensível ao conjunto de dimensões que constitui a cidadania. Ao traço linguístico deve-se unir o cultural, que nos tornam singulares. A transversalidade há de conseguirse através da cooperação de todos os estamentos. Com o que pode vir a representar o bilinguismo na nossa terra, devemos juntar forças entre todos, Câmara, Governo Regional, escolas, associações e cidadania.
La Comisión Educativa para la Lengua y Cultura Portuguesa, constituida por representantes de los Centros Educativos, Ayuntamiento, Asociación Cultural Além Guadiana y la ciudadanía, presentaron, el 30 de diciembre de 2017, a la Consejera de Educación de la Junta de Extremadura, el Plan Específico para la Lengua y Cultura Portuguesa en Olivenza, con el objetivo de caminar hacia el bilingüismo en nuestra ciudad. Este proyecto no se ciñe solo al ámbito escolar, sino que también se hace extensible al conjunto de las dimensiones que constituye la ciudadanía. Al rasgo lingüístico se debe unir el cultural, los cuales nos hacen singulares. La transversalidad ha de conseguirse a través de la cooperación de todos los estamentos. Con lo que puede venir a representar el bilingüismo en nuestra tierra, debemos aunar fuerzas entre todos, Ayuntamiento, Gobierno Regional, escuelas, asociaciones y ciudadanía. 
Associação cultural Além Guadiana de Olivença

domingo, 8 de novembro de 2015

De Olivença...

 Um enorme cartaz dominou os dois dias do evento. 23 e 24 de outubro de 2015. Um cartaz com um desenho minucioso do monumento as Descobrimentos. Aquele de Lisboa, com o Infante D. Henrique à frente, com um dos seguidores, Frei Henrique de Coimbra, o oficiante da primeira missa no Brasil, a ser depois referido, como tendo sido bispo por aqueles lados, e estando sepultado na Catedral manuelina local. 
   E os nomes de filhos da terra ligados a essa epopeia portuguesa. Como Aires Tinoco, navegador, que, adolescente, conseguiu levar uma caravela da Guiné a Portugal(1446), passando ao largo das actuais costas da Guiné-Bissau, Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Sahará Ocidental, e Marrocos, com a ajuda de dois inexperientes jovens, como ele, referido por Zurara. E Frei João Vicente da Fonseca (falecido em 1587) , que exerceu , por algum tempo, o governo de Goa, chegando a ser seu Arcebispo. E o tal Frei Henrique de Coimbra, o da missa no Brasil nascido ou não por ali, mas que lá foi bispo. E o Padre Manuel Fernandes, um jesuíta afamado (1530-1593). E outro jesuíta célebre, Lourenço Mexia (1539-1599), falecido como mártir no Japão.
   E a lista prossegue Longa, muito longa. Para espanto de muitos. Bartolomeu Pais Bulhão, João Carreiro, Frei Manuel Fruz (talvez Cruz), João Rodrigues Galego, António Lobo da Gama, Estêvão Vaz da Gama (pai de Vasco da Gama), Garcia da Gama, Fernão Gil, João da Gama Lobo, , Manuel Laborinho Morais, João Ribeiro de Morais,  João Borges Morais, João Pico Restolho, Simão Luís Rego,  Cristóvão da Cunha Trinchão, Rui Vicente, Estêvão Mendes Carapeto, Álvaro Castanho,  João Ruiz Dias, Isabel Rui Gama (uma senhora!), António Lobo, Fernão Lobo, Manuel Lobo,João Pessanha Loureiro (casado com uma filha importante da terra), Luís Loureiro, António Torres, António Lopes Olivença, Maria Olivença (outra senhora...), Diogo Olivença, Vasco Eanes Olivença, (São) Brás de Olivença...
   E quantos mais? Como sabê-lo? Há aqui famílias inteiras. Na Índia, no Japão, em África (principalmente nas praças de Marrocos), no Brasil. Nos séculos XV, XVI, XVII, e até XVIII. Numa Epopeia que teve de tudo. Heroísmo e abnegação. Crueldade e desrespeito. Rejeição e herança que perdura. Sonhos realizados e pesadelos infernais. Ascensão e queda.
   Fica a memória. O sentimento de ter feito parte de tudo. em complexos. Esforço duplo, porque tudo se fez par apagar essa memória. Ali, em Olivença.
   No público, alguns dos mais de duzentos oliventinos que no espaço de dez meses obtiveram a nacionalidade portuguesa (desde dezembro de 2014). Graças ao esforço da associação local «Além Guadiana». Que, passando por cima do problema da soberania, reivindica a herança portuguesa de Olivença. Na História. Na Cultura. Na Língua Portuguesa. Apenas isso. Perante um insidiosa indiferença de círculos portugueses, que talvez não percebam tanto de cultura como apregoam, Ou não acreditam ainda.
   Numa das duas noites, atuou Luiz Caracol. Música portuguesa com traços de todo o mundo. Brasil, África. Assim é a História de Portugal. Assim foi em Olivença. Que se vai reconstruindo.  Silenciada...até quando?
 
