quinta-feira, 14 de novembro de 2019

De Pinharanda Gomes, sobre José de Arriaga...


No ano da morte de Pinharanda Gomes (16.07.1939-27.07.2019), pareceu-nos particularmente pertinente recuperar um texto seu: falamos, em concreto, do seu Prefácio a uma edição de uma obra de José de Arriaga, ou, mais exactamente, de um excerto de uma obra sua: História da Revolução Portuguesa de 1820. O excerto corresponde ao Capítulo III do Livro II do Volume I da obra, intitulado “Movimento Intelectual”, e publicado, em separado, sob o título de “A filosofia portuguesa: 1720-182” (Guimarães Editores, 1980). Fazemo-lo aqui em dupla Homenagem: a Pinharanda Gomes e ao próprio José de Arriaga, ilustre irmão de Manuel de Arriaga, o primeiro Presidente eleito da República Portuguesa.
Nesse seu Prefácio, começa Pinharanda Gomes por assinalar o quanto o consulado pombalino “bipolarizou o país e decidiu, ou cindiu em duas metades, a tradição portuguesa”, levando à “coexistência de duas nações no mesmo estado – os portugueses velhos e os portugueses novos”, sendo que, “em 1820, a dualidade estabelecia-se entre ‘católicos’ e ‘mações’” (p. 7). Ainda nas suas palavras: “a revolução de 1820, longe de contribuir para a harmonização do contexto, cavou, por falta de uma convergência opinativa substante, o fosso pré-existente” (p. 8).
Depois, após fazer uma breve apresentação de José de Arriaga (pp. 8-10), salientando o quão a sua obra se norteia pelos “valores do pensamento” e não pela mera “ideologia”, faz o elogio da obra História da Revolução Portuguesa de 1820: “Constitui um estudo sobre as bases da revolução liberal, numa visão planetária, que interroga, em plano simultâneo, os elementos sociais, a conjuntura política, o confronto dos interesses e, sobretudo, a polémica das ideias, tudo isto cifrado no entendimento de que o país estava dividido, e decadente, desde o reinado de D. Manuel I” (p. 10). Essa “visão planetária” decorre da sua percepção de que o que aconteceu no Portugal da época se explica também, senão sobretudo, pelas “pressões culturais exteriores”.
Em particular, pelas “duas pressões culturais exteriores: a inglesa, que prevaleceu até 1820, e a francesa, que se infiltrou depois de 1820, porque os emigrantes políticos vieram, no regresso, ‘cheios de ideias francesas’./ França e Inglaterra são, para o historiador, duas matrizes, ou duas plataformas de recurso, para as tendências filosóficas e culturais portuguesas. A França é o espaço da abstracção, da fina razão, do mecanicismo cartesiano. A Inglaterra é o trilho do realismo biológico, da teoria apostada à efectividade da prática, do empirismo orgânico. Por isso que, em obediência aos trâmites do apogeu português, a Inglaterra respondia melhor aos projectos do pensamento português, ou, conforme Arriaga prefere dizer, da ‘filosofia portuguesa’” (p. 11).
Eis, ainda segundo Pinharanda Gomes, o natural destino de “um pensamento que deviera invertebrado e, logo, submisso, a todas as modernidades que viessem de longe”, acrescentando: “A metafísica alemã, o racionalismo francês e o realismo inglês disputaram, em múltiplas instâncias, obras e datas, a predominância, mas, no parecer de Arriaga, a linha que assinalou o ideário de 1820 foi a inglesa, com prejuízo da francesa”. Em abono da sua tese, refere Arriaga diversos factores, “designadamente a influência maçónica e a evidente anglofilia daqueles portugueses que, no Brasil, ou de lá, com passagem por Inglaterra, abriam a mente à filosofia e, sobretudo, à ciência e à economia política inglesas” (p. 12).
Como ressalva, porém: “Com tudo isso, Arriaga não pretende deduzir que a revolução de 1820 tivesse sido um acontecimento pensado de fora. Pelo contrário, ele admite que a revolução de 1820 foi ‘completa’, ‘toda inspirada em o sentimento nacional’, e, como demonstra, na tendência que, na época, predominava na filosofia portuguesa’. Ainda mais: entende que o movimento de 1820 foi posteriormente desviado por acasos posteriores, que ‘desgraçaram o reino”. Daí, ainda segundo Pinharanda Gomes, “a consciência, patente na obra de Arriaga, de que há um abismo entre a revolução pensada e a revolução feita, entre a revolução que a aristocracia pensa e a revolução que, na sequência, a democracia faz” (p. 13).
Eis, em suma, o ponto de convergência final entre José de Arriaga e Pinharanda Gomes, que, como se sabe, tinham pontos de partida bem diversos: José de Arriaga inscreve-se perfeitamente na linhagem vencedora da Revolução Liberal de 1820; Pinharanda Gomes não tanto, ou não de todo. E, porém, este seu Prefácio é bem ilustrativo do verdadeiro espírito liberal que sempre o animou. Não tanto por “testemunhar o devido respeito ao pensamento do Autor [José de Arriaga]” (p. 15), mas por muito mais do que isso: por procurar compreendê-lo. Toda a obra de Pinharanda Gomes é, de resto, um excelente exemplo dessa incessante procura de compreensão de autores à partida muito distantes da sua matriz, sem com isso comprometer a sua matriz, o seu ponto de partida. E que é igualmente, a nosso ver, um dos traços mais distintivos da Tradição da Filosofia Portuguesa.
A esse respeito, partilhamos aqui, para encerrar, uma memória recente: em Junho do corrente ano, no Brasil, em Juiz de Fora, no âmbito do XIII Colóquio Antero de Quental, alguém se destacou pela negativa ao fazer, mais do que uma comunicação, um manifesto anti-marxista. Ora, nós que até na ocasião já nos tínhamos assumido como não marxistas, sentimo-nos na obrigação de contrariar esse manifesto, defendendo que o marxismo não poderia (ou, pelo menos, não deveria) ser contrariado naqueles termos. Julgamos, passe a presunção, que quer Pinharanda Gomes quer José de Arriaga, ambos igualmente não marxistas, teriam assumido exactamente a mesma posição se lá tivessem estado. Em abono do espírito liberal da Filosofia Portuguesa.

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