segunda-feira, 20 de abril de 2020

"Covid–19 e as crianças", por Rodrigo Sobral Cunha

A doença do vírus coroado, assim designada, adquiriu um élan impossível a qualquer outra época em que fosse conhecido o simbolismo da coroa. O círculo solar da iluminação da inteligência, incompreendido há muito, foi deste modo adaptado à designação das proteicas espigas que envolvem as microesferas virais que aparecem nos microscópios e deste modo parece que o vírus foi emancipado de uma designativa obscura do tipo «peste negra», mantendo-se com elegância conceptual num quadro iluminista, aparecendo talvez como um «déspota absoluto» já que, para já, ninguém o consegue controlar.
Como de hábito, a moderna linguagem científica recorre a metáforas pertencentes a outros universos de referência, exibindo deste modo a sua própria indigência criativa (é assim que a física newtoniana fala de «inércia», ou seja «falta de arte», ou que a física einsteiniana fala, sem ironia, de «campo», ou que a biologia anglo-saxónica refere um pequeno lagarto que corre sobre as águas como «Jesus Christ lizard», ou que a psicologia alemã refere um «complexo de Édipo»).
Mas por muito que se queira colocar este «novo» (hipermoderno) vírus sob o foco emancipado das «luzes», as «trevas» teimam em reaparecer à mentalidade luminescente sob a forma obscura e ancestral do morcego portador. Bem longe dos caminhos da luz, um ente da noite descarrega sobre os humanos que tiveram a insídia de o devorar a mais terrível das vinganças: projecta em larga escala um espectro negativo do próprio homo modernus e da sociedade de consumo como mundus infernalis na versão de uma pandemia que consome os pulmões humanos à semelhança do consumo humano dos pulmões da Terra. A redondeza viva do planeta é arrasada pelo homem aos olhos de todos os viventes, ao passo que a única coisa que o Covid-19 faz (que saibamos) é replicar-se nos brônquios humanos, que oscilam entre a travessia assintomática do processo e a indescritível agonia. Como se sabe, não é apenas a esta última que entregamos, nós os homens, o destino de uma grande parte dos viventes do planeta, mas à radical extinção.
Porém, o vírus não se limita a propiciar-nos uma imagem do homo modernus em espelho negativo.
A metáfora da «guerra» («estamos em guerra contra este inimigo traiçoeiro», ouviu-se nos quatro cantos do mundo humano) torna-se insignificante e desaparece como a areia na mão e o nano-inimigo nem comparece no campo de batalha dos nossos pobres sentidos, limita-se a reproduzir-se sempre que encontra um hospedeiro (daí que se discuta se é uma forma de vida). A bem do conhecimento microbiológico, os hospedeiros do Covid-19 deslocam-se em teletransportes por todo o planeta, oferecendo-nos o espectáculo singular do primeiro televírus do mundo, tão rápido como um avião a jacto, tão imponente como um porta-aviões, tão luxuoso como um cruzeiro transatlântico. De súbito, parece que uma pandemia só se pode propagar sobre outra. A biomedicina ergue impotente as mãos ao ar: não há vacina (para já) e o facto de o vírus poupar as crianças impede o regresso das pragas veto-testamentárias (para já). Para onde nos havemos de voltar? Só resta a fuga.
Por ínvios caminhos, o sapiens sapiens (assim duas vezes!) é forçado à reclusão e à imobilidade estratégica para escapar ao alcance da invasão silenciosa. Fecha-se então nesse lugar a que chama «casa». «Reclusão» e «imobilidade», «regresso a casa», indiciarão talvez que este homem vai regressar ao essencial, talvez até ascender à vida interior, transfigurar-se no melhor de si, ou é simples estratégia de biodefesa, sem mais?
Eis que sucede o inesperado: a superfície da terra, em poucos dias liberta do mortal dióxido de carbono da respiração tecnocientífica, exibe por momentos a magnificência dos seus relevos e cromatismos, as árvores respiram em paz, nas cidades escutam-se as aves e podemos ouvir os nossos passos, por instantes voltamos a ver o fundo dos canais de Veneza e até os peixes, incrédulos, visitam a Cidade de Vénus! O mundo está vivo. A imunologia da Terra permanece por conhecer.
Covid-19 versus CO2: quem ganhará o combate mortal?
E chegados aqui devemos confessar, não sem amargura, que é muito menos o gosto de qualquer paradoxo, do que a esperança sempre por desiludir que nos moveu a este desabafo, pois esforçamo-nos por entrever na desgraça a possibilidade, nunca extinta, de uma outra graça que os homens teimam em não deixar vir. Essa mesma que podemos apreciar nos olhos brilhantes das crianças de quem somos os descendentes esquecidos. 

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