quinta-feira, 25 de julho de 2019

Também no jornal Público: "O Brasil em brasa".



Aparentemente, nada mudou, no Brasil. Nos aeroportos, nas ruas, tudo parece estar como sempre. Não há qualquer “Estado Policial”, como alguns (ao longe) fantasmaticamente sugerem, nem sequer se vêem mais polícias nas ruas.
Nas conversas que vão para além do estado do tempo, percebe-se, porém, um clima peculiar, de extrema polarização – no Brasil em brasa de hoje, parece só haver, à partida, dois campos: o dos anti-comunistas e o dos anti-fascistas. Os primeiros acusam os segundos de quererem transformar o Brasil na Vanezuela de Maduro. Os segundos acusam os primeiros de quererem transformar o Brasil no Chile de Pinochet.
Entre estes dois pólos, parece haver apenas um deserto, um grande sertão, que foi, de resto, alimentado pelos dois extremos: Jair Bolsonaro foi eleito como a única verdadeira alternativa ao PT (Partidos dos Trabalhadores). O PT insistiu num candidato próprio (Fernando Haddad) para, claramente, afirmar a sua hegemonia sobre toda a oposição.
Este é um jogo já mil e umas vezes visto: durante o Estado Novo, Salazar era “a única alternativa ao comunismo” e o comunismo “a única alternativa ao Estado Novo”. Não que haja aqui algum paralelo. Não cremos de todo que na América Latina regressem as Ditaduras Militares, mesmo que Bolsonaro venha a sair e a ser substituído pelo seu Vice-Presidente, Hamilton Mourão, conforme o que muitos prefiguram: uns por desiderato, outros por resignação.
Não sabemos o que irá acontecer. Sabemos apenas que este clima de extrema polarização não indicia nada de bom. Não há país que não tenha várias tendências políticas, sendo que qualquer país avançará tanto mais quanto mais houver um diálogo entre essas várias tendências, por mais contrastantes que sejam. Infelizmente, no Brasil em brasa de hoje, não parece haver esse espaço de diálogo: parece ser tudo a preto e branco, qual samba maniqueísta, em que só há bons (apenas num lado) e maus (apenas no outro).
No regresso a Portugal, no aeroporto do Rio de Janeiro, vindos de Juiz de Fora, a cidade onde Bolsonaro foi esfaqueado na campanha eleitoral (o que terá sido decisivo para a sua eleição), lemos um livro sobre Martin Heidegger, que viveu também, na sua Alemanha natal, um dilema (ainda mais) absoluto: o comunismo ou o nazismo. Como se sabe, Heidegger escolheu o nazismo e ainda hoje, já muitos anos após a sua morte, a sua obra (provavelmente a obra filosófica mais importante do século XX na Europa) ficou refém dessa escolha, por mais que a obra sobreviva ao autor… Ouvimos a chamada para o nosso voo. Fechamos o livro, olhamos para a janela e cantarolamos apenas: “O Rio de Janeiro continua lindo…”.

Renato Epifânio
Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono

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