sexta-feira, 23 de julho de 2010

Lira Insubmissa, Carta




Vigésimo Fragmento

160 - Antes, aquele que procurava as chaves para as portas prisionais dos Construtores-do-Mundo, tinha de enfrentar o Minotauro da moral. Hoje, a besta compulsiva não se esconde sob a forma da moral, foi a moral que se foi esconder sob a forma do desejo, e não sabemos quem atingir.

161 - A televisão é uma mordaça. Em Portugal, temos quatro canais de televisão, cada um dorme cerca de quatro horas por dia – e podem ser equiparados a quatro testemunhas. As quatro testemunhas, calam Portugal inteiro, e escolhem as vozes de todos os outros países.

162 - Confunde-se pensar com a atracção ignorante por símbolos.

163 - A revolução torna-se num acto interior, acontecida durante a Noite. Golpeia-se os símbolos e os sonhos, disseca-se os desejos, depois a alma revela a sua própria utopia. Toda a revolução que não seja sozinha, é parte da contra-revolução.

164 - Não acredito em nada que uma mulher faça. Mas tudo o que faz, para o prazer ou para o desprazer, é belo. Todas as crenças são feridas eróticas. Todo esse sexo é estranho. Contra o sexo, o prazer de existir.

165 - A elite está podre e a apodrecer. O povo dorme e adormece. As coisas simples continuam a ser um incêndio. Não há revolução fora da simplicidade, nem dentro do sono.

166 - O simbolismo, cansado do formalismo objectivo, e inspirado pelo misticismo do Oriente, com o seu tempero decadentista, procura, como Mallarmé e a sua Grande Obra, descortinar orficamente o mundo. A maneira mais fácil de combater esta iniciativa é pela objectiva fotografia: pela reprodução. Foi aqui que toda a arte de intervenção vertical se tornou política horizontal.

167 - “Um governo, um povo, um território.” O Estado não existe. Um dia, o Estado existirá, será uma confraria secreta por se reunir longe do alcance dos mídia (aquele que está no meio), longe daquilo que não existe.

168 - A New Age é uma forma do turismo (viajar sem descobrir) ocupar até o próprio reino do espírito.


André Consciência

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