Estremoz, 08 de novembro de 2015
Carlos Eduardo da Cruz Luna

domingo, 18 de outubro de 2015

OLIEXPANSÃO, 23 e 24 de OUTUBRO de 2015

Decorrerá, em Olivença, por iniciativa da "AULA DE PORTUGUÊS" da Universidad Popular de Olivenza, um encontro/ciclo de debates de dois dias, sob o lema "AS VIAGENS PORTUGUESAS E O ENCONTRO DE CIVILIZAÇÕES", com o apoio de múltiplas entidades e a intervenção de vários oradores, incluindo um deputado português.
   Tudo terá início no dia 23 de Outubro, às 11:30 (hora de Madrid; 10:30 de Lisboa), no Convento de São João de Deus, com uma cerimónia de abertura, em que falarão vários intervenientes ,quase todos da organização (presidente da Câmara d Olivença, Diretor do Turismo da Extremadura, Deputado da Diputación de Badajoz, um dirigente do Turismo do Alentejo, um deputado português, e o Presidente da Associação Cultural Lusófona oliventina "Além Guadiana"); depois, será lançado o livro "A Competitividade no Sector do Turismo; Contributos, Desafios e Implicações", de Cristina Estêvão; seguir-se-á uma mesa redonda sobre o Turismo em Olivença, e, seguidamente, pelas 17: 00 (16:00 de Portugal), uma visita guiada a Olivença e o "Embarcadouro" de Vila Real, junto ao Guadiana, em frente de Juromenha (a 10 Km. de distância). Às 18:30 (17:30 de Lisboa, de regresso, e no Museu Etnográfico "González Santana"(Castelo dionisino), ter´lugar uma conferência sobre "História e Cultura do Brasil/A Carta de Pêro Vaz de Caminha", seguindo-se a abertura duma exposição subordinada ao tema "AS VIAGENS PORTUGUESAS E O ENCONTRO DE CIVILIZAÇÕES". No final, já na Casa da Cultura de Olivença (22:00; 21:00 de Lisboa), poder-se-á assistir ao Concerto "Universo Lusófono", a cargo de Luís Caracol.
   No dia 24 de Outubro, na Casa da Cultura também, às 10:30 (9:30 de Portugal), ocorrerá uma projeção de Cinema Infantil ("A Turma da Mônica-Uma Aventura no Tempo"), Cinema Sénior ("O Guarani"), e, após o almoço, uma videoconfrência entre oliventinos no mesmo local (17:00; 16:00 de Lisboa)("Europeus e brasileiros: Ilhéus"); ás 17:40 (16:40), terá lugar um "atelier" de "Atividades lúdico.pedagógicas alusivas às Viagens Portuguesas - «Os Descobrimentos»", a cargo de Escolas e Instituições oliventinas; às 18:30 (17:30 em Portugal), a encerrar, será representada  peça teatral "A Aldeia das Laranjas", pelo Grupo de Teatro "Do Imaginário", de Évora.
   Recorde-se que Olivença participou destacadamente na aventura portuguesa dos Descobrimentos, destacando-se duas figuras: Aires Tinoco (Séc. XV), grande figura de navegador ainda no tempo do Infante D. Henrique, e Frei João da Fonseca, arcebispo de Goa (séc. XVI). No que toca às relações com o Brasil, hás três Olivenças no Brasil, uma delas nos arredores de Ilhéus, e o primeiro Bispo residente e falecido em Olivença, o qual mandou erguer nela o templo de Santa Maria Madalena, jóia do Manuelino, foi Frei Henrique de Coimbra... nada menos que o oficiante da primeira missa no Brasil, em 1500!
 
