No seu ensaio intitulado “Esboço histórico da
Filosofia em Portugal no século XIX”, publicado como prefácio aos Princípios Gerais da Filosofia, de Cunha
Seixas (Lisboa, Imprensa Lucas, 1897), Ferreira Deusdado começa por nos traçar
um panorama assaz sombrio, dizendo-nos: “Em regra, a actividade filosófica do
espírito português não tem cunho original, a sua acção limita-se à
receptividade dos sistemas estrangeiros. Quase todos os nossos livros
filosóficos propagam a ideia estranha divergindo apenas na forma de exposição
das doutrinas e em leves cambiantes.” Ainda assim, não deixou Ferreira Deusdado
de enaltecer a obra de alguns (poucos) autores – nomeadamente, a de Cunha
Seixas, o que é tanto mais de salientar porquanto, como escreveu José Marinho
na sua obra Verdade, Condição e Destino
no pensamento português contemporâneo (Porto, Lello, 1976), Cunha Seixas
foi, provavelmente, “o mais ignorado e desdenhado dos nossos filósofos
contemporâneos” (p. 133). Mesmo – acrescenta – “os mais atentos à vida
espiritual portuguesa, como Sampaio Bruno, os mais generosos como Leonardo
Coimbra, referiram-se-lhe com escasso ou sonegado apreço ou muito simplesmente
o ignoraram” (p. 5). José Marinho, ao invés, no capítulo que lhe dedica nessa
sua obra, chega a considerá-lo como “um dos mais dotados pensadores de Portugal
e, porventura, da Europa do sem tempo”.
Para além de Ferreira Deusdado, Marinho assinala apenas duas outras
excepções: Fidelino de Figueiredo e Álvaro Ribeiro. Este último, aliás, num
artigo publicado em 1959 (“Cunha Seixas e a Filosofia Portuguesa”), teceu mesmo
a Cunha Seixas um grande elogio: “Fiéis à teologia católica permaneceram alguns
pensadores portugueses que não deixaram obra filosófica digna de brilhar nas
condições culturais do século passado; mais interessante é a série dos
livre-pensadores que tentaram definir, em termos heterodoxos, as novas relações
da filosofia com a teologia; de entre estes é justo reconhecer, pelo seu
excepcional valor, José Maria da Cunha Seixas./ A obscuridade que envolveu, até
há poucos anos, o nome deste inditoso pensador, está explicada pela paixão
sectária dos positivistas, que o votaram a um desprezível esquecimento, e pela
maledicência impiedosa dos literatos tristes que ridicularizam os ensaios
poéticos do filósofo extravagante. É certo que os escritos de José Maria da
Cunha Seixas não primam pela austera beleza de estilo clássico nem pela
euritmia numerosa da frase opulenta, antes denotam a descuidada facilidade de
quem exprime em termos ingénuos um pensamento sincero que radica em perturbada
vida sentimental. Dotado de temperamento apostólico, missionário e místico, não
seguiu as vias da investigação penetrante e da especulação profética, preferiu
escrever um estilo de combate e propaganda. Mas o historiador da filosofia que
proceder ao exame dos livros elaborados por Cunha Seixas encontrará com
surpresa uma obra, notável pela
quantidade e pela qualidade (…)”.
Concordando
a respeito de Cunha Seixas, Ferreira Deusdado e José Marinho tiverem porém
percepções assaz diferentes sobre um outro filósofo: Amorim Viana. Enquanto Ferreira
Deusdado se limita a referir o seu livro Defesa
do Racionalismo ou a Análise da Fé – ainda que em termos elogiosos: “É um
exame dos princípios da crença, da revelação, da moral cristã e do dogma, feito
com originalidade e com agudeza lógica” –, José Marinho é bem mais superlativo,
considerando, ainda na sua obra Verdade,
Condição e Destino no pensamento português contemporâneo, que “é Amorim
Viana o pensador que procura pela primeira vez garantir a autonomia do
pensamento filosófico em Portugal” (p. 5) – ainda nas suas palavras: “A
situação trágica do filósofo, de que fala Hegel, do filósofo que segue o
difícil caminho da autonomia perante as potestades visíveis ou invisíveis da
religião ou da política, surge pela primeira vez em Portugal com Amorim Viana.”
(p. 11). É, aliás, por isso que José Marinho inicia esta sua obra por Amorim
Viana, dedicando-lhe, desde logo, o primeiro capítulo da primeira parte do
livro. Tendo sido este alegadamente “planeado e estruturado de início como um
estudo do significado e valor do pensamento português contemporâneo” (p. 5),
então Marinho só poderia “nele interpretar os diferentes pensadores e formas de
filosofar desde Amorim Viana”. Se Amorim Viana é, como pretende Marinho, “o
pensador que procura pela primeira vez garantir a autonomia do pensamento
filosófico em Portugal”, então foi ele o nosso primeiro filósofo, o nosso
primeiro verdadeiro filósofo.
Eis, com efeito, ainda nas
palavras do autor de Verdade, Condição e
Destino no pensamento português contemporâneo, “o modo como aparece este
pensador leibniziano, de formação matemática, forte racionalizador, pensador
claro”: como um “teólogo independente”, como um “filósofo imperativamente
sequioso de estabelecer os direitos da chamada teologia natural perante a
teologia revelada”, em suma, como aquele que, finalmente, pôs em causa “o
perigoso preconceito eclesiástico cultivado em Portugal nos séculos da
Contra-Reforma: teológico absurdo segundo o qual a religião é para todos os
homens, mas a teologia só para sacerdotes titulados” (pp. 13-14). Daí, em suma,
para José Marinho, toda a importância de Amorim Viana: foi ele quem,
alegadamente, libertou o pensamento português das amarras que o não deixavam
crescer. Amarras essas que, ressalve-se, não vinham apenas do lado da Igreja,
nem, ressalve-se ainda, afectavam apenas os nossos filósofos – ainda nas
palavras de Marinho: “O pensamento de Amorim Viana emerge naquela situação que
chamamos dúplice, empregando o termo sem sentido moral e pejorativo, situação
pela qual o filósofo português, como qualquer filósofo europeu, defronta nos
tempos modernos dois adversos extremos: o simplismo teologal de forma
eclesiástica, que confunde a excelsa verdade da religião com a exegese deste ou
daquele teólogo, quando não com os defeitos ou excessos da interpretação
própria; o simplismo laico segundo o qual a verdade do homem, do progresso, da
liberdade e da justiça, está de uma vez por todas garantida.” (p.11). Ou seja,
em suma: não é por denunciar o “simplismo teologal” que Amorim Viana cauciona o
“simplismo laico”. Bem pelo contrário.

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