terça-feira, 9 de julho de 2019

Entre a Filosofia Portuguesa e a Filosofia Alemã*



Se houve um pensador que, no século XX, procurou, mais do que qualquer outro, afirmar a diferença qualitativa da filosofia portuguesa, esse pensador foi Álvaro Ribeiro.
Para isso, fez contrastar o mais possível a nossa filosofia com todas as outras filosofias, sobretudo com a filosofia alemã, denunciando a sua tão grande quanto nefasta influência – tão grande que, nas suas palavras, “a filosofia alemã, depois de Hegel, domina a cultura mundial”, tão nefasta porquanto, ainda nas suas palavras, “em nome da verdade antropológica, a filosofia alemã decaiu depois na negação da verdade cosmológica e da verdade teológica, no desespero do tecnicismo, do sociologismo e do ateísmo”.
Para reforçar ainda mais esse contraste, recorreu Álvaro Ribeiro à simetria simbólica que faz corresponder o povo português ao elemento “água” e o povo germânico ao elemento “terra” – simetria a que, refira-se, também José Marinho recorreu, designadamente ao caracterizar, de modo expresso, o alemão, ou “alamano”, como “homem da terra”, e os portugueses como “homens dos portos”.
Para além de Álvaro Ribeiro e de José Marinho, outros pensadores também nos caracterizaram desta forma.
Entre os diversos exemplos que poderíamos dar, atente-se nesta passagem de uma obra de José Enes (Linguagem e Ser): “País litoral, a nossa função histórica foi a de ser porto. Porto de saída, mas também de chegada. Extremamente marginais, não poderíamos deixar de ser um espaço de passagem, que é o sentido de porto e porta, para sair e para entrar. Por isso mesmo, não alcançámos a concentração criadora de uma cultura, original no conteúdo e nas formas. A nossa cultura resultou da deposição dos elementos importados e exportados. Nela se estratificam, interpenetram e integram, mediante a língua, as influências vindas, principalmente, do lado donde se partia para fora da Europa. A grande filosofia, a grande ciência e a grande técnica não encontraram em nós o seu berço. Mas, em contrapartida e por este mesmo facto, não tiveram origem em nós os grandes males do mundo nem o extremo perigo que hoje o ameaça e nos atinge também a nós.”.
Sobretudo na sua obra A Arte de Filosofar, enfatiza, Álvaro Ribeiro, essa diferença qualitativa da filosofia portuguesa – daí, a título de exemplo, estas suas palavras: “Meditando sobre a ambição dos povos germânicos e eslavos, que pretendem estabelecer e dominar o caminho continental que liga o extremo Ocidente com o Oriente extremo, saibamos ver a superioridade do caminho marítimo que devemos às tradições conservadas pelos navegadores portugueses.”; “A persistência do barco na literatura portuguesa é sinal de uma originalidade que em tudo se opõe, como a inversão das naves, à figura da catedral, característica de outras culturas mais presas à terra, ou à pedra.”; “Se o simbolismo da terra é inferior ao simbolismo da água, se o simbolismo pagão da agricultura é inferior ao simbolismo cristão da pescaria, se o simbolismo do túmulo é inferior ao simbolismo da nave, a navegação portuguesa, utilizando os elementos superiores da física, correspondia à tradição de mais fluído e subtil simbolismo. A Terra é uma nave, e as viagens em demanda do Oriente pelo Ocidente visaram a promessa cristã de reintegração do Homem e da Natureza no plano primitivo ou original.”.
Na esteira de Álvaro Ribeiro, outros pensadores radicalizaram ainda mais esse contraste entre o pensamento português e o alemão. Eis o caso, paradigmático, de Orlando Vitorino.
Num seu texto intitulado “Portugal e o Futuro”, começa por afirmar que “os dois grandes pensadores da nossa época” são Leonardo Coimbra e Heidegger – um “homem do centro da Europa, talvez centro da terra”, o outro “homem da periferia da Eurásia, homem da finisterra”. Como nos diz ainda, ambos denunciam “o império da técnica no vazio da existência”. Enquanto que, no entanto, Heidegger denuncia de forma alegadamente passiva esse estado de “desolação do mundo”, refugiando-se numa trágica esperança de que algum “Deus” nos venha salvar, Leonardo, ao invés, denuncia-o activamente, demonstrando “a necessária vitória do homem de sempre sobre o mundo desolado do império do igualitarismo e da tecnologia”. Nessa medida, conclui: “…o mundo é, hoje, dramaticamente, e será no futuro, talvez sem tragédia, o que forem a Alemanha e Portugal. Todo o futuro se decidirá no conflito entre o pensamento português e o pensamento alemão, entre Leonardo e Heidegger.”.

* Para o Colóquio “Orlando Vitorino: Obra e Pensamento” (17-18 de Outubro de 2019, Palácio da Independência): caso pretenda participar neste Colóquio, pode enviar-nos até final de Junho uma proposta de Comunicação, com título e resumo.

Sem comentários:

Enviar um comentário

CARO/A VISITANTE, CONTRIBUA NESTA DEMANDA. ACEITAREMOS TODOS OS COMENTÁRIOS, EXCEPTO
OS QUE EXCEDAM OS LIMITES DA CIVILIDADE.

ABRAÇO MIL.