Estremoz, 18 de Outubro de 2015
Carlos Eduardo da Cruz Luna

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Ainda sobre Olivença...

CARLOS EDUARDO DA CRUZ LUNA
 
   A História, bem o sabemos, é também construída com mitos.
   A História portuguesa não podia ser exceção.São tantos os mitos que dela fazem parte, que é difícil escolher um significativo.
   Não se pense que não se passa o mesmo com outras nações. A História de Espanha está cheia de Histórias do mesmo género.
   Chamou-me a atenção, há dias, um mito repartido na Península Ibérica, a propósito da leitura de uma páginas do "Diário de las Cortes españolas", de um dia de 1836.
   Tratava-se de um protesto da Câmara de Olivença sobre o estado crítico daquela localidade, 35 anos após a sua anexação por Madrid. A edilidade pretendia que as Cortes a ajudassem a ver-se livre de cargas fiscais insuportáveis. 
   Algumas declarações proferidas merecem alguma atenção. Assim, parece que o acordado na capitulação da Praça perante o exército espanhol em 20 de Maio de 1801 não estava a ser cumprido:«[traduzido] No ano passado de 1835, apesar das garantias estabelecidas nas capitulações de 1801 de que falei, no sentido de as famílias de Olivença serem protegidas como as outras espanholas, cometeu-se o atentado escandaloso de destruir as propriedades próximas da população, propriedades magníficas e de muito valor, arruinando os seus donos. Isto fez-se julgando-se o governador autorizado pelas regras emotidas pelo governo na época calamitosa do despotismo; de maneira que propriedades que tinham sido respeitadas no tempo dos franceses quando cercaram aquela praça, e quando a ocuparam, não o foram quando já não havia nenhum género de perigo(1)»

  Repare-se que há referência a destruições. Deste modo, não passa de um mito a ideia de que a Espanha respeitou Olivença após a ocupação.
  Outras partes significativas: «[traduzido]Senhores, não seria uma mesquinharia que tendo o "ayuntamiento" desta praça[de Olivença] recorrido às cortes, se permitisse que, com o pretexto de reedificar uma igreja, se continuasse a pagar este tributo[imposto] a acrescentar a tantos outros como os que recaem  sobre aqueles infelizes habitantes, que depois dos tempos em que viviam numa situação opulenta ,viram-se precipitados a cair na mais espantosa miséria? Se as cortes conhecessem a situação particular daquela povoação, se tivessem uma ideia do que ela era quando se entregou a Espanha em resultado da capitulação, se pudessem comparar o seu estado de decadência com o estado florescente em que se encontrava antes, não duvidariam por um momento em tirar as devidas consequências de que uma grande parte da sua ruína provém de estes encargos e contribuições especiais (2).»Este excerto mostra que algo ia mal na antiga praça portuguesa.
   Mas há mais testemunhos, relatos, se se prefere: « Deputado "Gomez Becerra":  [traduzido] Senhores, por acaso, no dia em que foram a Olivença os "Senhores" Reis D. Carlos IV e a sua esposa, fui eu também àquela praça. Vi-a, e senti.me invadir pelo prazer. Acreditei que tínhamos feito uma aquisição de muita importância. Era sem discussão a localidade mais formosa que existia em toda a província da Extremadura [espanhola]. Toda ela apregoava a abundância, a riqueza, e a prosperidade. Voltei passados seis anos, em 1807, e já não conheci Olivença. Naquele curto período de tempo tinha perdido nas nossas mãos toda a formosura que tinha. E porquê? Porque, quando o governo espanhol se devia ter esmerado a proteger aquela localidade, y procurado encontrar todos os meios imagináveis para conquistar o "animo" [as vontades] dos portugueses, que era o que era preciso fazer, parece que cuidou de que fosse apenas vista como uma localidade de conquista [conquistada]. Enviou funcionários ineptos que não pensaram senão em fazer negócio, como efetivamente fizeram, da mesma ,maneira que poderiam ter feito nas ìndias [Américas] sem ter de transpor água.
   Esta tem sido a causa de os habitantes de Olivença estarem sempre esperando, como não sei se estão agora, a sua restituição ao governo de Portugal, a vinda o rei D. Sabastião. Além do mais, tive autoridade política em duas épocas diferentes naquela província, e tenho conhecimentos privilegiados sobre o que se passou em Olivença.
   Vi que os seus habitantes nos dão o trato de "castelhanos", que é o nome que dão aos espanhóis como sinal de ódio e rivalidade; e além de tudo isto que corresponde a coisas que nós sabemos, apresentam o argumento de que, tendo cometido a injustiça a Olivença de lhe conservar todas as cargas fiscais impostas pelo governo português, fizeram-nos sofrer todos os abusos de que padecem as povoações espanholas ; um destes é obrigá-los ao pagamento de contribuições que não pagam os outros povoados da monarquia (3)»
   Mais de uma vez se reconhece que Olivença fora mais próspera em tempos portugueses: « el ayuntamiento de Olivenza.   Este se halla sin escuela de primeras letras, porque sus fondos de propios no son suficientes para sustenerla despues de sacada la tercera parte líquida de ellos.«[traduzido] Em Olivença, destruíram-se vários edifícios e outras obras públicas que não se puderam reconstruir, necessitando presentemente de edifício para "Câmara municipal" por falta de fundos»(...)«Deputado Infante:sei como vossas senhorias [deputados] o estado de ruína a que chegou, e a prosperidade em que se encontrava no "outro" [português] tempo, ainda que não se deva esquecer que no tempo do domínio português a sua prosperidade consistia em ser o foco do contrabando que era introduzido na Extremadura, e, havendo desaparecido este, desapareceu com ele uma das razões para a sua prosperidade; todavia, também contribuiu para ele [estado de ruina]o que tem sofrido de muitos vexames; mas nada disto é a" questão"(4).»

