segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Entre a Grécia e a Ibéria


Já foi mil e uma vezes assinalado o fascínio de Sophia de Mello Breyner pela Grécia (pela “Grécia antiga”, obviamente), que, de resto, avulta, de forma expressa, em muitos dos seus poemas. Recordemos aqui apenas três:

Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela
Ao olhar sem fim o sucessivo
Inchar e desabar da vaga
A bela curva luzidia do seu dorso
O longo espraiar das mãos de espuma

Por isso nos museus da Grécia antiga
Olhando estátuas frisos e colunas
Sempre me aclaro mais leve e mais viva
E respiro melhor como na praia

(…)

No Golfo de Corinto
A respiração dos deuses é visível:
É um arco um halo uma nuvem
Em redor das montanhas e das ilhas
Como um céu mais intenso e deslumbrado

E também o cheiro dos deuses invade as estradas
É um cheiro a resina a mel e a fruta
Onde se desenham grandes corpos lisos e brilhantes
Sem dor sem suor sem pranto
Sem a menor ruga de tempo

E uma luz cor de amora no poente se espalha
É o sangue dos deuses imortal e secreto
Que se une ao nosso sangue e com ele batalha

(…)

Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta

Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta



Como é assaz visível nestes poemas, esse fascínio pela Grécia confunde-se, em Sophia, com o fascínio pela luz, pela luz plena, pela luz sem sombra, pela “pura manhã da imanência”. A este respeito, não pode deixar de se assinalar um pelo menos aparente contraste com as visões de Teixeira de Pascoaes e de José Marinho. Daí, no caso de Pascoaes, a sua imagem da Ibéria como o “túmulo do Sol” contraposta à imagem da Grécia como o “berço solar”, daí a sua afirmação de que “o génio ibérico foi sempre anti-helenista, duma originalidade selvática aprofundada pelas sombras do Crepúsculo”, do “crepúsculo eterno da Ocidental Praia Lusitana”, daí o ter-nos dito ainda que “o português é um ser indefinido”, que “ignora o limite das coisas”, não podendo ter por isso “um conceito claro da existência”, mas “uma concepção nublosa sentimental” – de acordo, aliás, com a nossa própria “Deusa atlântica”, também ela “sentimental e enevoada”, ao contrário da “Deusa mediterrânea”, e do sentido do “limite divinizado pelos romanos, o povo mais anti-infinito que existiu”.
Tal como o autor do Regresso ao Paraíso, também José Marinho contrapõe a nossa mundividência à mundividência helénica. Daí, desde logo, o ter dito, a respeito de Sampaio Bruno, que “não se liga a meditação do nosso estranho pensador aos raios do claro Apolo, à gloriosa e triunfante verdade de Zeus”, mas à “luz que emerge da grande sombra ou noite originária”, mas ao “astro de Saturno que emerge da Noite remotíssima” – não estivesse “o segredo de tudo quanto os olhos supõem ver e as mãos iludem tocar no mais remoto e invisível”, “no invisível obscuro”. Daí ainda o ter falado, a respeito do autor d’ A Ideia de Deus e de todos os outros pensadores portugueses mais significativos, de “uma família de espíritos da mais remota ascendência: a daqueles cuja inspiração mítica, cujo logos formador não está no radioso Apolo, na clara luz solar, mas no divino oculto, nas constelações invisíveis”, contrapondo-os aos “nada sábios mas astutos fiéis de Zeus”.
Daí ainda, enfim, a caracterização que José Marinho faz de todos os habitantes desse dito “país do sol poente”, ou do “sol posto” – como “povo do crepúsculo”, não fosse, afinal, esse o povo dos “tardios filhos da Grécia e do Cristianismo”, dos “extremos e incertos filhos da latinidade e do cristianismo nas terras do sol-posto”, ou, mais simplesmente, dos “filhos da latinidade do sol posto”, dos “latinos estremados” –, caracterização essa que privilegiadamente restringe ao povo português, que chegou a qualificar como – palavras suas – “povo extremo da Ibéria, povo extremo, cabe longamente pensá-lo, não da Europa mas da Eurásia, povo que recusa por igual, num sentido, a contraposição de Apolo e Dioniso, e, noutro sentido, a mística absorta ou o grandioso drama humanizado, mas sem saída, de D. Quixote e Sancho Pança”. Esporadicamente, porém, estende Marinho essa caracterização a todos os habitantes da “Hispânia” (ou, se preferirem, da Ibéria). Daí, a título de exemplo, o ter chegado a afirmar que “constituímos na Europa uma autêntica península no sentido espiritual e mais pleno do termo”.

1 comentário:


  1. Muito bem,

    Citando do texto "Daí, a título de exemplo, o ter chegado a afirmar que “constituímos na Europa uma autêntica península no sentido espiritual e mais pleno do termo”.

    Abraço fraterno
    Luisa Timóteo

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