quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

António Sérgio, o (não) mestre de Agostinho da Silva


É recorrente considerar-se Agostinho da Silva como um dos mais notórios discípulos de António Sérgio. Essa é, porém, uma daquelas “ideias feitas” que, apesar de mil vezes repetida, está muito longe de corresponder à verdade, como aqui, de forma sucinta, verificaremos. Partiremos, para tal, de uma extensa entrevista concedida a Alfredo Campos Matos sobre António Sérgio (Agostinho da Silva e Vasco de Magalhães-Vilhena entrevistados sobre António Sérgio, Horizonte, 2007), onde Agostinho da Silva começa por recordar que conheceu Sérgio no início da década de trinta, em Paris, “para onde tinha ido com uma bolsa da Junta Nacional de Educação” (pp. 11-12), dando assim início a uma relação que foi realmente importante numa determinada fase do longo e sinuoso percurso de Agostinho da Silva – nós próprios, em vários textos, temos falado da fase “seareira” ou “sergiana” de Agostinho da Silva, que se estendeu até à sua partida para o Brasil, em meados da década seguinte, onde Agostinho vai iniciar uma fase realmente nova da sua vida e obra (ver, a esse respeito, o nosso livro: Perspectivas sobre Agostinho da Silva, Zéfiro, 2008).
Regressando a essa referida entrevista, Agostinho da Silva, para além de uma série de considerações mais de ordem pessoal – algumas delas cáusticas, como por exemplo: “A única coisa que ele me disse que havia no Brasil era calor, calor insuportável. Ele nunca percebeu o Brasil.” (p. 19) –, recorda depois as célebres tertúlias na casa de António Sérgio, que chegou a considerar ter sido a sua “segunda Universidade”: “Depois [da Faculdade de Letras do Porto], para mim, houve uma segunda Universidade, que foi a casa do António Sérgio aos sábados” (in Vida Conversável, segunda parte, inédita; in NOVA ÁGUIA, nº 17, 1º semestre de 2016, p. 244). À pergunta expressa sobre “a importância de António Sérgio para a cultura contemporânea”, a resposta de Agostinho da Silva é porém, uma vez mais, bem pouco laudatória, considerando-o, no essencial, como um pensador “ultrapassado”: “O que aconteceu foi que o Sérgio esteve muito mergulhado na cultura do seu tempo, e nos aspectos que tinha a cultura do seu tempo, para pular fora dele (…). O que eu digo é que o Sérgio foi inteiramente ultrapassado” (pp. 25-26).
Eis, em suma, o retrato que Agostinho da Silva nos dá de António Sérgio nesta extensa entrevista – para o atestar, atentemos ainda nesta passagem: “…havia uma intolerância enorme do Sérgio para quem era diferente” (p. 27) –, em consonância, de resto, com outras passagens da sua obra – a título de exemplo: “…Sérgio não ousou afrontar os problemas filosóficos mais profundos, as questões de dúvida. Preferia manter-se na certeza.”; “Mesmo como pedagogo, a sua atitude tendia a ser de grande arrogância intelectual.” [cf. Dispersos, ICALP, 1989, p. 55]; “…mas ele [Sérgio] não me ensinou o racionalismo: ensinou-me antes o irracionalismo, por reacção minha.” [cf. Francisco Palma Dias, “Agostinho da Silva, Bandeirante do Espírito”, in AA.VV., Agostinho [da Silva], Green Forest do Brasil Editora, 2000, p. 155]; “…quando examinamos o fracasso, pois houve fracasso das cooperativas de António Sérgio, descobrimos a razão ao verificar que ele foi sempre ver, como modelo de cooperativa, a cooperativa inglesa ou a cooperativa sueca (…). Veio, outra vez, uma fórmula estrangeira. António Sérgio teria sido um grande intelectual lá fora mas não o foi em Portugal, pois era um estran­geiro em Portugal” (in Conversas com Agostinho da Silva, entrevista de Victor Mendanha, Pergaminho, 1994, p. 43).
Nessa medida, ainda que indirectamente, Agostinho terá sido, em última instância, muito mais do que um “discípulo de Sérgio”, um “discípulo de Leonardo” – António Telmo considerou-o mesmo como “o último discípulo de Leonardo Coimbra” [cf. “Testemunho”, in Diário de Notícias, 4/4/1994]. Isto apesar do próprio Agostinho da Silva, na sua expressão algo jocosa, “nunca ter sido leonardesco” [cf. AA.VV., Agostinho [da Silva], ed. cit., p. 155] –, não obstante ter reconhecido a sua “largueza de espírito” [cf. Dispersos, ed. cit., p. 174]. Mais do que discípulo de Leonardo, Agostinho terá permanecido sempre, sobretudo, discípulo da Faculdade de Letras do Porto enquanto “escola de liberdade” [cf. ibid., p. 147]. Ao longo da vida, de resto, irá, reiteradamente, afirmar que essa “era uma Faculdade sem uma organização rígida e em que se dava muito mais atenção a quem elaborava perguntas do que a quem fornecia as respostas que vinham nos manuais” –, nunca esquecendo os seus professores, não só Leonardo Coimbra – “um boémio do pensamento (...), um homem capaz de atitudes que os catedráticos não tomam” – como, sobretudo, Teixeira Rego – “uma das pessoas mais inteligentes que conheci” (cf. Perspectivas sobre Agostinho da Silva, ed. cit., p. 62).

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