  O argumento de que Olivença foi conquistada para combater o contrabando,argumento do Generalíssimo Manuel Godoy, reaparece aqui, embora se reconheça «todavia, também contribuiu para ele[estado de ruina] o que tem sofrido de muitos vexames ».
   O argumento de necessidade de conquista para combater o contrabando é algo, obviamente, que só pode ser tomado como anedótico A Europa teria estado em guerras constantes durante séculos se este argumento fosse considerado válido.
   Apesar de todas estas intervenções, as Cortes espanholas optaram por nada fazer, apelando a que as autoridades locais de Badajoz o fizessem.
   Perante estes dados sobre o estado da vila, compreende-se melhor o comentário de um livro espanhol:"História de Extremadura, de Marcelino Cardalliaguet Quirant, Biblioteca Popular Extremeña, 1993, Universitas Editorial,  libro de Bolsillo,  página 205: «[traduzido]Em 1801, o território extremenho ver-se-ia repentinamente aumentado com a importante cidade de Olivença - então tão grande e povoada como Badajoz (SIC) - conquistada a Portugal na chamada Guerra das Laranjas pelo próprio Godoy (...)(5)» .
   Portugal é um recordista em aceitar mitos de tipo negativo. Vezes e vezes sem conta se ouve dizer que "Olivença se safou desta desgraça (Portugal), e vive muito melhor», e, pior ainda, «Olivença tem sido muito bem cuidada por Espanha, que a conservaram sempre carinhosamente». O que, afinal, não passa da repetição do que muitos responsáveis espanhóis, principalmente em Olivença, repetiram até à exaustão, durante mais de cem anos, sem deixarem que alguém os contrariasse...
   Tanta ingenuidade comove... e deixa-nos indignados depois de lermos estes testemunhos de 1836. E o mais curioso é que, após um pouco mais de duzentos anos, e desde 2008, exista uma organização oliventina a Associação Cultural (e SÓ CULTURAL)«Além Guadiana», de que quase ninguém fala, que luta pela recuperação da cultura portuguesa em Olivença (já levou a que cerca de 70 ruas recuperassem os seus antigos nomes portugueses) , que insiste em que a ouçam, no plano da Lusofonia.
   Pode-se dizer o que se disser, mas a capacidade de resistência da Cultura portuguesa não deixa de nos surpreender. Apesar de muitos intelectuais dizerem que tal coisa não existe...
   Estremoz, 05 de Janeiro de 2014
Carlos Eduardo da Cruz Luna
__________________________________________________________________________
(1)En el año pasado de 1835 á pesar de las garantías que establecen las capitulaciones de 1801 de que he hablado, para que las famílias de Olivenza fuesen protejidos como los demás españoles, se ha cometido el atentado escandaloso de destruir las propiedades inmedatas ála población, propiedades magníficas de mucho valor, arruinando á sus dueños. Esto se ha hecho creyendose el gobernador autorizado por el reglamento formado por el gobierno en la época calamitosa del despotismo; de manera, que propiedades que habian sido respetadas en tiempo de los franceses cuando sitiaron aquella plaza, y cuando la ocuparan, no lo han sido cuando no ha habido níngun género de peligro.
 
