Francisco da Gama Caeiro, falecido em
1994, teve um papel marcante em vários planos. Gostaríamos aqui de salientar o
seu papel na promoção de múltiplos estudos universitários sobre a tradição
filosófica portuguesa – assim ajudando a pôr fim a um absurdo diferendo entre a
Filosofia Portuguesa e a Universidade –, e, sobretudo, sem esquecer o seu papel
na criação do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira – a instituição que, há
mais de vinte anos, mais tem promovido o diálogo filosófico e cultural entre
Portugal, o Brasil e o restante espaço lusófono –, o seu papel na defesa
conceptual da ligação entre Filosofia, Língua, História, Geografia e Cultura.
De resto, Francisco da Gama Caeiro é o autor da melhor definição de Filosofia
que lemos até hoje: “a filosofia surge-nos, em
concreto, como expressão da vida espiritual duma Cultura”[1].
Para tal, iremos aqui, de forma
breve, reconstituir uma controvérsia, sobre a noção de “filosofia portuguesa”,
entre Francisco da Gama Caeiro e Manuel Antunes[2].
Este, num ensaio intitulado “Haverá filosofias nacionais?”, desenvolveu aquela
que foi até hoje, a nosso ver, a mais consistente argumentação contra o
conceito de “filosofia nacional” e, nessa medida, contra a noção de “filosofia
portuguesa”. Como tese, defendeu este nosso pensador que a filosofia, enquanto
“ciência”, ainda que “sui generis,
sem dúvida”, “do universal enquanto universal”, não pode ser “nacionalizada”,
sob pena de se negar a si própria – daí a sua lapidar conclusão: “se é nacional
não é filosofia e se é filosofia não é nacional”[3].
Para sustentar esta tese, procurou
desconstruir os principais argumentos que sustentam a tese contrária –
designadamente, o argumento da “situação espácio-temporal”, segundo o qual toda
a obra humana reflecte sempre, ainda que da forma mais refractária, a “situação
concreta” em que o homem vive, e o argumento da “língua”, que sustenta que,
sendo todo o idioma “uma filosofia inteira em potência e em germe”, o homem
acaba sempre por expressar uma “filosofia” quando se expressa num determinado
idioma. Assim, a respeito do primeiro, escreveu que “o homem que é filósofo,
precisamente enquanto filósofo, procurará pôr entre parêntesis as condições concretas espaciais para se erguer ao
universal”[4]. Já a
respeito do segundo, deu o exemplo “dos que, sendo de determinado país ou
determinado mundo, não utilizaram a língua desse país ou desse mundo”[5].
No volume de
“Homenagem a Manuel Antunes”, escreveu Francisco da Gama Caeiro um ensaio que
não só responde devidamente a estas objecções – que, de resto, relativiza, a
ponto de afirmar a “convicção de que, em rigor, os supostos teóricos que
legitimariam as filosofias nacionais, são admitidos pelo A., muito embora a
possibilidade da mesma seja refutada no aludido artigo”[6] –
como desenvolve uma das mais consistentes argumentações a favor do conceito de
“filosofia nacional” e, nessa medida, a favor da noção de “filosofia
portuguesa”. Nesse seu ensaio, intitulado “A Noção de Filosofia na Obra de
Manuel Antunes: em torno do problema das Filosofias Nacionais”[7],
equaciona Gama Caeiro este problema à luz de uma “dupla perspectiva, remetendo
uma para a velha aporia do Uno e do Múltiplo, tão velha como o próprio
filosofar – e outra, não menos fundamental, para a relação entre filosofia e
cultura”.
Assim, a
respeito da primeira, defendeu que a relação não se resolve “no plano de
recíproca exclusão, ou sequer do primado, de um termo relativamente a
outro”[8]. A
respeito da segunda, defendeu igualmente uma posição harmonizante, segundo a
qual de modo algum a Filosofia, para se afirmar, necessita de negar a cultura
no âmbito da qual brota. Pelo contrário, segundo a já aqui referida definição
de Filosofia de Francisco da Gama Caeiro, “a filosofia surge-nos, em concreto, como expressão da vida
espiritual duma Cultura”. E por isso ela será tanto mais “Filosofia” quanto
mais assumir essa sua “anterioridade constitutiva”[9]. Daí,
de resto, o desafio que, num seu outro texto, Francisco da Gama Caeiro lançou a
todos nós, portugueses, o “desafio da autonomia mental” – nas suas palavras:
“Povo culturalmente adulto, [o povo português] só conseguirá verdadeiramente
emancipar-se quando se libertar de duas inflexões esterilizadoras do seu
pensamento, opostas por um estranho jogo dialéctico: a da servidão alienígena e
a da apologética nacionalista.”[10].
