quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Visões portuguesas do Brasil (IV)

 

Uma das obras de referência de Sampaio Bruno teve o sugestivo título de O Brasil Mental (1898) e, nela, procurou o nosso filósofo-hermeneuta reconstituir a “acção extraordinária do positivismo sobre a mentalidade brasileira”, denunciando que, na sua versão mais radical (“jacobina”), esse positivismo consubstanciou-se como “expressão do ódio ao português”, dado o seu alegado carácter estrangeirado – ainda nas suas palavras: “As considerações preliminares, e incontestáveis, justificam, em cheio, o programa deste volume. Com efeito, a inspecção duma doutrina resulta, por completo, utilitária, visto como toda a doutrina seja tendencialmente um acto. No Brasil se exibe o exemplo integralista da objectivação de semelhante afirmativa. Uma corrente mental concretizou em instituições políticas; e o republicanismo fluminense é a simples aplicação do positivismo parisiense (…)”.

Ainda segundo Álvaro Ribeiro, ao denunciar o positivismo brasileiro como mero decalque do positivismo parisiense, Sampaio Bruno procurou também denunciar a estrangeirização do pensamento português – como escreveu na sua obra Os Positivistas: “Depois de estudar em Os Modernos Publicistas Portugueses a acção e a influência da geração das Conferências do Casino, a doutrinação de Proudhon e as outras correntes socialistas, de que fará a crítica ao longo de outras obras, Sampaio Bruno dedica especialmente à análise crítica do positivismo o livro intitulado O Brasil Mental. É fácil ao leitor atento verificar que Sampaio Bruno, ao escrever tão longa crítica, tem sobre o atril os livros de Teófilo Braga, de Teixeira Bastos e os números da revista dirigida por Júlio de Matos. Se escolheu para objectivo da sua exposição a expressão brasileira do positivismo laffitista, fê-lo por aquela atitude de delicadeza, tão rara entre nós, de não ferir directamente os positivistas portugueses, seus amigos e compartidários”.

Como acrescenta ainda, em remate: “Não queremos com isto dizer que escolhesse os escritores brasileiros para vítimas de expiação dos males que afligiam a cultura portuguesa, nem significa sequer menos apreço pela cultura brasileira, de que era sério estudioso. Ao criticar o positivismo de Benjamim Constant, Óscar de Araújo, Teixeira Mendes, Miguel de Lemos, Luís Barreto, e outros mais, Sampaio Bruno prosseguiu um fito de muito mais alta dignidade e valia. O pensador português pretendia mostrar que foi um engano para a nação brasileira subordinar-se à cultura francesa (positivistas) ou à cultura alemão (materialistas), em vez de manifestar independência de pensamento e exprimi-la em amigável diálogo filosófico de aquém-e-além Atlântico”. Ou seja, em suma: para Sampaio Bruno, o Brasil e Portugal, no século XIX, deixaram que o seu pensamento filosófico se fosse descaracterizando por correntes poucos ou nada afins com a nossa língua, cultura e história; o que, fatalmente, levou a um progressivo afastamento mútuo.


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