(2) Señores,  ¿no seria una mengua que habendo recurrido el ayuntamiento de esta plaza á las cortes, se permitiera que a pretesto de reedificar una iglesia, se continuase pagando este tributo después de tantos otros como gravitan sobre aquellos infelices habitantes, que desde el estado opulento en que se vieron han venido á caer en la más espantosa miséria? Si las cortes conociesen la situacion particular de aquella poblacion; si tuvieran idea de lo que fué cuando se entregó á España por efecto de capitulación; si pudiesen comparar su decadente estado con el floreciente en que se encontraba entonces; no dudarian un momento en sacar la consecuencia de que una gran parte de su ruína proviene de estes gravámenes y contribuciones especiales
 
(3) Señores, puntualmente el día que fueran a Olivenza los Srs. Reyes D. Carlos IV y su esposa, fui yo también á aquela plaza. La vi y me llené de placer. Creí que habíamos hecho una adquisición de mucha inportancia. Era sin disputa el pueblo más hermoso que había en toda la provincia de Extremadura. Todo en ella anunciaba la abundancia, la riqueza y la prosperidad. Volvi a los seis años, en el de 1807, y ya no conocí a Olivenza. Ya en aquel corto período de tiempo había perdido en nuestras manos toda la hermosura que tenía. Y por qué? Porque quando el Gobierno espanõl debía haberse esmerado en proteger aquella población,y procurado todos los medios imaginables para conquistar el ánimo de los portugueses, que era lo que necesitaba, parece que trató solo de que fuese considerado como un pueblo de conquista. Envió empleados ineptos que no pensaron más que en hacer negocio, como efectivamente lo hicieron, lo mismo que podrían haberle hecho en las Indias sin pasar  agua.
Esta fue la causa de que los habitantes de Olivenza estuvieran siempre esperando como no sé si lo están ahora, su restituición al Gobierno de Portugal, la venida del Rey D. Sebastian.  Además, he mandado en lo político en dos diferentes épocas a aquella provincia, y tengo conocimientos especiales de lo que há pasado en Olivenza.
   He visto que sus habitantes nos tratan como "castellanos" que es el nombre que dan a los espanõles como una marca de odio y rivalidad; y además de que esto consiste en cosas que todos conocemos, se fundan también en que habiendo hecho la injusticia, á Olivenza de conservarle todas las cargas que tenían impuestas por el Gobierno portugués, se le han hecho sufrir todos los abusos que sufren los pueblos españoles; uno de estos es obligarlos al pago de contribuciones que no pagan los demás pueblos de la monarquía
(4)En Olivenza se han destruido varios edificios y otras obras públicas que no se han podido reedificar; careciendo al presente de casa de municipalidad por falta de fondos.»(...)«Deputado Infante:sé como sus señorias el estado de ruina á que ha venido, y la prosperidad en que estaba en otro tiempo, aunque no debe olvidarse que en tiempo de la dominacion portuguesa su prosperidad consistia en que era el foco del contrabando que se introducia en  Estremadura, y habiendo ese desaparecido, ha desaparecido con él una de las causas de su prosperidad; sin embargo que tambien ha contribuido á ello el que ha sufrido muchos vejámenes; pero todo esto no es de la cuestion.»
(5)En 1801, el território extremeño se veria repentinamente aumentado con la importante ciudad de Olivenza - entonces tan grande y poblada como Badajoz (SIC) -, conquistada a Portugal en la llamada Guerra de las Naranjas por el próprio Godoy(...)

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Sobre Olivença...