Eis o “jogo
dialéctico” que José Marinho igualmente denunciou, ao ter-se expressamente
demarcado tanto dos cultores do “apressado conceito de cidadão do mundo e de
universalidade do pensamento” – contra os quais pertinentemente adverte que “a
cidadania mais ampla não se alcança sem trânsito pelas formas mais modestas”[11] –,
como, no extremo oposto, dos “cultores da filosofia paroquial que se julga
intérprete do universo”, que “batem palmas desde que se fale de filosofia
portuguesa”[12]. Eis, com efeito, igualmente
a nosso ver, o “jogo” que tem oposto aqueles que defendem a “filosofia
portuguesa” apenas pelo facto de ser – de se proclamar – “portuguesa” e aqueles
que, precisamente pela mesma razão, a negam. Por ser este, em grande medida, um
“jogo viciado”, recusamo-nos a entrar nele. Se nele entrássemos, iríamos
fatalmente alimentar o “círculo vicioso” que se tem gerado em torno da própria
existência da “filosofia portuguesa”.
Efectivamente,
tanto a posição daqueles que a negam pode ser justificada pela posição daqueles
que a afirmam, como o inverso, conforme, aliás, reconheceu o “insuspeito”
Eduardo Lourenço, ao ter considerado “o famigerado movimento da célebre
‘filosofia portuguesa’ (…) uma reacção, em boa parte justificada, contra o
pendor mimetista e o consequente descaso que ele implica de inatenção a nós
próprios”[13]. Na mesma direcção
escreveu, aliás, Marinho, a respeito do “nacionalismo” e do “patriotismo”: “…o
chamado patriotismo ou o nacionalismo, como hoje se diz com diverso conteúdo de
significação, não são uma coisa injustificada e sem profundas razões de ser./
Surgiram e exasperam-se nos tempos recentes, por íntima e dialéctica
necessidade, em oposição à tendência para considerar o homem em abstracto e
ordenar toda a vida do homem em relação a essa abstracção.”[14].
Foi, de resto, à luz desta perspectiva que Gama Caeiro situou “o processo que
legitima as filosofias nacionais”: “Se admitirmos que o homem é, de algum modo,
a sua circunstância – a circunstância
orgânica (a par de outras, a família,
a sociedade, etc.) é a Pátria ou a Nação.”[15].
Em grande medida, essa é igualmente a nossa perspectiva. Julgamos, com
efeito, que o homem não é, ou não é apenas, essa “pura abstracção”, mas um ser
concreto, universalmente concreto, um ser que, de resto, será tanto mais
universal quanto mais assumir essa sua concretude, a concretude da sua própria
circunstância. Dessa circunstância faz organicamente parte, como referiu Gama
Caeiro, a “pátria”, isso que, segundo
José Marinho, configura a nossa “fisionomia espiritual”[16].
Nessa medida, importa pois assumi-la, tanto mais porque, como escreveu
ainda Marinho, foi “para realizar o universal concreto e real [que] surgiram as
pátrias”[17]. Esta é, contudo, apenas
uma possibilidade, não, de modo algum, uma inevitabilidade, nem sequer, muito
menos, uma obrigação. Não se trata aqui, com efeito, de instituir um “serviço
filosófico obrigatório” de forma a garantir a existência de uma “filosofia
portuguesa”, ou melhor, diríamos hoje, de uma “filosofia lusófona”, extensiva a
todos aqueles que pensam, falam e escrevem na nossa língua comum. Esta existirá
apenas enquanto existir pelo menos uma pessoa que, de forma inteiramente livre,
se assuma na dupla condição de “filósofo” e de “lusófono”. Eis o que
continuará, decerto, a acontecer, assim sigamos o insigne exemplo destes nossos
Mestres.
[1] Cf. “A Noção de Filosofia na Obra de Manuel
Antunes”, in AA.VV., Ao Encontro da
Palavra: homenagem a Manuel Antunes, Lisboa, FLUL, 1986, p. 21.
