domingo, 12 de agosto de 2012

De Agostinho: "uma visão política inteiramente nova"


“Disperso Império”[1]

Muitos países de podem conter dentro de si próprios sem maior inconveniente e de alguns deles se poderia talvez dizer que devem a existência e alguma originalidade que ainda podem ter ao facto de, digamos assim, serem puramente internos; outros, porém, têm não só como uma espécie de necessidade vital mas ainda como uma espécie de imperativa missão o projectarem-se para além de si próprios, emigrando ou individual ou colectivamente; para representar o primeiro tipo de agrupamentos poria, por exemplo, a Suiça, para representar o segundo os portugueses e, dentro do Brasil, país bastante vasto para movimentos internos, os nordestinos. E é exactamente por isso, entre outras coisas, que está errado todo o pensamento político ou de administração que tenda a fazer de Portugal um terra tão notável para turistas como a Dinamarca: português não nasceu para ser bem comportado e para, pacientemente, acumular os ganhos da terra; nasceu para ser perdulário e desvendar horizontes; e o que se quer é transformar marinheiros em contadores.
Qualquer ideia de que, entre as gentes de fala portuguesa, o importante é a motrópole é uma ideia inteiramente errada e que demonstra, logo de início, uma nula compreensão do fenómeno português; com todas as peculiaridades que o distinguem da Europa e, dentro da Península, das outras nações, Portugal não nasceu para ter vida própria, nasceu para se dedicar à dos outros e só daí poderia tirar sua profunda razão de vida, sua justificação histórica e o pleno cumprimento de sua missão: se houvesse uma ordem franciscana de nações, Portugal deveria entrar para ela, casando-se com uma voluntária pobreza, para que outros pudessem igualmente satisfazer os anseios de sua individualidade; como, porém, não há, a sua obrigação é de a fundar; não a de ter como ideal o viver bem, o que, além de tudo, significa apenas, na maior parte das vezes, mostrar aos visitantes endinheirados boas estradas e bons hotéis.
Portugal continental se deve contentar com aquele nível de vida que seja suficiente para enviar emigrantes a todo o continente e cumprir por eles a sua obrigação missionária de um mundo novo. É, no entanto, inteiramente necessário que esses emigrantes não possam ser nunca dominadores: que se não possam nunca apresentar como uma raça superior que desce a educar as inferiores ou a fornecer-lhes funcionários superiores, coisa de que já tivemos bastante exemplo com o sistema de colonização de ingleses ou holandeses. Cada português, e Portugal no seu conjunto, tem de sair do país tão pobre, e sobretudo tão humilde, tão pobre de espírito, como os frades que partiam nos navios da descoberta e fundavam aquelas missões que eram verdadeiramente de ajuda e conversão e se não transformavam com o tempo em empresas comerciais altamente rendosas. O português que sai como emigrante em que ser educado para servir, não para mandar; para ajudar, não para governar: para promover o Reino de Deus, não para o impedir.
E é aí que se necessitava de uma visão política inteiramente nova (...).


[1] In O Estado de S. Paulo, S. Paulo, 13/10/1957.

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