sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Também no jornal Público: "Um outro olhar sobre Angola"


Andam mil e uma vozes a clamar contra a nossa “elite” político-económica por causa dos negócios com Isabel dos Santos, mas, por uma vez, a nossa “elite” (mantenhamos as aspas) está relativamente inocente.
Se não, vejamos, sem qualquer cinismo: Isabel dos Santos é, como se sabe, filha de José Eduardo dos Santos, até há pouco tempo o omnipotente Presidente de Angola; durante todo esse tempo, Isabel dos Santos foi, por isso, muito mais do que uma Embaixadora; foi a máxima representante político-económica do Presidente de Angola, o mesmo é dizer, do MPLA, o mesmo é dizer, do próprio regime angolano.
Face a essa condição de Isabel dos Santos, fechar-lhe a porta na cara seria de um paternalismo intolerável. Sim, em privado, até poderíamos – e deveríamos – pensar que o “seu” dinheiro era suspeito. Mas, tendo o aval do próprio regime angolano, como o dizer em público? Como lho dizer cara a cara, sem com isso afrontar a soberania de Angola?
Se algum “pecado” cometeu a nossa “elite” político-económica, foi apenas o “pecado original”. Sim, falamos do modo como se processou a “descolonização exemplar”. Alegadamente em nome da liberdade, Portugal permitiu (para dizer o mínimo) regimes de partido único em todos os países que descolonizou. A partir daí, deu-se o inevitável: a apropriação estatal dos meios de produção acabou por beneficiar a elite dirigente. Angola foi apenas mais um exemplo – ainda que, reconheçamo-lo, um exemplo particularmente extremado.
Mas, face a isso, pouco mais haveria a fazer. A história não é um jogo de computador – não se pode voltar atrás e recomeçar de novo até acertamos na melhor opção. Após esse “pecado original”, reiteramo-lo, não nos cabia desqualificar os representantes políticos e económicos de Angola. Só o próprio regime angolano o poderia fazer, como agora o fez, relativamente a Isabel dos Santos. Por isso, também só agora a nossa “elite” político-económica pode, enfim, fechar-lhe a porta na cara, sem que esse gesto constitua qualquer afronta a Angola.
Renato Epifânio
Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono


2 comentários:

  1. Se Isabel dos Santos não tivesse investigado e revelado o modo obscuro como se fazia a venda do petróleo da Sonangol antes de assumir a gestão da empresa nada disto lhe estaria a acontecer.
    Quanto à gigantesca máquina posta em marcha para a apontarem como culpada, isso revela bem o risco que houve e ainda há de se vir a conhecer a verdade.
    Independentemente de um ou outro facto que possa ser a ela imputado, isso não é nada comparado com as práticas que havia naquela empresa antes da sua tomada de posse como gestora.

    Paulo Almeida.

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  2. Estimado Renato,

    nunca deixo de ler os artigos publicados, que guardo na memória acrescentado mais outros pensamentos de opinião.
    Obrigado pelas valiosas opiniões dentro do tempo.

    Sem dúvida que na política cabe tudo ainda que não prevista tanta ganância ao lado de tanta pobreza.

    " e as crianças Senhor,
    porque lhes dá tanta dor,
    porque padecem assim"

    Abraço fraterno

    Luisa Timóteo

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