[2] Não esquecendo outros autores: em particular,
José Marinho, dada a sua posição sobre esta temática, que problematizámos na
nossa dissertação de doutoramento Fundamentos
e Firmamentos do pensamento português contemporâneo – uma perspectiva a partir
da visão de José Marinho (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa,
2004). Cf., igualmente, o nosso estudo: Via
aberta: de Marinho a Pessoa, da Finisterra ao Oriente (Zéfiro, 2009).
[3] Cf. Do
Espírito do Tempo, Lisboa, Ática, 1960, p. 134.
[4] Cf. ibid., p. 137.
[5] Ibid., pp. 138-139.
[6] Cf. AA.VV., Ao
Encontro da Palavra…, ed. cit., p. 39. Tal “convicção” alicerça-se numa
leitura evolutiva da obra de Manuel Antunes, leitura essa que, aliás, o próprio
Manuel Antunes em grande medida autorizou, designadamente por via destas suas
palavras: “Ulterior reflexão conduziu o A. a admitir o Volkgeist.” [Do Espírito do
Tempo, ed. cit., pp. 131-132].
[7] Obviamente, poderíamos eleger outros textos que abordam a mesma temática –
em particular, um texto intitulado “O pensamento português nos próximos 25
anos” (in Dispersos, prefácio de Pedro
Calafate, organização de Maria de Lourdes Sirgado Ganho, Lisboa, IN-CM, 1999,
pp. 229-249), de que gostamos bastante. No entanto, o nosso intento foi
reconstituir aqui o seu diálogo com Manuel Antunes. Daí a nossa escolha.
[8] Cf. AA.VV., Ao
Encontro da Palavra…, ed. cit., p. 19.
[9] Cf. ibid.,
p. 22.
[10] “O Pensamento Português”, in AA.VV., Que Cultura em Portugal nos próximos 25
anos?, Lisboa, Verbo, 1984, p. 21.
[11] Cf. O
Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra e outros textos, “Obras de José
Marinho”, vol. IV, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001, p. 495. Por
isso escreveu ainda: “Ser cidadão do mundo, essa confiante aspiração dos
estóicos, está a caminho de ser uma terrível banalidade.” [Filosofia portuguesa e universalidade da filosofia e outros textos,
“Obras de José Marinho”, vol. VIII, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda,
2007, p. 48].
[12] Cf. ibid.,
p. 509.
[13] Cf. O
Labirinto da Saudade: psicanálise mítica do pensamento português, Lisboa,
D. Quixote, 1982 (2ª), p. 73.
[14] O
Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra e outros textos, “Obras de José
Marinho”, vol. IV, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001, p. 516.
[15] AA.VV., Ao
Encontro da Palavra…, ed. cit., p. 40.
[16] Cf., a título de exemplo, Estudos sobre o pensamento português contemporâneo, Lisboa,
Biblioteca Nacional, 1981, p. 19: “Os povos, como nascentes e manifestações
terrestres do espírito, têm iniludível fisionomia espiritual, embora esta se
configure de modo menos apreensível que o expressivo rosto dos homens
singulares.”.
[17] Cf. O
Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra e outros textos, ed. cit., p. 502.

Muito bem escrito, amigo Renato. Tiraste-me uma dúvida metafísica de cima com o teu ensaio, pois a mim custava-me que o meu Mestre Manuel Antunes, não aceitasse a existência de filosofias nacionais, o que aconteceu posteriormente, a tê-lo negado.
ResponderEliminarum abraço do
José Lança-Coelho
Amigo Renato
ResponderEliminarAqui está uma óptima análise sobre problema tão complexo. subscrevo inteiramente os teus argumentos, mesmo que, como sabes, não concorde com a existência de filosofias nacionais, seguindo Manuel Antunes um dos espíritos mais esclarecidos do século XX e também um visionário. Mas dizer que não há filosofias nacionais, não é o mesmo que eliminar um pensamento genuinamente nacional, ou neste caso, lusófono. Aí acompanho-te. há uma especificidade do pensamento lusófono que não é confundível com aquilo que aprendemos a designar de filosofia. Se a filosofia é um conhecimento (ou ciência) em relação à ciência também não dizemos que há uma ciência americana, francesa, portuguesa, inglesa...
Esta é uma questão a que teremos que ir voltando... e discutindo...
ab
artur