Não gosto muito de citações de citações Mas vou abrir uma exceção para uma afirmação de Agostinho da Silva, que cito desde já: «“O grande defeito dos intelectuais portugueses tem sido sempre o só lidarem com intelectuais. Vão para o povo. Vejam o povo. Vejam como ele reflete, como ele entende a vida, como eles gostariam que a vida fosse para eles.” »
Aqui, rendo-me, pois isto vai de encontro ao que penso, e que tentei exprimir, e que tem, desde dezembro de 2014, uma nova acuidade. Por isso, volto ao assunto.
Assim reafirmo o que disse, e que começa com uma constatação: o de que elogiar a Lusofonia é politicamente correto.
Fá-lo qualquer intelectual português de forma automática. Delira em dissertações sobre o Português em Timor Leste. Medita sobre a sobrevivência de vocábulos e apelidos portugueses na Malásia (Malaca). Estremece com a referência a goeses que ainda sabem algo da língua de Camões. Ainda se deleitará com placas toponímicas com apelidos portugueses no Sri Lanka ( Ceilão )
Se tiver alguma coragem, referirá as afinidades entre o Português e o Galego. Se não falar duma língua única com dois dialetos, falará duma origem comum ou duma alma comum. Mas... aqui... nada de confusões políticas. A Galiza tem de ser tratada sem compromissos!
Poderá referir ruas de cidades dos Estados Unidos ou da Inglaterra onde se fala algum Português. Ou de vestígios de lusismos no Uruguay. Fica tão bem a um homem de cultura, consagrado, falar destas coisas!! Afinal, ele não é uma pessoas qualquer. É a elite moderna de Portugal, aberto, europeu, obediente a regras internacionais, algo crítica (talvez) em relação aos mercados desregulados que estão a destruir o mundo e até uma determinada ideia de Europa, mas... sem tocar em assuntos mais polémicos! Fica mal. Uma elite assim deve ser assética. Claro, gosta de receber prémios... ou de ler opiniões em que se diz que, se ainda os não recebeu, esse dia chegará!
Enchem-se páginas de fino recorte literário, como soe dizer-se, com dissertações sobre palavras soltas, almas, recordações lusitanas um pouco por toda a parte. Bonito, tudo isto. É História! É "chique"! Fica mesmo bem!! É uma cultura que "já deu quase tudo o que tinha a dar" (passe a vulgaridade), e que importa realçar. Afinal, ela até tem aspetos interessantes.
Mas, por favor, não se fale de Olivença. Muito menos da recuperação, por locais, de valores culturais e linguísticos (caso de 74 topónimos) portugueses para "aquelas bandas" (2011)! Desfaçatez suprema! Ao fim de duzentos anos, tal tipo de eventos assusta! Como é possível ressurgir uma cultura que foi duzentos anos reprimida? E logo... cultura portuguesa e alentejana? Um cultura que se diz que não tem valor, ou vigor (passe a rima involuntária), ou futuro! Que heresia!
Há ainda pior! Entre dezembro de 2014 e julho de 2015, mais de 200 oliventinos pediram e adquiriram a nacionalidade portuguesa. E há ainda pedidos pendentes, e novos pedidos, diários, a serem feitos!
Assustador! Ainda se se tratasse de um excêntrico que quisesse ser português lá para os Estados Unidos ou para China... Duzentos em Olivença, isso não cabe na cabeça de ninguém! E o número ameaça aumentar! E insistem em falar em Português! Além dos nomes das ruas, querem usar a língua coloquialmente! Horror supremo! Uma meia dúzia de palavras em Ormuz, ou nas Ilhas Hawai, ou entre holandeses descendentes de portugueses, fica bem, é uma curiosidade. Em Olivença, além de toda uma língua por inteiro, até se fala de pertença cultural... sempre viva... com força para renascer... com tanta força que se pede a nacionalidade...considerada um Direito! Isto não pode ser a sério! Ou é?
As elites não gostam de surpresas destas. Calam. Silenciam. Para que ninguém saiba.
Elites, isto? Não, não são. Pensam que são.

Carlos Eduardo da Cruz Luna

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

MANIFESTO (A PROPÓSITO DO MANIFESTO DE CELEBRAÇÃO DOS 800 ANOS DA LÍNGUA PORTUGUESA)

