quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Visões portuguesas do Brasil (III)

 

O quarto desses textos intitula-se “Perspectivas” e resulta da comunicação apresentada em 31 de Maio de 1968 à reunião conjunta da Academia Internacional da Cultura Portuguesa e do Conselho Geral da União das Comunidades da Cultura Portuguesa. Nele, na esteira dos textos anteriores, chega inclusivamente, Agostinho da Silva, a prefigurar a dissolução de Portugal na República Federativa do Brasil, o que, no na sua perspectiva, “não significaria que Portugal estava alienando a sua independência, mas que estava ajudando o Brasil, que é o melhor de si mesmo, a alargar-se no mundo, dando-lhe um desembarque na Europa”. Este gesto, como salientava na altura, “poderia levar a Guiné, Moçambique e Angola a ligarem-se ao Brasil; poderia levar [ainda] a uma revisão do estatuto de Goa e a encontrar solução para o problema de Macau e Timor”.

O quinto e último desses textos, sem título, foi publicado no periódico Notícia, em 1971. Nele, reitera-nos, Agostinho, a sua peculiar visão do Brasil – nas suas palavras: “…se ainda estivéssemos em tempo de impérios se poderia, desde agora mesmo, ver Brasília como a futura capital do mundo; como não estamos, [que] a vejamos apenas como o símbolo daquela Paz que talvez Portugal pudesse ter estabelecido a partir do século XVI se não tivesse cedido a Maquiavel, apesar de tanto protesto de seus melhores homens, e não tivesse acreditado em que os meios podem ser de natureza diferente dos fins que se querem atingir: a Paz falhou porque, para a ela chegarmos, nos confiámos iludidos aos demónios da guerra. Que oxalá no Brasil, exorcismados [sic], morram.”. Uma vez mais, defende pois Agostinho que Portugal se cumprirá no Brasil. Ainda nas suas palavras, “o Brasil será o Portugal que não se realizou”. De tal forma que, como escreveu enfim, “o Brasil é Portugal, não irmão ou filho de Portugal, mas Portugal mesmo”. Eis, em suma, a sua visão do Brasil.

*

Sampaio Bruno – nome literário de José Pereira de Sampaio (1857-1915) – foi, decerto, uma das figuras matriciais do pensamento português contemporâneo. Álvaro Ribeiro chegou inclusivamente a considerá-lo como “o fundador da filosofia portuguesa” – o “fundador”, não o “criador”, como fez questão de ressalvar: “Ao dizermos que o ilustre pensador de A Ideia de Deus foi o fundador da filosofia portuguesa, aludimos à precisa acepção de fundamento, extraída da terminologia da arquitectura civil. Fundar e fundamentar são verbos análogos em plano inferior de imaginação. Longe de nós o intuito de afirmar que foi Sampaio Bruno o criador da filosofia portuguesa, porque não confundimos o pensamento com a palavra interior e exterior que encarna e corporiza. Afirmamos, sim, que devemos a Sampaio Bruno o descobrimento das características da filosofia portuguesa, pela distinção entre filosofia (étnica) e filosofia internacional (escolástica), e as obras da nossa arte de filosofar.”.


Sem comentários:

Enviar um comentário

CARO/A VISITANTE, CONTRIBUA NESTA DEMANDA. ACEITAREMOS TODOS OS COMENTÁRIOS, EXCEPTO
OS QUE EXCEDAM OS LIMITES DA CIVILIDADE.

ABRAÇO MIL.