quinta-feira, 12 de março de 2020

O Futuro tem um Passado


Se a política requer, continuamente, à sociedade, mudanças de comportamento, fica também clara para a sociedade a necessidade de construir uma renovação dentro do próprio sistema político.
Se a iniciativa política solicita mudanças de comportamento à sociedade, a sociedade clama, por sua vez, por profundos câmbios no modo político.
Ao ganharmos perspetiva histórica sabemos que as épocas fazem prescrever, renovar ou criar diferentes entendimentos. Porém, a natureza humana não mudou muito nos últimos 2500 anos...
Mais recentemente, somos herdeiros das grandes polémicas da modernização ao longo do século XVIII e das alternativas dramáticas que então se puseram no século XIX, somos herdeiros do triunfo do positivismo na sua expressão política. Desde o século XIX ainda coexiste uma ideia mítica de Europa, a Europa de Prometeu, a Europa Cristã, a Europa Centro do Mundo.              
Necessário, pois, se torna remontar a alguns dos preconceitos políticos mais prejudiciais, que têm impedido até a própria discussão ao nível da representação política.
O primeiro preconceito é determinista e historicista. Defendem algumas ideologias que a história tem um motor independente da ação humana pessoal, e com o autoritarismo e a violência  operaram ruturas para impor uma ordem ideológica, pela força e pela demagogia, apresentando-se como síntese de um  processo histórico, última eminência da expressão social. O golpe Republicano de 5 de Outubro de 1910 em Portugal é disto exemplo, pois havia mais liberdade de expressão e uma democracia mais ampla em comparação com o novo regime republicano e, no entanto, a ideologia republicana seria o determinado futuro para a humanidade... Apesar de hoje os países que apresentam melhores índices de bem estar serem monárquicos.
O segundo preconceito está na relação que se estabelece entre a noção de progresso e modernização com uma ideologia ou com uma forma política. Sempre promoveu-se no passado político o desenvolvimento social (pelo aumento da literacia, da mobilidade social, da empregabilidade e do tratamento da doença) pelas monarquias, sem exceção, independentemente das tendências  ideológicas do seu contexto, humanista e empirista, absolutista ou liberal, como pelo regime republicano. A finalidade política centra-se no desenvolvimento social, privilegiando algumas funções sociais, mas não se pode confundir o esforço de desenvolvimento social com uma forma de regime, mas, sim, com a participação cívica que o regime permite.
Os positivistas, fossem os então republicanos e todos os progressivistas do século XIX, pensavam que o progresso seria inelutável. Nós sabemos, depois das guerras mundiais do século XX e do Holocausto, que não é assim.
Contrário ao pluralismo das ideias e à representação plural das sociedades, o progressivismo fecha a história numa única enformação ideológica, e sucede ser ele mesmo inviabilizador de novos paradigmas.
A humanidade não é um dado concreto imediato. É uma conquista dos humanos que participam no processo e na aventura de ser no tempo e nas suas comunidades e sociedades.         A modernização gerou as principais dinâmicas do mundo contemporâneo, mas não tem por que comportar a ideia radical da contenda e da rutura com o passado. Aliás, a maior parte das nossas instituições democráticas, de assistência social,  de ensino e ciência, de saúde, de cultura, ou foram fundadas durante monarquia constitucional ou assentam naquelas fundações, assim como o movimento associativo teve em vários períodos históricos desempenhos sociais e políticos imprescindíveis, sobretudo nos centros urbanos, verificando-se, em períodos de convulsões, a enorme expansão de associações de variadas tipologias.
A Constituição, o Parlamento, a Democracia, as Escolas, as Universidade, os Tribunais, os Seguros, as Misericórdias, os Hospitais, os Teatros, mas também o ensino obrigatório, as estradas, a imprensa, o telégrafo, os comboios, a luz elétrica, a livre expressão e a circulação de ideias, são acolhimentos e promoções de um regime atuante e acolhedor do sentido de desenvolvimento social, traço que sempre pode confirmar-se pelas instituições criadas tanto no antigo como no novo regime, antes e a partir de 1822, em consonância com as inquietações de época e com as dinâmicas europeias.
A introdução de novas técnicas, produções e saberes, a alteração relativa a estilos de vida com melhor saúde, higiene e projetos de vida em aberto - a mobilidade social, o aumento da literacia, são produtos da ação humana, sobretudo orientadas a partir de instituições... a mobilidade social não é uma inevitabilidade.
As ideologias que cindem o passado do futuro serviram de suporte a uma abordagem revolucionária que muitos e maus frutos deu, em sofrimento e perda de vidas humanas.
A tentação de reduzir a complexidade da nossa vivência social a uma equação simples sempre produziu enormes males. As dificuldades de representação política do presente, resultam sobretudo do discurso economicista, sempre otimista, discurso que não tem conseguido ser suportado na prática. O otimismo político gera sempre mais dívida para as famílias e, finalmente, o aniquilamento de sua autonomia e de seu potencial de desenvolvimento humano.
As circunstâncias atuais apelam a um vigor do campo do político para o primeiro plano, com especial foco num discurso com perspetiva histórica, isto é, com perspetiva temporal profunda, onde sempre podemos encontrar maior claridade sobre os objetivos, o funcionamento das instituições, com uma instância que concite e evidencie consensos democráticos e estratégicos.        
A sociedade clama forte como um grito, por um profundo câmbio político, onde se recupere a consideração e a confiança nos atores institucionais. 

Pedro Furtado Correia
Maria Fernanda Carvalho Afonso

1 comentário:

  1. Todas as eventuais boas intenções e boas ideias deste texto são praticamente invalidadas pela sua utilização do AO90, exemplo máximo de uma certa perversidade do progressismo (e elemento fundamental do autoritarismo anti-histórico do republicanismo português) que supostamente se queria denunciar.

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