É notícia e é oficial. A Língua Portuguesa completa 800 anos (1214, testamento de Afonso II). E, nestes dias de Junho de 2014, surge um Manifesto que junta nomes vários da Lusofonia para assinalar o facto. Veio nos jornais, com pompa e circunstância. «O deputado José Ribeiro e Castro é um dos promotores do manifesto, que reúne "professores, autoridades, escritores, linguistas, cineastas, homens e mulheres da cultura», era um dos títulos. Repetido ou "adaptado", em quase todos os órgãos de comunicação. É a História de uma língua que tem os seus primórdios na Galiza, lá pelos séculos IX ou X; que passa a galaico-português nos séculos XI e XII (ainda hoje há quem defenda que o Galego e o Português são dialetos duma mesma língua); que se assume como própria nesse texto de 1214. Espalhou-se pelo território português, deixando apenas um pequeno espaço para o Mirandês (um dialeto ásture-leonês). Ganhou cada vez mais consistência e firmeza. Depois dos Séculos XV e XVI, ganhou projeção mundial. Hoje, tem mais de 240 milhões de falantes, incluindo um gigante (o Brasil). É língua mãe dos mais desvairados sentimentos e aspirações. Língua culta e popular. Celebrá-la é celebrar a forma de expressão de uma boa parte da humanidade. Já a têm dado como imprópria para alguns níveis de cultura. Alguns dos seus falantes preferem outros idiomas em simpósios internacionais (e até, o que é pior, nacionais!). Mas ela está aí. Evoluindo. Basta estar atento. Mas... nem sempre tem tido a atenção merecida. Veja-se o que sucede em Olivença. Sim, digo bem, Olivença. Aquela terra esquecida, conotada, quase sempre por preconceito, com as mais variadas orientações políticas, ou com aspirações fora de moda, de esquerda ou de direita. Na verdade, o Português foi sendo falado na região, e foi maioritário até às décadas de 1960 e mesmo 1970. Na de 1980, começou a perder terreno. Alguns intelectuais, ao longo dos séculos XIX e XX, preocuparam-se com tal, mas pouco conseguiram fazer, mesmo porque poucos os escutavam. Agora, a Língua Portuguesa faz 800 anos. E refere-se a sua capacidade de resistência e de adaptação. Mas (há sempre um "mas"), ninguém parece estar a dar-se conta de um fenómeno curioso. Em Olivença, pois então! Na verdade, desde março de 2008, círculos oliventinos, autóctones mesmo, mobilizaram-se. E começaram a lutar por uma língua e cultura que era a sua, e que resistia, apesar de parecer estar em perigo. Nascia o "Além Guadiana". Que, desde então, e evitando debruçar-se sobre problemáticas de soberania (que existem, mas são pouco relevantes para o caso), tem lutado pela cultura e língua da sua Região. Procura reafirmar-se como lusófono, e querer fazer parte desse espaço. Em 2008, 2009, e 2010, promoveu espetáculos/encontros a que chamou "Lusofonias", para os quais convidou intelectuais e órgãos de informação. Em 2011, a par de mais um encontro, conseguiu que fossem repostos os antigos nomes portugueses em 74 ruas de Olivença. O que, pasme-se, foi pouco noticiado. Atualmente, em Olivença, têm surgido casos de pedidos de nacionalidade portuguesa, referidos até na televisão portuguesa (22 e 24 de março de 2013). Sempre, sublinhe-se, sem intenções políticas ou controvérsias sobre soberania. O "Além Guadiana" pede apenas respeito e reconhecimento. Quer ajuda portuguesa desinteressada, para tentar fazer Olivença aproximar-se da situação linguística das décadas de 1950 e 1960. A 30 de maio de 2014, a Associação "Além Guadiana" apresentou, no pátio do velho castelo dionisino, o esboço de uma recolha de Português "oliventino". Inúmeros populares, incentivados, usaram da palavra, em Português, e apelou-se aos oliventinos em geral no sentido de usarem a sua língua no dia-a-dia. O próprio "alcalde" interveio, apoiando. Infelizmente, muitos convidados portugueses não apareceram, embora outros estivessem presentes. Não é possível, numa altura em que se celebram 800 anos de uma língua, ignorar este fenómeno de recuperação do Português em Olivença. Quem persistir nesta atitude estará a ser hipócrita. Ou a ser apenas "politicamente correto", o que, neste caso, vai dar ao mesmo....
 
