segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Portugal, um país que não honra a sua História


Sem surpresa, ficámos a saber (cf. Público, 10.09.2019) que o outrora anunciado “Museu das Descobertas” não terá verbas para ser concretizado: “os projectos ligados aos Descobrimentos ficaram praticamente sem as verbas que lhes estavam destinadas” (sic). Depois de todo o ruído que se gerou em torno desse Museu, em que avultaram, na opinião publicada, as vozes contra, esta era, com efeito, uma daquelas notícias que já estava escrita “nas estrelas”.
Se há tema em que há um (quase) infinito desfasamento entre a opinião publicada e a opinião pública, este é, decerto, um dos maiores. Se houvesse uma qualquer forma de consulta pública efectiva sobre a questão, não temos a menor dúvida de que isso se tornaria evidente aos olhos de todos.
Entretanto, a corrente que promove essa visão complexada sobre a nossa História pode festejar: mais depressa se criará um Museu da Escravatura do que um qualquer Museu das Descobertas. Como se, realmente, a questão da Escravatura fosse o alfa e o ómega de todo o processo da expansão marítima portuguesa. Como se, de facto, a Escravatura tivesse sido uma invenção dos portugueses. Nesta questão, como se sabe, os factos nada importam – bastam (e sobram) os preconceitos.
Parabéns, pois, às correntes mais radicais da “Gerigonça”, que, pelo menos neste caso, conseguiram por inteiro sobrepor-se à visão à partida mais moderada do Partido Socialista (que entretanto veio desmentir a notícia). E que ninguém, do outro lado do espectro político, ouse sequer balbuciar algum protesto. Quando estiveram no Governo, também nada fizeram para concretizar este projecto. Estão bem uns para os outros. Seja por convicção ou por mero oportunismo, para a cultura (que mais importa) nunca há verbas suficientes.
Dir-se-á que esta é uma mera questão simbólica e que o mais relevante para as pessoas em geral não passa, de todo, por aqui – como se antecipa pela projecção dos resultados das próximas Eleições Legislativas. Longe de nós desprezar as questões económicas – decerto, para as pessoas em geral o mais relevante é mesmo, compreensivelmente, o salário, a pensão, o subsídio, etc. Mas um país, para mais um país como Portugal, não pode ser gerido como uma mera empresa. As questões simbólicas e identitárias não podem ser por inteiro irrelevantes. Mesmo com as “contas (alegadamente) certas”, um país que não honra o seu passado não é um país digno.

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