CARLOS EDUARDO DA CRUZ LUNA

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A PROPÓSITO DO MANIFESTO DE CELEBRAÇÃO DOS 800 ANOS DA LÍNGUA PORTUGUESA



   É notícia e é oficial. A Língua Portuguesa completa 800 anos (1214, testamento de Afonso II). E, nestes dias de Junho de 2014, surge um Manifesto que junta nomes vários da Lusofonia para assinalar o facto. Veio nos jornais, com pompa e circunstância. «O deputado José Ribeiro e Castro é um dos promotores do manifesto, que reúne "professores, autoridades, escritores, linguistas, cineastas, homens e mulheres da cultura», era um dos títulos. Repetido ou "adaptado", em quase todos os órgãos de comunicação.
   É a História de uma língua que tem os seus primórdios na Galiza, lá pelos séculos IX ou X; que passa a galaico-português nos séculos XI e XII (ainda hoje há quem defenda que o Galego e o Português são dialetos duma mesma língua); que se assume como própria nesse texto de 1214.
   Espalhou-se pelo território português, deixando qpenas um pequeno espaço para o Mirandês (um dialeto ásture-leonês). Ganhou cada vez mais consistência e firmeza. Depois dos Séculos XV e XVI, ganhou projeção mundial. Hoje, tem mais de 240 milhões de falantes, incluindo um gigante (o Brasil).
   É língua mãe dos mais desvairados sentimentos e aspirações. Língua culta e popular. Celebrá-la é celebrar a forma de expressão de uma boa parte da humanidade.
   Já a têm dado como imprópria para alguns níveis de cultura. Alguns dos seus falantes preferem outros idiomas em simpósios internacionais (e até, o que é pior, nacionais!). Mas ela está aí. Evoluindo. Basta estar atento.
   Mas... nem sempre tem tido a atenção merecida. Veja-se o que sucede em Olivença. Sim, digo bem, Olivença. Aquela terra esquecida, conotada, quase sempre por preconceito, com as mais variadas orientações políticas, ou com aspirações fora de moda, de esquerda ou de direita.
   Na verdade, o Português foi sendo falado na região, e foi maioritário até às décadas de 1960 e mesmo 1970. Na de 1980, começou a perder terreno. Alguns intelectuais, ao longo dos séculos XIX e XX, preocuparam-se com tal, mas pouco conseguiram fazer, mesmo porque poucos os escutavam.
   Agora, a Língua Portuguesa faz 800 anos. E refere-se a sua capacidade de resistência e de adaptação. Mas (há sempre um "mas"), ninguém parece estr a dar-se conta de um fenómeno curioso. Em Olivença, pois então!
   Na verdade, desde março de 2008, círculos oliventinos, autóctones mesmo, mobilizaram-se. E começaram a lutar por uma língua e cultura que era a sua, e que resistia, apesar de parecer estar em perigo. Nascia o "Além Guadiana". Que, desde então, e evitando debruçar-se sobre problemáticas de soberania (que existem, mas são pouco relevantes para o caso), tem lutado pela cultura e língua da sua Região. Procura reafirmar-se como lusófono, e querer fazer parte desse espaço.
   Em 2008, 2009, e 2010, promoveu espetáculos/encontros a que chamou "Lusofonias", para os quais convidou intelectuais e órgãos de informação. Em 2011, a par de mais um encontro, conseguiu que fossem repostos os antigos nomes portugueses em 74 ruas de Olivença. O que, pasme-se, foi pouco noticiado.
   Atualmente, em Olivença, têm surgido casos de pedidos de nacionalidade portuguesa, referidos até na televisão portuguesa (22 e 24 de março de 2013). Sempre, sublinhe-se, sem intenções políticas ou controvérsias sobre soberania. O "Além Guadiana" pede apenas respeito e reconhecimento. Quer ajuda portuguesa desinteressada, para tentar fazer Olivença aproximar-se da situação linguística das décadas de 1950 e 1960.
   A 30 de maio de 2014, a Associação "Além Guadiana" apresentou, no pátio do velho castelo dionisino, o esboço de uma recolha de Português "oliventino". Inúmeros populares, incentivados, usaram da palavra, em Português, e apelou-se aos oliventinos em geral no sentido de usarem a sua língua no dia-a-dia. O próprio "alcalde" interveio, apoiando. Infelizmente, muitos convidados portugueses não apareceram, embora outros estivessem presentes.
   Não é possível, numa altura em que se celebram 800 anos de uma língua, ignorar este fenómeno de recuperação do Português em Olivença. Quem persistir nesta atitude estará a ser hipócrita. Ou a ser apenas "politicamente correto", o que, neste caso, vai dar ao mesmo....

Estremoz, 14 de junho de 2014
CARLOS EDUARDO DA CRUZ LUNA